Antonio Sérgio Borba Cangiano

Dentre todas as análises sobre a pandemia que nos afeta, existem dois pensadores contemporâneos vivos, filósofos, com reconhecidas obras filosóficas que refletem os acontecimentos contemporâneos, mas que estão em polos opostos, no entanto com comunicantes fundamentais sobre o diagnóstico de que vivemos em um mundo doente. Mesmo antes da pandemia, o mundo globalizado já sofre uma destruição da vida, do meio ambiente, da fauna e da flora, e porque não afirmar, do planeta.  Os filósofos Giorgio Agamben e Slavoj Zizek, concordam com o estado doente da humanidade provocada pelo neoliberalismo, face contemporânea da acumulação capitalista globalizada, que amplia ilimitadamente a concentração de renda em cassinos financeiros, em detrimento  da grande maioria da população mundial que carece de trabalho, renda, assistência a saúde, e a bens básicos para sobrevivência. O capital já é ineficiente para proporcionar o sonho de uma vida plena para os 7 bilhões de almas no mundo, nem o direito ao trabalho hoje é mais viável. Vejamos o que pensam os filósofos.

Giorgio Aganbem nos diz: “Se, no progressivo declínio das ideologias e das fés políticas, as razões de segurança já permitiram que os cidadãos aceitassem limitações às liberdades que antes não estavam dispostos a aceitar, a biossegurança provou ser capaz de apresentar a absoluta cessação de toda atividade política e de toda relação social como a forma máxima de participação cívica“, escreve Giorgio Agamben, filósofo italiano, em artigo publicado por Quodlibet (link para o artigo ao final do texto).  Para Aganbem está em jogo um novo paradigma de governo dos seres humanos e das coisas, que está se delineando com a pandemia, onde impera o estado de exceção, aprofundado com decretos governamentais de caráter sanitário, que força o isolamento social, não só pela doença, mas ainda mais grave o isolamento político e a perda de nossa sensibilidade solidária, com a ausência da presença afetiva, substituída pelo que ele analisa que será permanente, e não apenas temporária, a substituição tecnológica dos espaços presenciais de convivência, amizade, sensibilidade dos corpos pelos espaços virtuais, mascarados, impessoais com a supremacia do “home office” da exploração do trabalho pós pandemia. Para ele o que está em questão  é a criação de uma espécie de “terror sanitário” como instrumento para governar aquele que era definido como o pior cenário: “está em questão o desenho de um paradigma de governo cuja eficácia supera muito a de todas as formas de governo que a história política do Ocidente já conheceu. É evidente que o chamado “distanciamento social” se tornará o modelo da política que nos espera e que (como anunciaram os representantes de uma chamada força-tarefa, cujos membros se encontram em flagrante conflito de interesse com a função que deveriam exercer) se aproveitará desse distanciamento para substituir, em toda a parte, com os dispositivos tecnológicos digitais as relações humanas na sua fisicidade, que se tornaram suspeitas de contágio (contágio político, entenda-se)”, escreve Aganbem. Ele critica a substituição da política pela economia, e acrescenta que agora para governar a economia terá que ser integrada a um novo paradigma de “biossegurança”, ao qual todas as outras exigências deverão ser sacrificadas. Só podemos concluir que o mundo corre o risco, segundo ele, de tornar-se ainda mais doente, dada a excepcionalidade sanitária que priorizará as mesmas características de exploração do trabalho e alijamento da política, aprofundando o estado de exceção atual, que se estabelece sobre o medo global da morte em consequência de novas ameaças, não só de novos vírus, mas da destruição planetária, pela acumulação ilimitada do capital em curso.

Em contraponto, Zizek afirma que não haverá nenhum regresso à normalidade, o que Agambem concorda, não será possível uma volta a um sistema socioeconômico que já não funcionava. No seu livro PANDEMIA, escrito em tempo recorde, ele afirma que a saída de um desastre que não é passageiro, passa por alguma forma de comunismo. Escreve: “Porque não basta criar algum tipo de assistência sanitária global para os seres humanos, tem-se que incluir a natureza inteira (…) o isolamento pelo coronavirus na China salvou mais vidas das que o vírus matou (se pudermos confiar nas estatísticas oficiais): (…) todavia, com somente a redução da poluição exclusivamente na China se poderia ter salvado as vidas de 4000 crianças de menos de 5 anos e mais de 73.000 adultos com mais de 70 anos”. Para Zizek, as transformações necessárias apresentadas pela pandemia é muito mais profunda se quisermos que a vida continue, e que possa continuar em outros parâmetros, onde a potência humana esteja livre, em um comunismo que gere vida, preserve nossos bens comuns, água, terra, sementes, animais, a flora, e tudo que nos cerca, e que a todos pertencem. Para ele a nova normalidade terá que se construir sobre as ruínas das nossas antigas vidas, teremos que aprender a sobreviver numa vida muito mais frágil, e compreender que não somos mais que seres vivos entre outras formas de vida.  Não importa como chegamos aqui, todas as injustiças, e a acumulação ilimitada que beneficia uma minoria, importa qual seria a solução para o futuro onde será possível viver com segurança vital para todos, porque já não existe lados no mundo globalizado. Para Zizek “a solução não será o isolamento nem a construção de novos muros e posteriores quarentenas. Faz falta uma plena solidariedade incondicional e uma resposta coordenada a nível global, uma nova forma do que antes se chamou de comunismo. Se não orientarmos nossos esforços nessa direção, então Whuan de hoje pode acabar sendo o habitual nas cidades futuras (….) Se os estados se ilham, começarão as guerras (…) como expressa Will Hutton: na atualidade está agonizando certa forma de globalização do livre mercado e desregulação, com a sua propensão às crises e as pandemias. Mas está nascendo outra forma que reconhece a interdependência e a primazia da ação coletiva de base empírica’. Tal como reza o ditado: em uma crise somos todos socialistas. Incluíndo Trump que implantou uma forma de renda básica universal. Será que esse socialismo forçado será um socialismo para os ricos, como o resgate dos bancos em 2008? (…) Aí é onde aparece a minha ideia comunismo, não como um sonho inconcreto, senão como o nome do que está sucedendo(..) o gasto de bilhões para ajudar não só as empresas, mas também aos indivíduos se justifica como medida extrema para manter a economia em funcionamento e evitar a pobreza, mas o que ocorre é mais radical: com essas medidas, o dinheiro já não funciona do modo capitalista tradicional, senão fora das restrições da lei do valor (…) Não é a visão de um futuro luminoso, senão o melhor, um comunismo do desastre como antídoto ao capitalismo do desastre”.

Para os dois pensadores é legítimo se perguntar se tal sociedade ainda poderá ser definida como humana ou se a perda da política, das relações sensíveis, do rosto, da amizade, do amor podem ser verdadeiramente compensadas por uma segurança de saúde abstrata e presumivelmente fictícia em sua totalidade, dando continuidade ao neoliberalismo do estado mínimo e da competitividade, por uma economia que deve crescer as custas da destruição do planeta e da vida. Giorgio Agamben tem sólidos fundamentos em seus textos sobre pandemia e o estado de exceção que é possível, em contraponto a Zizek, que romantiza o fim do capitalismo, e o início do comunismo global. Entre os dois está a análise comum da importância da disputa política colocada hoje, a de que o capitalismo com sua força hegemônica sobre os trabalhadores, com as mídias e com a força dos estados, lutará com todos os meios para continuar a acumulação ilimitada e a luta de classes. Em contrapartida para o cenário que Zizek traça, é necessária a apropriação da política pela massa dos indivíduos, aterrorizados pela pandemia e pela recessão econômica global, a dúvida é como superar esse medo, em sua totalidade, e se apropriar dos bens comuns terrestres e poder transformar a vida, esta é a questão que prevalece. Na minha opinião, a crise se aprofundará, os bilhões destinados primeiramente a bancos e empresas, continuarão na ciranda financeira como em 2008, alguma ação global no setor sanitário será inevitavelmente promovida e será absorvida pelo capital, a renda mínima universal poderá ser uma necessidade básica para evitar a fome e mortes causadas pela pandemia, todavia a ganância e a cultura da competitividade ainda estão longe de serem superadas. Entre um certo romantismo do Zizek, e o recrudescimento do estado controlador, opressor que Aganbem desvela, ainda é cedo para sabermos o que nos aguarda no futuro, no entanto estamos no meio de uma revolução ainda pacífica. O que nos resta é nos apropriar da política e fazer valer a solidariedade e os direitos comuns de todos no planeta para preservar a vida. Lutar na política por toda a vida animal, vegetal e climática, lutar para preservar nossa Terra, que significa estabelecer novos direitos comuns, novos direitos sobre a propriedade, fundamentadas em valores de solidariedade, fundadas no amor sobretudo, inclusive sobre o medo.

Maio, 2020

Para ler Zizek na íntegra da resenha do livro Pandemia : https://www.lavanguardia.com/libros/20200507/481007665603/zizek-pandemia-libro.html

Para ler Giorgio Aganbem: http://www.ihu.unisinos.br/598847-biosseguranca-e-politica-artigo-de-giorgio-agamben