Flávio Henrique Calheiros Casimiro – publicado no livro O ódio como política. A Reinvenção das direitas no Brasil. São Paulo, Boitempo, 2018. (p.41-45).

Análise comentada por LUIZ BASILIO ROSSI – Maio de 2020

Para maior conhecimento do assunto discutido nesse artigo é importante reportar às analise já realizadas dos artigos de Carapanã e de Camila Rocha nesse site.

         O autor inicia o artigo anotando os alvos dos neoconservadores –  nova direita para o autor – no Brasil a partir da década de 1980. “O discurso de ódio sobre minorias, movimentos sociais e sindicatos, a perseguição a professores e à liberdade de cátedra, o ataque a concepções progressistas, o repúdio ao bem público e a exaltação exacerbada do mercado (são) algumas da manifestações dessa espécie de ´refluxo` reacionário” (p. 41).

         É importante assinalar que essas manifestações político-ideológicas da nova direita têm sido, ao longo do tempo, cada vez mais radicalizadas, culminando com a violência que se espraiou durante o ano de 2018, quando da campanha eleitoral para presidente da República.

As origens da nova direita

         A nova direita tem suas origens na Europa no período entre as duas grandes guerras mundiais – 1914-1918 e 1939-1945. Por iniciativa de Friedrich Hayek foi fundada em 10 de abril de 1947 na cidade de Chardonne, na Suíça, a Sociedade Mont Pélérin – Mont Pelerin Society, MPS. Participaram de sua criação, entre outros, Ludwig Von Mises, Maurice Allais, Walter Eucken, Milton Friedman. Inicialmente Hayek contou com apenas 38 participantes, mas foram os responsáveis pelo surgimento do neoliberalismo, movimento teórico e político que mudou completamente nos anos pós-segunda guerra o cenário político- ideológico mundial.

Propõem a primazia do mercado sobre o Estado, a liberdade sobre a igualdade. Deve ser deixado ao mercado a administração da economia; o Estado deve cuidar apenas da coleta de impostos e da segurança pública. O Estado não deve ter nenhuma preocupação com educação e saúde; o mercado atenderá essas necessidades através da livre iniciativa.

A crítica de Hayek e a concepção ultraliberal

John Maynard Keynes, o grande economista inglês do período pós-primeira guerra mundial, foi o teórico que repensou o funcionamento do capitalismo. Argumenta que o desenvolvimento capitalista, a partir da segunda metade do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, adquiriu tamanha força econômica que não era mais possível contar apenas com as ferramentas teóricas e políticas fornecidas pelo liberalismo de Adan Smith. Precisava do Estado para dar-lhe orientação e um sentido mais estratégico que permitisse ao capitalismo avançar de forma mais orgânica e com menos perda para a economia e para a sociedade. Para Keynes, o Estado devia intervir na economia, principalmente quando das grandes crises capitalistas. Nessas ocasiões quando a crise aumentava atingindo a população, aumentando o com desemprego, o Estado devia implantar programas para recrutamento de trabalhadores em obras como, por exemplo, para a construção de estradas.

Esse ideário se tornou majoritário a partir da segunda guerra mundial quando os governos da Europa Ocidental principalmente, desenvolveram o Estado do bem-estar social. Com essa iniciativa, o Estado podia administrar as relações entre capital e trabalho, criando as condições para o desenvolvimento. Os anos pós-guerra foram de grande desenvolvimento político, econômico e social na Europa.

A grande crítica de Hayek era de que o intervencionismo estatal se tornou extremamente danoso para o desenvolvimento do próprio capitalismo. Para ele e de outros teóricos do ultraliberalismo, Keynes estava redondamente enganado. Pregavam que era necessário voltar ao liberalismo clássico. O Estado devia deixar ao mercado a tarefa de organizar a economia. O papel do Estado devia se concentrar na arrecadação dos impostos e na segurança jurídica e policial do sistema.  A liberdade para negociar deviam ser sempre garantida, mesmo com o prejuízo da igualdade. A liberdade se desenvolve com o mercado funcionando livremente. A produção de riquezas seria alcançadas dessa forma.

A Universidade de Chicago e os chicago-boys

 Um pouco mais tarde, essa escola de pensamento se desenvolverá na Universidade de Chicago sob o comando de Milton Friedman, responsável pela formação e treinamento de estudantes latino-americanos, incluindo brasileiros, no ultraliberalismo, uma das dimensões do neoliberalismo.

O golpe de Estado no Chile contra Salvador Allende, em 1973 foi uma das primeiras experiências de ultraliberalismo no mundo, culminando com o assassinato de milhares de pessoas pelo governo do general Pinochet. Na ocasião Milton Friedman visitou o Chile e se congratulou com as medidas de política econômica que estavam sendo implantadas pelos “chicago-boys”, os profissionais chilenos formados na Universidade de Chicago.

O presidente dos Estados Unidos e a primeira ministra Margareth Thatcher, na Inglaterra, foram os governantes de países com capitalismo avançado que implantaram pela primeira vez políticas neoliberais que se espalharam pelo mundo nos anos seguintes.

O governo do presidente Bolsonaro conta com colaboradores que passaram pela Universidade de Chicago, entre eles. Paulo Guedes, o poderoso ministro da Economia. Ele tem pregado uma política de privatização radical, uma reforma da previdência que beneficiará fortemente os empresários em detrimento de setores de classe média e da população de menor poder aquisitivo.

As características da nova direita brasileira

         O “processo de reorganização das classes dominantes (…) lança suas raízes em meados dos anos 1980 e que tem uma de suas manifestações, entre várias outras, o surgimento de um novo modus operandi de ação política-ideológica. Essa representação política não partidária dos segmentos da direita liberal conservadora, atualizada, militante e, muitas vezes, truculenta, configura-se, portanto, como aparelhos privados de hegemonia, cuja ação foi ganhando amplitude e intensidade, assim como foi radicalizando o seu discurso ao longo do tempo” afirma Flávio Henrique Calheiros Casimiro. (p.41- 42). A nova direita brasileira ganha amplitude, intensidade e radicalização com o passar dos anos.

Fundação do Fórum da liberdade

         Em 1984 foi fundado o Fórum da Liberdade em Porto Alegre por iniciativa do IEE – Instituto de Estudos Empresariais e do IL – Instituto Liberal.

         O Fórum da Liberdade, importantíssima ferramenta político-ideológica, funciona até os dias atuais e tem como objetivo a difusão do pensamento neoconservador e tem sido importante no incentivo e na organização de eventos ligados da nova direita. Anualmente se reúne  em Porto Alegre, com participantes brasileiros e estrangeiros. “Hoje, pode-se dizer que o Fórum tornou-se a grande vitrine de apresentação pública de diversos aparelhos ideológicos”, da direita brasileira. (p. 42).

O IEE surgiu em Porto Alegre em 1984 e o IL em 1983 no Rio de Janeiro, atrelado ao IEA – Institut of Economics Affairs, em Londres, entidade criada por sugestão de Friedrich Hayek. Frações da burguesia do Rio de Janeiro, profissionais da Fundação Getúlio Vargas sob orientação da Escola de Chicago e intelectuais participaram da fundação do Instituto Liberal. O IL era “um aparelho de difusão do liberalismo econômico em sua atuação no Brasil” (p. 42).

Aparelhos fundados nos anos 1990 e no início da década de 2000

         IA = Instituto Atlântico. Fundado em 1983, com sede em São Paulo e no Rio de Janeiro.

IEDI = Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial. Fundado em São Paulo em 1989.

         GIFE = Grupo de Instituto, Fundações e Empresas. São Paulo no início dos anos 1990.

         ETHOS = Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social. Fundado em São Paulo no início dos anos 1990

         LIDE = Grupo de Líderes Empresariais. Fundado em São Paulo em 2003.

         IMIL = Instituto Millenium. Lançado no XIX Fórum da Liberdade em Porto Alegre em 2006

         MBC = Movimento Brasil Competitivo. Fundado no Rio de Janeiro em 2004.

         São aparelhos político-ideológicos que buscam os consensos que permitem a atuação com mais organicidade e possibilitam uma atuação  mais efetiva. Reúnem grandes grupos econômicos brasileiros e multinacionais com projetos de longo prazo, centrados nos discursos pró-mercado. Se preocupam com o “projeto de nação” e para alcançar esses objetivos participam ativamente da estrutura estatal.

         A LIDE tem como mentor o empresário João Dória Jr eleito para a Prefeitura de São Paulo e em 2018 eleito governador do Estado de São Paulo, como membro do PSDB. É um aparelho fechado, “um clube dos milionários”. O empresário para participar necessita ter um faturamento mínimo de 200 milhões de reais no ano, dado de 2015. A LIDE tem uma atuação importantíssima na viabilização de candidaturas de empresários. Levanta recursos para que esses empresários se elejam como parlamentares ou executivos dos governos municipais e estaduais e federais.

         O empresário Jorge Gerdau Johannpeter é um dos grandes dirigentes da burguesia brasileira. Além do Movimento Brasil competitivo participa também do Instituto Atlântico, do Instituto de Estudos Empresariais, do Grupo de Lìderes Empresariais e do Instituto Millenium. Para o autor “trata-se de um verdadeiro intelectual orgânico da burguesia brasileira”. (p. 43)

         O Movimento Brasil Competitivo é uma importantíssima articulação da burguesia brasileira reunindo empresários e dirigentes políticos atuando na própria estrutura do Estado brasileiro. Membros de quatro ministérios indicados pela Casa Civil fazem parte da direção do MBC.

         As principais pautas do MBC, segundo o autor, propõem a “redução do Estado com vistas a torná-lo mais `enxuto` e ´eficiente`. “Busca não somente ´educar` ou ´formar` a burguesia para o consenso intraclasse, a partir de sua plataforma de eficiência e competitividade, mas igualmente difundir e instrumentalizar, na aparelhagem estatal seu modelo privado de gestão como proposta ´modernizadora`”. (p. 43).

A nova direita brasileira ganha mais dimensão e radicalidade na segunda década do ano 2000

         Nos últimos 10 anos a nova direita deixa o “constrangimento” e assume com clareza um discurso liberal conservador, moralizante, mais belicoso, de ódio, muitas vezes violento para alcançar seus objetivos. Utiliza-se fartamente dos fake news e de narrativas revisionistas.

         Os novos meios de comunicação digital e as redes sociais são instrumentos que a nova direita emprega com desenvoltura. Os partidos tradicionais, incluindo o PT, acostumados a usar o horário televisivo permitido pela legislação, não compreenderam, a não ser muito tarde, durante a campanha eleitoral, o papel avassalador desses novos instrumentos. O próprio Tribunal Superior Eleitoral não tomou medidas imediatas para coibir a difusão massiva de fake news comandada pelo candidato Jair Bolsonaro. Parte importante dessas mensagens eram falsas e exprimiam um conteúdo de ódio; foram fundamentais para a eleição do candidato da extrema direita. Reportagem do jornal a Folha de São Paulo de 18 de junho de 2019, mostrou que a difusão em grande escala desses fake news foram financiadas por grandes empresários. Por que o TSE não coibiu essas mensagens? Por razões políticas?

Aparelhos privados da extrema direita fundados nos últimos 10 anos

         IMIL = Instituto Millenium. Lançado no XIX Fórum da Liberdade em Porto Alegre em 2006.

         “Com um discurso de glorificação do mercado como espaço de realização humana, rapidamente conquistou uma forte capilaridade entre os circuitos liberais no Brasil”, afirma o autor. (p. 44).

         Membros do IMIL: Pedro Bial (Tv Globo); Rodrigo Constantino (colunista da revista Veja, do jornal O Globo e do Valor Econômico); Antonio Carlos Pereira (editor do jornal O Estado de São Paulo); Luiz Eduardo Vasconcelos (diretor da Rede Globo); Giancarlo Civita (

 Grupo Abril); João Roberto Marinho (Organizações Globo).

         O autor afirma que muitos desses jornalistas estão ligados à universidades, além de possuírem vínculos importantes com outros meios de comunicação no Brasil. (p. 44).

         IMB = Instituto Mises do Brasil. Fundado em 2010. Aliado do Instituto Atlântico e do Instituto Millenium.

         Afirma Flávio Henrique Calheiros Casimiro: “O IMB representa as frações mais ortodoxas, tendo como referência a doutrina neoliberal austríaca, principalmente o libertarianismo, inaugurado por Murray Rothbard. Buscam reforçar o desprezo por tudo aquilo que é público, e consequentemente, supervalorizar a economia de mercado como condição necessária para o exercício pleno da liberdade entre os indivíduos consumidores. Trata-se de um aparelho privado de cepa fundamentalista do mercado e do conservadorismo cultural. Estabelece concepções moralistas, tentando legitimar a ideologia mais elitista, mesquinha e preconceituosa, de caráter protofascista, sob o signo de ´ciência`, buscando uma ´aparência de crítica social`”. (p.44).

         EPL = Estudantes pela liberdade. Lançado no Fórum da Liberdade em 2012. O seu objetivo principal é atingir um público jovem e universitário.

         Fundadores. Fábio Ostermann (dirigente do Instituto Liberal, do Instituto Liberdade e do Ordem Livre e colunista do IMIL); Anthony Ling (Instituto Liberal, Instituto de Estudos Econômicos e Instituto Liberdade); Juliano Torres (tentativa da fundação da LIBER = Instituto Político Libertários).

         O EPL está ligado ao Student for Liberty e ao poderoso think tank Atlas Network, ambas instituições sediadas nos Estados Unidos. 

         O EPL organiza, financia e estabelece diretrizes de ação, principalmente a partir de seu braço de atuação política e ideológica, o Movimento Brasil Livre (MBL). Divulgando vídeos de seus membros com narrativas revisionistas e ataques aos movimentos sociais, proferindo discursos de ódio de classe e sobre minorias, criando e reproduzindo fake news, promovendo manifestações reacionárias e viabilizando candidaturas políticas de seus integrantes alinhados a tradicionais partidos de direita, o MBL configura-se como uma marca dessa “nova direita”, afirma o autor. (p.45).

Os impactos da nova direita na política brasileira

         A nova direita brasileira ganhou o primeiro round com a eleição do militar para presidente da República. Os setores democráticos, progressistas e de esquerda foram pegos no contra-pé. Sem compreender o papel avassalador da internet, das novas mídias e principalmente do whatzap precisam nesse momento correr atrás do prejuízo.

         As primeiras organizações da nova direita nascidas nos anos 1980\1990 foram ultrapassadas por outras mais agressivas, destilando ódio, com discursos liberal-conservador moralizante e utilizando massivamente fake news. Hoje essas organizações têm nomes: IMIL, IMB, EPL\MBL, além de outras. São os novos aparelhos privados da grande burguesia brasileira e internacional. Possuem teoricamente clareza dos objetivos a atingir. Os métodos são eficientes. Mostraram que têm condições de atuar politicamente no Brasil, influenciando milhões de pessoas. O seu partido – o PSL – com poucos deputados se tornou a segunda bancada da Câmara Federal elegendo dirigentes experimentados na luta e com atuação destacada no último período eleitoral. Essa é a primeira vez que a extrema direita passa a ter no Brasil um protagonismo político que antes era realizado pelos partidos tradicionais da direita, com a ajuda dos militares quando dos golpes de Estado. 

         Essa nova direita, ou para falar com mais clareza, essa extrema direita recebe o apoio da grande burguesia e combate todas as iniciativas democráticas e populares.

         O autor conclui da seguinte forma o artigo: “Com o tempo, esse conjunto de aparelhos privados tornou-se uma espécie de porta-voz de uma nova direita aberta e dura, com enorme agressividade, ao lado de posições de uma subordinação impactante a certos padrões ideológicos vigentes nos países centrais, com destaque para os Estados Unidos”.   (p. 45).

Observação:
Os destaques em negrito, itálico, aspas, etc. existentes nesse texto são de minha responsabilidade. Os destaques do autor permanecem os mesmos.

                                                                            Brasília, maio 2019