Prezado Willy,

Recebi sua mensagem há vários dias. Pede que faça um resumo da situação política brasileira em tempos da eleição de 2018. 

Governo Lula da Silva

Primeiro, é preciso compreender o caráter político dos governos do PT – Partido dos Trabalhadores. Luiz Inácio Lula da Silva governou o Brasil no período de entre 2003 e 2010. Dilma Rousseff exerceu a presidência entre 2011 e 2016. Os dois foram reeleitos. Dilma Rousseff não terminou o segundo mandato. Foi destituída por um golpe de Estado sob a cobertura do impeachment em 2016.

A plataforma política do PT, desde sua fundação, propunha para o Brasil uma reforma política radical, sem questionar o regime capitalista. Em 2002, às vésperas da eleição que aconteceu em outubro desse mesmo ano, Lula e o PT assinaram um acordo denominado “Uma carta ao povo brasileiro” em 2002, com a burguesia brasileira (elite industrial, comercial, mediática e, principalmente, a financeira) e internacional de que manteria os acordos assinados pelo governo anterior, de Fernando Henrique Cardoso. Assegurou que a política econômica do ex-presidente  continuaria em vigência, em suas linhas gerais. Para honrar o acordo, Lula e o PT se dispuseram a indicar para a presidência do Banco Central, Henrique Meireles que foi vice-presidente do Banco de Boston. Ele permaneceu nesse cargo durante os dois mandatos de Lula, isto é, oito anos. 

Com a posse em janeiro de 2003, Lula inicia o mandato com um arrocho salarial, política econômica herdada do presidente anterior, baseada no tripé: superávit primário (conseguir recursos para pagar a dívida pública); juros altos (manter o controle da inflação e atrair capitais estrangeiros); e,  câmbio flutuante (possibilitar ao câmbio flutuar livremente de acordo com os interesses capitalistas internacionais).

Nos primeiros anos de governo contou com o alto preço das commodities no mercado internacional. O Brasil era (e é!) grande exportador de produtos primários como a soja, as carnes, o milho, os minerais, etc. O maior comprador dessas commodities nesses anos foi a China, permitindo que o Brasil tivesse superávit a cada ano na balança comercial com o exterior.

Essa folga de recursos permitiu ao governo começar a implementação de sua política social, objeto da campanha eleitoral. Aumentou os recursos para o programa Bolsa Família que oferecia a cada família pobre uma pequena quantia em dinheiro. Iniciou o aumento do salário mínimo acima da inflação anual (salário mínimo atual é de 954,00 reais, o que equivale a 226 euros, em 03/11/2018). A valorização do salário mínimo durante os mandatos do PT aumentou em torno de 70% acima da inflação, o que foi um ganho importante para os trabalhadores, beneficiando os de menor poder aquisitivo. 

Ampliou o número de unidades das universidades e dos institutos federais públicos de educação, mas, ao mesmo tempo, criou o programa PRÓUNI, política de incentivo às instituições superiores de ensino privado através do FIES (Fundo de Financiamento Estudantil). Essa política beneficiou os grandes grupos econômicos privados de educação que recebem atualmente via Bolsa de Valores o aporte de capital estrangeiro. Mas, infelizmente, não se debruçou com o carinho necessário em melhorar radicalmente a qualidade da educação infantil, fundamental e média, destinada a maioria da população com menos recursos. 

O boom de exportações de commodities para a China, a melhoria do salário mínimo, o programa Bolsa Família e outros programas de caráter social e distributivo criaram as condições para que o governo Lula contasse menos com as exportações de commodities e mais com a dinamização do mercado interno. A população mais pobre melhorou sua condição econômica e social, a burguesia brasileira e internacional continuou recebendo polpudos recursos devido ao crescimento econômico do mercado interno. Os bancos, setor econômico dominante, continuou, a cada ano, a contar com altos lucros.

Nas eleições de 2002 o governo Lula foi sufragado majoritariamente pelas classes médias, por parte da elite e por setores dos trabalhadores organizados em sindicatos, associações de moradores, etc. Os mais pobres votaram na maioria em candidatos conservadores, tradição até aquele momento nas eleições anteriores. 

Nas eleições de 2006, (início do mandato em janeiro de 2007), Lula foi reeleito com os votos de parte da classe média, dos setores de trabalhadores organizados e, em pequena escala, das elites. Mas, quem definiu a vitória do candidato do PT foram os votos das populações mais pobres, beneficiadas pela dinamização do mercado interno, pelo aumento do salário mínimo e pela vigência de uma série de programas sociais. 

Nesse período, altos dirigentes do PT foram acusados de corrupção, recebendo penas de prisão de longa duração. É necessário lembrar que durante anos, o PT foi considerado o único partido ético nas disputas. Essa foi uma razão para que importantes setores da classe média não votassem mais em Lula e no PT. A opinião pública, em setores significativos  considerou que Lula e o partido foram contaminados pelas acusações de corrupção, o que redundou em processos e prisões. Essa pecha de corruptos foi carregada em todas as eleições que se seguiram, culminando com a deposição de Dilma e a prisão de Lula. Não contaram mais com os votos das classes médias na mesma proporção como em 2002.

A política externa de Lula foi um dos pontos altos de sua gestão de oito anos. Embora mantendo a proximidade com os Estados Unidos, mudou a política exterior do Brasil do eixo Sul-Norte para Sul-Sul, direcionada à América Latina, África e, principalmente à Ásia. Junto com a Rússia, Índia, China e África do Sul constituiu o BRICS. Foi a tentativa de diversificar o comércio brasileiro, fugido do exclusivismo do comércio do Norte. 

Mas é importante assinalar que, em nenhum momento, entrou em colisão com os países do Norte. Sempre realizou negócios com esses países. Com a França negociou a transferência de tecnologia na área militar, com a construção do primeiro navio militar movido à energia nuclear. Com a empresa Grippen da Suécia negociou a transferência de tecnologia para a construção de aviões de combate que seriam fabricados no Brasil. Esse acordo só foi concluído durante o governo Dilma Rousseff.

A crise capitalista de 2008, iniciada nos Estados Unidos, atingiu o Brasil, fazendo com que o governo Lula adotasse uma política anticíclica; aumentou a presença do Estado na economia a fim de diminuir o processo de desaceleração econômica. Para isso, contratou novas obras de infraestrutura com o objetivo de evitar o desemprego em massa. A crise atingiu os negócios com o exterior. A China diminuiu a importação. Os preços das commodities despencaram; países diminuíram suas compras do Brasil. 

Governo Dilma Rousseff

Com o fim do segundo mandato de Lula ocorreram as eleições presidenciais de outubro de 2010. Dilma Rousseff teve como candidato à vice-presidente Michel Temer, do PMDB. Ocorridas as eleições, a chapa Dilma Rousseff/Michel Temer saiu vitoriosa. Dilma Rousseff, indicada por Lula, nunca tinha participado de eleições anteriormente e era conhecida como pessoa dura e intransigentes em negociações. Até aquele momento tinha ocupado importantes cargos técnicos. Participou como Secretária de Finanças do governo do Rio Grande do Sul e, posteriormente, do governo, Lula como ministra da pasta de Minas e Energia, e, no final do governo, como Chefe da Casa Civil, provavelmente o mais importante cargo político do governo. O seu governo se inicia com a desaceleração da economia provocada pela crise mundial. A presidenta recém-eleita inicia seu primeiro mandato em janeiro de 2011.

No governo Lula o modelo econômico estava centrado, como vimos,  no mercado interno. Já no governo Dilma Rousseff o foco tinha como centro as exportações, privilegiando o mercado externo. Para conseguir esse intento negociou um acordo com o empresariado nacional e com as centrais sindicais.  

Essa política se iniciou com a política de arrocho salarial (cortes de gastos) em rubricas do Orçamento, inclusive nos investimentos públicos, essenciais para manter uma dinâmica maior da economia. Congelou os preços administrados: derivados de petróleo, as tarifas de energia elétrica não receberam aumento. Desonerações tributárias e subsídios, além de outras medidas, privando o Estado de recursos, foram utilizados para criar as condições para o avanço da indústria.

A política econômica de Dilma de ajuda à indústria fracassou. A sua dinamização era essencial para incentivar a exportação de produtos industriais. O crescimento econômico não aconteceu; a desaceleração econômica continuou; parte do dinheiro recebido pelos empresários devido aos incentivos, concessões, desonerações e subsídios foram utilizados para a compra de títulos do Tesouro nacional que gerava retornos seguros devido à existência de altos juros pagos pelo governo. Devido à crise econômica não havia recursos públicos para investir em obras fundamentais. 

Ela apostou as suas fichas na empresa privada. Acreditou que o empresariado investiria na indústria a fim de viabilizar o crescimento do país. Não foi o que aconteceu. Esqueceu que a iniciativa privada é induzida em um país como o nosso. Depende dos investimentos públicos dinamizarem a economia.

“De fato, a maior parte das desonerações fiscais concedidas parece ter servido como política de transferência de renda para os mais ricos, contribuindo também para deteriorar sobremaneira as contas públicas”, como afirma a economista Laura Carvalho no livro “Valsa brasileira. Do boom ao caos econômico” (São Paulo, Todavia, 2018, p. 74).

O itinerário do impeachment no Congresso Nacional

            No dia 02 de dezembro de 2015, Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, inicia o processo de julgamento de Dilma Rousseff. Após ser discutido e aprovado pela Câmara dos Deputados, o processo chega ao Senado no dia 18 de maio de 2016, ocasião em que a Presidente é afastada do cargo e o vice-presidente assume interinamente enquanto aguarda o final do processo. No dia 31 de agosto de 2016, o Senado aprova o impeachment da presidente Dilma Rousseff, assumindo definitivamente o vice-presidente da República, Michel Temer.

A força das operadoras do golpe de Estado

            Há mais de ano o vice-presidente tramava a destituição da presidente, mesmo enquanto exercia essa função.  Contou com três forças operacionais: as mídias conservadoras, o aparato policial-jurídico do Estado, principalmente via Força Tarefa Lava Jato e, por último, e não menos importante, o Congresso Nacional.

A mídia conservadora teve um papel importantíssimo em desestabilizar o governo Dilma Rousseff, Lula e o PT e, em segundo plano, as esquerdas. O objetivo era manipular a população com triplo sentido: criar as condições para destituir Dilma da presidência da República, desconstruir a aura do PT como partido ético e acusar o Lula como o maior corrupto do Brasil. A partir de 2013, ano do início de grandes manifestações populares e, principalmente após o golpe de Estado de 31 de agosto de 2016, a mídia conservadora ganhou a mente de milhões de pessoas das classes médias e da população pobre, parte delas votantes no PT nas eleições anteriores. O antipetismo e à acusação de corrupção de Lula, do PT e de outros personagens da direção se tornaram o mote principalmente da campanha conservadora.

Contou com a poderosa rede globo de TV, grupo privado de caráter laico, líder em audiência no Brasil e de outras redes comerciais, além da TV Record, pertencente a importante grupo evangélico – a Igreja Universal do Reino de Deus – comandada pelo bispo Edir Macedo, um dos personagens mais ricos do país e morador nos Estados Unidos. É necessário incluir também as rádios e jornais conservadores espalhados pelo Brasil, principalmente aqueles grupos instalados nas cidades de maior porte.  

O aparato policial-jurídico do Estado também teve importantíssimo papel na desestabilização do governo Dilma Rousseff e na construção do antipetismo e na desconstrução da imagem de Lula e do PT. Houve um conluio entre a mídia e setores do Ministério Público e do Judiciário, principalmente do Juiz Sérgio Moro para divulgar acusações a personagens políticos, principalmente do PT, antes da investigação estar completa. O que se viu foi certos juízes tornarem público o nome de personagens políticos através da mídia conservadora antes de estarem condenados. O objetivo era ganhar a opinião pública para viabilizar o antipetismo e o PT como campeões da corrupção. 

O bode expiatório foi Lula e o PT. Grande parte de sua cúpula foi atingida. Importantes personagens de outros partidos, igualmente acusados de corrupção, continuam soltos até hoje. As decisões do Judiciário, incluindo o Supremo Tribunal Federal – STF – foram coniventes e unilaterais, com o objetivo de afastar a centro-esquerda e a esquerda do governo.

Por último e não menos importante foi o papel do Congresso brasileiro, constituído pela Câmara dos Deputados com 513 parlamentares e pelo Senado com 81 parlamentares, ao qual coube a tarefa de formalizar a deposição. Com essa medida manteve-se a formalidade da lei, embora as razões da deposição da ex-presidente Dilma fossem baseadas em atos administrativos do governo federal que outros presidentes como o de Lula e o de Cardoso já haviam adotado, sem sofrerem nenhuma punição.

Quando grande parte da população já considerava Lula e o PT culpados devido às campanhas da mídia e da Lava Jato, coube ao Congresso a tarefa de conseguir maioria para o impeachment. Não esquecer, contudo, o papel importante da bancada religiosa fundamentalista, principalmente dos deputados evangélicos, na deposição de Dilma Rousseff e sua contribuição para a aprovação de pauta conservadora, o que, em muitos casos, remete o Brasil ao início do século XX, pelo menos.

A deposição da presidenta Dilma Rousseff foi uma obra de arte política da burguesia brasileira e do imperialismo, principalmente norte-americano. 

Governo Michel Temer

            O governo Temer, desde sua interinidade na presidência até assumi-la definitivamente, foi o grande faz–tudo da classe dominante nacional e internacional. Como vimos anteriormente, a própria deposição da ex-presidente Dilma teve as mãos de raposa desse personagem.

O intuito era aproveitar o tempo até o final do mandato (dezembro de 2018) para realizar a obra suja: desmantelar o mais rapidamente possível a frágil rede de proteção social conquistada ao longo de décadas pelos trabalhadores a fim de implementar as chamadas reformas solicitadas pela classe dominante com base no neoliberalismo. 

Uma das primeiras medidas foi aprovar no Congresso a lei dos 20 anos: sem dinheiro novo para saúde, educação e outros setores. Ela explicita que o aumento possível será apenas a inflação do ano anterior. Essa legislação impacta diretamente os mais pobres que dependem do serviço público. Assim, esses setores não contarão com investimento do Estado, por exemplo, na ampliação e melhoria das redes educacional e da saúde, para as próximas duas décadas. O objetivo principal dessa lei é contar com recursos para pagar juros da dívida pública brasileira e evitar que as classes populares tenham condições de disputar fatias de recursos das elites dominantes próximos anos. 

Ampliar a terceirização para as atividades-fim das empresas foi outra lei aprovada. Antes, a legislação permitia a terceirização apenas para as atividades-meio, como a área de serviços. Com essa lei, os empresários das empresas contratantes podem firmar acordos com outras empresas para realizar tarefas com salários menores, em torno de 25% do que recebem os que são diretamente contratados pelas empresas-mãe. 

Outras medidas foram adotadas como a flexibilização da contratação dos trabalhadores: mudança na legislação trabalhista a fim de favorecer o empresário nas disputas judiciais.

A lei da previdência social – menina dos olhos do empresariado – não foi aprovada porque a base do governo Temer rachou. Os parlamentares, mesmo conservadores, recearam aprovar uma lei que tinha a oposição de centrais sindicais e de outros movimentos de trabalhadores devido às eleições de outubro de 2018, que acabam de acontecer.

Os erros de Lula e do PT na crise

As causas da crise que assolaram o governo Dilma e o PT nos últimos anos, se iniciam no governo Lula. Ao assumir o governo, como já vimos anteriormente, o ex-presidente assume a política econômica do governo Cardoso baseada na austeridade, no corte de gastos e na privatização de empresas estatais, o que o amarra a uma teia política que não sai mais até o final do segundo mandato. 

Privilegia o consumo, mas não se ocupa da organização política da massa trabalhadora e dos mais pobres ; não dá atenção maior às reformas estruturantes na área pública: educação infantil e básica, na saúde e na segurança; os quadros políticos mais importantes da base são absorvidos pelo aparato estatal com salários elevados (em relação ao que ganhavam anteriormente), desprovendo sindicatos, centrais sindicais e associações populares de seus dirigentes, descuidando do trabalho de base; não foca o esforço do governo na reforma tributária que privilegia a alta classe média e os ricos em detrimento das classes médias e da população em geral; fica amarrado aos partidos, mesmo os fisiológicos, para obter maioria para aprovação no Congresso das pautas de governo. 

A desaceleração econômica prejudicou a ex-presidente Dilma. Mas, esse fato não justifica os erros na condução da política e da economia em seu governo, questões já abordadas anteriormente. Essas situações tornaram o governo frágil politicamente, abrindo espaço para o impeachment e para a grande manifestação de junho de 2013.

            Ao longo da crise, a cúpula do PT não compreendeu, tendo à frente seu presidente, o caráter político das manifestações que, de movimento de reivindicação por melhoria na educação, saúde, segurança, resvalou, à medida que o tempo passava, na corrupção e no antipetismo como alvos da tática conservadora levada avante pela manipulação da mídia e da Lava Jato. 

A origem social dos manifestantes foi mudando. De início, foram principalmente os estudantes e setores democráticos que reivindicavam passagem livre nos ônibus urbanos, além das pautas de mais recursos para a melhoria da educação, saúde pública, segurança, etc. Posteriormente, as classes médias, principalmente a alta classe média, de cor branca e com alto padrão econômico, ocuparam as ruas pedindo o fim do governo Dilma, a prisão de Lula e centrando a sua voz na corrupção e no antipetismo, além de bradar, com menos intensidade, pela volta dos militares.

Os setores democráticos, mas principalmente o PT como partido mais importante da esquerda, permaneceram presos ao formalismo da lei, não adotando medidas para sair da corda que estava sendo imposta pela burguesia. O PT não jogou seu peso, por exemplo, na realização das grandes greves previstas no período. Tombou sem glória no final do embate do impeachment da presidente Dilma, a prisão de Lula e a derrota política do PT. 

A campanha eleitoral do capitão Jair Bolsonaro

A campanha eleitoral se caracterizou, principalmente no segundo turno, pela enxurrada de fake news, via whatsApp, desencadeada pelos grupos de apoio de Jair Bolsonaro, com ataques aos nordestinos, aos LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros), às mulheres; à “petezada” (em referência aos seguidores do PT) e aos “vermelhos”. Durante a campanha, em várias ocasiões e regiões, apoiadores do candidato Fernando Haddad foram hostilizados, chegando à agressão física, inclusive com morte. A discussão da plataforma política do candidato Bolsonaro permaneceu em segundo lugar, prevalecendo os ataques ideológicos, homofóbicos e racistas. 

Tanto os partidos como a imprensa e o Tribunal Superior Eleitoral não estavam preparados para enfrentar o militar. Reagiram muito tarde, quase às vésperas das eleições, no que tange à utilização de fake news em massa. A Folha de São Paulo, jornal liberal da cidade de São Paulo, publicou reportagem que grandes empresários financiaram a divulgação de milhares de fake news disparados pelos apoiadores do candidato. Após a vitória, o militar afirmou que “esse jornal vai acabar”; o que significa que não receberia mais recursos para anúncios durante o seu governo. A Folha de São Paulo foi tachada de comunista por apoiadores do candidato vencedor. Foi uma avalanche de fake news que, acredito, determinaram o resultado final da eleição.

Só nos últimos dias de campanha, os 11 ministros do Supremo Tribunal Federal – STF – começaram a tratar de fatos devido à campanha ilegal e insidiosa do militar. Aprovaram por unanimidade que manifestações de alunos e professores no interior das instituições de ensino superior e das universidades públicas eram legítimas, desde que não caracterizassem campanha por nenhum dos dois candidatos. Os ministros decidiram também que lutar contra o fascismo e pela democracia não caracterizava campanha eleitoral. Ministros lembraram que o espaço universitário é um espaço de discussão, democrática, aberta e livre.

Essa decisão do STF atendia às reclamações da sociedade de que alguns juízes de primeira instância estavam enviando policiais para retirarem faixas e cartazes, mesmo não caracterizando campanha eleitoral do interior dos campi. Essas medidas demonstram claramente o posicionamento político desses juízes em beneficiar o candidato Bolsonaro.

A campanha eleitoral do professor Fernando Haddad

A campanha de Haddad, membro do Partido dos Trabalhadores, foi muito prejudicada devido ao fato de que contou com menos de um mês antes no primeiro turno para iniciar a campanha. Essa situação se deveu à tática de Lula e da cúpula PT em torná-lo candidato à presidente da República, mesmo estando preso e com uma condenação de mais de 12 anos em segunda instância. Quando o STF confirmou a impossibilidade de Lula ser candidato, o prazo de menos de um mês foi insuficiente para que Haddad pudesse recuperar votos dos eleitores indecisos. Mesmo assim, na última semana de campanha, recuperou significativo contingente de votos. 

É importante assinalar que o candidato Ciro Gomes (centro esquerda) estava melhor posicionado para vencer Jair Bolsonaro no segundo turno. Todas as sondagens eleitorais afirmavam que ganharia do capitão. Circulou na imprensa a informação que Lula propôs a vice-presidência para ele. Não aceitou. Chegou em terceiro lugar no final. Após as eleições, alguns partidos de centro esquerda e da esquerda criticaram veementemente a tática de Lula e da cúpula do PT em não propor o Ciro Gomes como candidato à presidência representando os setores mais democráticos e progressistas. Provavelmente sairia vencedor. Os murmúrios pós-eleição indicam as dificuldades em chegar a uma frente unificada.

Os resultados da eleição

Jair Bolsonaro foi vitorioso nas eleições do dia 28 de outubro de 2018. Será presidente do Brasil nos próximos quatro anos, iniciando seu mandato em primeiro de janeiro de 2019.

Recebeu 57,8 milhões de votos válidos (55,13%). Fernando Haddad recebeu 47 milhões (44,87%). Votos brancos e nulos totalizaram 9,6% e a abstenção, muito grande, foi de 21,2%. (Fonte: Jornal Folha de São Paulo de 29 de outubro de 2018). O total de eleitores cadastrados foi de 147,3 milhões; leitores que optaram pela abstenção: 31,3 milhões. O vencedor teve 39% dos votos válidos. Somando os votos de Haddad, os nulos e brancos e as abstenções chegamos a 61%., o que configura uma maioria, germes para uma possível oposição ao militar.

A distribuição de votos para a Presidência

            O Brasil se dividiu em relação aos votos. Jair Bolsonaro teve mais votos no Sul e Centro Oeste, regiões mais ricas e de cor branca. Fernando Haddad ganhou no Nordeste, a região mais pobre e com população majoritariamente de origem africana e indígena. O jornalista Kiko Llaneras, do El Pais, de 30 de outubro de 2018, traz uma excelente reportagem sobre a divisão regional dos votos entre os dois candidatos. Pode ser encontrado em >htps.//conversaafiada.com.br/política/Brasil-de-bolsonaro-e-mais-rico-e-branco< O texto está em português no site Conversaafiada.

A Constituição de 1988 e a resistência pela democracia e pelas liberdades.

            A Constituição de 1988 se tornou o único escudo que temos em defesa da democracia e das liberdades. Durante os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso como presidente da República, a Constituição sofreu mudanças significativas em vários pontos. O esforço foi para adaptá-la à existência de um capitalismo antipopular e submisso aos EUA e ao estrangeiro.  Importantes setores da direita brasileira a consideravam (e consideram) muito avançada para atender a uma pauta neoliberal. Afirmam: “o Orçamento brasileiro não cabe na Constituição”. A afirmação esconde basicamente a tentativa de eliminação de vários direitos da massa da população que constam da Carta Magna e também.

Nos dias seguintes à eleição, os setores democráticos e populares iniciaram conversações para a viabilização de uma frente política em defesa da democracia e das liberdades, e das conquistais sociais obtidas até hoje. Professores e alunos das universidades públicas e das instituições privadas iniciaram as articulações para viabilizar essa resistência. Intelectuais já se manifestaram contra o arbítrio. Nesse sentido, uma importante editora brasileira – Boitempo Editoral – tornou-se um dos centros de resistência ao orientar leituras sobre a situação brasileira, publicar livros sobre os mais variados assuntos, contribuindo para o avanço da luta.

Partido dos Trabalhadores (PT), Partido Democrático Brasileiro (PDT), Partido Socialista Brasileiro (PSB), Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) começaram se articular. Existem dificuldades. Embora concordem que a luta é democrática e pelas liberdades, as divergências começam para a constituição da Frente no terreno da estratégia e da tática. Além disso, há uma disputa entre PT (LuLa) e PDT (Ciro Gomes) para definir quem assume a liderança política dessa Frente. 

O que pensam dois intelectuais sobre o governo de Jair Bolsonaro e o futuro da agenda democrática.

André Singer, professor na Universidade de São Paulo, especialista nos governos do PT e articulista da Folha de São Paulo, faz considerações políticas sobre o futuro da democracia no Brasil. Em sua coluna publicada nesse jornal, no sábado, dia 03 de novembro de 2018, faz análises políticas importantes que me apresso a citar longos trechos.

Chama a atenção para o fato de que imprensa afirma que o presidente eleito vai respeitar a Constituição, já que não a respeitou no período eleitoral. Pergunta. “Por que, então, a vitória de Jair Bolsonaro, com 58 milhões de votos sobre 47 milhões de Fernando Haddad, me parece prenunciar um golpe contra a liberdade? Porque um projeto autoritário alcançou o governo com respaldo popular. E, do ponto de vista da hegemonia, a maioria das urnas dá mais poder aos antidemocratas”. 

Em que pesem as declarações de intelectuais, da imprensa e da posição do STF, vista anteriormente, André Singer afirma: “Ocorre que no jogo que se começará a jogar em 1º de janeiro de 2019, a força promete falar mais alto que a retórica”. Em outro trecho do artigo afirma: “Para completar, o capitão reformado entregou um superministério da Justiça para Sérgio Moro que teve a falta de juízo (passe o trocadilho) de aceitar”. E continua. “Com o gesto, Bolsonaro e Moro deixaram simultaneamente claro de que lado estava o Partido da Justiça e o que se deve esperar de matéria de perseguição político-judicial daqui a pouco”. 

André Singer conclui: “Bolsonaro aquece os aviões para o bombardeio das cidadelas democráticas. Depois da derrota de domingo, de onde vem a energia para erguer um dique e deter a onda autoritária? Seremos agora capazes de construir a frente democrática que brilhou pela ausência durante a eleição?”.

Maud Chirio , historiada francesa, especializada em direita brasileira, foi entrevistada pelo jornalista Lucas Neves, em Paris. A longa entrevista foi publicada na llustríssima, caderno dominical da Folha de São Paulo, no domingo passado, dia 4 de novembro de 2018. O título da entrevista: “Um fim para a nova República”.

A jornalista afirma no resumo da entrevista que ela “rejeita a ideia de que Bolsonaro vá moderar seu discurso ao chegar ao Planalto e se declara cética em relação ao equilíbrio entre Poderes no governo do Presidente eleito”.

Maud Chirio afirma: “Analistas não acreditam que Bolsonaro possa virar do avesso o conjunto de valores morais da Nova República. Há aí uma cegueira histórica”. Em outro trecho: “Para mim, no dia 3 de janeiro de 2019 (…) o MST e MTST serão declarados organizações terroristas. No começo de fevereiro, o PT vai ser interditado. Haverá um expurgo na administração pública, que já está em preparação. Só não vê quem não quer”.

Em outro ponto: (…) “o que está na Carta é contraditório com o que o resto do discurso preconiza. Veja bem, quero quer que ele vá respeitar a Constituição. Mas há muitos fatores que levam a pensar que o projeto de sociedade e poder que o impulsiona rejeitam a Constituição. 

“Não devemos nos fiar aos poucos acenos que ele deu à continuidade do regime. É preciso encarar de frente os outros 90% de sua retórica, suas redes, seus aliados, a produção intelectual destes”.

Para concluir, cito uma frase da historiadora que deixa, ela, como grande parte da esquerda e do centro esquerda, da intelectualidade progressista e de políticos da oposição brasileira de ouvidos abertos e de olhar atento.

“Sou pessimista, mas acredito nos poderes moderadores”.

                                               Brasília, 30 de novembro de 2018

                                                          Luiz Basílio Rossi