Maria Sílvia Rossi, PhD

Brasília, 10 de março de 2019

O Distrito Federal, sede da Capital brasileira, enfrentou uma grave crise hídrica em 2017-2018, de certa forma, anunciada desde antes de 2012, posto os indícios apontados por várias equipes técnicas [1]. Para melhor compreensão da escassez hídrica, precisamos compreender o contexto de Brasília. De fato, esta uma conformação curiosa, intensa e específica. É um território pequeno, com 5.802 Km2. Do ponto de vista humano, é um pólo de migração regional [2]. É uma das Unidades da Federação onde a segregação sócio-econômica é mais aguda, e se expressa de forma espacial [3]. Do ponto de vista ambiental, está localizada no Planalto Central [4], aonde nascem os principais rios do país. Esta condição de cabeceira de nascentes aponta imediatamente para a pequena disponibilidade hídrica. Aqui não há grandes rios tais como o Rio Amazonas, ou o rio São Francisco. Entretanto, estão aqui nascentes importantes que permitem que grandes rios nacionais existam. Brasília está, também, no coração do Cerrado [5], Bioma mais interno do país, com características próprias associadas a uma rica biodiversidade e a processos de recarga de aqüíferos e de nascentes ímpares.

A crise hídrica é mais do que uma crise isolada, ela aponta para problemas civilizatórios estruturais. A crise da maior megacidade brasileira, São Paulo, acontecida em 2014 [6, 7] levantou sérias dúvidas sobre as opções passadas e atuais acerca dos recursos naturais. O problema é muito maior e mais complexo que simplesmente reduzir o consumo de água. Trata-se de trabalhar em várias escalas de soluções ao mesmo tempo e de forma integrada. Desde a atuar objetivamente para reduzir os efeitos em curso do excesso de emissões de gases de efeito estufa que produzem as mudanças climáticas (escala global), alterar a forma de ocupação territorial (escalas intermediárias), compreendendo os limites ambientais e preservando os serviços ecossistêmicos de recarga de aquífero. Trata-se também de trabalhar soluções ao nível do lote e de nascentes, por exemplo (nível local).

As campanhas governamentais, infelizmente, pouco tratam de mudar a consciência mais profunda da sociedade e os padrões de relacionamento humano com seu espaço territorial e com os recursos naturais disponíveis. Estas campanhas tendem apenas a distribuir igualmente uma responsabilidade absolutamente desigual quanto à solução deste tipo de crise. Afinal o acesso e uso dos recursos naturais é assimétrico e depende diretamente do poder aquisitivo no Brasil, enquanto parâmetros internacionais estão focados no bem estar e dignidade humana. Assim é que a ONU recomenda o consumo diário de 110 litros de água por pessoa por dia (L/pessoa/dia) quantidade um suficiente para satisfazer as principais necessidades humanas. No Distrito Federal, em 2015, cidades como Estrutural e Fercal consumiam na faixa de 80 L/pessoa/dia; Itapoã e Recanto das Emas, cerca de 90 L/pessoa/dia e Brazlândia, Planaltina, Varjão, Samambaia, Sobradinho II e Ceilândia, de 100 a menos de 110 L/pessoa/dia, todos, abaixo do recomendado. Por outro lado, cidades como o Plano Piloto consumia cerca de 350 L/pessoa/dia e o Lago Sul, cerca de 460 L/pessoa/dia. Aqui, a disparidade de consumo acompanha o nível de renda, os mais ricos consomem uma quantidade diária per capita de água cerca de seis vezes maior em relação às menores faixas de renda [8]. E como o recurso natural “água” não está disponível de forma universal e uniforme nos territórios, inclusive por razões geológicas, este recurso compõe o rol de riquezas ambientais que são disputadas e apropriadas de forma desigual, segundo o poder aquisitivo. Tal intensidade e padrão de apropriação revelam uma deliberada ignorância civilizatória sobre os limites físico-bióticos ambientais, com a priorização do individual sobre o coletivo e do gozo imediato ou de curtíssimo prazo, em detrimento do bem estar futuro. O Ser Humano ainda quer acreditar no mito de que os recursos naturais são ilimitados. Quer acreditar também que, como “topo da cadeia evolutiva”, será capaz de resolver qualquer gargalo por meio da tecnologia e da engenharia atual. A cultura da hiperprodução, hiperconsumo e descarte predominam em nossa sociedade [9].

De várias maneiras, problemas similares já aconteceram na história humana. Em diversos momentos da História, o Ser Humano deixou de levar em conta os limites da Natureza quanto à oferta das condições e dos recursos naturais dos quais sua vida depende integralmente. A História nos apresenta alguns exemplos emblemáticos, dentre os quais a Civilização Maia talvez seja um dos mais extremo.

Os Maias foram uma das grandes Civilizações do mundo Antigo que tiveram maior longevidade. Esta aconteceu na América entre 317 d.C. e 1697 d.C., deixando grandes legados por toda a península de Yucatã, hoje México, El Salvador, Guatemala, Belize e Honduras [10]. Entre estes legados estão a arquitetura e a engenharia, ambas sofisticadas, além de um magnífico conhecimento de astronomia (calendário de 365 dias, previsões de eclipes, entre outros), a matemática (domínio do conceito de zero, entre outros), a escrita (poemas, crônicas e canções com função literário-religiosa) e a atividade médica e farmacêutica.

Figura 1 – Mapa da Civilização Maia e Calendário Maia de 365 dias

Fontes: (A) https://www.todoestudo.com.br/historia/os-maias, (B) : https://www.todoestudo.com.br/historia/os-maias;  (consulta em janeiro 2019)

A base econômica deste povo era a agricultura, particularmente a produção de milho. A extraordinária produtividade gerou excedentes de produção que possibilitaram a liberação de parte da população da atividade produtiva, para construção das grandes obras tais como reservatórios de água, pirâmides, cidades e templos. Algumas cidades tiveram grande destaque nesta Civilização, dentre as quais Chichen-Itzá, Mayapan, Uxmal, Tykal, Calakmul e Teotihuacan, cuja população variou de 50 a 250 mil habitantes [11]. A maioria da população era composta por camponeses e artesãos, obrigados a pagar tributos e trabalhar nas grandes obras, além de escravos para servir aos senhores. A união destas cidades aconteceu a partir do ano de 1004 com a criação da Confederação Maia. A partir de então, cidades e povoados se expandiram, nos séculos X e XI. Após este período, a cidade de Mayapan se consolidou como liderança em relação às demais cidades. Dada a predominância da sustentação militar, o período foi marcado por guerras e revoltas. Quatro séculos depois, esta cidade foi incendiada e as grandes cidades foram abandonadas devido às guerras. O período foi marcado por catástrofes naturais (terremotos) e humanas (guerras, epidemias, fome, declínio da agricultura, entre outros). Neste contexto de enfraquecimento, acontece a chegada dos invasores europeus,em 1559. Quarenta anos depois, a última cidade Maia, Tayasal, é conquistada e destruída.

Pesquisadores buscam entender as causas efetivas do declínio desta Civilização. Atualmente, assume-se que a existência de guerras e revoltas internas, a invasão estrangeira, os surtos de doenças, a dependência pela monocultura de milho podem não ser as únicas causas deste declínio civilizatório. A crescente degradação ambiental e a hipótese de mudanças climáticas assumiram maior importância entre as causas debatidas. Acumulam-se indícios de anomalias climáticas ao final do período Clássico [12], fortalecendo a hipótese de que intensas secas tiveram papel preponderante na queda desta civilização antiga. De fato, pesquisas recentes afirmam o papel essencial das variações climáticas no colapso desta grande civilização [13; 14; 15].

Assim como em Brasília, o clima variava intensamente devido à disponibilidade da água ao longo do ano. A paisagem exuberante dependia das intensas chuvas de verão, que variavam de 500 mm (costa setentrional) a 4 mil mm (no sul). A ausência de água superficial durante quatro ou cinco meses do ano demandou a construção de sistemas de armazenamento de água em grande escala. O inverno muito seco, de junho a setembro, apresentava redução em até 90% da umidade. Este contraste acontece devido à conhecida Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), região que circunda a Terra próximo ao Equador onde ocorre a convergência dos ventos para a determinação do clima tropical no planeta. Nesta região, a convergência de ventos alísios do nordeste e do sudeste produziam chuvas abundantes e nebulosidade. Sabe-se que mudanças sazonais nesta zona afetam intensamente as chuvas em regiões equatoriais, produzindo as estações úmidas e secas nos trópicos. Ademais, sabe-se que mudanças duradouras na ZCIT podem resultar em secas severas ou inundações nas áreas próximas [16].

Figura 2 – Posição média da Zona de Convergência Intertropical nos meses de julho (vermelho) e janeiro (azul)

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Zona_de_converg%C3%AAncia_intertropical (consulta em fevereiro 2019)

Diante desta condição climática, os Maias desenvolveram sofisticada engenharia hidrológica, possibilitando projetar estruturas para a coleta de água da chuva, sua canalização em canteiros e depressões naturais adaptadas para seu armazenamento, e impedindo sua infiltração no solo. O conjunto de reservatórios da cidade de Tikal, por exemplo, armazenava água potável para 10 mil habitantes por 18 meses [17]. Diversos reservatórios foram construídos em topo de montanhas para aproveitar a gravidade na distribuição da água pelos complexos sistemas de irrigação. O controle das reservas de água fornecia uma fonte centralizada de autoridade política para as elites dominantes.

Em que pese os avanços na engenharia, havia uma dependência final em relação às chuvas sazonais para reposição do nível dos reservatórios, uma vez que a água subterrânea encontrava-se inacessível na maioria dos domínios das cidades. De fato, segundo o Bispo de Yucatã, Diego de Landa: “A Natureza trabalhou de maneira tão diferente neste país no que diz respeito aos rios e nascentes, que em todo o resto do mundo eles correm sobre o solo, mas aqui eles fluem por passagens secretas subterrâneas” [15]. A História humana mostrou a importância das águas subterrâneas como fonte de água para uso humano. Os Maias exploraram o lençol freático nas várias colinas da região norte da península uma vez que, nesta região, os aquíferos eram mais acessíveis. Ao sul, com a elevação do relevo e o aumento da profundidade do lençol freático, a captação subterrânea era inviável devido à tecnologia disponível à época. Desta forma, as cidades e povoados localizados mais ao sul estavam totalmente dependentes das chuvas para suprir suas necessidades de água, estando, provavelmente, muito mais suscetíveis aos efeitos de uma seca prolongada que as cidades com acesso direto às fontes subterrâneas.

Os registros arqueológicos mostram um abandono crescente a partir das cidades ao sul, espalhando-se para o norte segundo um padrão regional entre os anos de 760 e 910 [15]. As evidências físicas em favor da hipótese de severas secas, proposta pelo arqueólogo Richardson B. Gill [15], advieram pelos estudos geológicos empreendidos por equipes da Universidade da Flórida [13]. As perfurações e medições no sedimento de lagos do Yucatã indicaram que o intervalo mais seco dos últimos sete mil anos coincidiu com o colapso da civilização Maia clássica, entre os anos 800 e 1000 de nossa Era. Se por um lado, as evidências climáticas estão dadas, por outro lado, discute-se um conjunto de fatores que levaram à queda da Civilização Maia: o crescimento demográfico, a operação da sociedade no limite dos recursos disponíveis, a degradação ambiental associada ao desmatamento e crescente erosão das encostas, o aumento das guerras e as estratégias humanas focadas no curto prazo.

Esta reflexão remete-nos à situação atual da Capital Federal e das demais metrópoles brasileiras. A História nos ensina que, em que pese a soberba humana, somos seres que dependem total e completamente dos recursos naturais para nossa sobrevivência. Sabemos acelerar e dar escala à extração de água, tratá-la e estocá-la, mas não sabemos produzi-la. Para isto, dependemos da Natureza, da sua integridade e da funcionalidade de sua infraestrutura ecológica bem como dos serviços ecossistêmicos dela derivados. A História já nos mostrou – e não poderia nos mostrar mais claramente – que Civilizações Humanas declinam e morrem [18], mas a Natureza e a Terra sobrevivem e continuam sem nós.

Neste século XXI, a água e a crise hídrica representam maravilhosas oportunidades para mudanças de foco e de raciocínio e, no fundo, de mudanças de paradigma, para a construção de alternativas resilientes, capazes de compor com a Natureza, aprendendo seu funcionamento e empoderando seus ciclos.

Em última instância, saibamos quem depende de quem: a Natureza não depende de nós.

Referências Bibliográficas:

  1. TCDF. 2013. Auditoria Operacional na Gestão de Recursos Hídricos no DF. Em: http://www.tc.df.gov.br/ice5/auditorias/TCDF_recursoshidricos.pdf
  2. CODEPLAN. 2013. Projeção Populacional do IBGE 2013-2030: Uma Breve Análise do Panorama no Distrito Federal. Em: http://www.codeplan.df.gov.br/wp-content/uploads/2013/10/PROJE%C3%87%C3%83O-POPULACIONAL-DF-2030.pdf
  3. ZEEDF, 2015. Caderno Técnico da Matriz SocioEconômica. Capítulo 1 – Diagnóstico: Dinâmicas Socioeconômicas do Território.  Em: http://www.zee.df.gov.br/wp-content/uploads/2018/05/ZEEDF_CT02_Matriz-Socioeconomica_01-Dinamicas-Socioeconomicas.pdf
  4. DF. 2019. Geografia do Distrito Federal. Em: http://www.df.gov.br/333/
  5. MMA. 2019. Bioma Cerrado. Em: http://www.mma.gov.br/biomas/cerrado.html.
  6. El País. 2014. Falta de água em São Paulo já Afeta Mais de 15,6 Milhões de Pessoas. Em: https://brasil.elpais.com/brasil/2014/10/20/politica/1413819621_097916.html (publicado em 20 de outubro de 2014).
  7. Sabesp. 2015. Crise Hídrica, Estratégias e Soluções da Sabesp para a Região Metropolitana de São Paulo. Em: http://site.sabesp.com.br/site/uploads/file/crisehidrica/chess_crise_hidrica.pdf
  8. Castro, K. B. 2018. Consumo de água do Distrito Federal por Região Administrativa no DF. Textos para Discussão / CODEPLAN. Em: http://www.codeplan.df.gov.br/wp-content/uploads/2018/02/TD-50-Consumo-de-%C3%81gua-do-Distrito-Federal-por-Regi%C3%A3o-Administrativa.pdf
  9. Caritas. 2017. A Água, Mãe da Vida, Não Pode Ser Privatizada ! Carta do Fórum de Mudanças Climáticas e Justiça Social e do Movimento de Educação de Base. Em: http://caritas.org.br/movimentos-sociais-divulgam-nota-e-mocao-sobre-crise-hidrica-e-luta-dos-atingidos/37697
  10. Khan Academy. Mayan Civilization. Em: https://www.khanacademy.org/humanities/world-history/ancient-medieval/civilizations-in-the-americas/v/mayans-and-teotihuacan (consultado em fevereiro 2018).
  11. Cornell University. 2011. The Importante of Anciant Maya Civilization. Em: http://www.cornell.edu/video/maya-civilization-2-importance-of-ancient-maya-civilization
  12. de Menocal, P.B. 2001. Cultural responses to climate change during the Late Holocene. Science, 292: 667-673.
  13. Haug,G.H.;  Günther, D.;  Peterson, L.C. ;  Sigman, D. M.; Hughen, K. A. e Aeschlimann, B. 2003. Climate and the collapse of Maya civilization. Science, 299: 1731-1735.
  14. Hodell, D. A., Curtis, J. H., M. Brenner, M. 1995. Possible role of climate in the collapse of Classic Maya civilization. Nature, 375: 391-394, 1995.
  15. Gill, R. B. 2000. The great Maya droughts: water, life, and death.  Ed. Universidade do Novo México.
  16. Nasa. 2019. The Intertropical Convergence Zone. Em: https://earthobservatory.nasa.gov/images/703/the-intertropical-convergence-zone.
  17. Carr, R.F. e Hazard, J.E. 1961. Tikal report  nº11: Map of the Ruins of Tikal, El Peten, Guatemala. Museu da Universidade da Pensilvânia.
  18. Diamond, J. 2006. Colapso – Como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. Editora Record.

    Agradecimentos especiais à Tainá B.S. Rossi pela revisão final do texto.