Maria José dos Santos Rossi

O Memorial de Maria Firmina dos Reis nos mostra uma bibliografia, a biografia, estante de Obras Raras, Eventos, Biografia e a sua Produção na Imprensa, nos Periódicos, Seus Livros e Poemas no século XIX.

Maria Firmina é a única mulher dentre os bustos da Praça do Panthéon que homenageiam importantes escritores maranhenses, em São Luís.


Ligeira biografia

A autora Maria Firmina dos Reis nasceu em São Luís do Maranhão em 11 de março de 1822. Por causa de doenças foi registrada em 21 de dezembro de 1825. Sua certidão consta sua condição de “filha natural” de Leonor Fellipa dos Reis, uma escrava alforriada pertencente ao Comendador Caetano José Teixeira, não constando o nome do pai.

Sendo afrodescendente e nascida fora do casamento, vivendo numa sociedade extremamente segregada, tanto do ponto de vista social como racial aos cinco anos ficou órfã e teve que se mudar para a casa de uma tia materna na vila São José de Guimarães no município de Viamão no continente, separado da capital pela baía de São Marcos. Segundo os estudiosos a formação na casa da tia foi crucial para a sua formação.

Tendo se formado como professora exerceu por muito tempo o magistério. De tão bem sucedida recebeu título de “Mestra Régia”. Aos 25 anos, em 1847, venceu o concurso para a cadeira de Instrução Primária na cidade de Guimarães – Maranhão, situação informada pelo seu biógrafo Nascimento Morais Filho, segundo o site (https://letras.ufmg.br/ literafro). Ao se aposentar no início da década de 1880, fundou na localidade de Maçaricó a primeira escola gratuita para meninas e meninos o que causou grande escândalo no estado e no país e depois de dois anos e meio ela teve que fechar a escola. Na época não era crível as meninas irem para uma escola, em especial uma escola mista.  Às mulheres não era facultado irem à escola. Somente lhes era permitido se prepararem para o casamento. Costura, piano e prendas domésticas era o permitido para meninas de posse. As outras mais pobres não tinham acesso a esse aprendizado. Apenas trabalhar e esperar marido.

Sua produção literária

Na imprensa local, a sua presença era constante, colaborando assiduamente com vários jornais literários, como “A verdadeira Marmota, Semanário Maranhense, O Domingo, O país, Pacotilha, O Federalista e outros” segundo Muzart, Zahidé Lupinacci (Orgs.) Escritoras brasileiras do século XIX. Florianópolis: Ed. Mulheres; Santa Cruz do Sul: EDUNISC Editora, 1999.

Sua vida foi dedicada a ler, escrever, pesquisar e ensinar e teve participação relevante como cidadã e intelectual ao longo dos 95 anos de vida. Atuou também como folclorista, compositora, sendo responsável pela composição de um hino à abolição da escravatura, abolicionista que era. Ela escreveu três livros de narrativas de ficção. O seu romance “Úrsula” de 1859, foi o primeiro romance publicado por uma mulher afrodescendente em toda a América Latina e o primeiro romance abolicionista de autora feminina de língua portuguesa. Esse livro aborda a vida dos africanos aqui escravizados a partir do ponto de vista do escravo. Foi antecessora de escritores abolicionistas, com a perspectiva de ver o processo da escravidão do ponto de vista do sofrimento das escravas e dos escravos, narrados pelos dois personagens escravos no seu livro Úrsula.

Também se preocupou com a temática indigenista, publicando em 1861 “Gupeva” em capítulos ao longo da década de 1860. Escreveu ainda o conto “A escrava” em 1887 um texto abolicionista empenhado em se inserir como peça retórica no debate do momento em torno da abolição desse regime escravocrata.

Escreveu poemas um tanto melancólicos na sua subjetividade diante daquela realidade oitocentista, marcada pelo patriarcado escravocrata que se constituía em um problema para a sensibilidade da autora.

Maria Firmina dos Reis nunca teria se casado. Morreu em 1917 aos 95 anos pobre e cega, no município de Guimarães – Maranhão. Não se tem conhecimento de fotografias e os seus documentos foram extraviados. Na internet circula uma foto de outra mulher como se fosse dela. Mas descobriu-se que a foto na internet é da escritora gaúcha Maria Benedita Borman, cujo pseudônimo é “Délia”, como se fosse de Maria Firmina dos Reis. Há, no Maranhão uma escultura feita a partir de um retrato falado colhido pelo seu biógrafo. Em 2017 por ocasião do seu centenário de morte seus livros foram recuperados e relançados pela Academia Ludovicense de Letras, de São Luís, com a organização de Dilercy Aragão Adler (ver site citado acima).

Considerações Finais

Maria Firmina apontou o caminho do romantismo como atitude política de denúncia de injustiças, arraigadas na sociedade patriarcal, dando voz aos negros na perspectiva afrodescendente feminina. Diferentemente da literatura que se iniciara na época, pois era 1859, momento inicial da prosa de ficção, cuja preocupação era com a formação da nacionalidade brasileira. Em Maria Firmina a preocupação era com os sentimentos dos negros e negras escravizados como sendo pessoas de boa índole, ou não, demonstrando assim o seu pertencimento ao grupo.

O seu lugar de fala é compreensivo e solidário com a situação dos escravizados e logo ela estabelece o seu pertencimento ao universo de cultura e marca o território que é a base do seu romance Úrsula.

A sua sensibilidade feminina como afrodescendente narra o drama de uma jovem branca, pura e de sua desafortunada mãe, demonstrando que o domínio masculino estava arraigado em todas as camadas sociais.

O drama construído no romance constitui-se, de um lado, o patriarcalismo e de outro, uma valorização das características de personalidade dos afrodescendentes demonstrando a sua humanidade sofrida e condoída já que foram retirados de seus lares, de sua pátria, de suas famílias; a diáspora africana.

Desta forma, Maria Firmina rompe com o estereótipo racial da conotação negativa do negro no Brasil que via o negro apenas como força de trabalho ou com o papel de porta voz do ódio rancoroso dos quilombolas. Assim ela favorecia a crítica ao regime, sem contudo agredir demais as convicções dos leitores brancos. O comportamento da autora era pautado pelos valores cristãos para propagar seu ideário: condenar a escravidão como instituição.

Assim, ela apresenta dois personagens masculinos que encarnam os predicados morais, um branco e um negro, constituindo a forma de demonstrar que todos somos iguais sejamos brancos ou negros, colocando-os em pé de igualdade do ponto de vista moral e com isso, a escravidão era um absurdo. O senhor branco concede alforria ao negro. Mas tudo isso é questionado por uma outra personagem velha escravizada dando maior densidade ao texto.

A velha escrava, recordando a sua terra natal, a sua liberdade, a sua família como um nó coletivo, como um sujeito de rememoração, uma crítica a escravidão; é a memória ancestral com a consciência da subordinação; ela constitui-se no alter ego da escritora. O negro livre não é livre porque está submetido ao branco.

Ela recorda que foi capturada em sua terra natal ainda no continente africano por dois homens que a levaram até o navio negreiro onde foi aprisionada.

“Quando me arrancaram daqueles lugares, onde tudo me ficava – pátria, esposo, mãe e filha, e liberdade! Meu Deus! O que se passou no fundo de minha alma, só vós o pudestes avaliar! (…)”

E continua,

“Meteram-me a mim e mais trezentos companheiros de infortúnio e de cativeiro no estreito e infecto porão de um navio. Trinta dias de cruéis sofrimentos e de falta absoluta de tudo quanto é mais necessário à vida, passamos nessa sepultura até que abordamos as praias brasileiras. Para caber a mercadoria humana no porão, fomos amarrados em pé e, para que não houvesse receio de revolta, acorrentados como animais ferozes das nossas matas, que se levam para recreio dos potentados da Europa”.

E ainda,

– Tu! Tu livre? Ah! Não me iludas! – exclamou a velha africana abrindo uns grandes olhos. (…) Liberdade…eu gozei em minha mocidade! Continuou Suzana com amargura. Túlio, meu filho, ninguém gozou a mais ampla, não ouve mulher alguma mais ditosa do que eu.”

A voz do escravizado é ouvida pela primeira vez na literatura brasileira. Essa voz é uma voz política invertendo os papéis, convertendo o europeu no bárbaro. Essa é uma acusação racista.  O romance intercala personagens brancos bons e brancos ruins, assim como negros bons e negros ruins.

“(…) pouco vale esse romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e conversação dos homens ilustrados”.

Com esta afirmação Maria Firmina denuncia o lugar da mulher e sua condição social: não estudou na Europa, não dominava outros idiomas, além de ser mulher brasileira. Ainda afirmou que seu romance era “mesquinho e humilde livro” e que mesmo sabendo do “indiferentismo glacial de uns” e do “riso mofador de outros”, desafiou: “ainda assim dou a lume”.

Assim, a velha escravizada era uma voz antiescravidão trazendo à tona as barbáries do europeu, a romancista era, da mesma forma, uma voz antiescravidão assumindo o seu lugar de afrodescendente, denunciando a estrutura do tráfico  negreiro. A velha escravizada constituía-se no alter ego da romancista.

Ela mostra também a crueldade do branco, tio da Úrsula que, em assassinando o marido da sobrinha, deixa-a louca, morre e vai a óbito.

Para maior compreensão da trama, o leitor deve ler o livro “Úrsula”, de Maria Firmina dos Reis, atualmente com várias edições, para a compreensão do preconceito deixado pela estrutura escravagista em relação aos negros e mulatos, hoje na nossa sociedade.

Referências

  1. Memorial de Maria Firmina dos Reis (contém indicação de vários estudos sobre a romancista). Faz parte da leitura antirracista da UFRGS para o vestibular de 2021.
  2. Wikipédia, enciclopédia livre Úrsula, romance de Maria Firmina dos Reis, Editora San’Luiz, ’1859, São Luiz, Maranhão. (https://cadernosdomundointeiro.com.br/pdf/Ursula-2a-edicao) consultado em 10/06/2020.
  3. Pinto-Bailey, M.C.F, University,W, and Lee, Virginia Estados Unidos,  literafro (http://www.letras.ufmg.br/literafro,  “Na contramão: A narrativa abolicionista de Maria Firmina dos Reis” Critica(/literafro/autoras/29/critica de autores feminios/316, de 16 de janeiro de 2018 consultado em 10/06/2020.
  4. Luz, N.A, (https:/www.geledes.org.br/wp-content/uploads/2015/07 /maria bormann_jorge.jpg informa que a foto é de Maria Bormann e não de Maria Firmina dos Reis.
  5. Literafro/autoras/322-maria-firmina-dos-reis (contém grande bibliografia sobe a romancista).
  6. Machado, M.H.P.T. “Maria Firmina dos Reis: escrita íntima na construção de si mesmo” (htpp:/orcid.org/oooo-ooo2-8030-1705) Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil – consultado em 10/06/2020.

Junho de 2020