Victor Bezerra

Victor é aluno do Curso de Letras em Licenciatura de Língua portuguesa e espanhola na Associação de Ensino e Cultura Pio Décimo, em Aracaju SE

Homero é autor da Odisseia, obra clássica da literatura mundial. O lançamento da obra aconteceu no século VIII a.C.  Edição utilizada, Penguin, 2011.

Neste texto, iremos falar sobre a Odisseia, obra que dá continuidade a Ilíada, atribuídas ao grego Homero. Trata-se da trajetória do retorno de Odisseu ao lar, após a grande Guerra de Tróia. Narrada em 24 cantos, que asseguraram a permanência da obra e a considerando como obra cânone da literatura ocidental, assim, tornou-se uma das obras mais aclamadas da história, servindo de inspiração ou argumento para criação de personagens de outras obras literárias, bem como foi adaptada para outros suportes, como a televisão e o cinema.

Voltando para a história, temos então na epopeia um personagem principal, Odisseu, este anseia pelo retorno ao seu lar, onde sua maior ambição naquele momento é rever e abraçar seus familiares e amigos, principalmente sua esposa, seu pai e filho, Penélope, Laertes e Telêmaco. Contudo, Odisseu é pego de surpresa por uma série de desafios e aventuras que atrasam este retorno em mais sete longos anos. Isso ocorre, inclusive, por decisão dos deuses, pelo fato de Odisseu ter desafiado Poseidon, rei dos mares, e ter dito em tom audacioso que os deuses não são nada. Posseidon possesso pela arrogância de Odisseu, resolve tornar essa viagem a mais árdua possível, colocando inúmeros desafios inesperados ao longo de seu caminho de volta para casa.

Neste início da obra, não somos apresentados a Odisseu, e sim introduzidos à Ilha de Ítaca, cidade natal de Odisseu, onde também está o seu filho Telêmaco, junto de sua esposa Penélope. Ambos se encontram desesperados dado ao sumiço de Odisseu, que após dez anos, todos os heróis da Guerra de Tróia já tinham retornado, menos o Odisseu.

Em Ítaca, com todo esse período de desaparecimento de Odisseu, as pessoas da ilha começam a crer na possibilidade de morte, com isso, sua esposa Penélope começa a se deparar com a vasta quantidade de pretendentes da Ilha de Ítaca. Isso ocorre, principalmente, pelo fato de que muitos homens começam a se interessar pela fortuna de Odisseu em meio ao seu desaparecimento inexplicável. Paralelo a isso, se encontra Odisseu, preocupado com a grande probabilidade disso estar acontecendo em sua ausência.

Entretanto, esses pretendentes que já esperavam a dez anos Penélope tomar uma decisão sobre com qual homem deverá se casar para ocupar o lugar de Odisseu, não contavam que Penélope bolasse um plano muito bem articulado.

Este plano de Penélope é tecer uma mortalha para seu sogro, simbolizando assim, a morte de Odisseu, então, na manhã seguinte, ela começa a tecer a mortalha, contudo, durante a noite ela desfaz todo o trabalho realizado ao longo do dia. Assim, adiando essa escolha por mais tempo.

Portanto, no começo do livro acompanhamos Odisseu, nesse início temos o prelúdio, o canto I, que contém: “A assembleia dos deuses”, onde a deusa Atena se dispõe a Zeus, para proteger Odisseu, em sua trajetória de retorno para casa. Atena se disfarça e vai em busca de Telêmaco, com o intuito de incentivá-lo a sair em busca de seu pai.

Na primeira parte, vemos então, a viagem de Telêmaco em busca de Odisseu, onde somos apresentados à Ilha de Ítaca. Encorajado pela deusa Atena, vemos o filho de Odisseu em busca de informações sobre o paradeiro de seu pai, indo atrás de pessoas influentes, inclusive, em busca de reis que poderiam ter algum tipo de pista sobre o paradeiro de Odisseu.

Nós só seremos apresentados a Odisseu a partir do canto V do livro, onde Odisseu se encontra preso pela deusa Calipso na ilha de Ogígia.  Calipso, deusa que o mantém aprisionado por todos estes sete anos. Calipso era uma ninfa do mar, muito sedutora e caprichosa, seu nome significava dissimuladora.

Na segunda parte, entre os cantos V e VIII, começamos então perceber como Odisseu fará para conseguir fugir dessa ilha, após muito tempo tentando incansavelmente sair dela. Ele consegue obter a liberdade através da ordem dos deuses, pois Zeus enviou Hermes para ordenar a Calipso que o soltasse imediatamente Odisseu. Após ser solto, Odisseu parte em direção a ilha de Feácios.

Na terceira parte, é quando ele finalmente chega à ilha de Feácios, por volta do canto IX e XII, onde ele começa a contar para o povo toda sua história, e tudo o que aconteceu a ele pós-guerra de Tróia.

Na quarta parte, no canto XIII, com a ajuda dos Feácios Odisseu consegue, enfim, retornar à Ilha de Ítaca. Transcorre também nessa parte, a revelação de Atena a Odisseu, contando a ele que foi ela quem o protegeu durante todo o seu trajeto de retorno para casa. Atena então, propõe um plano para Odisseu, e ele aceita.

Atena lhe conta que ao chegar em Ítaca, ele irá se deparar com mais um grande problema, que é enfrentar os pretendentes de Penélope. Atena lhe informa também, que, eles estão consumindo toda sua fortuna em sua ausência. É nessa parte, que Telêmaco retorna à Ítaca, e reencontra seu pai Odisseu, onde os dois, mais a ajuda de Atena, tramam um plano para derrubar os pretendentes de Penélope. Isso transcorre durante os cantos XIV, XV e XVI.

Na quinta parte, no canto XVII, Telêmaco retorna para o palácio, e lhe faz um breve resumo para Penélope, sua mãe, comentando sobre sua viagem em busca de seu pai. Paralelo a isso, Odisseu também vai em direção ao castelo. Com a ajuda de Atena, se disfarça em forma de mendigo, para passar despercebido, e é insultado pelos pretendentes de Penélope, mesmo querendo reagir, não o faz.

Durante o canto XVIII, enquanto Odisseu mantém seu disfarce de mendigo, um outro mendigo de Ítaca, tenta expulsá-lo do palácio com base em ameaças. Odisseu se sentindo ofendido, aceita o duelo. Odisseu surpreende a todos ali presentes, e nocauteia o mendigo desferindo um só golpe.

É no canto XIX, que Odisseu finalmente se reencontra com sua amada esposa, Odisseu ainda sob disfarce reencontra Penélope, e profetiza seu próprio retorno ainda naquele ano para sua esposa, esta cai em prantos e ordena que banhem Odisseu, acreditando ser um mendigo. No entanto, Euricleia, a criada que é designada para tarefa, ao notar uma cicatriz na perna de Odisseu, o reconhece instantaneamente. Euricleia, foi na infância de Odisseu sua ama de criação. Odisseu confirma o fato, mas pede segredo por hora a sua ama de criação, Euricleia concorda em guardar o segredo de Odisseu.

No dia seguinte, já no canto XX, Odisseu se encontra pensando a todo momento em se vingar contra os pretendentes de Penélope, preocupado com o fato de estar em uma luta contra um número muito maior de adversários, logo, teria de enfrentar muitos pretendentes de sua esposa. Atena aparece novamente para Odisseu, e profetiza que, com sua ajuda, Odisseu sairá vencedor contra os pretendentes, com isso Odisseu ganha mais confiança.

A sexta parte e última parte, no canto XXI, se inicia com Penélope propondo um concurso para seus pretendentes: A prova do arco. Venceria a prova e casaria com Penélope, o pretendente que conseguisse envergar o arco atirando uma flecha entre 12 círculos, esse ardo pertencia a Odisseu, e foi deixado por ele em casa, antes de partir rumo a guerra de Tróia.

No canto XIX, ocorre o concurso pela mão de Penélope em casamento. Após inúmeras tentativas de muitos pretendentes de Penélope, todos esses não conseguindo realizar a tarefa, Odisseu se oferece para tentar, os pretendentes o repudiam, e pedem para que este não participe, mas vendo aquela situação, Penélope e Telêmaco decidem apoiar Odisseu, e ele consegue participar da prova.

No canto XXI, Odisseu se prepara para executar à prova, e com extrema destreza executa a prova com uma facilidade absurda. Após isso, faz sinal para que seu filho Telêmaco vá até ele, este obedece, e então, com Telêmaco ao seu lado, e em posse de um arco, e sua espada, ambos se preparam para atacar os pretendentes.

Prontos para o ataque, Odisseu faz o primeiro ataque disparando uma flecha contra os pretendentes, esses quando perceberam que estavam sendo atacados, tentaram se utilizar de qualquer arma que fosse, porém sem sucesso. Quem os arma é um antigo servo de Odisseu, Melântio. Com os pretendentes armados, e em maior número, contra-atacam Odisseu. Com a batalha no clímax, Atena aparece mais uma vez para Odisseu, e o enche de força, e vigor.

É no canto XXII, onde Odisseu tomado da coragem e força que recebeu de Atena no canto anterior, de maneira sagaz e impiedosa derrota todos os pretendentes de sua esposa. Após isso, Odisseu ordena a sua serva Euricleia, a que outrora fora ama de criação de Odisseu, que ponha um fim em todos aqueles cadáveres de pretendentes. E, pergunta também a ela, quais de suas servas o traíram em sua ausência. Ela aponta as servas que foram apoiadoras dos pretendentes de Penélope. Telêmaco as executa.

No canto XXIII, após Odisseu ter saído vitorioso de sua batalha contra os pretendentes, reencontra sua esposa. Odisseu então percebe que Penélope está desconfiada quanto veracidade de que aquele, que ainda como mendigo, era seu marido. Odisseu então, conta-lhe detalhes sobre seu quarto à Penélope. Então, Penélope, acredita que aquele realmente é seu marido, e que realmente retornou para casa. Odisseu faz um breve resumo sobre sua jornada de retorno para casa.

O último canto desta obra, XXIV, se inicia com todas as almas dos pretendentes de Penélope contando ao deus Hades como tinham sido mortos, contam a Hades que foram gananciosos em vida, e foram mortos por Odisseu em vingança pelas traições cometidas. 

No dia seguinte, após sua vitória sobre os pretendentes, Odisseu vai até seu pai, Laertes. Seu pai finalmente o reconhece através de sua cicatriz de infância na perna, a mesma que o entregou a Euricleia, é tomado de emoção ao rever finalmente seu filho, e lhe conta sobre a sua batalha na noite anterior contra os pretendentes de Penélope. Enquanto isso, familiares dos pretendentes que foram mortos por Odisseu, planejam se vingar de Odisseu pela perda de seus familiares.

Odisseu percebe essa movimentação, então ele e seu pai, se preparam novamente para mais uma batalha. No entanto, Atena, mais uma vez, ajuda Odisseu, propõe que façam um tratado de paz, ambos os lados consentem, estabelecendo, assim, sob o governo de Odisseu, a paz novamente na Ilha de Ítaca.

O que aprender com A Odisseia: 

Dentre todas as lições que poderíamos extrair desta obra magnífica e preciosa, vamos falar sobre a primeira grande lição, que retrata como é natural do ser humano partir, e é também natural retornar, mesmo que para isso, seja necessário sofrer. Como foi dito no início deste texto, Odisseu em sua longa viagem de retorno para casa, após a grande guerra de Tróia, é mantido como refém por 7 longos anos na ilha da deusa Calipso, a deusa encantada pela força e beleza de Odisseu, estava tentada a fazer com que Odisseu se apaixonasse por ela, e permanecesse ali pela eternidade ao seu lado, porém sem sucesso em suas tentativas de seduzi-lo.

Odisseu, se encontra ‘preso’ em uma ilha paradisíaca, com uma deusa linda, carinhosa, sedutora, e desejando seu amor. No entanto, vive infeliz, ele vai todas as noites a beira do mar para chorar; chorar com saudade de sua esposa, de seu filho e de seu pai. Pensando em quando, e, se irá reencontrá-los novamente. 

Até que Hermes chega à Ilha, e conta a Calipso que Zeus ordenou que soltasse Odisseu, naquele momento, Calipso sem querer que Odisseu vá embora, oferece-lhe então a vida eterna, acompanhada da juventude para tentar persuadi-lo a ficar na ilha, mas Odisseu sem pestanejar, nega ao pedido.

Tudo isso ocorre, pelo forte desejo de retornar para casa, ele abre mão de uma vida que seria a vida dos sonhos dos homens ‘mortais’ dentro da obra; abre mão de poder viver numa ilha linda, com uma deusa encantadora, podendo ser jovem pela eternidade; e sem pensar, vai em busca do considerado ‘comum’, vai em busca do que realmente importa para ele: o amor, a família, estar com as pessoas com quem realmente amamos, pois não há bem material, poder aquisitivo ou econômico que pague o preço de ser livre, de estar com quem amamos. Refletimos então, é natural a saída do ser humano de sua zona de conforto, pois ele sente a necessidade de partir para conseguir suas conquistas, suas vitórias, seus títulos etc., mas ele sente dentro de si, que, mesmo que obtivesse de ‘tudo’, inclusive a vida eterna, nada preencheria o vazio deixado dentro de si, surge então, a necessidade de retornar para o que realmente importa.

Aracaju, maio de 2020