Antonio Sérgio Borba Cangiano

O que acontece a partir das décadas de 1970/1980 que muda a face do capitalismo no mundo? A questão que se coloca hoje é, se tem sido produzida uma ideologia para sustentar uma política econômica, ou, se foi o início de implantação de uma práxis com fundamentos ontológicos supostamente naturalistas que prega  uma realidade natural?

Segundo Pierre Dardot e Chrisitan Laval em seu livro Nova Razão do Mundo, produz uma racionalidade cujas bases são: a mercantilização global e da vida, a concorrência, o modo de gestão empresarial que governa a todos, inclusive o Estado tornando-o empresa, e, além disso, é o Estado, que se prega mínimo que governa a conduta da humanidade e sua existência com normatividade empresarial, com tendências a desregulamentação, caracterizados por governos eleitos pela força neoliberal, e não governos legítimos do povo pelo povo. Essa normatividade produz uma prática, que submetem violentamente a razão de interesse ao trabalho (Kant, Crítica), que tem o medo da penúria e violência como leito, que age no sangue dos indivíduos produzindo sua conduta[1] e a conduta de sí. 

A base mercantilista naturalista que rege a racionalidade neoliberal, prega a natureza competitiva inata do homem, que transforma cada sujeito em empresa de sí, fazendo com que ele creia que seja co-proprietário da empresa em que trabalha,  ignora a fragilidade das relações trabalhistas precarizadas de hoje. Mesmo correndo o risco de demissão a qualquer momento, o que o torna mercadoria em toda e para toda a sua existência. Essa racionalidade é vendida pelas diversas mídias e práticas diárias, com os dados que fornecemos ao utilizar as redes sociais. Os neoliberais acreditam que a mercantilização universal possibilita que o dinheiro e o trabalho e sua mais valia se tornem fluxos abstratos que levam ao equilíbrio da sociedade, abrindo oportunidades e diminuindo a inequidade. Consideram que a liberdade da pessoa e do mercado, sem a intervenção do Estado, é a forma que permite a livre concorrência e o desenvolvimento das forças produtivas.

Como se a mercantilização universal que torna o dinheiro e o trabalho social e sua mais valia em fluxos abstratos, que levam ao equilíbrio da sociedade, abrindo oportunidades e diminuindo a inequidade, dado que a liberdade individual e do mercado sem intervenção do estado é a melhor forma de permitir a livre concorrência e o desenvolvimento  das forças produtivas.

O que constatamos, no entanto, é desemprego e aumento da iniquidade. As linhas vitais neoliberais promovem a racionalidade que faz com que a acumulação do capital seja cada vez mais ampliada, cujas consequências desastrosas são: a inequidade que aumenta, a insegurança pública que cresce, aumenta a ameaça de destruição do planeta e da vida, e destrói a democracia do bem estar social para colocar a democracia de negócios.

O histórico do capital tem-se transmudado e chega ao século XXI com crises globais que se auto alimentam (coronavirus, por exemplo), com o surgimento de afecções violentas sob a tutela da racionalidade neoliberal financista e de exceção que  explora ainda mais os medos e o dinheiro . O totalitarismo neoliberal global dominante não tem registro a não ser na história recente[1]. O discurso global é de que não há alternativas ao capitalismo, a não ser o crescimento econômico mundial, com estados mínimos, austeridade fiscal, e normatividade de exceção imposta pelo medo, mas a acumulação aumenta ilimitadamente.

As relações entre os indivíduos, que denominamos aqui de relações sociais, são regressivas no sentido de agravar os acontecimentos que levam ao colapso social, como a negação do diferente (do outro), a falta de trabalho, emprego e renda, a precarização do emprego formal e a ausência de vida digna para todos. A falsa liberdade de desejos consumistas fomentada pelos agenciamentos dos que dominam o mercado global e usam de várias tecnologias  como a inteligência artificial, a robótica, o bigdata e as redes sociais que usufruem privadamente de todos os acessos à rede mundial de computadores para desinformar e produzir falsas necessidades de consumo.

Essas tecnologias fomentam a desterritorialização do real que passa a se dar em planos virtuais gigantescos com a capacidade de processamento e armazenamento de informação quase infinitos. Elas possibilitam conhecer melhor cada um de nós, tão melhor do que nós mesmos, segundo Yuval Harariem em seu livro Sapiens. Nossos dados fornecidos massivamente a esse mercado passam a produzir desejos econômicos, políticos e consumistas que, em última instância, submetem a todos. O movimento global é pela ganância e hoje objetiva o lucro máximo, destacando a acumulação líquida que faz do dinheiro o Deus contemporâneo.

As tecnologias disruptivas afetam primeiramente o recurso de mais alto custo à produção, o trabalhador, sucateando o que deveria ser o mais importante, o trabalho humano. As mídias espetaculares com suas tecnologias de difusão, promovem o medo generalizado, que vai desde crimes diários até falências, desgovernos, crises, tragédias climáticas que geram insegurança e medos. As democracias não conseguem saídas que superem a economia e o direito privado neoliberais.

A racionalidade moderna está impregnada de mudanças do capital burguês que se desenvolve avassaladoramente e em velocidade nunca dantes observada, com a sobreposição do capital financeiro sobre o produtivo[2]. Enquanto permanecem crenças que herdamos do século XVIII, que insistem que os capitalistas são quem instalam fábricas e fornecem empregos, ao contrário o que se constata é a escassez de empregos. O fato é que a taxa de rendimento privado do capital e da produção têm sido menores que o rendimento do capital privado[3], portanto o rentismo as privatizações são mais atrativos do que investir em produção e geração de empregos.

As tecnologias disruptivas e a indústria 4.0 ameaçam ainda mais a geração de empregos ao reduzir vagas de trabalho remunerado e, portanto, reduz a renda do consumo que por sua vez diminui a renda do capital produtivo. O capital só é investido em produção onde a produtividade e o desempenho sejam maiores ou equivalentes em rapidez e em rentabilidade do que a renda financeira, ampliando a exploração sem freios do trabalho, pela sobra de mão de obra de reserva.

A privatização de bens públicos já instalados têm rentabilidade competitiva, onde a acumulação capitalista privada é acrescida pelas privatizações consentidas pelo Estado, legitimada pelo neoliberalismo. Isso coloca famílias e trabalhadores precarizados na reserva, com salários insuficientes e com vagas limitadas que as empresas definem e dominam. Assim com tanta negatividade quanto à vida de todos, não se consegue colocar em pauta outras formas de organização econômica. Uma esperança brota com o Papa Francisco que têm promovido uma nova economia, a Economia de Francisco, em bases solidárias.

O neoliberalismo legisla, desregulamenta onde necessário, e assim legitima a expropriação rentista por meio de fundos de investimentos “Equity” que compram poder, e apenas investem em produção ou privatizações, na medida em que a expectativa da ganância garanta renda maior que a financeira. A virtualidade dos meios eletrônicos fomenta investimentos em aplicativos que desenham a economia imaterial, digital, que exploram trabalhadores (hoje chamados empreendedores), sem a existência de patrões e mas submetidos a fundos patronais de investimento, como a UBER, por exemplo.

Há o colapso da potência humana de criação de alternativas e possível conquista de liberdade plena de escolhas colocando a humanidade no centro e na finalidade da economia, e que possa satisfazer a todos sem exceção. Não se visualiza hegemonicamente como formular outras linhas de ações.  A racionalidade neoliberal estrutura, organiza governos e governados, promove a generalização da concorrência como norma geral de vida, tendo o novo modelo de governo dos homens submetido ao princípio universal da concorrência. A ponto de colocar em risco o planeta e a vida. 

O governo neoliberal é considerado como atividade, como se fosse descolado das instituições e do Estado. Com a finalidade de conduzir os homens e que cada indivíduo conduza a sí, seus desejos, sua razão de interesse, que faz com que seu inconsciente trabalhe superando seu corpo e provocando as doenças modernas de “burn out”, depressão e suicídio. Outras formas de racionalidade fundada no direito comum são necessárias como o direito comum ao planeta, direito à água, ao sol, ao ar, às sementes, à terra para plantar. O século XXI está no início, tudo pode virar, a juventude sente na pele a desastrosa racionalidade neoliberal, e, nem os liberais ingleses (berço do liberalismo e do neoliberalismo, com Thatcher) suportam mais o neoliberalismo. Uma volta a Keynes já se mostra no horizonte. O direito comum já está em discussão em pautas ambientais e sociais e autores como Antonio Negri, e Hardt,, Pierre Dardot e Christian Laval, dentre outros, já escrevem sobre “O COMUM” direitos comuns. É preciso urgentemente mudar; a vida não espera acontecer, ela acontece, e é nessa imanência que devemos refletir uma outra vida possível.


[1] Pierre Dardot  Christian Laval A nova Razão do Mundo – Capitalismo do Seculo XXI

[2] Marilena Chauí – Palestra Youtube Dezembro de 2019 – https://youtu.be/XjXXucZ4534

[3] Edemilson Paraná – A Finança Digitalizada – pag 65 a 95 –“ A mundialização do Capital: Neoliberalismo e Regime de Acumulação com Dominância da Valorização Financeira”

[4] Thomas Piketty – O Capital no século XXI pag 555.

Brasília, março de 2020


Antonio Sergio Borba Cangiano está mestrando em Filosofia na UnB, é Mestre em Engenharia de Software, modalidade redes de computadores, Conselheiro certificado pelo IBGC, Bacharel em Economia e Ciências de Computação.