Luiz Basilio Rossi

Texto elaborado em julho de 2018 e atualizado em junho de 2020.

No momento em que se aproximam as eleições presidenciais de outubro de 2018 não se conhece candidato com proposta sobre o papel que o Brasil deve ter na geopolítica mundial. 

A exclusão da geopolítica mundial é uma tradição, mas uma tradição que é uma opção da burguesia brasileira. O empresariado nativo está amarrado aos capitalistas dos Estados Unidos e da Europa Ocidental. Isso explica porque todas as vezes que um presidente da República desenvolve política independente e altiva no cenário mundial, entra em choque com a política tradicional brasileira de subserviência aos Estados Unidos nos últimos 100 anos. Governos com pautas democráticas e nacionalistas nunca prosperaram no Brasil. A pressão é constante, terminando com golpes de Estado. Aconteceu com os ex-presidentes Vargas, Goulart e Dilma. As tentativas de destituição de Juscelino não prosperaram. 

A burguesia brasileira não tem interesse em ser protagonista na geopolítica mundial. Uma das razões do golpe de Estado 2016 contra Dilma Rousseff foi essa necessidade de permanecer como sócio menor dos Estados Unidos. Nunca de elevar o Brasil à condição de protagonista no plano internacional. O governo Temer, fruto desse golpe de Estado, é a expressão máxima na execução dessa política de subserviência aos ditames da classe dominante brasileira, atendendo aos interesses norte-americanos e os das potências capitalistas. 

O que se nota é um descuido, ou melhor, um descaso, em relação a esse assunto no Brasil. A maioria dos brasileiros tem como universo de interesse os Estados Unidos e a Europa ocidental. Os governos em geral não tem se ocupado desse assunto. A mídia hegemônica praticamente só expressa a posição do centro do capitalismo. O Congresso nacional se preocupa mais com questões internas e, frequentemente, com discussões políticas provincianas. As universidades não têm a quantidade necessária de programas que permitam a pesquisa e a formação de profissionais habilitados na área da geopolítica. Essas razões explicam por que o Brasil permanece alheio ao desdobramento do que acontece na disputa dos espaços de poder no mundo. 

O artigo de José Eustáquio Diniz Alves, publicado na Newsletter IHU Adital, de 12/06/2018, denominado Fraco B – RIC – S, forte RIC: o triângulo estratégico que desafia os Estados Unidos e o Ocidente, mostra a ausência do Brasil nos acontecimentos que estão mudando a geopolítica mundial. O artigo demonstra que o centro do mundo está rapidamente mudando do Ocidente para a Eurásia, tendo como líderes Rússia, Índia e China – os RIC da primeira letra dos respectivos nomes. São os dois países mais populosos do mundo – China e Índia – e o mais extenso – Rússia.  A Eurásia é a região que se desenvolve mais rapidamente no mundo. Conta com uma área de 54.8 milhões de km2 e uma população de quase 5 bilhões de habitantes.

Esses três países desafiam os Estados Unidos sob o comando da China. Desejam contar com espaços que garantam matéria prima e desaguadouro para suas mercadorias. Estão presentes na África, na América Latina e no Oriente Médio. São fortes militarmente; possuem artefatos nucleares. Amarram acordos com todos os países da Eurásia procurando contar com um espaço de influência que lhes permita o crescimento contínuo. Os produtos exportados têm cada vez mais tecnologia de ponta e maior valor agregado. Ficou para trás os anos em que a China só exportava mercadorias descartáveis. 

O Brasil é o B, a África do Sul o S, respectivamente primeira e última letra do acrônimo BRICS. Nos últimos 10 anos Brasil e África do Sul perderam espaço nos BRICS, restando apenas os RIC no comando. Golpes de estado e destituição de presidentes nos dois países explicam o papel secundário que têm atualmente. 


No momento das eleições presidenciais no Brasil é extremamente importante que os eleitores exijam de seus candidatos que incluam em seus programas posturas políticas de independência do Brasil e ativa no cenário internacional. Estudar a questão geopolítica é vital para o crescimento do nosso país. 

A China está penetrando rapidamente no Brasil através de investimentos em áreas estratégicas como, por exemplo, na aquisição de plantas energéticas. Veículos, computadores e outros produtos de alta tecnologia já estão presentes no cotidiano do consumidor brasileiro. 

Será que nossa sina é contar em futuro próximo com dois amos? Não basta um? Ou será um novo?

Será que o povo brasileiro vai dar um basta, um dia, a essa nossa tradicional subserviência e descaso em relação a essas questões mundiais? Será que a próxima eleição dará um novo rumo às discussões sobre a inserção do Brasil na geopolítica mundial?

Brasília, julho de 2018

Atualização em 05 de junho de 2020:

Com a eleição de Jair Bolsonaro em outubro de 2018, a inserção brasileira na geopolítica mundial deu um salto – mas, para trás. O eleito e sua equipe, tendo à frente um singular Ministro das Relações Exteriores do Brasil, têm mostrado como se aconchegar ao amo tradicional, os Estados Unidos, pedir as bênçãos de Israel para a defesa da civilização ocidental “cristã” e fustigar países como a China. Esse cuidado, de início, esteve presente, mesmo que formalmente, no vice-presidente da República, o general Mourão.

Após 18 meses de governo Bolsonaro, recheado de militares, não apenas da reserva, mas também da ativa, o Brasil, cada vez mais se submete aos Estados Unidos. Assim, a questão geopolítica se transforma crescentemente em uma geopolítica governamental com apenas um parceiro, o que nega, evidentemente a geopolítica, que é a disputa do país no cenário internacional, mostrando competência e força, para se situar em boas condições para influenciar e negociar.

O exemplo mais esquizofrênico dessa submissão, que já raia ao absurdo, aparece no blog Brasil 247, no dia de hoje: “Bannon, deve nomear amigo como assessor especial do Itamaraty”: Gerald Brant. Se o Brasil já era subserviente aos Estados Unidos, após essa notícia deve se transformar em simples colônia.

Steve Bannon, norte-americano,foi assessor especial do presidente Trump. Ele foi um dos responsáveis pela eleição dos presidentes norte-americano e brasileiro, utilizando as mídias sociais e o whatsapp para disparar milhares de notícias falsas (fake news), que foi uma das razões para a eleição dos presidentes dos Estados Unidos e do Brasil. Steve Bannon é um populista de extrema direita, atuando no mundo todo.

Essa política e, ainda mais essa indicação de Gerald Brant como assessor especial do Itamaraty (área do governo que cuida das relações com os outros países), indica que o Brasil deixa aos cuidados dos Estados Unidos orientar sua política externa.

Adeus independência e soberania!!!                                                      

Brasília, 05 de junho de 2020