Luiz Basílio Rossi Professor Doutor pela PUC/São Paulo

Tenho observado a cena brasileira. Vejo e constato que os cristãos, com as exceções que a regra demanda não agem como cristãos. Agem com interesses concretos: ganhar dinheiro, adquirir status, ter poder.

A dinâmica humana determina o comportamento dos humanos. Não é, pois, a religião que define esse comportamento para a maioria das pessoas.

            Se ganho 1.000, quero ganhar 5.000, 10.000 por mês. Se tenho um carro um 1.0, almejo ter um 1.6 e, se a vida permitir, um Mercedes Benz.  Se sou chefe de seção de um supermercado, almejo a supervisão e, talvez daqui a algum tempo, dirigir o estabelecimento. Se sou um juiz, desejo ascender à condição de magistrado nos níveis mais altos e, chegar, talvez, ao Supremo Tribunal Federal. E se as benesses dos tempos políticos forem propícias ser um ministro de Estado.

            A ambição de melhorar de vida no plano econômico, social, cultural, político faz parte da própria condição humana. É algo positivo almejar o novo, avançar em sua carreira no supermercado, ter um carro 1.8 ou outro mais potente, formar-se como doutor, ser um magistrado, um ministro. Esse desejo das entranhas do ser humano é o que explica o progresso até hoje.  Não é milagre, é a luta diária para comer melhor, vestir de forma elegante, conduzir um veículo confortável, ser uma pessoa importante no mundo cultural, político, ou, simplesmente viver a vida modestamente, como deseja.

            As ambições humanas se desenvolvem, contudo, em contextos históricos que liberam e limitam ao mesmo tempo os desejos humanos. Não é possível conceber que todos os humanos – no caso, os cristãos – tenham as mesmas condições de progredir. Em muitos casos é a própria pessoa que está limitada por deficiências, doenças físicas e psicológicas.  A grande limitação, contudo, se dá no plano social, isto é, se dá na inserção da pessoa na classe social, na hierarquia social de um determinado país.

            A ascensão e os limites sociais, econômicos, políticos, culturais foram demonstrados pelas cientistas sociais Rosana Pinheiro-Machado e Luci Mury Scalco em pesquisa realizada com jovens da periferia de Porto Alegre. Era o período dos “rolezinhos” em shoppings no final de 2013 e no início de 2014. Os jovens desejosos de consumir devido à melhoria da condição econômica propiciada pelos governos petistas almejavam adquirir nos shoppings objetos de grife como um par de tênis. Desejavam contar com os mesmos objetos e produtos de beleza como fazem os jovens de poder aquisitivo maior. Ao entrar nos shoppings, contudo, os adolescentes eram reprimidos pelos vigilantes e eram classificados pelos olhares dos consumidores “de bem com a vida” como intrusos em lugar  tão “sagrado”: “esse espaço pertence ao meu grupo, às pessoas de  minha classe social, não é o lugar para vocês”.

            As pesquisadoras comentam:

“Os meninos que nós acompanhávamos nos shoppings centers viviam essa tensão: o ato de consumir conspicuamente e ostentar marcas operava como um espelho de um mundo que mantinha-se segregado, violento, racista e desigual. Isso ocorria porque, quanto mais eles usavam marcas para se afirmar, para ´entrar no shopping de cabeça erguida`, mais os olhos externos os classificavam como ´pobres`, ´favelados` ou´ bandidos`”. ( *) Em itálico no original, p. 55-56.

            Tenho constado esse comportamento anticristão na internet. O deputado Jean Wyllys, deputado federal reeleito pela terceira vez pelo PSOL, renunciou à sua condição de deputado e foi residir no exterior. Não porque quisesse, mas pela necessidade de preservar a sua vida e a de sua família, devido às ameaças de morte que tem recebido, por ser negro e por ser homossexual, por defender as pautas LGBTs, a diversidade social, a democracia durante os seus dois mandatos. A jornalista Eliane Brum, na edição de 1º de fevereiro de 2019, do jornal El País, da Espanha, citando o jornal  O Globo publica algumas ameaças que sofreu Jean Wyllys: “vou te matar com explosivos”; “já pensou em ver seus familiares estuprados e sem cabeça?” ; “vou quebrar seu pescoço”; “aquelas câmeras de segurança que você colocou não fazem diferença”; (…) “vamos seqüestrar sua mãe, estuprá-la, e vamos desmembrá-la em vários pedaços que vamos te enviar pelo Correio nos próximos meses. Matar você seria um presente, pois aliviaria a sua existência tão medíocre. Por isso, vamos pegar sua mãe, aí você vai sofrer”.

            Essas pessoas têm ódio nos olhos, ódio nas palavras, ódio na ação.

Como ficam as milhares de pessoas que votaram em Jean Wyllys como deputado federal do Rio de Janeiro? São milhares de pessoas que não terão representante na Câmara Federal nessa legislatura. O ódio prevalece sobre o bom senso. São atos contra a democracia, contra a civilização. É ódio anticristão. Prevalece o que há de mais nocivo no ser humano.

Outros exemplos não faltam no Brasil. Quando jovens da periferia de Porto Alegre desejaram entrar em shopping centers foram reprimidos pelos seguranças, pela polícia e pelos olhares de repulsa dos consumidores das classes médias de maior poder aquisitivo e dos ricos, como constataram as duas cientistas sociais. Quando os governos petistas implantaram as políticas de cota nas universidades públicas, famílias de classe média e de ricos afirmaram que os de baixo estavam ocupando suas vagas sem terem as condições educacionais para cursar essas instituições –  o “diploma” nessas universidades deixava de ser exclusivo devido à concorrência de estudantes pobres, negros, indígenas. Quando os mais pobres na década de 2000 compravam passagens de avião, essas mesmas classes médias e os ricos se indignaram por ser esse espaço até aí sem “mistura social”. Viajar de avião lhes propiciavam um status diferenciado na hierarquia das classes sociais brasileiras. Quando há algum tempo atrás pessoas ditas cristãs perseguiam e atacavam templos de origem afro sinalizavam claramente que a religião não “doma” a pessoa na maioria dos casos.

            No capitalismo brasileiro, de periferia, atrasado, desigual, racista e servo de países capitalistas avançados, esses limites impostos pela condição de classe social são mais violentos em comparação àqueles existentes em países do centro capitalista. Os limites aqui são mais brutais. Assim o desejo de consumir para as famílias mais pobres, por exemplo, é limitado pela baixa qualidade da educação e da saúde, pelo menor poder aquisitivo, pelas roupas mais simples que usa, pelas rugas do rosto, pela repressão policial. As famílias das classes médias, as da alta classe média e as dos ricos contam, contudo, com educação de qualidade, bom ou mesmo elevado nível econômico, vestem de forma mais sofisticada e não têm rugas no rosto e não sofrem repressão policial.

            O Congresso tem sido palco nos últimos anos de manifestações radicais anticristãs. Isso ocorre também nos legislativos estaduais e nas câmaras de vereadores. A bancada religiosa fundamentalista, composta de parlamentares evangélicos, os mais atuantes, mas também dos católicos e de outras confissões religiosas tem se esmerado em aprovar legislação nociva aos interesses brasileiros e aos valores cristãos. Pautas como a “escola sem partido”, o “cura gay” são expressões desse atraso, mas acobertados, na maioria das vezes, pelo apelo aos valores cristãos.

Eles têm proposto, e mesmo aprovado, com apoio de parlamentares conservadores, uma legislação que remete o Brasil ao passado, a cem anos atrás. Contribuem para aprovar também legislação que retira direitos dos trabalhadores como a reforma trabalhista, a da previdência social e a venda de empresas estratégicas como a Embraer, além do desmonte da Petrobrás o que beneficia os interesses externos.

            Os exemplos mostram que os cristãos sucumbem à condição da classe social a que estão inseridos; aos valores conservadores do país e do estrangeiro, do tempo histórico.  As classes médias e os ricos agem politicamente, em sua maioria, para defender os seus interesses, o que na prática vai contra os interesses das classes populares, dos mais pobres. Contribuem para manter os das classes sociais com menor poder aquisitivo em seus lugares sociais; como podem pagar uma escola de boa qualidade ou plano de saúde caro, não batalham politicamente para a melhoria econômica, social e cultural dos não-abonados; quando contribuem o fazem com a esmola, com a roupa usada, com a caridade que a sua igreja prega.

            Em sociedades como a nossa somente o Estado tem condições de tornar mais cristãs – mais civilizadas – as relações entre as diversas classes sociais. Garantir que as pessoas de menor poder aquisitivo, a maioria, possam contar com leis que lhes permitam ter acesso à educação e à saúde de alta qualidade; possam ascender econômica e socialmente na hierarquia social com adoção de medidas estatais que diminuam a pobreza. Contar com uma polícia que tenha bons salários e que conte com um setor de inteligência competente e elimine a repressão indiscriminada contra os mais pobres e negros. E desenvolva uma justiça mais justa, menos seletiva e menos conservadora. É fundamental, também, contar com um Estado laico, aberto a todos os credos religiosos e a todas as posições ideológicas. É o caminho para alcançarmos uma sociedade mais democrática e justa para os cristãos e para os outros também, mais cristã.  

(*) Fonte: Rosana Pinheiro-Machado e Lucia Mury Scalco. “Da esperança ao ódio: a juventude periférica bulsonarista. In: Esther Solano Gallego (org.), no livro O ódio como política. A reinvenção das direitas no Brasil”, São Paulo, Boitempo, 2018, p. 53-59.

                                                                                   Brasília, maio de 2019