LUIZ BASILIO ROSSI

Rosana Pinheiro-Machado escreveu o livro “Amanhã vai ser maior. O que aconteceu com o Brasil e suas possíveis rotas de fuga para a crise atual”. São Paulo, Editora Planeta, 2019.

Da divisão do livro e outras questões

Para fins de análise, o livro será dividido em cinco partes para publicação, respeitando as várias divisões que a autora propôs. Prelúdio (p. 15-63); Ato I – O avanço da direita (p. 65-94); Ato II – O recuo da esquerda (p. 95-131); Ato III – Bolsonarismo (p. 133-162); Réquiem da desesperança (p. 163-190). Cada uma das partes está subdividida.

Os destaques da autora serão expressos da forma como aparecerem no livro. As nossas citações aparecerão quando expressamente informadas no texto como Nosso negrito, Nosso itálico, etc.

Ato I. O avanço da direita. Parte II

Antropóloga alucinada (p.68–72)

A esquerda está mais fraca no início do século XXI em relação à extrema- direita do que há 100 anos. Nesse último período, a esquerda foi “fragmentada, golpeada e imersa em seus próprios conflitos. (…) No desequilíbrio entre uma esquerda debilitada e uma direita que detém  o monopólio do capital financeiro e informacional, sem sombra de dúvidas, a balança pende para um único lado”(p. 67).

2014 foi o ano para a direita no Brasil, que vem se reorganizando desde o início dos anos 2000. Deputados da extrema direita foram eleitos em primeiro lugar em estados importantes do Brasil. Vários institutos e órgãos foram criados nesse período como o Instituto Mises, o Instituto Millenium e o Fórum da Liberdade, financiados pelo empresariado, que acontece todo ano em Porto Alegre, reunindo figuras como Olavo de Carvalho, Jair Bolsonaro, Sérgio Moro, José Roberto Marinho, Alexandre Garcia, Luciano Huck, Rodrigo Constantino, Demétrio Magnoli (p. 68).

O Fórum da Liberdade “desempenhou um papel fundamental na consolidação de uma rede de empresários, políticos e intelectuais de direita e extrema-direita”. (p. 68).

Vários jornalistas – indivíduos liberais na economia e conservadores nos costumes – se manifestaram de forma mais sistemática, principalmente na revista Veja. Reinaldo de Azevedo atacou Débora Diniz, professora da UnB, com textos violentos e misóginos que a levaram a se exilar em 2018 para proteger a vida. Rodrigo Constantino, também da Veja, atacou Rosana Pinheiro-Machado, quando era professora em Oxford. Sempre utilizando “provocações e deboches que caracterizam um debate de baixo nível intelectual” (p. 69). Reinaldo de Azevedo e Rodrigo Constantino, além do MBL, atacaram a autora. “Em todos os casos, houve o mesmo grau de violência, difamação e ataque à minha honra” (p. 70).

O problema para o qual quero chamar atenção aqui não são exatamente os (então) colunistas da Veja, mas o papel que eles desempenharam no início dos anos 2010, quando foram catalizadores de uma horda de violência e linchamento virtual misógino. Não estou falando de comentários residuais, mas uma verdadeira onda de ódio e ressentimento antipetista e anticomunista. Já havia por todos os lados uma multidão raivosa, de comportamento fascista, que indicava uma tendência à violência física e moral contra a diferença política e a diversidade” (p. 70).

Há uma sequência de eventos de 2014 que mostra esse ressentimento latente outrora reprimido. Logo após a Jornada (de 2013), o ódio e o racismo eram destilados contra os integrantes do rolezinhos. (…) Os comentários nas redes sociais diziam que os rolezinhos deveriam ´voltar para senzala`” (p. 70). “Marginalzinho, vagabundo, bandido, comunista: inimigo interno de nosso fascismo tropical” (p. 71).

O ano de 2014 foi muito importante para entender a extrema-direita que saia do armário. Até aquele momento, diversas pessoas tinham vergonha de se dizer de direita. Desde então elas têm orgulho. (…) A lógica fascista brasileira é difusa. Ela não é facilmente identificável, pois propaga um ódio mais pulverizado direcionando a uma massa diversa”. Essa extrema direita conta com uma mídia que “busca seus próprios interesses”. Conta também “com uma polícia violenta, um movimento religioso fanático”. O fascismo idiossincrático à brasileira não idolatra a si própria, mas sim aqueles países que nos barram na imigração” (p. 71).

A semente do fascismo tropical está presente em todas as classes sociais, em todas as regiões e são três as hipóteses acerca de seu diagnótico: 1. Piorou desde as Jornadas de Junho de 2013; 2. Sempre teria sido assim e a polarização fez com que dessem as caras; 3. Seria uma retaliação, “resultado das  incipientes mudanças nas estruturas de profunda desigualdade brasileira” (p. 72).

Em qualquer das hipóteses, o germe do ódio ficou às soltas no Brasil, pronto para linchar física e moralmente todo aquele que não se enquadra no establishment masculino, branco, heterossexual, rico, bem sucedido e cheio de bens de consumo. A ameaça comunista é uma mentira. A ameaça fascista é uma verdade”(p. 72).

Protesto e panela gourmet (73-77)

Em 2015 e 2016 as “elites brancas brasileiras” foram às ruas com camisa da seleção brasileira se manifestarem contra a corrupção, o PT e a política em geral. Essas manifestações eram verdadeiros convescotes da fina flor conservadora do Brasil.

As manifestações eram puxadas pelo MBL e pelo Vem prá Rua. Foram muito importantes para o impeachment, “convocando manifestações e atraindo a nova geração para seu bloco ideológico. Eles se apresentavam como liberais, tinham forte presença na internet e atuavam por meio de uma poderosa estética juvenil, em especial via a produção de memes” (p.73).

Esses dois movimentos conseguiram atrair milhares de pessoas para as ruas. Nas manifestações se portavam como jovens modernos, cheios de vida e entusiasmo. Criticavam as políticas e as esquerdas, além do Judiciário. Se apresentavam como anticomunistas e anticorrupção. “Mas, pouco a pouco, a roupagem liberal e apartidária desses grupos foi se esfarrapando. Em 2017, o MBL se assumia como ´liberal na economia e conservador nos costumes´. Eles apoiaram Bolsonaro nas eleições de 2018 e, hoje, não conseguem mais mobilizar manifestações” (p. 74).  Elegeram, por outros partidos, quatro deputados federais e dois senadores (p. 74).

Os anos de 2015 e 2016 foram os anos de manifestações de famílias brancas. Carregavam o nenê e a babá para cuidar. Usavam camisa da seleção brasileira verde-amarela. “Inaugurou-se a era da indignação com glamour. Somam-se a isso cartazes ufanistas, homofóbicos, misóginos e pobrefóbicos, que davam o tom de um evento de política do mal” (p. 75).

Muitas pessoas se tornaram críticas do PT. “Lula foi o maior ladrão da história” e o PT queria transformar o Brasil em uma outra Venezuela. Com a eleição de Bolsonaro e sua política rampeira, parte surfou no bolsonarismo, mas outra percebeu onde tinha se metido (p. 76).

De 2014 a 2018, o Brasil viveu quatro anos de limbo histórico; um período de confusão, convulsão, jogo com regras frouxas e ascensão do extremismo de direita”. Até o impeachment de Dilma Rousseff, a direita e a extrema- direita atuaram em bloco para a retirada do PT do governo. A partir daí, a extrema-direita com Bolsonaro à frente venceu as eleições, colocou a direita em plano secundário, o que provocou um vexame para as elites conservadoras (p. 76-77).

No entanto, é importante da mesma forma reconhecer que não vamos sair sozinhos desse buraco em que nos encontramos e que precisamos de uma ampla frente democrática e do máximo apoio popular para derrubar o projeto autoritário de cunho fascista que hoje está no poder” (p. 77).

Apocalipse sobre a terra plana (p. 79-87)

Em 2017, no Brasil, acontecem manifestações autoritárias como, por exemplo, a exposição Queer Museum em que o patrocínio teve que suspendê-la visto que manifestantes afirmaram que a arte exposta carregava pedofilia.  Outra manifestação da extrema-direita aconteceu em São Paulo quando a cientista social, especialista em gênero, Judith Butler fez uma exposição no SESC Pompeia. Os manifestantes levaram um boneco de pano que representava a pesquisadora para ser queimado. Para a autora, “era a imagem das trevas” (p. 79).

Esse populismo de extrema-direita ao se apresentar no mundo todo, propunha solução simples para “problemas complexos”. A nova direita para a autora, não é necessariamente anti-intelectual, mas quer disputar as narrativas no plano global contra “o  establishment  liberal e progressista” que é considerado “comunista”. “Para além do que aparece na superfície, os neoconservadores possuem um projeto de conhecimento que procura definir uma nova direção para a sociedade global. O que está em jogo é a produção e a disputas de novos regimes de verdade sobre a humanidade e sobre o planeta” (p. 80).

Atingindo o coração do conhecimento humanista ataca-se o legado da ciência e o cerne dos princípios da modernidade, os quais, apesar de seus problemas, conseguiram criar um senso de direitos humanos universais, civilização global e humanidade una. O que os neoconservadores estão alegando é que esse projeto de sociedade moderna não apenas ruiu, mas é o próprio produtor da desigualdade” (p. 80).

Para a autora, o impeachment não era apenas um impeachment. Ele trazia junto manifestações conservadoras que desembocaram em 2018, na eleição de um presidente de extrema-direita. Paulo Freire que em 2014 já aparece como “perigoso” para a extrema-direita foi, naquele momento, a ponta do iceberg que iria se manifestar nos anos seguintes, incluindo o que está ocorrendo atualmente. Aparece o projeto “escola sem partido” para combater a suposta doutrinação de professores em sala de aula. O professor fica receoso de colocar todos os conteúdos e surge nessas aulas o aluno-censor ou aluno dedo-duro. Face a essa onda de protestos, professores com medo, não abordavam certos assuntos por temer as reações de alunos e pais de extrema-direita. A própria autora foi vítima desse tipo de manifestação e com todo tipo de xingamentos. Segundo ela, o MBL foi o promotor de manifestações nesse sentido, denegrindo pessoas (p. 80-81).

A autora, na condição de professora que é, foi alvo de manifestações de todo tipo quando de um curso na USP sobre movimentos sociais. “Mas, o que era apenas um começo do semestre tornou-se um verdadeiro pesadelo: um gosto amargo dos tempos da perseguição política, uma dose cavalar de bullying digital (…). “Alguns sujeitos – cuja foto de perfil era uma metralhadora, por exemplo – tentaram invadir o grupo da disciplina no Facebook. Houve ataques em massa ao meu perfil e, claro, muitos  comentários sexistas e violentos que diziam coisas como ´Essa terrorista precisava morrer`. (…) Não foi a primeira vez que fui atacada, nem a última, mas foi a primeira vez que o problema não era ´eu`, e sim a produção de conhecimento em si” (p. 82).

Afirmar que “a direita é burra e sem projeto de conhecimento me parece uma aposta equivocada. Os novos movimentos conservadores, com formação liberal, sabem muito bem que não havia nada de pedofilia na exposição, da mesma maneira que muito dessas lideranças jovens estavam cientes de que minha disciplina não servia para ensinar protestos” (p. 82).

A nova direita tem projeto. Ela contesta a sociedade globalizada, que é fruto, segundo ela, de uma concepção de humanidade amarrada à pautas econômicas. Critica o establishment nascido em 1968. A crítica então se orienta para toda geração de 1968 que atualmente desempenha papéis fundamentais ao redor do globo.

A extrema-direita se considera vítima. “Os neoconservadores constroem sua identidade a partir da posição de vítima de um establishment intelectual, das universidades e da grande mídia, o qual, ao priorizar determinados grupos, teria virado as costas para as ´pessoas comuns´”       (p. 82).

A própria democracia seria um projeto sustentado por uma elite intelectual, privilegiando somente alguns. (…) a crise do neoliberalismo do século XXI, acirrada pela exposição das relações promíscuas entre política e mercado no mundo todo, serviu como uma luva para fortalecer esse tipo de narrativa acerca da ameaça vermelha. De maneira embaraçosa, o primeiro ponto a levantar quando falamos em políticas de conhecimento é que a nova direita se coloca como protetora dos interesses do povo no momento em que associa conhecimento humanista com establishment, elite intelectual e poder. Esse suposto establishment é a geração de 1968, que teria vencido no campo intelectual e ajudado a formar certo consenso liberal-democrático que conciliava o avanço das pautas identitárias”            (p. 82-83).

A guerra hoje é fundamentalmente discursiva. Ela se baseia em palavras, estátuas, símbolos. A narrativa da extrema-direita ao atacar o projeto moderno “vem com uma agenda econômica embutida” (p.83).

Para a autora, “Na Europa e nos Estados, há uma tendência a rever os preceitos da globalização, da livre circulação, do cosmopolitismo e da igualdade dos direitos humanos, tudo isso misturado com uma agenda neoliberal em que a mundialização só serve para determinados interesses. Em todo o mundo, os grupos religiosos querem barrar os avanços por direitos reprodutivos” (p. 83). Esses são os objetivos da extrema-direita.

Entender a mente dos neoconservadores é fundamental para reorganizar a resistência”. O Manifesto da nova direita francesa, escrito por Alain de Benoit e Charles Champetiere, “publicado em 2000, se coloca como base de uma nova escola de pensamento que procura desenvolver uma ´metapolítica`, disputando espaços em revistas acadêmicas, colóquios e conferências para discutir temas morais e culturais” (p. 83-84).

A definição de história para os dois autores franceses, anotada pela autora: “é o resultado de ações e intenções humanas, dentro de enquadramentos de convicções, crenças e representações que providenciam significado e direção”(p. 84, tradução livre da autora; negrito nosso).

Para a autora, são três a gerações de pensadores da extrema direita.

A primeira, presente na primeira metade do século XX. A maioria de vinculação fascista e nazista. Oswald Spengler, Ernest Yünger, Carl Schimitt e Julius Evola.

A segunda, os pensadores escrevem na segunda metade do século XX. Esses pensadores surgem como reação à esquerda de 1968. Alain de Benoist, Guilhaume Faye, Paul Gottfried, Patrick Buchanan, Jared Taylor, Alexander Duguin e Bat Ye´or.

A terceira, pensadores que escrevem no século XXI, com “grande influência na chamada virada conservadora global”. Pensadores mais radicais que os anteriores. Mencius Moldbug, Greg Johnson, Richard Spencer, Daniel Friberg e Jack Donovan (p. 84).

São pensadores de várias tendências: nacionalistas, supremacistas brancos, libertários, neoreacionários, masculinistas, etc. “Atuam em rede e compartilham alguns pontos comuns que são fundamentais para entender a nova direita global e, em última instância, como ela chega ao Brasil. Os autores possuem uma visão apocalíptica: acreditam que a civilização, europeia e branca está sendo atacada. A responsável por isso seria uma elite global cosmopolita e liberal (também chamada de globalista). A solução, portanto, é criar a política da amizade e da inimizade, que separa o nós (branco e europeu) do eles (todo resto que deve ser segregado). Por fim, eles reivindicam o que chamam de “metapolítica”, que é a necessidade de disputar a hegemonia política e ocupar espaços do conhecimento para discutir todos esses temas(p. 84-85; negrito nosso).

A nova direita não é contra a ciência. Mas é contra o dinheiro público investido na ciência visto que, segundo ela, atende apenas uma elite intelectual. Ela considera que é necessário disputar os espaços legitimados, o que significa as revistas renomadas, os jornais conhecidos, etc (p. 85).

É um erro estratégico considerar que a extrema-direita não está equipada com uma narrativa. São antiglobalistas, isto é, afirmam que atualmente os recursos são destinados a uma elite intelectual globalista; são antiaquecimento global, pois afirmam que não existe aquecimento global (p. 85).

A extrema-direita conta com “redes transnacionais religiosas, militares e conservadoras que espalham o pânico moral anticomunista e financiam projetos e instituições e grupos nesse âmbito desde os anos 1960”.  A crise global do século XXI “abriu uma fissura no sistema mundial, permitindo que diferentes grupos, de origens diversas e distintos interesses econômicos, políticos e religiosos, se articulassem em um pacto de governo de extrema- direita” (p. 86).

Quando Michel Foucault afirmou que conhecimento é poder, ele estava se referindo à consolidação dos discursos de dominação. O colonialismo e o imperialismo europeu não dominaram o mundo sem uma parcela significativa de intelectuais e experts a seu dispor” (p. 87).

Como nós estamos no Brasil? Qual é o engajamento militante dos intelectuais brasileiros na luta por uma sociedade democrática e justa e contra as narrativas da extrema-direita que objetivam tomar o poder e construir um outro tipo de sociedade?

A autora finaliza: “Se há algo positivo nisso tudo é não nos deixar esquecer que conhecimento é poder, mas também é resistência: precisamos conhecer o outro lado e, sobretudo, lembrar que o senso de humanidade, a justiça, os direitos humanos e a equidade é uma verdade que nunca foi totalmente construída, e, portanto, ainda precisamos lutar por ela de forma crítica” (p. 87).

Ódio, substantivo masculino (p. 89-94)

Com o corpo halterofilista tatuado, vestindo calças e camisetas justíssimas e com a cabeça raspada, o escritor norte-americano Jack Donovan incorpora a hipermasculinidade em suas aparências públicas. Sua vestimenta remete a guerra, caça, vikings. (…) é listado como um dos 15 mais influentes pensadores da extrema direita de todos os tempos e um dos 5 mais relevantes e inovadores da nova geração de intelectuais direitistas. Longe de ser um fenômeno isolado, o autor da moda move corações e mentes, inclusive no Brasil”. (p. 89).

Donovan tem um papel importante no mundo, inclusive já no Brasil. Responde “pela radicalização da misoginia na extrema direita” (p. 90). Ele “sequer eleva o sexo feminino ao status de humanidade”; “sua teoria de supremacia masculina – ou ´anarcofascista` – glorifica o corpo do homem e exclui o das mulheres”; “O globalismo e a civilização feminizam a raça humana, enfraquecendo a natureza viril do homem que encontra sua essência na hostilidade”; “naturaliza a escravidão e os genocídios e recomenda libertar as mentes tribais”; “o ´tribalismo bárbaro`, para ele, significa atuar em gangues e seguir a natureza predadora e violenta dos homens, criando comunidades de esportes, artes marciais e caça” (p. 90).

Donovan é homossexual, não apoia os heteros e repudia a cultura gay. Para ele, a volta ao passado retornaria à condição da mulher apenas como ente reprodutivo. Considera que a família nuclear degenera visto que está associada às mulheres. “Mulheres seriam meros troféus da bravura desses guerreiros”. Em livros e em palestras “que arrancam aplausos emocionados da plateia” faz um alerta: “as mulheres estão tendo um papel dominante no mundo em todas as esferas da vida social. Elas estão atacando os homens, que são vítimas”. Donovan “faz um chamado revolucionário: os homens estão confusos e perdidos em sua essência. Eles precisam se unir para resgatar a própria honra e reencontrar o propósito de sua existência” (p. 90).

Nos últimos tempos dispomos, segundo a autora, de vários exemplos que mostram esse comportamento misógino (que tem aversão às mulheres). Durante “o impeachment da primeira mulher presidente no Brasil veio com a mensagem ´Tchau, querida´, evocada inclusive na Câmara dos Deputados. O exemplo de outro ataque à mulher. Cidadãos comuns colavam em seus carros um adesivo representando Dilma Rousseff de pernas abertas, de modo que, quando abastecessem o veículo, a bomba de gasolina fosse enfiada em sua vagina. E por falar em vaginas, houve também quem dedicasse o voto a favor do impeachment ao coronel Brilhante Ustra – não por coincidência um torturador que enfiava ratos nas partes íntimas da mulheres. E também não por coincidência, esse homem se tornou presidente da República apoiando-se bastante em uma promessa específica: liberar as armas” (p. 91).

Para a autora, esses episódios não são aleatórios, mas sim muito comuns no Brasil tendo em vista o personagem que venceu as eleições presidenciais em 2018. O ato de dizer que “fraquejou” quando teve uma filha, que tem o desejo insano de armar a população quando o seu papel era propiciar melhor treinamento, melhores salários e desenvolver uma atitude de respeito da polícia em relação à população em geral, mormente a de origem negra, dá uma dimensão de sua visão de extrema-direita de um país assentado sobre o patriarcado, comandado por homens brancos. No caso do assassino de mulheres no Brasil (o feminicídio), geralmente realizado por homens próximos das vítimas, de qualquer raça, continua sendo um dos maiores do mundo (p. 92).

Rosana Pinheiro Machado ressalta as consequências do patriarcado de homens brancos entre nós associado à ação da extrema-direita que tem influenciado deveras o comportamento de homens comuns no Brasil. Ela afirma: “(…) como antropóloga que estuda grupos populares, ou seja ´pessoas comuns`, mais do que movimentos organizados, intriga-me como tais ideias extremas podem fazer sentido para o pai de família, o motorista do UBER, o vigilante e o jovem que se alia ao tráfico. Mas muitos desses perfis podem não ler os livros de Donovan, mas vivem em um país que, cada vez mais, autoriza a eliminação de fraquejadas no plano simbólico e concreto e mantém uma relação de idolatria com as armas” (p. 92).

Pessoas comuns, como diz a autora, são capazes de realizar atos que no dia-a-dia da família é um pai amoroso e dedicados aos filhos. Como a hierarquia patriarcal “obriga” o homem a ser macho, sua atitude não consegue suportar a ascensão sócio-econômica da mulher no mundo, mas principalmente no Brasil, quando muitas vezes, ele perdeu para ela a condição de provedor da família. Não é mais o pai que tudo dá e que exige comportamento adequado em casa e na sociedade por parte dos seus. O uso da arma de fogo surge nesse momento de crise pessoal e da sociedade uma oportunidade de se firmar de novo como macho. Se não alcança esse objetivo, permanece em crise permanentemente, culpando as mulheres e o mundo de suas desditas. Quando perde essa condição, se desestabiliza, entra em crise e é, nesse momento, presa fácil do movimento fascista que cresce quando o homem perdeu seu rumo. O fascismo oferece a ele a segurança e a direção a ser assumida, sempre em grupos organizados que tendem a violência. Aí ele passar ser rei em seu canto (p. 82-83).

No patriarcado, em tempos de recessão, um homem em crise de identidade é um ser reativo que vê a ascensão das mulheres como uma ameaça. A ideia de que existe um plano de dominação feminista pode fazer todo sentido para um sujeito desempregado, frustrado e destituído de essência. Formar o Clube do Bolinha (o que o fascismo faz com competência), culpar e até matar as Luluzinhas pode ser um caminho fácil para a satisfação imediata do ego. Os autores como Donovan fazem, por meio de uma narrativa simplista, mas perfeitamente encaixada, é atingir o âmago íntimo da constituição desses sujeitos, oferecendo-lhes um propósito de vida e o paraíso perdido” (p. 83-84).

A autora considera, citando vários autores, que os “tempos de recessão são um terreno fértil para o retorno de narrativas supremacistas que vão e voltam desde o século XIX. Entretanto, nesse vai e vem discursivo, há algo incontestável e que não pode ser esquecido: o ataque é uma retaliação a uma trajetória consistente e ascendente de conquistas femininas (…) Alguns podem reivindicar a volta ao tribalismo bárbaro, mas a única verdade nisso tudo é que a história da conquista das mulheres é um caminho sem volta” (p. 94).

                                                                                    Aracaju, julho de 2020