Maria Sílvia Rossi, PhD

Estamos vivendo um dos períodos mais desafiadores de nossa história. São verdadeiramente grandes os desafios de praticar o distanciamento social, adotando novas rotinas que possibilitem a compatibilidade das responsabilidades tanto no âmbito familiar quanto laboral.

As civilizações humanas já passaram por várias pandemia (1).  A varíola (“bixiga”) tem registros de ocorrência que datam da época do Faraó Ramsés II, e acometeu a Humanidade por mais de 3 mil anos. A peste bubônica, conhecida como peste negra, assolou a Europa no século XIV e matou entre 75 a 200 milhões de vidas na então Eurásia.

Segundo diversos autores, as pandemias tiveram papel no desenvolvimento involutivo das sociedades. Involutivo pode ser definido como que não possui evolução. Seria, assim, o contrário de evolução, momento em que um sujeito, ser ou qualquer outro tipo de vida passa de um estágio para outro; ou passa a ser algo mais complexo; ou ainda torna-se melhor em algo que se faz. A crise atual tem suscitado novamente esta discussão. Isto porque se por razões diversas, a pandemia representa uma crise ao paradigma de como viver e de desenvolvimento social, ambiental e econômico, por outro, tem trazido oportunidades novas.

Do ponto de vista das relações humanas, o isolamento social obrigou as pessoas a conviverem 24 horas por dia, tornando agudo os conflitos que já existiam e que ganham maior importância quando desacoplados do diálogo. Do ponto de vista econômico, houve uma grande desaceleração no padrão e intensidade de diferentes atividades econômicas. O varejo, por exemplo, tem sofrido mudanças, devido ao isolamento, à descontinuidade de medidas de isolamento social e reabertura do comércio, e as nova ferramentas de compras online.

Grandes verdades ideológicas caíram por terra diante da pandemia, como o papel do Estado – antes supostamente mínimo e desnecessário, e hoje chamado a um protagonismo, seja na questão epidemiológica e sistema de saúde, na ampliação da rede de assistência social, quanto na reconstrução econômica, mediante socorro à economia real e na manutenção dos empregos. Neste mesmo sentido, o Congresso nacional vem aprovando dispositivos que autorizam medidas para enfrentamento desta excepcionalidade. O Judiciário tem afastado de forma cautelar algumas exigências da Lei de Responsabilidade Fiscal no tocante a despesas emergenciais para o combate do vírus e a proteção de populações vulneráveis (2).

Na dimensão da Ciência, Tecnologia e inovação (CTI), a crise atual está trazendo oportunidades extraordinárias de inovações tecnológicas. É a aceleração digital, que está articulada à internet das coisas, internet de tudo (IoE) e a indústria 4.0. O conceito da IoE busca olhar o quadro geral em que a internet das coisas se situa. Trata da visão de uma rede distribuída, em continua descentralização, com presença de facilitadores da transformação digital, tendo foco em resultados dos resultados da IoT (3). Ela reúne pessoas, processos, dados entre outros, para tornar as conexões em rede mais relevantes e valiosas.

Dentre todas as pandemias, esta é a primeira onde emergem, em escala, novas tecnologias, com vistas a soluções em várias áreas do conhecimento: no trabalho remoto, na telemedicina, na educação a distância, no comércio eletrônico, nos serviços bancários, entre outros. São desafios geralmente associados a maneiras de persuadir a fidelização de consumidores, com tecnologias digitais novos produtos, serviços e canais face às expectativas na chamada experiência do consumidor ou customer experience (4).

No entanto, mais além das relações com consumidores, a aceleração digital tem produzido novas comunidades e formas de comunicação mais horizontais e menos centralizadas. Há alguns anos vem se expandindo de forma acelerada a publicação de conteúdos diversos, por uma infinidade de sujeitos de fala. Se por um lado, temos vivenciado gravíssimos problemas decorrentes da ação deliberada de ludibriar a opinião pública através das fake news, por outro lado, ampliaram-se espaços democráticos de expressão de fala. Ainda que esta democratização esteja condicionada a limites claros do sistema, abriram-se espaço para muitos apresentarem opiniões, novos negócios, e inspiração de novas formas de vida.

Neste século XXI, a “aceleração digital” está acontecendo agora mesmo e veio para ficar. É, de fato, excepcional a transformação de hábitos e rotinas das pessoas, nestes meses de Covid-19. Surpreende a velocidade com que as soluções estão sendo colocadas em prática. São novas soluções, alternativas aos costumes estabelecidos e levam a reflexão sobre o legado que a tecnologia pode aportar ao nosso cotidiano, durante e após a pandemia.

No campo do trabalho, o futuro chegou com a forte digitalização dos processos e das empresas. O trabalho remoto é a ponta de toda uma transformação profunda dos custos das indústrias e serviços e principalmente das relações de trabalho entre empregado com o empregador, além das relações de trabalho entre empregados. O anywhere office mais do que o home office, é um exemplo de aceleração de tendência. Isto significa trabalhar de qualquer lugar do mundo, utilizando internet, aplicativos de colaboração e comunicação em um smartphone (5). Para tal, faz-se necessário um conjunto de habilidades específicas relacionadas à inteligência emocional, autocontrole, autoresponsabilidade, empatia dentre outras, conhecidas em vários meios como soft skills. Todos devem trabalhar em casa ou em outro lugar, com a mesma eficiência e colaboração de antes (e em tese, podem, no pós-pandemia). Isto significa possibilidade de melhor alocação do tempo individual face a outras responsabilidades pessoais e familiares e alguns bilhões de reais em economia aos custos atuais de manutenção das infraestruturas do poder público, por exemplo, tais como água, luz, limpeza, dentre outros.

Esta transformação está produzindo novas plataformas de conectividade para viabilizar lugares de encontro, videoconferências e diferentes formas de conexões. As lives constituem um exemplo excelente para mostrar estes novos lugares de encontros. A cibersegurança já estava e continua em franco desenvolvimento – tanto nas empresas quanto nos setores governamentais. Datacenters estão sendo implantados aonde não existiam ou redesenhados e novas formas de armazenamento,  como as  “clouds”, potencializadas.

No Poder Judiciário brasileiro, órgãos reguladores e tribunais readequaram seus processos para a digitalização dos sistemas, treinamento de profissionais e usuários em algumas poucas semanas. São audiências por videoconferência, julgamento de processos. De fato, aumentaram vertiginosamente alguns tipos de  demandas por soluções remotas. O aumento de divórcio online gratuito é um exemplo. Este aumentou cerca de 9.900% entre 13 e 39 de abril de 2020 no Brasil (6).

Na Saúde, a tecnologia está sendo usada para consultas a distância buscando reduzir a exposição das pessoas ao risco de infecção. As tecnologias de vídeo estão permitindo conectar pacientes e familiares em diferentes contextos – inclusive no contexto da humanização dos hospitais. O grande desafio encontra-se atualmente na falta de regulamentação e legislações específicas para fazer face aos desafios, por exemplo em relação à Telemedicina. Neste caso específico, foi colocado em prática uma regulação temporária durante a pandemia que necessitará de aprofundamento junto à sociedade brasileira. Antes da pandemia, a telemedicina já estava em uso em caso de desastres e emergências de saúde pública (7, 8).

A área educacional formal sofreu impactos duros. A pandemia trouxe a tona assimetrias estruturais decorrentes de decisões tomadas no Brasil, tais como a prevalência do privado sobre o público; o problema da qualidade no contexto da educação presencial versus educação a distância; e, as controvérsias a respeito do modelo de EaD a ser assumido (ou não) pelo Brasil (9). Milhões de estudantes passaram, de uma hora para outra, a estudar em casa. As instituições de ensino não estavam preparadas para a adoção massiva de ferramentas de Educação a Distância (EaD). A pesquisa TIC Educação 2019 evidenciou que apenas 14% das escolas públicas e 64% das particulares, em áreas urbanas, contavam com um ambiente ou plataforma de aprendizagem à distância (10). O fato é extremamente grave ao descortinar que as instituições públicas respondem pela educação de cerca de 85% das crianças e jovens brasileiros – notadamente os mais carentes. Neste caso, o problema ainda é mais grave porque muitas famílias não dispõem de computadores, celulares e principalmente alcance de rede de internet para as aulas. No entanto, atualmente, as tecnologias se tornaram uma das principais estratégias para que os alunos não percam o vínculo com a educação (10). Ainda que o EaD certamente esteja sofrendo uma grande transformação – tanto no seu conceito quanto no tocante às ferramentas necessárias e suficientes para prover recursos de aprendizagem, dificilmente poderá substituir totalmente o ensino presencial. No entanto, estes recursos podem auxiliar neste momento e trazer novas possibilidades no pós-pandemia.

Ao contrário dos setores elencados acima, os bancos já haviam feito grande parte desta migração, ofertando aos clientes produtos e serviços online e o atendimento gerencial digital.

Por outro lado, as compras online aumentaram fortemente no Brasil, mudando os hábitos de consumo dos brasileiros. Fatores como comodidade, agilidade, e melhores preços/condições tem trazido grandes desafios às empresas. O canal de compras online já constituía preferencia de 74% dos consumidores brasileiros no segundo semestre de 2019, antes da pandemia. 82% dos consumidores brasileiros com acesso à internet praticavam compras online (8). Em março de 2020, 71% dos brasileiros aumentaram o volume de compras online após o início da pandemia (11).

Isto significa, que com milhões de brasileiros com novos os hábitos digitais, acelerados, o setor varejista terá que se adaptar e rapidamente para canais digitais. Este setor é o maior empregador do público jovem, o que significa forte impacto nos empregos.

Mais do que apenas temporário, como nas outras áreas, o hábito do restaurante por exemplo, deve mudar porque o habito de consumo está mudando. Na pandemia, com a reabertura do comércio, obrigou-se ao afastamento das mesas, a redução da quantidade de consumidores por vez no restaurante, gerando o desafio de não aumentar os preços proporcionalmente à redução do consumo considerando os custos.

O dono dos restaurantes Oro e Pipo, Felipe Bronze, afirmou em entrevista “hoje, no delivery, entregamos 120 pedidos por dia no último fim de semana. Devo ter atingido umas 400 pessoas por dia. É o mesmo número do restaurante, mas sem ter de lavar um copo, um talher, sem ter de rodar mesa. No físico, eu tenho 58 pessoas trabalhando. No digital, são nove. E a gente pode crescer o número de atendimento. O delivery também nos permite experimentar e “pivotar” de uma maneira mais rápida. (…) O bonito do digital é essa verdade inexorável. Se não gostar da comida, o cliente não pede mais. No restaurante, você pode até não gostar, mas tem o ambiente, a badalação e é tudo muito caro. No digital, o custo de aquisição do cliente é um Instagram.” (…) “Eu repasso o custo da embalagem e diminuímos o preço do cardápio, de 10% a 15%. Se a pessoa está no restaurante, tem toda a matriz de despesa, do talher, do copo, do serviço.” (12).

Nem o setor e nem a sociedade não tem discutido o problema representado pelo aumento exponencial dos resíduos sólidos gerados pelo Delivery, e a transferência das responsabilidades institucionais do restaurante (grande gerador porque mais de 1m3 de resíduos sólido gerado), para a responsabilidade individual do setor público na coleta em residencial

O “delivery” já teve um expressivo aumento nesta pandemia, e tem sido lastreado no conhecimento das marcas e na qualidade da alimentação. Os serviços de delivery tem sido considerados e tratados como essenciais e assim estão excepcionalizados da política de isolamento social. Eles contribuem por um lado para a manutenção da população em casa e por outro lado, para a manutenção de atividades econômicas de diversos tipos de estabelecimentos.

O crescimento do delivery encontra-se alavancado pela demanda por aplicativos específicos (13). Os apps de entregas apresentam uma lista com diversos restaurantes de uma cidade, acessam todas as opções de menus, comparam preços, permitem conhecer novos restaurantes e verificar a avaliação do local pelos clientes, para eventual mudança de hábito. Todos estes app, criados por startups, estão tendo crescimento agressivo. O iFood constitui o app de maior uso no Brasil atualmente. Em 2019, este registrou uma média de 1,2 milhões de pesquisas mensais pelo app — o dobro do que o aplicativo tinha em 2016. O Uber Eats ficou em segundo lugar no ranking, mediante um crescimento de 2.300% em relação a 2016 (246 mil pesquisas mensais em média), enquanto o app Rappi ficou em terceiro lugar, passando de 197 pesquisas mensais nos buscadores em 2016 para 183 mil pesquisas mensais em 2019, ou seja, com crescimento de 92.700% (14).  Este app faz entrega de qualquer produto e não apenas de refeições. Destaque-se que, antes da quarentena, o modelo de consumo já apontava para o digital, justamente por causa das altas taxas de crescimento ao ano do delivery. Do ponto de vista do consumidor, a entrega de delivery ofertou vantagens como a não necessidade de deslocamento, preços reduzidos porque reduziu os custos da manutenção das instalações físicas.

A expansão do delivery vem acompanhada pela precarização das relações de trabalho. Os entregadores ligados a app de entrega tem sido tratados como autônomos. São trabalhadores que tem assumido o ônus de ficarem sem salário se aderirem à quarentena ou aceitarem forte exposição ao risco de contágio. Por sua vinculação informal às empresas, eles não  tem direito a medidas de proteção financiada pelas empresas. Assim é que em abril de 2020, o Ministério Público do Trabalho – MPT ajuizou duas Ações Civis Públicas, em caráter de urgência condenando as empresas Rappi e iFood à implementação de políticas de segurança aos entregadores e ao pagamento de auxílio financeiro aos profissionais que precisa abandonar as suas atividades, seja por fazerem parte do grupo de risco, ou por estarem suspeitos ou efetivamente contaminados pela covid-19 (15).

A guerra de liminares está em curso nas instâncias do Poder Judiciário, a partir de mandatos de segurança impetrado pelas empresas, mas fato é que a Constituição Brasileira estabelece em seu artigo 7o, inciso XXII que os trabalhadores tem direito à redução dos riscos inerentes ao trabalho, por meio de normas de saúde, higiene e segurança. Isto quer dizer que as empresas comportam-se como empregadoras ao controlar a prestação de serviços dos entregadores mas afastam-se desta mesma figura jurídica quando debatem as suas obrigações decorrentes.

Em sintese, esta é uma revolução tecnológica, cultural e comportamental que veio para ficar, na vida pessoal e profissional. O pós pandemia deve mostrar à sociedade de uma maneira límpida, que não se pode tratar a tecnologia como um luxo e que esta passou a ser um bem essencial para a qualidade de vida das pessoas.

Neste sentido é que é fundamental endereçar a democratização das oportunidades, envidando esforços para a construção de uma sociedade digital, onde a todos deve ser assegurado o direito e a possibilidade de se tornar cidadã/ão digital.

Há, portanto, uma necessidade imperiosa de adaptar as nossas leis e regulamentações para acompanhar estas mudanças, de forma a impedir o aumento do fosso social já existente, evitando que se torne instransponível, o que tem historicamente mutilado as possibilidades de realização humana no Brasil.

Para isto, existe lugar e necessidade da ação de Estado (federal, estadual, municipal, e distrital), de modo a facilitar à população e às empresas de todos os setores produtivos, a adoção de novas tecnologias. Desta forma, há necessidade de garantir mais do que o simples acesso à internet. Há necessidade associar de forma indissolúvel este acesso a estratégias de inclusão e capacitação digital para que a/o cidadã/ão use a tecnologia plenamente, com todos os benefícios sociais, econômicos, humanos e ambientais associados.

Referências:

(1) Alfani, Guido & Murphy, Tommy E., 2017. “Plague and Lethal Epidemics in the Pre-Industrial World,” The Journal of Economic History, Cambridge University Press, vol. 77(1), pages 314-343, March.

(2) Carvalho, D. O controle dos gastos públicos em tempos de pandemia. Em: https://www.tce.sp.gov.br/6524-artigo-controle-gastos-publicos-tempos-pandemia (consulta em 02/07/2020).

(3) What the Internet of Everything really is – a deep dive. Em : https://www.i-scoop.eu/internet-of-things-guide/internet-of-everything/ (consulta em 04/07/2020).

(4) Digital acceleration in finance: the need for information agility and responsiveness. Em:  https://www.i-scoop.eu/digital-acceleration-in-finance-it-takes-intelligent-information/(consulta em 10/07/2020).

(5) https://forbes.com.br/colunas/2020/06/arthur-guerra-anywhere-office-o-trabalho-remoto-veio-para-ficar/ (consulta em 11/07/2020)

(6) http://www.jornaldafranca.com.br/covid-19-procura-por-divorcio-no-brasil-aumenta-devido-a-isolamento-social (consulta em 10/07/2020).

(7) Lurie N, Carr BG. The role of telehealth in the medical response to disasters. JAMA Intern Med 2018;178:745-746  (consulta em 04/07/2020).

(8) Langabeer JR II, Gonzalez M, Alqusairi D, et al. Telehealth-enabled emergency medical services program reduces ambulance transport to urban emergency departments. West J Emerg Med 2016;17:713-720. (consulta em 04/07/2020).

(9) Giolo, J. 2010. Educação a Distância: Tensões entre O Público e o Privado. Em: Educ. Soc., Campinas, v. 31, n. 113, p. 1271-1298, out.-dez. 2010. Disponível em: http://www.cedes.unicamp.br (consulta em 11/7/2020)

(10) https://canaltech.com.br/governo/apenas-14-das-escolas-publicas-tinham-plataforma-de-ead-no-brasil-em-2019-166313/ (consulta em 11/07/2010)

(11) https://www.ecommercebrasil.com.br/noticias/brasileiros-aumentaram-compra-online-apos-pandemia-coronavirus/(consulta em 28/06/2020).

(12) Entrevista com Felipe Bronze. NeoFeed em 17/05/2020: https://neofeed.com.br/blog/home/o-chef-felipe-bronze-lanca-tres-marcas-e-ve-o-digital-como-a-reinvencao-dos-restaurantes/

(13) https://valor.globo.com/empresas/noticia/2020/03/17/quarentena-eleva-demanda-de-aplicativos-de-delivery.ghtml (consulta em 28/06/2020).

(14) https://canaltech.com.br/apps/estudo-mostra-que-ifood-e-o-aplicativo-de-entregas-mais-usado-do-brasil-142481/(consulta em 28/06/2020).

(15) Fonseca, H. Em: https://www.mobilize.org.br/noticias/12060/pandemia-escancara-precarizacao-do-trabalho-do-entregador-de-delivery.html (consulta em 02/07/2020).