LUIZ ROSSI analisa:

Artigo de ROSANA PINHEIRO-MACHADO E LUCIA MURY SCALCO.

Da esperança ao ódio: a juventude periférica bolsonarista”, in Esther Solano Gallego (org.), O ódio como política. A reinvenção das direitas no Brasil”. São Paulo, Boitempo, 2018, (p. 53-59).

Em pesquisa realizada de 2009 até 2017 com jovens do Morro da Cruz, bairro da periferia de Porto Alegre, Rosana Pinheiro-Machado e Lucia Mury Scalco constataram que não existia uma posição ideológica polarizada entre opções da direita e da esquerda. “A realidade do cotidiano, contudo, é mais complexa que o binarismo em sua forma ideal e aponta para a sobreposição entre os polos. Com efeito, os limites entre esquerda e direita, o lulismo e o bolsonarismo e a esperança e o ódio são mais turvos do que se pode imaginar à primeira vista”, (p. 53).

Desde 2009 quando as autoras iniciaram o trabalho de pesquisa acompanharam o surgimento da “emergência do crescimento econômico e, na sequência, seu colapso. Essas fases de desenvolvimento nacional afetam não apenas as condições materiais de existência, mas igualmente o self individual, a capacidade de aspirar e as formas de fazer política e de compreender o mundo. Esperança e ódio, por fim, não são categorias totalizantes na perspectiva adotada aqui. São antes tendências que nos ajudam a pensar como a subjetividade política é moldada em contextos diferenciados. Havia ódio na esperança e parece haver esperança no ódio – e essa sutileza é, na verdade, central nos argumentos (…)” das autoras (p. 54).

No início das manifestações em 2013, as pautas se baseavam em reivindicações de melhoria da educação, da saúde e da segurança públicas, com manifestantes de origem mais progressista e popular. Com o passar do tempo, as palavras de ordem se concentraram na luta contra a corrupção, enveredando no final para pautas de ordem moral como a luta contra homossexualidade, além de outras como o papel das mulheres na sociedade, as tentativas da direita e da extrema direita em utilizarem as terras indígenas e quilombolas para o agronegócio. Culminou com manifestações antipetistas até a deposição da ex-presidente Dilma Rousseff, em 31 de agosto de 2016. De forma crescente, a direita e a extrema direita foram ocupando as ruas, comandadas por organizações de extrema direita. A presença se concentrou nos setores de classe média mais abastada e nos ricos, esses, componentes da burguesia brasileira e, contando também, com a burguesia internacional, foi a classe social que financiou as manifestações.

Os governos do PT brindaram as populações mais pobres com programas de inserção das pessoas no desenvolvimento econômico, através do consumo. Com essa política a população, de baixa renda teve acesso a cartões de crédito, pode comprar uma série de produtos parceladamente e contar com crédito bancário. Esse processo de inclusão financeira melhorou as condições de vida da população, mas ao privilegiar o consumo em detrimento de reformas estruturantes como a melhoria da qualidade da educação, da saúde e da segurança pública, “acarretou o enfraquecimento democrático, mas não em despolitização. O próprio ato do consumo, em uma sociedade profundamente desigual, se configurava um ato de contestação”. (p. 54).

Esse foi o momento dos jovens da periferia de Porto Alegre comprarem óculos e roupas da moda, forma de ostentarem a sua nova condição social. Essas manifestações se expressavam como “provocação de classe e raça”. Esses jovens se afirmavam com o orgulho à flor da pele. “Levantar a cabeça” (Marta, 25 anos); “trocar o elevador de serviço pelo social” (Beta, 19 anos); “estou podendo” (Betinho, 17 anos, ao usar boné de marca);  Karla: “Eles (os brancos) terão de me engolir, essa negona aqui, empregada doméstica, usando esses óculos Ray-Ban no ônibus. Azar dos racistas se acharem que meus óculos são falsificados”. (p. 55)

Esse orgulho de consumo ostentatório, antes privilégios das classes médias abonadas e dos ricos, foi objeto, em um pequeno momento da história brasileira, da atenção desses jovens habitantes do Morro da Cruz. Podiam ostentar suas roupas, seus perfumes e seus óculos da moda, mostrando às classes sociais de maior poder aquisitivo, que também tinham direito a esse tipo de consumo. 

Esse desejo de ostentar foi contra uma parede efetiva, de caráter social, econômica, política cultural, que a história do Brasil tem mostrado. Constataram na prática que, mesmo com possibilidades de consumir, os shopping, como templos de consumo, estavam vedados a esses jovens da periferia de Porto Alegre. Eram templos destinados às classes médias com maior poder aquisitivo e aos ricos. Foi o período em que os “rolezinhos”, reunião de grupos de jovens, tentavam entrar nos shoppings.  Aí se defrontavam com vigilantes dos shopping e também com a Polícia Militar.

Os meninos que nós acompanhávamos nos shoppings centers viviam essa tensão de consumir conspicuamente e ostentar marcas operava como um espelho de um mundo que mantinha-se segregado, violento, racista, desigual. Isso ocorria porque, quantos mais usavam marcas para se afirmar, para ´entrar nos shopping de cabeça erguida´, mais os olhos externos os classificavam de ´pobres`, ´favelados` ou ´bandidos`”, de acordo com as pesquisadoras. ( p. 55-56).

O processo de “inclusão financeira se revelava um processo altamente ambíguo”. O mercado e os governos do PT incentivavam o consumo, mas a sociedade “escancarava o não”.  ( p.55). Podia consumir em qualquer outro lugar, não nos templos erguidos para as classes médias endinheiradas e para a burguesia rica.

A crise econômica se inicia em 2011, no primeiro mandato da ex-presidente Dilma Rousseff. Além da crise econômica que aumentou a partir de 2014, foi a crise política que culminou no impeachment da ex-presidente em 2016. Uma crise especialmente construída politicamente a fim de evitar que o lulismo continuasse como uma força política importante no Brasil. Foi comandada pelas elites brasileiras e internacionais: econômica, mediática, do agronegócio e de setores religiosos, principalmente dos evangélicos. Teve a colaboração das multinacionais. E contou com a participação do Congresso, além da ajuda inestimável da “Republica de Curitiba”, expressa em figuras do Ministério Público Federal e do Judiciário como juízes e promotores, incluindo os ministros do Supremo.

A crise econômica atinge em cheio esses jovens da periferia de Porto Alegre. Acabou o sonho consumista. As dificuldades diárias de sobrevivência batem à porta: desemprego, trabalho informal, flexível.

As reações não tardaram. Como a política da era lulista apostou em privilegiar o consumo, colocando em segundo lugar as reformas estruturantes e de organização da população pobre, os jovens e parte importante das classes sociais com menor poder aquisitivo, se insurgiram, não de forma organizada, mas aceitando, de forma crescente as diretivas da extrema direita. As palavras de ordem dessa direita alvejaram o combate à corrupção ligando-a aos governos petistas. Todos os poderes constitucionais contribuíram com sua cota para esse objetivo, além da presença de comando desse processo ser encabeçado pela burguesia brasileira e internacional.

A extrema direita se utilizou largamente das mídias sociais, através de milhares de fake news (notícias falsas), especialmente via whatzap, para achincalhar a pessoa do ex-presidente Lula e de dirigentes do PT. As forças progressistas e de esquerda começaram a compreender muito tarde essa nova estratégia da utilização em larga escala dessas tecnologias. Permaneceram na defensiva até hoje, inclusive na campanha eleitoral de 2018.

Após as mobilizações das Jornadas de Junho de 2013, a crise se constituiu uma janela de oportunidades políticas a mobilização de muitos jovens secundaristas nos anos seguintes” (p. 57).

A reação das jovens e dos jovens adquiriu contornos diferentes. Parte dos jovens se fixou mais na figura de Jair Bolsonaro, candidato à presidente da República. Militar da extrema direita, defensor da tortura, membro do baixo clero do Congresso, incentivador de fake news, chamou a atenção de jovens pela sua linguagem dura e contra negros, quilombolas, indígenas.

Afirmam as autoras: (…) “o pêndulo das ´rebeliões primitivas` pesava para o lado do conservadorismo: aproximadamente um terço dos alunos secundaristas das escolas que visitamos demonstrava grande interesse na figura de Jair Bolsonaro, que defende uma agenda conservadora moral, bem como o punitivismo no combate à violência urbana e à corrupção. Em 2017, era raro conhecer um menino do Morro da Cruz que não fosse admirador do candidato. O político se tornou um fenômeno …”. (p. 56). Os jovens admiravam o candidato Bolsonaro. Realçavam os valores como disciplina e autoridade, pulso e mão forte. Seria o “último recurso” para esses jovens desiludidos. (p. 58).

As jovens reagiram de forma diferente. Mais articuladas e conscientes politicamente, diferentes dos jovens, (…) “criticam as manifestações machistas de Jair Bolsonaro”. (p. 56). “Como mostra a pesquisa de Paula Alegria, uma das características das ocupações das escolas se alastraram país afora foi o protagonismo político das meninas adolescentes. (…) Nas escolas do Morro (da Cruz), houve uma explosão de meninas que declaram feministas. Isso não é inédito como chega a ser revolucionário no sentido do rompimento de estruturas sociais e modelos hegemônicos de masculinidade que se perpetuavam na zona urbana periférica”. (p. 57).

O comportamento dos jovens não decorre apenas da emergência do feminismo das jovens. “Suas masculinidades são também desafiadas no dia a dia da crise de violência urbana de Porto Alegre. (…) sofreram tentativas ou já foram de fato assaltados no transporte público, no percurso da escola ou trabalho”. (p. 57-58).

As autoras concluem: “Em todos os debates, quando os meninos foram expostos a argumentos mais longos, houve mudança de posicionamento. Além disso, era comum que eles dissessem algo como ´sou fã  do cara, mas tenho medo dele, pois ele é extremista` e, então, mencionavam que tinham medo de ditadura, de castração química, de estupradores e da personalidade ´cabeça quente`do candidato. Também já deparamos com muitos meninos que em 2017 eram fãs do Bolsonaro e agora achavam que ele não se sustenta em debates, como uma espécie de modismo juvenil que vai perdendo a força”. (p. 57-58).

Brasília, fevereiro de 2019