CARAPANÃ

Artigo comentado por LUIZ BASILIO ROSSI

CARAPANÃ (*) é o pseudônimo de um escritor. Ele aborda neste artigo o comportamento político dos neoconservadores – ou nova direita, para o autor – e mostra a diferença, hoje, no Brasil, com os conservadores ou liberais. Considera que o desempenho da esquerda entre nós, principalmente o Partido dos Trabalhadores, não conseguiu enfrentar e conter politicamente o avanço da nova direita. Diz mais, que a nova direita e os liberais brasileiros concordam que, o que os diferencia do presidente Bolsonaro, é sua atitude moralizante e não o liberalismo radical do ministro Paulo Guedes e nem o desmonte do Estado brasileiro. Nesse ponto estão de acordo, haja visto, o comportamento dos presidentes da Câmara e do Senado Federal (ambos do DEM) em aprovar em 2019 e no início de 2020 a pauta econômica proposta pelo presidente Bolsonaro, contra os direitos dos trabalhadores, com o apoio entusiástico da burguesia, isto é, dos grandes empresários brasileiros (de bancos e financeiras, de empresas industriais, comerciais e das mídias, além de dirigentes e parlamentares religiosos fundamentalistas) e, das multinacionais.

Luiz Basílio Rossi

O texto abaixo é uma análise do artigo de Carapanã, “A nova direita e a normalização do nazismo e do fascismo”, publicado no livro O ódio como política. A reinvenção das direitas no Brasil. Esther Solano Gallego (org.). (São Paulo, Boitempo, 2018,p. 33-39).

         O articulista afirma que os neoconservadores – a nova direita, para o autor – no limite podem se tornar defensores do fascismo e do nazismo. As pautas que defendem – contra homossexuais, negros, refugiados, emancipação feminina – podem descambar para posturas de violência sistemática. O próprio Bolsonaro, enquanto candidato, se utilizou fartamente de expressões e posições que podem sinalizar o fascismo como meta política.

          Os neoconservadores rompem com os pressupostos do liberalismo. Para Carapanã, questões como a “Declaração Universal dos Direitos Humanos, os direitos trabalhistas, todo conjunto de direitos da mulher que veio da revolução sexual, instituições políticas multilaterais em nível internacional e, também, o direito universal ao voto e à cidadania plena”, (p. 35) são os alvos prioritários desses neoconservadores.

O libertarianismo propõe que o mercado é tudo e o Estado não é nada.

         A origem dos neoconservadores se encontra no libertarianismo,  da Escola Austríaca. A luta contra o Estado de bem estar social é o seu alvo principal. O Estado não deve se ocupar mais do provimento de bens e serviços para a população. Essa tarefa deve ser deixada exclusivamente ao próprio mercado. Isso significa a remoção de todos os obstáculos para que as corporações empresariais possam atuar livremente sem os freios do Estado e da Sociedade.

O libertarianismo não questiona, pois, o liberalismo econômico. Manter a máquina de guerra, a repressão policial, o desrespeito aos cidadãos são objetivos fundamentais tanto dos liberais – ou conservadores – como dos neoconservadores. A diferença entre o libertarianismo e o liberalismo econômico é mais uma diferença de grau. Enquanto o primeiro concede ao mercado o direito exclusivo de conduzir a economia, com a existência de um Estado ultramínimo, o segundo propõe um Estado intervencionista a fim de controlar a radicalidade do mercado, oferecendo à população, principalmente às de menor poder aquisitivo, as condições mínimas de sobrevivência.

(p. 35 e 36).

 Não havia, pois, mais sentido para os neoconservadores atacar os liberais no terreno econômico. As duas posições abraçam o liberalismo econômico, embora com Bolsonaro a pauta econômica seja muito mais radical. O que os diferencia nessas eleições de 2018 é a pauta moralizante do presidente eleito e a utilização da violência sistemática como ferramenta política de Estado, pauta que roça o fascismo.

A esquerda assume “verniz liberal”

         A esquerda se apresenta nos anos 1990 com “verniz liberal”. Defende políticas sociais progressistas ao lado de políticas fiscais liberais ou conservadoras. É o período em que Clinton nos EUA e Blair no Reino Unido se apresentam como Terceira Via. As lutas fundamentais dos trabalhadores são secundarizadas. “Questões identitárias, por sua vez, tornaram-se cada vez menos pautadas em movimentos coletivos e cada vez mais focadas em discussões sobre subjetividade individual”, afirma o autor. A luta acontece no plano individual, não é mais coletiva. As reivindicações por aumento salarial, a batalha contra a austeridade fiscal, a melhoria do atendimento à saúde e à educação, perdem força. Prevalecem as políticas focadas no indivíduo. (p. 37).

O PT prioriza a política de focalização e não a universalização da educação e da saúde

         Na América Latina prevalecem as políticas redistributivas. No Brasil, o programa Bolsa família, o acesso ao crédito bancário são importantes medidas redistributivas implantadas pelos governos petistas. O consumo se torna o principal objetivo a alcançar. Lula afirma na época: “é preciso que cada pessoa coma três vezes ao dia”. As reformas estruturantes como a tributária, a melhoria radical do atendimento à saúde e à educação básica – infantil, fundamental e média – permanecem em segundo plano. Prevalece a política de focalização elaborada pelo Banco Mundial: concentram-se os recursos  apenas em determinado segmento da população, como o Bolsa família.  

A teoria da focalização combate a universalização da educação e da saúde. Afirma que é necessário priorizar os segmentos populacionais mais vulneráveis. Por trás dessa teoria se encontra o ideário liberal econômico que propõe que o mercado deve se ocupar de tudo no que tange à economia. Essa política é abraçada pelas nações do centro capitalista que durante os séculos XIX e XX universalizaram a educação e a saúde para toda a população. O que não aconteceu nunca no Brasil e que continua praticar uma política educacional e de saúde de baixa qualidade.

O papel da propaganda no período nazista

 A partir dos anos 1920, após a revolução soviética, Hitler se utilizou da expressão “bolchevismo cultural” para atacar as conquistas dos trabalhadores e o regime democrático alemão. Nas eleições de 1933, o partido nazista obtém 43,9% dos votos para o parlamento alemão, utilizando largamente o terror. Como não alcançou maioria para governar, conseguiu através de manobras políticas ser convidado para ser o primeiro ministro. Como governo, Hitler emprega em grande escala a violência junto com a propaganda para desmoralizar os possíveis críticos. Essa violência é contra os judeus, os socialistas, os comunistas, os liberais críticos, leva ao assassinato de milhares de pessoas, não incluindo aquelas mortas durante a guerra mundial de 1939-1945.

         Com o fim da guerra e, posteriormente, com a queda do regime soviético no final dos anos 1980, a guerra fria – a disputa entre a civilização ocidental e o comunismo – termina. Prevalece o liberalismo econômico em todo mundo.

A invenção do “marxismo cultural” 

         Os neoconservadores brasileiros se utilizam da política praticada pelo nazismo a fim de combater a esquerda, os progressistas, mas principalmente o PT. Os teóricos da nova direita “descobriram” Antonio Gramsci, teórico marxista morto na Itália em 1937. Construíram uma narrativa – o “marxismo cultural” – da iminência do perigo “comunista”. “Conseguiram, com imenso sucesso, vilanizar políticas que envolviam imigrantes e refugiados, homossexuais e minorias étnicas sob o signo de que tudo isso não passaria de uma conspiração `comunista` para erodir a `civilização ocidental` e, junto com ela, o capitalismo” (p. 37).

         Com as manifestações de 2013 no Brasil, a nova direita associa a narrativa do comunismo ao antipetismo. O PT e as forças da esquerda foram encurraladas; foram para a defensiva. O presidente eleito conseguiu, com a utilização de arsenal de mentiras contra os  adversários e a utilização em larga escala de fake news, ganhar as eleições de 2018.

         Os neoconservadores afirmam, citado pelo autor, que “Existe um complô arquitetado por marxistas para acabar com a cultura e a civilização ocidentais. Quando perceberam (os comunistas ou marxistas) que não conseguiriam fazer a revolução tomando os meios de produção, os comunistas passaram a usar estratégias culturais para derrubar o capitalismo”, baseadas na teoria gramsciana. (p. 36)

A nova direita no Brasil

         O presidente eleito contou com um grupo importante de apoiadores ríquíssimos no empresariado brasileiro, alguns com participação política como Flávio Rocha, dono das Lojas Riachuelo, que foi candidato a presidente da República, tendo abandonado o pleito antes das eleições;  ou simples apoiadores militantes como Luciano Hang, dono da Havan, loja de departamento localizada no sul do Brasil. Podemos citar também os proprietários da Tecnisa, da rede de restaurantes Coco Bambu, da loja de produtos esportivos Centauro, da Localiza, empresa de aluguel de veículos e de muitos outros que tiveram participação na campanha de Bolsonaro.

         No Fórum da Liberdade de abril de 2018, encontro de defensores das várias vertentes do liberalismo econômico, Flávio Rocha criticou a Justiça do Trabalho por ter investigado irregularidades em sua empresa de produção de roupas. Afirmou que essa fiscalização faz parte de uma “cultura perversa” que deve ser extirpada. (p. 37-38). Sentindo as vozes do empresariado, uma das primeiras medidas de Bolsonaro foi procurar “colocar freio” na citada Justiça por “beneficiar” os trabalhadores em detrimento dos empresários.

         Para finalizar seu artigo, Carapanã afirma: “Mais do que simplesmente anticomunista, a nova direita flerta com ideias do nazifascismo e, consciente ou inconscientemente, contribui para normalizá-las. Quando são criticados por esses aspectos se refugiam em questões de ´liberdade de expressão` e de uma suposta ´hegemonia da esquerda`. Por inépcia ou intenção fazem com que os piores pesadelos da humanidade voltem à pauta devidamente legitimados”.   (p. 39).

                                                              Brasília, março de 2019

(*) O livro afirma à p. 115, que “Carapanã é o pseudônimo usado por um anônimo, autor da página Eh Várzea. Atuante no Twitter e nos podcasts Viracasas, AntiCast e outros. (Itálico no original).