Jaime Brasil

Ainda na adolescência, quando comecei minha militância política, ganhei um pôster com uma fotografia de Lênin que era acompanhada da seguinte frase: “Sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário”. Desde então, nos incontáveis debates nas organizações partidárias e entidades civis das quais participei, tenho batido na tecla de que não existe prática política que não seja uma teoria aplicada, um pensamento realizado. Partindo-se dessa ideia podemos nos questionar: quais teorias temos praticado nessas últimas décadas?

Alguém duvida que as nossas mais recentes e importantes derrotas nasceram do definhar teórico, e mais, surgiram e vivem nos erros e omissões cotidianas na construção da subjetividade?

As velhas esquerdas do século XX sempre traziam uma mensagem de ruptura e de transformação radical das estruturas opressoras e exploradoras, essas que faziam do mundo algo muito aquém do que poderia ser. Um certo messianismo redentor amalgamava as ações e discursos e contagiava a juventude, os intelectuais, arrebatava os descrentes e os explorados.

A leitura estava correta: o mundo poderia ser um lugar muito melhor para que todos pudéssemos viver com plenitude e dignidade. A solução oferecida também: mudemos o mundo, pois temos todos os instrumentos e conhecimentos para a construção desse novo mundo. E então, o que houve?

Quem se lembra das diferentes leituras históricas feitas quando o antigo bloco soviético veio a sucumbir? Todas incompletas em um ou outro ponto, e todas abandonadas no meio do caminho. Uns diziam que a culpa era do revisionismo, outros que a culpa era do stalinismo, outros sustentaram que o socialismo simplesmente não funcionava economicamente e nem politicamente e abraçavam o liberalismo ainda que de modo disfarçado, como se o insucesso das experiências socialistas validasse a destruição e a barbárie inerentes ao capitalismo ou o tornasse aceitável e justificável.

A nossa geração, também herdeira da revolução de 1917, de duas grandes guerras mundiais, e, no nosso caso, vítima de 25 anos de ditadura militar, jamais imaginou que grande parte do mundo, incluindo o Brasil, penderia tão rapidamente para a extrema direta, abraçando tudo aquilo que havia sido condenado e repelido reiteradamente pelo que chamamos civilização.

As nossas derrotas vêm da ausência de teoria revolucionária, da ausência de propostas para a construção de um mundo muito melhor do este que vem sucumbindo objetivamente nas mãos do grande capital e de suas consequências degradantes e desastrosas.

Muitos pararam no tempo e sequer conseguem reler a teoria clássica e confrontá-la com o mundo atual. Não que os clássicos estejam errados, pelo contrário, mas a interpretação dos antigos textos não podem se limitar às referências de um mundo que já não existe.

Peguemos Marx, como exemplo, em seus Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844 e observemos a extraordinária evolução das forças produtivas com seus instrumentos tecnológicos capazes de substituir os seres humanos. A alienação do trabalho hoje em dia é ainda maior que antes. Alguém aperta alguns botões e milhares de produtos são fabricados por robôs, como consequência milhares ficam desempregados ou têm que “custar” mais baratos que as máquinas para poderem ser contratados e terem algum salário. Apesar dessa mesma evolução técnica, o capitalismo continua a explorar os trabalhadores à exaustão, quando a parafernália tecnológica deveria, como sabemos, relativizar o tempo e a intensidade do trabalho humano. Os ‘Manuscritos” nunca estiveram tão atuais.

E o que devemos propor diante disso? A destruição das máquinas como fizeram alguns primitivos anarquistas no começo da revolução industrial? Devemos propor o pleno emprego, sendo que o trabalho humano é cada vez menos necessário? Ou deveríamos propor a distribuição da riqueza, com cada vez menos horas trabalhadas e a produção de bens sem obsolescência programada para que possamos trabalhar menos, usar menos energia e gerar cada vez menos lixo e poluição?

Marx desnudou e denunciou o trabalho alienado e hoje temos como propor que o ser humano tenha mais tempo para si, para o seu ócio, reflexão, prazer ou trabalho criativo, mas, em vez disso, o que temos proposto?

Quando é que diante da imensa evolução tecnológica iremos oferecer um mundo onde a lógica econômica não seja o crescimento infinito, quando chegará o dia em que diremos que menos pode ser mais e muito melhor? Em que momento mostraremos que todo o alimento e as condições materiais mínimas necessárias à dignidade humana podem ser de todos e que as condições objetivas estão dadas, mas que precisamos mudar a nossa subjetividade para que isso aconteça?

Como querer vencer a extrema direita em sua estreiteza rasa se nós mesmos somos incapazes de abandonar as categorias econômicas clássicas do capitalismo que usamos como parâmetro de julgamento de desenvolvimento de uma sociedade?

Desde as grandes derrotas das experiências socialistas, a maior parte da esquerda se tornou apenas uma alternativa para a administração da crise permanente do capitalismo. Iremos insistir que somos melhores administradores do capitalismo do que os capitalistas? Continuaremos a ser meros aliviadores da perversidade e da crueldade que a acumulação do capital é capaz de fazer com a biosfera e os povos do mundo?

Pepe Mujica, em um discurso na ONU, quando Presidente, sustentou: “Nossa época é portentosamente revolucionária como não conheceu a história da humanidade. Mas não tem condução consciente, ou ao menos condução simplesmente instintiva. Muito menos, ainda, condução política organizada, porque nem sequer tivemos filosofia precursora ante a velocidade das mudanças que se acumularam.”

Já não basta apenas denunciarmos a destruição dos povos e da biosfera. Aliás, nunca foi por falta de capacidade crítica que temos acumulado derrotas. Foi, sim, por falta de capacidade autocrítica e principalmente por falta de propostas que sejam minimamente sintonizadas com o mundo atual, que sejam minimamente revolucionárias de fato.

“Centopéias desfilam pelo tronco úmido, onde há alguns dias cigarras sibilavam sob o sol inclemente.

A chuva fez apodrecer as cascas que estavam secas, e agora as orelhas de pau e os musgos modelam as árvores. 

Regurgito um grito grotesco que imagino ser das góticas gárgulas de Gothan City.

Mas, na minha cidade não há salvadores das leis, nenhum super-herói.

Apenas detratores de flores, escarros de carrascos nas calçadas, sangue de inocentes nas pias dos hospitais, pobres viciados enjaulados e esgoto governamental nos rios.

O tempo quando não mumifica, calcina. A vida vacina e vaticina: a morte é a garantia

Março de 2020