Nota da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares sobre a demissão do ministro Henrique Mandetta

A Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares vê com preocupação a demissão do Ministro da Saúde, Henrique Mandetta, pelo presidente Jair Bolsonaro, no início do momento mais crítico de avanço da pandemia de COVID-19.

A contradição se deu entre setores do próprio governo: de um lado, os liberais-conservadores, que compreendem a gravidade da situação e o caráter dessa pandemia transversal à todas as classes sociais. O ex-ministro Mandetta é um dos seus representantes. Do outro lado, o núcleo neofascista do governo, representado por Bolsonaro, sua família e olavistas, onde vidas humanas, especialmente a dos mais pobres, valem muito pouco.

A dinâmica dos processos sociais concretos coloca grandes encruzilhadas aos sujeitos políticos. Mandetta não era um mero representante dos interesses conservadores da corporação médica ou somente um representante dos lobbies de alguns grupos privados da saúde, mas principalmente um intelectual orgânico da bancada ruralista e do agronegócio. Esse ator político teve que adotar em sua retórica a defesa do Sistema Único de Saúde (SUS) frente a um cenário de pandemia onde a infecção do pobre pode levar à morte também do rico, diante da grande facilidade de circulação e transmissibilidade da COVID-19. Ele percebeu que sem a intervenção do Estado em uma conjuntura dessas todos padecerão. Uma contradição que precisou ser assumida diante da matriz de pensamento social e econômico fortemente ligada ao neoliberalismo desses integrantes do governo.

O núcleo neofascista do governo tenta criar uma cortina de fumaça à população com fake news e a apropriação do senso comum e das necessidades mais básicas das pessoas. No fundo, a mensagem que querem passar é que milhares deverão morrer para “salvar” os empregos “dos que ficam”, e que esses não deverão paralisar as suas atividades. No entanto, nunca dirão isso explicitamente.

Chama a atenção também o comportamento do grupo de militares que compõe o Governo Federal, aderindo de forma dissimulada ao discurso do presidente, como se a crise atual fosse como uma “guerra onde é inevitável se perder vidas”. Por isso, esse setor tem apoiado empurrar a vida de milhões de brasileiros para precipício abaixo. Como maus comandantes que mandam uma imensidão de soldados para uma batalha que já consideram perdida diante dos primeiros combates.

Bolsonaro tenta criar mais um fator de distração chamando um técnico para dirigir o Ministério, o Sr. Nelson Teich, para dar um ar de “neutralidade ideológica”. No entanto, trata-se da substituição do Mandetta por um outro lobista do setor privado à frente de órgão tão importante para a saúde pública, que deverá permanecer no Ministério da Saúde somente para implementar seus interesses. Inclusive, não se incomodando muito com o anúncio de 16 de abril em que Bolsonaro afirmou que ele próprio indicaria todo o segundo escalão do Ministério da Saúde. Ou seja, será possivelmente um ministro sem brilho, apagado pela narrativa do bolsonarismo, com um possível decréscimo técnico do Ministério da Saúde em momento tão crucial.

A posição de Mandetta deu uma reviravolta na tomada de posição do bolsonarismo, pois o coloca numa posição defensiva, visto que a partir de agora cada morte que ocorrer nesse país, pela negligência do Governo Federal em direcionar o esforço geral da sociedade contra a pandemia, será creditado na conta não só do presidente da República, mas de seus ministros e comandantes militares que o apoiam, da ativa e da reserva.

Aos liberais-conservadores que apoiaram ou apoiam o Governo Bolsonaro, a demissão de Mandetta e de sua equipe é um recado claro. Apesar do viés tecnocrático autoritário que historicamente marca esses setores liberais brasileiros, apostar em alianças com neofascistas para que estes, com suas medidas de força, realizem o “trabalho sujo” para impor uma racionalidade econômica e administrativa antipopular, leva como clara consequência a falência da democracia e os posicionamentos cada vez mais extremados dos neofascistas, a partir de sua prática do culto à violência e à morte.

A Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares reafirma o compromisso com o povo brasileiro e sua luta pela democracia e pela defesa da vida, tendo assim as seguintes posições:

– Manutenção do isolamento social, com distanciamento social amplo;

– Políticas de proteção social consistentes por parte do Estado, amparando a população trabalhadora e os praticantes de pequenos negócios;

-Manutenção de empregos e salários com limites a demissões por parte dos empregadores;

– Taxação de grandes fortunas para incorporação de recursos no combate à pandemia;

– Ações coletivas de solidariedade aos setores sociais mais vulneráveis por parte de movimentos e organizações populares e sindicais;

– Fortalecimento da capacidade assistencial e de vigilância em saúde do SUS, e planejamento de políticas de saúde com participação popular diante das condições impostas pela nova situação;

– Aumentar financiamento do SUS para o combate da pandemia, com a supressão da Emenda Constitucional 95 (teto dos gastos);

– Regulação única dos leitos de urgência e emergência e de terapia intensiva, com o intuito de não se agravar as desigualdades de acesso a serviços de saúde entre as diversas classes sociais, garantindo regulação estatal pública tanto aos leitos do setor público como do privado.

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Neofascismo faz mal à saúde! – Nota da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares sobre a demissão do ministro Henrique Mandetta A Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares vê com preocupação a demissão do Ministro da Saúde, Henrique Mandetta, pelo presidente Jair Bolsonaro, no início do momento mais crítico de avanço da pandemia de COVID-19. A contradição se deu entre setores do próprio governo: de um lado, os liberais-conservadores, que compreendem a gravidade da situação e o caráter dessa pandemia transversal à todas as classes sociais. O ex-ministro Mandetta é um dos seus representantes. Do outro lado, o núcleo neofascista do governo, representado por Bolsonaro, sua família e olavistas, onde vidas humanas, especialmente a dos mais pobres, valem muito pouco. A dinâmica dos processos sociais concretos coloca grandes encruzilhadas aos sujeitos políticos. Mandetta não era um mero representante dos interesses conservadores da corporação médica ou somente um representante dos lobbies de alguns grupos privados da saúde, mas principalmente um intelectual orgânico da bancada ruralista e do agronegócio. Esse ator político teve que adotar em sua retórica a defesa do Sistema Único de Saúde (SUS) frente a um cenário de pandemia onde a infecção do pobre pode levar à morte também do rico, diante da grande facilidade de circulação e transmissibilidade da COVID-19. Ele percebeu que sem a intervenção do Estado em uma conjuntura dessas todos padecerão. Uma contradição que precisou ser assumida diante da matriz de pensamento social e econômico fortemente ligada ao neoliberalismo desses integrantes do governo. O núcleo neofascista do governo tenta criar uma cortina de fumaça à população com fake news e a apropriação do senso comum e das necessidades mais básicas das pessoas. No fundo, a mensagem que querem passar é que milhares deverão morrer para “salvar” os empregos “dos que ficam”, e que esses não deverão paralisar as suas atividades. No entanto, nunca dirão isso explicitamente. (Continua nos comentários)

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