Luiz Rossi COMENTA:

Rosana Pinheiro-Machado escreveu “Amanhã vai ser maior. O que aconteceu com o Brasil e suas possíveis rotas de fuga para a crise atual”. São Paulo, Planeta, 2019.

Sobre a autora

Rosana Pinheiro-Machado é antropóloga. Leciona no Rio Grande do Sul e numa Universidade da Inglaterra. A autora fala de dois lugares. Um, “(…) é o de antropóloga, professora e pesquisadora”. O seu trabalho está centrado na “sociologia dos movimentos sociais”. Também se preocupa, desde 1999, “pela pesquisa de campo a respeito de questões de classes populares”. De  2009 a 2018, junto com a também pesquisadora Lucia Mury Scalco, fizeram pesquisas na periferia de Porto Alegre. Acompanharam a melhoria das condições sociais das pessoas mais pobres, via a “inclusão pelo consumo e (através da) subjetividade política” durante os governos do PT. Com a crise econômica que se manifestou a partir de 2014, a população pobre diminuiu de renda. Como a pesquisa atravessou vários anos, as pesquisadoras puderam constatar a mudança de comportamento político de parte dessa população de periferia, passando de um apoio mais efetivo ao PT para a insatisfação que desaguou, em muitos casos, para o candidato Bolsonaro, em 2018 (p. 13).

O segundo lugar da fala da autora, é sua condição de “intelectual pública e feminista”. Desde as Jornadas de junho de 2013 tem viajado pelo Brasil para realizar palestras e discussões. “Minha aproximação com a juventude periférica de Porto Alegre e São Paulo tem sido fonte importante de inspiração (…)”. Ela afirma mais adiante: “Se há um fio que costura minha atuação como acadêmica e intelectual pública é o gosto por gente de carne e osso, por suas histórias, contradições, agonias, seus afetos e sonhos” (p. 13).

A divisão do livro e outras questões

Para fins de análise, o livro será dividido em cinco partes para publicação, respeitando as várias divisões que a autora propôs. Prelúdio (p. 15-63); Ato I – O avanço da direita (p. 65-94); Ato II – O recuo da esquerda (p. 95-131); Ato III – Bolsonarismo (p. 133-162); Réquiem da desesperança (p. 163-190). Cada uma das partes está subdividida.

Os destaques da autora serão expressos da forma como aparecerem no livro. As nossas citações aparecerão quando expressamente informadas no texto como Nosso negrito, itálico, etc.

PRELÚDIO. Parte 1

O neoliberalismo aumenta a desigualdade social

A crise que começa em 2007 nos Estados Unidos se espraia em todo mundo. Inicialmente econômica se transformou em crise política. Afetou a totalidade da população mundial, variando de país a país. Foi, contudo, uma crise que beneficiou poucos e afetou a maioria dos trabalhadores e dos pobres no mundo. O slogan “Nós somos os 99%” se referia ao impacto que o neoliberalismo via políticas de austeridade atingiam as pessoas.  Nos Estados Unidos (…)” fazia referência à crescente desigualdade de distribuição de renda no país a favor dos cidadãos mais ricos, o “1%”           (p. 19)

Rosana afirma que poucos estavam satisfeitos com a distribuição da riqueza; poucos estavam felizes “com a corrupta relação entre Estado e corporação”; a solução da crise via política de austeridade aumentava a desigualdade social; os protestos eram contra a globalização de vez que, além de aumentar a pobreza, tornava a democracia mais precária (p. 18)

Para ela, essa situação ensejou o aparecimento das primaveras políticas em vários países do mundo cujos manifestantes exigiam melhores condições de vida e mais respeito à ordem democrática. Havia um entusiasmo dos manifestantes contra a ordem vigente. Explodiram movimentos em muitos países reivindicando melhores condições de vida e mais democracia. Inicialmente eram movimentos progressistas, de esquerda. “Das primaveras de ocupações à ascensão da extrema direita, as respostas políticas e econômicas para essa insatisfação generalizada foram extremas, e não houve um vencedor único; ainda há muito em disputa no mundo hoje” (p. 18) A extrema direita não é consequência dos movimentos das primaveras. Ela vinha se organizando desde 2000. Aproveitou a efervescência existente para se inserir nos movimentos (p. 24).

Os trabalhadores consideram que a globalização do capital, isto é, da posse da riqueza pelas elites econômica, política, mediática, não foi realizada para beneficiá-los. Essa globalização beneficia uma parte ínfima da população, no Brasil em torno de 1%, isto é, de aproximadamente 21% num total de mais de 200 milhões de habitantes. Ao se manifestarem, esses trabalhadores querem mais políticas nacionais, isto é, que os governos do país se preocupem mais com eles e que desenvolvam políticas para a saúde, a educação, a segurança e a melhoria dos salários. Significa para muitos desses manifestantes que os discursos do início do século de que a globalização melhoraria a vida de todos não aconteceu. Ao contrário, uma minoria no Brasil detém a maior parte da riqueza produzida cada ano (p. 62).

As ocupações dão sentido à vida dos participantes

A crise econômica possibilitou “a explosão de ocupações e protestos em massa no mundo todo. (…) Nessa primavera global de protestos foi forjada na rua uma nova geração que busca na atuação microscópica e na ação direta, o afeto radical, a criatividade política e a horizontalidade” (p.18). As ocupações tinham um sentido de estar junto, de superar o individualismo das cidades. Para superar essa situação, era necessário criar um acampamento em que as relações fossem horizontais e não verticais (…) “buscava-se sempre que todos os participantes tivessem o mesmo direito de falar e de se manifestar” (p. 22)

A autora chama “lógica das lutas prerrogativas”, quando o objetivo dos manifestantes era de não reproduzirem a sociedade que desejavam superar. Era necessário que ali, no acampamento, acontecessem relações políticas, econômicas e sociais de acordo com a sociedade que tinham em mente. “Os movimentos, assim, precisam ser um retrato da sociedade que querem construir. Isso significa não postergar nossos sonhos de uma sociedade melhor, mas colocá-los em prática no cotidiano da luta, reinventando os sentidos do bem comum e do coletivo” (p. 21).

Os protestos não são um meio, mas um fim em si mesmo. (…) mais importante era o fato de as pessoas estarem juntas e experimentarem um mundo novo. A natureza radicalmente democrática dos protestos seria uma antítese da natureza desagregadora do trabalho no neoliberalismo, em que o trabalhador muitas vezes tem uma rotina repetitiva, exaustiva e solitária (p. 21). (…) As ocupações urbanas procuravam virar do avesso o individualismo e a chamada racionalidade neoliberal que imperam em nosso cotidiano:  eram um basta à indiferença das multidões anônimas das cidades” (p. 22).

Para Rosana, “o aprendizado político que se tem nas ocupações é corporal, visceral. O corpo mergulha em uma nova possibilidade de existir coletivamente, O efeito não é imediato. (…) esses grandes momentos de efervescência coletiva não se dissipam nas ocupações: eles movem mundos, abalam estruturas e transformam gerações inteiras” (p. 23).

Marx (…) entendia que, que no capitalismo, o indivíduo é despossuído de seu ser, estranho a si mesmo, e vai contra seus próprios desejos: a personalidade é desmembrada, a consciência é desumanizada, a condição de classe é dessacralizada e a vida torna-se entretida pelos apelos mágicos das mercadorias”. Em uma famosa passagem da A ideologia alemã, Marx diz que a cooperação e liberdade andariam juntas em uma sociedade utópica na qual seria possível caçar pela manhã, pescar à tarde e ser crítico literário à noite, sem se tornar nem um caçador, nem um pescador nem um crítico” (p. 23).

Se as manifestações na virada do milênio se concentravam na luta contra a globalização e por justiça no mundo elas possuíam um caráter transnacional; já aquelas que ocorreram no século XXI manifestam (…) “um forte componente de indignação nacional: são a democracia e o bem-estar dos habitantes de cada país que estão sendo reivindicados contra o capital financeiro global, que apenas atua para a sua própria reprodução”.                 (p. 20-21). A autora continua colocando a frase seguinte entre parênteses: “(A propósito, é a extrema direita que saberá ler e aproveitar, de forma oportunista, essa dimensão nacional, bem como a insatisfação generalizada contra a globalização.)” (p. 21).

O papel da internet e das mídias sociais

A internet e as mídias sociais tiveram um papel fundamental na divulgação das posições de cada movimento. Mas, foi a nova direita com recursos fartos e conhecimento técnico que “surfou na insatisfação latente, direcionando-a e organizando-a para o lado do autoritarismo e do conservadorismo”. Utilizou-se de fake news disparadas por robôs, utilizando-se de meios inescrupulosos para difundir suas mensagens mentirosas (p. 24). A esquerda não compreendeu imediatamente o papel da internet e das mídias sociais nessa nova conjuntura, permanecendo na defensiva.

Atualmente para a autora, os movimentos nesse século XXI são ambíguos. Não têm o sindicato por trás que possa orientar e definir palavras de ordem. Nesses movimentos ambíguos as reuniões se fazem via whatsapp e pelas mídias sociais. As pessoas, como não têm comando, reagem contraditoriamente. Para a autora, a esquerda não compreendeu ainda o papel do whatsapp e das mídias sociais na politização da população. “Podem indicar coisas múltiplas” (p. 57).

As Jornadas de Junho de 2013 

As Jornadas de Junho de 2013 propiciaram “a sensação de euforia, de estar vivo, de ter acordado junto com o gigante adormecido. (…) é um sentimento de estar vivo no coletivo, uma espécie de auge da possibilidade da existência social, de transformação, e a esperança, a sensação de que ´é real, está acontecendo`. (…) uma espécie de ´energia vital`. (…) Experimentar a sensação de que nosso ´eu` se funde com a multidão é um caminho sem volta” (p. 28). As Jornadas de Junho geraram “ao mesmo tempo, cisão e coesão da ordem social e política” (p. 29).

As Jornadas de Junho é inclusiva. Muitas questões ainda aparecerão. A autora destaca cinco processos fundamentais para entender o boom das manifestações no Brasil.

Processo 1. O surgimento de cidadãos que querem mais. Para a autora, não existe contradição entre o protesto e estar em boas condições econômicas. Geralmente os protestos ocorrem em sociedades mais ricas e não naquelas em que a repressão está presente. Nos governos do PT houve inclusão pelo consumo e pela via financeira e, mesmo assim, os protestos aconteceram, reivindicando mais benefícios que, para a autora, não é contraditório quando a população está com melhores condições econômicas e sociais (p. 29-30).

Processo 2. A criação de filhos rebeldes. Jovens negros, pobres e indígenas entraram na universidade devido às cotas. Era uma área elitizada pelas classes médias e pelos ricos. Os novos contingentes de alunos tiveram que resistir para ter um lugar ao sol. Essa política do PT foi exitosa. Mas, no momento em que esses novos estudantes e outras pessoas beneficiadas pelas medidas sociais foram às ruas continuar reivindicando, o PT as considerou ingratas, chamando-as de coxinhas. “Ao invés de abraçar e acolher seu filho rebelde, a escolha política do PT foi a negação: os manifestantes eram coxinhas; a nova classe C, ingrata” (p. 30).

Processo 3. A esperança precária. O lulismo cuidou da inclusão financeira e do consumo, mas desleixou os bens públicos. O transporte continuou precário e com preços altos em relação à renda da população mais pobre. “Não foram os 20 centavos: foi também um grito pela melhoria dos bens públicos que são o termômetro de uma sociedade democrática” (p. 31). A Copa do Mundo tornou o Brasil mais conhecido, mas, ao mesmo tempo, mostrou com clareza as relações promíscuas entre o Estado e as corporações (grandes empresas), além desse mesmo Estado, utilizar seu aparelho repressivo para desalojar as populações mais vulneráveis (p. 31).

Processo 4. Os órfãos da governabilidade. Com os escândalos do Mensalão e a guinada do PT para um governo de coalizão, muitos apoiadores deixaram o partido, outros mudaram de partido, além daqueles que passarão a ter uma posição ideológica diferente da do PT. Consideraram-se traídos. A geração que viveu no período da ascensão econômica dos mais pobres devido à política do lulismo não conhecia as lutas e os embates do partido para melhorar a condição social e econômica da população  (p. 31-32). “Os estudantes não fizeram uma defesa aguerrida do governo do PT, e não por falta de capacitação política, mas porque a identidade política formada em torno do petismo é peculiar a uma geração mais velha. O jogo da governabilidade e o fato de ser parte do sistema eram frustrantes para os jovens” (p. 32).

Processo 5. O recalque das elites. Para a autora, o ano de 2013 é diferente do de 2014. Em 2013 havia a insatisfação popular, mas, ao mesmo tempo, os recalcados começaram a sair do armário. Em 2014, por outro lado, a Lava Jato desempenhou um papel fundamental no processo de incriminação política de Lula e do PT. Essa foi uma das razões que permitiram que as elites políticas, econômicas e da mídia hegemônica puderam tirar o PT das disputas. “O Brasil estava iniciando uma profunda transformação em termos de mobilidade, de distribuição de renda e inclusão social e financeira. Lentamente, iniciava-se um processo de insubordinação das camadas populares, que, cada vez mais, tinham acesso a aspectos e ambientes de vida econômica e social que lhes eram negados antes. Num país de cultura serviu como o Brasil, isso se tornou uma afronta. Os lucros dos bancos continuavam exorbitantes e a economia crescia para todos, mas as elites e as camadas médias se viam perdendo privilégios. O poder sobre o qual o Brasil se estruturar por cinco séculos estava sendo minimamente ameaçado, e isso já era demais” (p. 32).

 O caráter das Jornadas de Junho de 2013

As Jornadas expressam um conjunto de manifestações Brasil afora. As manifestações populares eram para que os bens públicos fossem de melhor qualidade. Eram também contra a violência do Estado e o abuso das corporações praticadas durante a preparação da Copa do Mundo que aconteceria em 2014. Os protestos eram, em última instância, por mais democracia e contra o neoliberalismo. A autora vê as Jornadas como um processo que não começou e terminou em um só dia. É importante, também, olhar não apenas para São Paulo, palco de grandes manifestações, mas para outras capitais brasileiras (p. 33). “Por toda essa extensão do evento é importante usar o termo Jornadas de Junho, uma vez ela abarca um ciclo de manifestações radicais que não terminam em 2013” (p. 35).

As Jornadas de Junho encarnavam pautas claramente antiautoritárias, o oposto das propostas da extrema direita que hoje está no poder. “As Jornadas não foram a causa da tragédia nacional. Ao contrário, elas traziam reivindicações essencialmente antiautoritárias” (p. 36). O MPL – Movimento pelo Passe Livre – foi um dos protagonista da luta contra o aumento de 20 centavos no transporte público de São Paulo. Foi um período de intensas manifestações claramente democráticas. Nesse período, a mídia hegemônica sofria também devido à violência policial, “passou a denunciar a brutalidade do controle e a apoiar as manifestações, o que chamou ainda mais gente para as ruas. A repressão policial gerou comoção e foi mais uma fagulha em um país já em chamas. (…) As explosões de passeatas no âmbito nacional aconteciam por uma inspiração e ia se metamorfoseando conforme os diferentes contextos locais” (p. 36-37).

O dia 20 de junho foi único em nossa história. O apoio da Globo, a mensagem de apartidarismo (que foi mal interpretada como antipartidarismo) e a possibilidade de ler aquelas manifestações como uma crítica pura e simples à corrupção do governo do PT constituíram uma janela de oportunidades para as elites se apropriarem das ruas (inclusive do slogan “Vem pra rua”, em princípio usado por grupos de esquerda). O dia 20 foi, talvez, o último dia do resto de nossas vidas em que os polos antagônicos marcharam juntos(p.37 – negrito nosso).

Depois da efervescência coletiva, as peças do sistema ficaram soltas. A esquerda recuou. A direita avançou, abocanhou e ganhou de lavada. O MPL decidiu não chamar mais atos depois da apropriação dos protestos do dia 20. Seja no nível municipal de São Paulo, então governada por Fernando Haddad, seja no nível federal, o PT leu o diagnóstico que lhe estava sendo dado, optando majoritariamente pela tese negacionista: marchas coxinhas, marchas golpistas” (p. 38-39).

A autora considera que o PT não teria tido condições de fazer frente às articulações da direita e da extrema direita que se uniram para impedir a candidatura de Lula à presidência da República, realizar o impeachment de Dilma e massificar a acusação de que o PT era o partido mais corrupto da história. Nesse acordo entre a direita e a extrema direita quem vai prevalecer é a primeira, inclusive com a eleição de Bolsonaro para presidente da República (p. 40).

A autora também considera que a existência de uma extrema direita no poder, com suas brutalidades, desmanche do país, pode ser benéfico visto que abre as possibilidade da população perceber que nunca houve democracia no Brasil que beneficia a maioria da população. Ela afirma: “(…) talvez seja também uma oportunidade de romper de forma definitiva a falsa imagem de um país cortês no qual imperam a democracia racial e a harmonia popular. Nunca imperaram(p. 40 –  negrito nosso).

A segregação na sociedade brasileira. A revolta dos rolezinhos

Na virada de dezembro de 2013 para 2014 surgiram os rolês. Eram jovens da periferia que seguiam para os shoppings, palácios do consumo das classes médias e ricas. Queriam passear, se divertir, mostrar o tênis, a calça de marca, objetos comprados no período lulista, de ascensão econômica e social dos mais pobres. Não queriam assustar. A reação dos shoppings, contudo, como o do Leblon, no Rio de Janeiro, foi fechá-los. Não admitiam, mesmo que fossem comprar, gastar dinheiro, passear pelo shopping. Essa era uma área exclusiva das classes médias urbana e dos ricos (p. 43-45).

A autora mostra os resultados de uma pesquisa realizada na época que apontava que 82% da população era contra os rolezinhos e 73% apoiavam os policiais contra os jovens (p. 44).

Os rolês dos jovens periféricos em templos do capitalismo são um fenômeno político que nos revela o óbvio: a segregação de classes brasileiras que grita e sangra. O ato de ir ao shopping é um ato político, uma vez que esses jovens estão se apropriando de coisas e espaços que a sociedade lhes nega no cotidiano. (…) Estou acompanhando os rolezinhos e me sinto contente por essa apropriação. Mas entre apropriação e resistência política há um abismo significativo. Adorar os símbolos do poder – no caso, as marcas – dificilmente remete à ideia de resistência que tanta gente procura encontrar neste ato. O tema é complexo, não apenas porque revela a segregação de classe brasileira, mas porque aponta a tensão da desigualdade entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, entre Norte e Sul globais. E enquanto esses ícones mundiais foram venerados entre os mais fracos, a liberdade nunca será plena e a pior dominação, a simbólica, será sempre mantida” (p. 46).

A autora afirma que os rolês (…) “eram manifestações jovens ambíguas que misturavam impulso de contestação política e o desejo capitalista hedonista” (p. 48).

Há uma dimensão política nos rolezinhos na medida em que ao entrar no shopping estão entrando em um espaço privilegiado da classe média e dos ricos, brancos.  Querem entrar num espaço porque consideram que têm direitos legítimos de entrar e de ostentar as suas roupas, seus sapatos, seus óculos de marca. No fundo, pretendem desfrutar desse mundo de consumo proporcionado pelo lulismo para as populações mais pobres. Não percebem, contudo, com clareza que são impedidos de entrar num shopping devido à segregação de classe e de cor (p. 48).

As revoltas ambíguas

Para a autora, as revoltas do século XXI são revoltas ambíguas e tem a ver com o desenvolvimento do neoliberalismo que atua “(…) como uma máquina de moer coletividades, desdemocratizar, desagregar e individualizar. Como resultado, os protestos das camadas mais vulneráveis – mesmo de sua juventude – tendem a ser desorganizadas, uma vez que a esfera de politização deixou de ser o trabalho, ressurgindo de forma descentralizada nas redes sociais. A ação coletiva nasce, muitas vezes, de maneira espontânea e contagiosa, sem tanto planejamento centralizado, expressando um sentimento de revolta contra algo concreto vivenciado em um cotidiano marcado por dificuldades” (p. 49).

Guy Standing, citado pela autora, denomina as camadas mais pobres de precariado, como sendo “classes perigosas”. Suas revoltas como “rebeliões primitivas”. Para o autor, o precarizado se manifesta com ansiedade, frustração, caos. São pessoas que não detém mais a carteira profissional, vivem em estado de insegurança permanente, com muitas dívidas e vivem em situação de pobreza (p. 49).

As revoltas ambíguas, para a autora, não têm forma acabada e, por isso, não se ajustam ao binarismo esquerda/direita. Mas existe o antagonismo ideológico nas revoltas ambíguas. “Mas não contempla a explosão de movimentos contraditórios. Direita e esquerda são os polos para onde as rebeliões ambíguas podem pender. São, portanto, um devir, uma disputa, um fim” (p. 50). 

E a lição foi precisamente entender que, nesses movimentos marcados pela descentralização não teremos com certeza a radicalização do movimento ´como um todo` (porque não existe um movimento como um todo, mas sujeitos e redes em particular” (p. 50).

Para a autora a população tem opiniões contraditórias. Elas não se prestam a serem divididas em campos opostos. A diversidade encontrada em uma população não é possível colocá-la em caixas estanques como tem acontecido com a esquerda, principalmente após 2013. Os movimentos de que a população participa são ambíguos, fruto da nova organização da produção e do trabalho (p. 56).

A “revolta é mais acentuada entre as classes precarizadas bastante ambíguas como foi o caso dos rolezinhos e dos caminhoneiros. Sempre há o risco de que setores mais radicais (de direita) se apropriem das manifestações desses grupos” (p. 59).

A dispersão dos jovens

Quando em 2016, Rosana Pinheiro-Machado e Lucia Mury Scalco visitaram de novo os rolezinhos para ver a direção política que tinham tomado. A autora considera ter aprendido uma importante lição política dessa situação. Ela fala que uma parte dos rolezinhos pendeu para o lado de Bolsonaro, outra manteve a luta pela esquerda, mas também, outros se tornaram indiferentes a essa luta política. (p. 50)

A Revolta da caçamba. A greve dos caminhoneiros.

A greve dos caminhoneiros escancarou as dificuldades que a esquerda tinha. Não soube aproveitar o movimento para realizar o trabalho de base. O PT, o mais importante partido da esquerda brasileira não compreendeu o caráter do movimento, considerando-o a expressão da direita, a manifestação dos coxinhas. Permaneceu na defensiva. “O apoio do PSOL, de movimentos menores e de autonomistas foi importante, sem dúvida, mas o PT é a maior força da esquerda brasileira, e isso ficou bastante claro” (p. 50-51).

 “E aqui penso que seja importante enfatizar um ponto: nos últimos tempos, a esquerda caiu em lugar comum de acreditar que tal população é fascista. (…) O que percebemos nas manifestações dos caminhoneiros é que as pessoas sentem que, do jeito que estava, não dava mais. Vimos uma descrença total na democracia representativa e uma percepção de que o sistema serve aos que estão no topo” (p. 57).

Nem o PT e nem Lula foram citados na greve dos caminhoneiros para surpresa das pesquisadoras, a autora e Lúcia Mury Scalco. A insatisfação deles era com a “classe política que a gente odeia”. “Em suma, a greve era antipolítica”. A raiva estendia “a todos os políticos, à imprensa e “a tudo mais que fosse hegemônico”. (…) insatisfação antissistema permanece. Todos os movimentos sociais dos últimos anos fazem parte do processo como mundo vem reagindo pós-crise de 2008 (p. 59).

Para a autora, são pessoas que trabalham 15 horas por dia, permanecem tensos, usam drogas para resistirem. É uma classe precarizada. O PT não compreendeu e, por isso, não aprovou a greve dos caminhoneiros. “É uma das classes que sofrem com a precarização do trabalho, uma pauta muito cara à esquerda. (…) a esquerda deveria ter aprovado a greve por completo, independente das opções eleitorais dos manifestantes, entendo que as contradições do sistema em que vivemos também existem no plano individual. Se não trabalharmos com os setores precarizados, com essas pessoas que se revoltam contra o sistema e as desigualdades, não entendemos as ambiguidades, não temos ninguém. Não se escolhe trabalhador bom ou trabalhador ruim. Se esperamos um trabalhador puro, que vem com todo discurso da polarização pronto (…) corremos o risco de perder a disputa. Enquanto esperamos o trabalhador ideal, a direita vai lá e o abocanha os trabalhadores reais” (p. 60).

Os trabalhadores consideram que a globalização do capital, isto é da posse da riqueza pelas elites econômica, política, mediática, não foi realizada para beneficiá-los. Essa globalização beneficia uma parte ínfima da população, no Brasil em torno de 1%, isto é, de aproximadamente de 21% num total de mais de 200 milhões de habitantes. Ao se manifestarem, esses trabalhadores querem mais políticas nacionais, isto é, que os governos do país se preocupem mais com eles e desenvolvam políticas para a saúde, a educação, a segurança e a melhoria dos salários. Significa para muitos desses manifestações que os discursos do início do século de que a globalização melhoria a vida de todos não aconteceu. Ao contrário, um minoria no Brasil detém a maior parte da riqueza produzida cada ano (p. 62).

Os trabalhadores precarizados, ao se reunirem em acampamentos, geram uma “profunda coesão entre os participantes ao longo dos atos. É, por isso, que os acampamentos são tão importantes: eles se opõem ao abandono e à opacidade individualista da rotina de trabalho precarizada. As revoltas ambíguas são manifestações que politizam os sujeitos durante o processo” (p. 62).

A direita tem sido mais sagaz do que a esquerda. Ela se aproxima do trabalhador e oferece uma direção e uma organização que lhe permite mais segurança. Eles tendem à direita devido “à própria natureza individualista de seu trabalho: eles estão desagregados. Entretanto, isso não elimina a injustiça que está lá de forma latente”. (p .63)

Para a autora, assim podem ser classificadas as condições para que a esquerda tenha sucesso na conquista dos trabalhadores precarizados.       1. Não rechaçar o trabalhador. É necessário conquistá-lo para as posições progressistas e de esquerda; 2. Disputar os trabalhadores por meio do uso renovado das redes sociais; 3. A necessidade do emprego da micropolítica da conversa face a face (como no trabalho feito no movimento #ViraVoto); 4. “(…) é necessário o retorno à radicalização de discurso que dialoga com a profunda e latente frustração popular” (p. 63).

Para a autora, “Quando os motoristas de aplicativos pararem – porque isso um dia vai acontecer – e o Brasil entrar num novo surto de ´o que está acontecendo`, será mais inteligente não exigir carteirinha de ´trabalhador ideal` nem fazer checklist de entrada no clube ideológico” (p. 62-63).

                                                                                                Aracaju, junho de 2020