Tainá Brederode Sihler Rossi

Tainá é aluna do 8o semestre da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UnB e do 3o semestre de Artes Plásticas da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes, em Brasília.

Eu fui para o Peru fazer dois estágios relacionados a Habitação Social e materiais sustentáveis e nessa experiência eu tive a oportunidade de ver o outro lado de Lima. A maioria das pessoas que vão a Lima ficam na parte turística e rica da cidade, se pode comparar com a parte frequentada turisticamente na cidade do Rio de Janeiro, Copacabana, Ipanema e Leblon, os três que ganham a atenção e dinheiro de quem visita. A mesma coisa acontece com Lima, Miraflores, Barranco e San Isidro estão sob holofotes internacionais. Consequentemente, são mais bem cuidados, mais frequentados, mais patrulhados, mais vigiados e mais cool.

Realmente é gostosinho, o clima é bom, é onde tem as praias, os parques bem cuidados, o pôr do sol de tirar o fôlego, as boates com pessoas “bonitas”, quando digo isso digo o “socialmente bonitas”, ou seja, dentro do padrão estético internacional ocidental. Mas tudo isso é uma fachada mentirosa. O governo peruano esconde o que acontece nos outros bairros marginalizados da cidade. Isso se repete, né? Dá pra ver isso na maioria das cidades, ouso dizer que todas as cidades do mundo. Sempre existe o local que não recebe o foco e acaba abandonado pelas autoridades, esses bairros via de regra são os mais pobres e os mais populares, digo isso em números de pessoas por metro quadrado.

Falarei um pouco mais disso de acordo com o narrar do texto.

Bom, quando eu cheguei tive uns problemas de hospedagem mas comecei o meu estágio de três meses na TECHO, organização sem fins lucrativos que tem como principal objetivo a erradicação da pobreza. É uma organização latino americana que atua na maior parte dos países da América Latina, inclusive no Brasil, porém com o nome TETO (techo em espanhol significa teto). O meu trabalho consistia em desenvolver novas formas de habitações sociais, chamadas de Viviendas, novos protótipos de brinquedos sustentáveis para crianças, desenvolver novas praças, construir as Viviendas, dias lúdicos, ir nos mutirões nas comunidades chamadas de “assentamentos humanos” e ir em reuniões e conferências representando a ONG.

Viviendas não são casas porque casa é onde tem o lar definitivo, e aquela estrutura era para até 5 anos, um lar provisório que é construído conjuntamente por nós e a comunidade. Não falamos que ajudamos as pessoas porque não é verdade, não podemos ter a síndrome “de branco salvador” porque a verdade é que damos suporte às pessoas para que surjam oportunidades de mudança de qualidade de vida.

Nas idas e vindas passei por inúmeras situações que nunca tinha passado. Coisas que não imaginava que aconteceria, foi surpreendente. Posso citar diversos momentos que me emocionei com as pessoas falando sobre a vida delas, sobre como elas nos olhavam agradecidas. O que esses momentos tiveram em comum foi o fato de que todos me mudaram, me fizeram sair da minha bolha. Por isso considero tão importante todo mundo doar horas em trabalhos voluntários para que cada vez mais, fazendo a nossa parte, mudemos o mundo com pequenas ações diárias.

Eu trabalhei muito em Pamplona Alta, uma parte do bairro San Juan de Miraflores, um dos mais pobres da cidade. Apesar de eu atuar mais frequentemente em uma comunidade, ainda trabalhávamos com duas outras Callao/Ventanilla, San Juan de Lurigancho. Nos encontrávamos na Universidad Ricardo Palma e íamos juntos para as atividades. Algumas vezes era para descarregar as paredes nas Viviendas, junto com os materiais de trabalho para que na semana seguinte, as equipes pudessem trabalhar sem ter que fazer aquilo, já deixávamos tudo prontinho. Isso envolvia várias equipes, como chefes de trabalhos, pessoas na logística, mão de obra e bem mais.

É incrível como o básico da vida é negado à muita gente. Lá não há água, nem potável nem não potável. Por isso que caminhões pipas passam alguns dias na semana para que as famílias possam pagar e encher os tonéis de água. Nessa brincadeira, eles pagam muito mais do que as pessoas com água encanada na cidade.

Por conta de Lima ter sido construída em cima de um deserto, a água encanada não é potável em hipótese alguma, é raríssima a possibilidade de haver filtros de água nas casas. Pelo deserto, a cidade me deu a impressão de ser sempre “poeirenta”, principalmente nas comunidades afastadas do centro, que não tinham nenhuma vegetação à vista.

Além da poeira, o encontro do deserto com o mar faz os dois ares de temperatura opostas se chocarem, causando uma condição meteorológica presente na maior parte do ano. O dia cinza não vai embora, é uma névoa em cima da cidade que não deixa o azul do céu aparecer, sorte a nossa se o humor dela mudar e resolver sair um pouquinho. Essa condição deixa a temperatura sem mudanças drásticas durante o dia, uma faixa confortável. O cinza, porém, deixa um clima depressivo na cidade, quando eu percebi isso logo fui pesquisar e realmente, há dados que Lima é a cidade com maior taxa de depressão do país e o fato do dia ser cinza sempre agrava essa situação.

É pelo solo quase infértil da região de Lima que o consumo de água em garrafas plásticas é bastante alto, por causa da água subterrânea insalubre, tornando a produção de lixo gigantesca e ainda por cima não é comum ter a separação de lixo e reciclagem. Isso é encarregado a cada bairro que tem a sua prefeitura e autonomia para decidir algumas regras, como se querem ou não que haja separação de lixo, ou a ronda da equipe de segurança, ou quão limpas são as ruas.

Bom! voltando à San Juan de Miraflores, a precariedade é latente. Não há asfalto e como há várias montanhas e vales, é difícil andar sem escorregar com a poeira de terra. As casas não têm nenhum isolamento, a falta de estrutura afeta todo mundo alí. Há casinhas minúsculas que só cabe uma pessoa com um buraco no chão, ali é um banheiro para várias casas, o odor é fétido porque não há o que jogar por cima dos dejetos.

Quando se anda na rua, há mistura de cascalhos, água suja, urina e fezes de cachorros que inclusive formam uma população bastante grande no local. Dessa maneira, é possível ver o nível de estrutura da comunidade pelas ruas, se existe uma vala no meio da rua é porque o nível é mais elevado porque os vizinhos se juntaram e fizeram a infra-estrutura de escoamento de dejetos, se a vala é na lateral, o nível é superior ao anterior e assim vai.

Eu confesso que quando eu soube que a maioria da liderança das comunidades é formada por mulheres, não fiquei surpresa. Naquelas condições, o nível de alcoolismo entre os homens é imenso, além do abandono nas famílias e violência doméstica. Por isso, a responsabilidade cai às mulheres, achei isso bem familiar, cof cof! afinal no Brasil é a mesma coisa. Quando há uma mulher na liderança e mais mulheres que homens nas subzonas da comunidade, a organização é bem mais visível.

Para arrecadar fundos para reformas, construções de Viviendas para as famílias mais necessitadas ou qualquer outro motivos, as pessoas organizam Polladas (churrasco de frango comunitárias acompanhadas de repolho e batatas), bazares e outras coisinhas e é nessa que cada família colabora como pode, doando galinhas, batatas, pratos de plástico.

Nessas idas e vindas principalmente aos Domingos, conheci uma área chamada Rosas de San Juan, a coisa mais linda! É uma sub zona que só moram mulheres, são mulheres empreendedoras que se organizaram, entraram em contato com pessoas e ONGs que poderiam dar-lhes suporte e fizeram acontecer. Os sorrisos e a convivência são muito bonitos de se viver, o “experienciar” de estar ali e junto criar uma oportunidade àquela família é emocionante. Em um desses momentos de mutirão, fizemos, lá, a construção de um Centro comunitário que eu fiz parte da coordenação do Mural junto com a minha colega peruana, Ana. Ao mesmo tempo que acontecia a pintura do mural, bio-hortas e banquinhos para as crianças eram construídos, workshop de empoderamento às adultas, saúde nutricional às crianças e saúde sexual para ambas, foram feitos e fechamos o dia muito bem com a inauguração do Centro.

Fizemos mais de 5 Viviendas lá e é comum ser 2 dias de construção com casa família, muitas vezes construindo 2 ou mais ao mesmo tempo. No primeiro dia, enquanto estamos construindo, parte da família está conosco e outra parte está cozinhando o almoço de forma colaborativa, no segundo dia, as famílias se juntam e fazem um almoço com todas as equipes. É um momento bem legal que me emocionei.

Falo de Rosas porque é bem no centro de San Juan, e San Juan é um mar de barracos, é de perder de vistas, morros e vales cobertos por casas e tentativas de lares. Em meio disso, uma coisa me chamou a atenção, várias casinhas eram coloridas, cada uma era de uma cor e quando olhadas ao longe compunha uma visão menos agressiva pois o resto era bem precário. São poucos detalhes como esse que mudam a vida das pessoas e trazem um respiro ao dia a dia corrido e difícil.

Outro motivo para eu falar de Rosas é por causa do número crescente de feminicídios nos assentamentos humanos. Os números não mentem que o Peru é o campeão de assassinatos de mulheres da América Latina e onde isso mais acontece é onde tem a luta pela vida e a baixa qualidade de vida latente. Há tantos casos que em algumas subzonas, como Rosas, as e os vezinhos se juntam e fazem a patrulha noturna de segurança. Em algumas, há faixas bem na entrada da comunidade dizendo que roubo e morte não são tolerados e que medidas são tomadas. O bairrismo é presente em alguns lugares mais que outros.

A distribuição de renda não é nada justa no Peru, é notória a associação da alta renda à pessoas de pele clara com traços mais europeus e renda baixa às pessoas com o fenótipo nativo, ou seja, pele escura (tons de marrom alaranjado) e olhos puxados, indígenas. Outra vez, dá pra ver o quão similar o Peru é do Brasil. A parte norte peruana é considerada super perigosa e lugar de delinquentes, a sul é mais aceitável mas se não chegar perto da Bolívia. Se seguir o litoral dá certo. Falando em litoral, há um problemão no litoral de Lima, não posso afirmar que se estende por todo o território porque não tive tempo de ir aos outros lugares.

O problema é: as praias na teoria são públicas mas na prática são totalmente privadas. O discurso é que andando pela areia você consegue chegar à qualquer praia, mas convenhamos que é uma baita de uma caminhada. As praias de Lima participam do Cinturão Verde e é justo nesse cinturão que há os maiores índices de contaminação da água (para quem não entendeu, o esgoto é despejado lá), mas mesmo assim, são essas as praias mais frequentadas. Me perguntaram por quem, eu respondi, claro que pela classe baixa limenha. Eles frequentam as praias mais perto, as outras se chegam se viajar no mínimo 1h30 de carro, e claramente a maioria não tem carro.

Além disso, não basta ter um carro, se você fizer o esforço e conseguir se locomover, será barrado nas entradas dos condomínios beira-mar. Literalmente não há entrada para pedestres para acessar as praias (parece algumas praias brasileiras!). Os condomínios são colados, murados e vigiados.

As casas dentro seguem o padrão de cada condomínio, se for de casas para alugar, são casas pequenas que dão diretamente para o mar. Se for casa de veraneio, são casas brancas bem grandes, com piscina, apesar de que no condomínio há piscina aberta aos condôminos, um monte de quadras de tênis (até hoje não entendi porque, já que não é um esporte popular lá mas pensando bem… jogar tênis é muito ligado ao estereótipo de riqueza né, é uma coisa “clean”). Portanto, as festas mais badaladas, onde a fila não é de pessoas e sim de carros importados e de marcas caras é no sul de Lima.

As pessoas que normalmente têm essas casas moram no triângulo rico de Lima e é lá que se aflora a culinária tão bem dita mundialmente, do Peru. Lógico que no centro há mais variedades de comida e são bem mais baratos, mas é no triângulo que as coisas são refinadas. Há mais segurança, nunca ví tanto policial e segurança municipal concentrados em um bairro. As ciclovias também, acontecem no Cinturão Verde porque a vista é linda mas se estendem até o centro da cidade e depois somem.

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Ao sair dessa parte rica e se afastar um pouco, provavelmente há de tomar ônibus. Há uma diferença tremenda do Brasil ao Peru quanto a isso, porque em ambos existe o transporte ilegal de vans que cobram como ônibus, mas no Peru é tanto que chega a ser sufocante. Existem alguns “corredores” que aceitam o passe de cartão assim como os “metropolitanos”, mas tirando esses, só tem ônibus velhos e vans caindo aos pedaços que passam.

Você sobe e senta, os cobradores vão até você e você paga por trecho. Além disso, eles ficam na porta dos transportes gritando no pé do ouvido os lugares principais que aquela rota passa e se você demorar é capaz de quase ser empurrado para fora. E quando você acha que está em segurança!!!, na verdade não. As linhas fazem competição de quem vai mais rápido, ou seja, quem consegue mais pessoas em menos tempo.

É tão normalizado lá, que o governo cobra impostos das linhas de rota, porque já que o próprio não faz políticas e projetos públicos, as próprias pessoas arrumaram um jeito de gerar dinheiro (o famoso capitalismo). Dessa maneira, o governo aceitou a existência desse sistema e há paradas obrigatórias para os transportes para a cobrança da taxa.

Tirando o transporte público precário, existem os “coletivos”, que são carros normais ou um pouco maiores que passam buzinando o tempo todo, principalmente nas paradas de ônibus, para que as pessoas que estejam com pressa entrem e paguem mais caro que os ônibus e mini vans. Eles só param de buzinar quando completa 5 pessoas no carro. Nos casos de carros maiores, têm até cobradores que ficam gritando nas paradas.

Como é um caos dentro do ônibus, pessoas subindo por ambas as portas, cobradores gritando e cobrando o dinheiro da passagem, pessoas em pé empurrando, existem pessoas que se aproveitam. Os casos de roubo e furto mais frequentes acontecem nesse ambiente, dentro e fora dele, tanto de passar e pegar do bolso, da mão, da bolsa ou da mochila, quanto entrarem em bando e fazerem arrastão. Quanto também, pessoas escalarem a parte de fora do ônibus, colocarem o braço para dentro e tirarem o celular da sua mão. Por isso quase ninguém mexe em celular no percurso e se mexe já é com bastante atenção.

No meu primeiro estágio, no primeiro mês eu levava 1h30 para me locomover da minha casa (La molina) até o trabalho (Lince), nos dois meses seguintes morei bem perto do trabalho, ia andando 15 minutos para chegar. No meu segundo estágio, continuei morando no mesmo lugar (Lince) mas pegava um ônibus semi-expresso no Corredor Vermelho e demorava 45 minutos para chegar. Eu atravessava a cidade e ia para um bairro nobre chamado La molina, visivelmente é um bairro mais afastado e caro só pelo fato de você ver vegetação e parques pelo caminho. Só há uma saída desse bairro, o que torna o trânsito horrível (a locomoção de dentro para dentro era tranquila).

Quando eu estava nos meus dias de folga, morando em Lince, consegui uma bicicleta emprestada e foi o máximo! Visitava tudo com ela, andava de bicicleta indo para lugares a 1h20 de distância, ia tomar banho de mar poluído, ia para as festas com ela, ia para exposições, bares, museus, fazer acroyoga, meditação… foi realmente um fator muito importante para a minha qualidade de vida aumentar enquanto eu estava morando em Lima.

Eu aprendi e vivi muito naquela cidade, mudou muitas coisas dentro de mim e na minha visão de ver o mundo. Lutei bastante no meu dia a dia, enfrentei situações que me deram muito medo, passei por situações surpreendentes e fiz amizades muito queridas. Com tudo isso que eu narrei aqui, é um país que eu voltaria, pelas pessoas, pelos lugares turísticos e pelo tanto que ainda tem que mudar, mais uma vez vejo a semelhança com o Brasil.

                                                                                                      Brasília, maio 2020