Autoria: CAMILA ROCHA

Análise comentada: LUIZ ROSSI

Análise comentada por LUIZ ROSSI, do capítulo de autoria de CAMILA ROCHA, publicado no livro “O ódio como política. A reinvenção das direitas no Brasil“. São Paulo, Boitempo, 2018. p. 48-52.

Como explicar o sucesso das novas direitas no Brasil nas eleições de 2018?

         Existem fatores tanto nacionais como internacionais que explicam esse sucesso. Camila Rocha elenca alguns desses fatores. Considera que os recursos financeiros não foram fundamentais para a eleição de Jair Bolsonaro para a presidência da República. “(…) a criação de fortes identidades coletivas, dinâmicas emocionais que surgem a partir de interações e conflitos entre grupos políticos, mudanças nas estruturas de oportunidades políticas que criam momentos mais propícios para a ação de determinados grupos e, nos últimos anos, a habilidade no uso (e a própria lógica) das mídias sociais, fatores que considero terem sido cruciais para o boom das novas direitas no Brasil em meio ao ciclo de protestos pró-impeachment de Dilma Rousseff (2014-2016)”. (p. 48). (Em itálico no original).

         O Fórum da Liberdade, fundado em Porto Alegre em 1984, foi um instrumento importantíssimo na divulgação das teorias e das diretivas das novas direitas. Recebe anualmente, de forma regular, contribuições de participantes do Brasil e de estrangeiros, da Sociedade Mont Pelerin, sediada na Suíça e da Atlas Network, um think tank norte americano. (p. 49).

         As manifestações militantes das novas direitas se iniciaram no período final do primeiro e no início do segundo dos governos de Lula, período da crise do “mensalão”.  Blogs, sites, comunidades foram formas de organização utilizadas pelos militantes das novas direitas. A divulgação aconteceu por meio das redes sociais e do Facebook. A discussão centrou-se no papel que o mercado deveria ter na economia, na defesa dos valores cristãos, na análise da conjuntura nacional e internacional.

         Os primeiros movimentos das novas direitas nesse período foram incentivados por Olavo de Carvalho com o lançamento de livros. Em 1998 criou um blog, um site coletivo em 2002 e, posteriormente, um programa de rádio; todas as iniciativas aconteceram nos Estados Unidos, onde mora. Olavo de Carvalho era praticamente a única voz na defesa de uma pauta conservadora no final dos anos 1990 e na primeira década dos anos 2000. (p. 48).

         Camila Rocha afirma que no final da década de 1990 e no início dos anos 2000 (…) “grupos de profissionais liberais e estudantes universitários de classe média ultraliberais (isto é, entusiastas de uma defesa radical do liberalismo econômico em comparação aos neoliberais) passaram a se organizar dentro e fora da internet”. (p. 49). Esses grupos passaram a acompanhar as atividades do Fórum da Liberdade.  Fracassaram na tentativa de fundar um partido político. Frutificou, porém, a fundação de organizações civis como o Instituto Mises Brasil (2006), os Estudantes pela Liberdade (2012) (que deu origem ao MBL – Movimento Brasil Livre) e a Ordem Livre, embora essa última tenha desaparecido. Alguns empresários como Salim Mattar (grupo Localiza – aluguel de veículos) e a família Ling (grupo Évora) contribuíram para essas organizações. A despeito disso, a autora afirma que as contribuições nem sempre atendiam às necessidades desses grupos. (p. 49).

         As direitas começaram a crescer mais a partir da crise do “mensalão”, quando o PT foi acusado de corrupção. Jornalistas e comentadores políticos da grande imprensa como Merval Pereira, Reinaldo de Azevedo, Diogo Mainardi adotaram posições agressivas contra o governo. Com isso foi criado um clima de opinião mais favorável às manifestações. (Nota 6, p. 51).

         A partir de 2011, Dilma Rousseff, ainda na presidência da República, o ex-presidente Lula e o próprio Partido dos Trabalhadores tornaram-se o alvo prioritário da grande imprensa, da Lava Jato e das organizações de direita. As grandes manifestações de 2013 aumentaram os espaços de crítica. Essa situação tornou-se uma avalanche contra o governo, principalmente após a vitória de Dilma Rousseff para a presidência da República, em outubro de 2014. (p. 51).

Se nas primeiras manifestações prevaleceram as palavras de ordem de melhoria do transporte público, da educação, da segurança e da saúde comandadas por movimentos mais progressistas, a partir de 2014 vão adquirindo cada vez mais uma dimensão exclusivamente política, agressiva contra a presidente, o ex-presidente Lula e o PT, comandadas pelas classes médias sob a direção política da burguesia brasileira e internacional. A luta contra a corrupção e pelo impeachment se tornaram as principais palavras de ordem dos manifestantes. Essa avalanche de críticas e de movimentos de massa culminou no golpe de Estado contra a presidente Dilma, travestido de impeachment. (p. 51 e 52).

         As manifestações se tornaram massivas devido à crise, ao papel da imprensa e à atuação seletiva da Lava Jato. Em 15 de março de 2015 o MBL, o Vem prá rua e os Revoltados Online convocaram manifestação na Av. Paulista que reuniu milhares de manifestantes.

A partir desse momento até o impeachment de Dilma Rousseff em 31 de agosto de 2016, as manifestações se tornaram massivas.  Brandindo palavras de ordem pela melhoria da segurança pública, contra a corrupção e pelo impeachment da presidente Dilma, o alvo político prioritário foi o ex-presidente Lula e o PT.  O antipetismo se espalhou como pólvora fazendo a cabeça de milhões de pessoas das classes populares.

Camila Rocha afirma que o sucesso das manifestações comandadas pelas organizações de direita tem a ver, muito mais, com o trabalho militante, grande parte das vezes voluntário dos dirigentes e simpatizantes do que um aporte significativo de recursos. Ela conclui: “Não siga o dinheiro, siga a militância”. ( p. 52). Com o impeachment, as manifestações cessaram e Michel Temer assumiu o governo. Embora as medidas que tomou nos meses seguintes até sua substituição por Jair Bolsonaro no dia 1º de janeiro de 2019 fossem extremamente amargas (desmonte da legislação trabalhista) para as classes populares, não houve mais manifestações comandadas pelas classes médias sob a direção da burguesia.

Setembro 2019