MARIA JOSÉ DOS SANTOS ROSSI, PhD

Enfermeira, Doutora em Ciências Sociais / UNICAMP

Preocupada com as informações sobre a situação da mulher em geral e, em especial, no parto, um momento de vulnerabilidade da mulher, deparei-me com um artigo da jornalista Isabela de Oliveira, intitulado Horrores no parto, na seção Saúde do Correio Braziliense, do dia 16 de agosto de 2015.

Nesse artigo, a autora fala sobre a violência institucionalizada contra as mulheres nas maternidades do Brasil e do mundo. Ela também fala de uma pesquisa liderada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), com a participação de pesquisadores da Universidade de São Paulo. Nela, os autores da pesquisa discorrem sobre os tipos de agressão mais comuns contra as mulheres durante o parto em vários países do mundo. A OMS estabelece os seguintes tipos de violência contra as mulheres em trinta e quatro países de todos os continentes:

  1. violência física – com espancamentos, agressões, toques vaginais ásperos e repetidos: uso de força extrema e beliscões especialmente nas coxas;
  2. violência verbal – através de linguagem dura e/ou rude; comentários  com juízos de valor acusatório sobre as atividades sexuais, especialmente com adolescentes solteiras;
  3. estigma e discriminação – baseadas tanto em etnia como em religião: migrantes e refugiadas relataram atendimento particularmente desrespeitoso e/ou mais caro, quando pagos, além de pedidos de suborno. Essa discriminação referia-se a:
  4.  idade – adolescentes grávidas e solteiras disseram ser criticadas por manterem relações sexuais fora do casamento.  Jovens solteiras grávidas optaram, intimidadas, por terem seus bebês em casa. Mulheres grávidas mais velhas também relataram discriminação;
  5. condições sócio econômicas – mulheres mais pobres, analfabetas, moradoras de áreas rurais e favelas relataram negligência e atendimento de menor qualidade;
  6. condições médicas: no Quênia e na África do Sul, grávidas acreditam que o status de serem HIV positivas contribuiu para um atendimento de má qualidade, incluindo a demora para as intervenções essenciais.
  7. Não cumprimento de padrões de cuidados como:
  8. exames vaginais dolorosos e excessivos;
  9. recusa  por  parte dos profissionais de saúde de proporcionar alívio da dor ou a falta de anestésicos para os procedimentos cirúrgicos;
  10. falta de consentimento para os procedimentos como, por exemplo, o da cesariana;
  11. brechas de confidencialidade: mulheres soropositivas quenianas disseram preferir ter os bebês em casa para evitar a divulgação da sorologia a membros da família e da comunidade;
  12. negligencia, abandono e demora no atendimento, especialmente em partos não marcados com antecedência. Essa situação são mais comuns em Gana, na Bolívia e na Tanzânia.
  13.  Mau relacionamento:
  14. má comunicação e baixa qualidade das informações oferecidas sobre os cuidados no pós-parto, bem como barreiras de linguagem e diferenças de interpretação das informações prestadas quando são feitas;
  15. mães relataram que as práticas tradicionais, religiosas e culturais relacionadas ao parto foram negadas em Gana e no Reino Unido;
  16. pedidos irracionais foram feitos às mães imediatamente após o parto para limpar o chão e a cama de parte dos profissionais.

Diante desse desagradável e grave quadro, o coautor do estudo, o pesquisador da USP João Paulo Souza, afirma, de acordo com a autora do artigo, que:

 “Dados brasileiros sugerem que 25% das mulheres já sofreram algum tipo de violência obstétrica, o que a longo prazo, acarreta prejuízos para a auto estima, depressão pós parto e estresse pós traumático. Ao serem maltratadas, elas se afastam do sistema de saúde e isso é muito ruim porque quem se afasta é justamente a população mais vulnerável, a que está sob mais riscos e precisa mais. Apesar disso, é errado pensar que esse é um problema que atinge apenas os pobres. Outros dados brasileiros mostram que a classe média alta também é atingida tipo diferente de agressão: a realização de procedimentos sem consulta. As mulheres devem saber que são merecedoras de respeito e todos devemos fortalecer mecanismos de consulta e defesa como ouvidorias de hospitais e defensorias públicas.”

Estudos estão sendo feitos no Brasil por pesquisadores dessa área sobre esse tipo de violência que se apresenta tanto como violência física como simbólica. No momento atual também tem havido reações de especialistas da área de ginecologia ao uso do termo ‘Violência Obstétrica’, presente no artigo, sob a justificativa de que o que foi feito foi para o bem das mulheres e dos seus filhos.

Aracaju, março de 2020