JAIME BRASIL

Duas são as grandes pragas que assolam o mundo nos dias de hoje: o novo coronavírus e o pensamento fascista.

O novo coronavírus é conseqüência da pressão humana desmedida sobre a natureza, sobre a vida na biosfera: desmatamentos, grandes criações de animais confinados, imensas plantações extensivas, extinção de rios e lagos, contaminação e poluição de terra, água e ar. Tudo isso alterando o equilíbrio natural, criando condições para o aparecimento de microrganismos por nós desconhecidos. Por qual motivo nos manteríamos saudáveis enquanto espécie, se há séculos estamos deixando o mundo doente?

Vários fatores existiram, e existem, para que o pensamento fascista se alastrasse pelo mundo. O neofascismo finge ser contra o neoliberalismo, mas, na verdade, é fruto dele. O neoliberalismo – leia-se: o capitalismo em estado bruto – viu-se farto das regras clássicas, iluministas, ou de inspiração progressista, que emperravam o aumento dos lucros e seu conseqüente acúmulo. Nada é mais vantajoso para o capitalismo do que um sistema de exploração de mão-de-obra em que é sempre o patrão quem decide as regras. Siemens, Volkswagen, BMW, Bayer, IBM e tantas outras empresas ganharam muito sob a bandeira do nazi-fascismo durante a Segunda Grande Guerra.

O capitalismo sempre buscou a escravidão do ser-humano em nome da “liberdade de escolha”, como também sempre quis a total apropriação e manipulação de todos os recursos naturais, e, para isso, usou a palavra desenvolvimento. O que se chama hoje de “uberização” do trabalho nada mais é que o sonho da escravidão capitalista se realizando, é a “liberdade”de não ter direitos e nem renda mínima que assegure a dignidade do trabalhador, é a “liberdade”de trabalhar à exaustão, enriquecer o capitalista e morrer de fome.

O novo coronavírus é a conseqüência trágica da relação do sistema capitalista com o ambiente. O novo pensamento fascista é a conseqüência perversa da relação destrutiva do sistema capitalista com os valores civilizatórios historicamente eleitos. Mas a causa das duas pragas é a mesma: o capitalismo, que é a grande peste, e a sua necessidade de crescimento infinito para satisfazer o desejo egoísta de poucos e insaciáveis multibilionários.

Diante desses dois flagelos, conseqüências da grande peste, o que fazer?

Existencialistas e marxistas que somos, acreditamos na capacidade humana de se inventar e reinventar, de fazermos escolhas, de colher as conseqüências boas e más, aparentemente contraditórias às vezes, sempre dialéticas.

Partimos da idéia de que nada é predeterminado e tudo pode ser criado e recriado.

Sendo o mesmo ser em todo planeta, nós, humanos, podemos agir como predadores inconseqüentes, os piores e mais insensíveis destruidores da vida; mas, também, podemos agir como cuidadores conscientes, a exemplo os índios Yanomami e outros tantos grupos humanos que vivem em harmonia com o meio-ambiente. Somos o mesmo “bicho”, o mesmo ser-humano destruidor e harmonizador, um e outro, em meio às circunstâncias e escolhas.  É a nossa existência que objetivamente nos dá condições de sermos quem quisermos. Mas pra isso precisamos escolher e agir.

Albert Camus, escritor existencialista, e seu “O Estado de Sítio”, trazem a nós a história de uma tranqüila cidade que recebe a visita da Peste. Sendo uma peça de teatro, a Peste é representada como sendo uma pessoa com um caderninho em que risca com um lápis o nome dos moradores da cidade, e estes caem mortos, simplesmente. Claro que essa situação gerou terror e desespero entre os habitantes, que logo procuraram uma maneira de se verem a salvos.

Rapidamente a morte, isto é, a Peste, criou a sua estrutura de poder, a sua própria burocracia. Havia dois guichês abertos ao público, em um se conseguia a autorização para respirar, em outro a autorização para viver. Eram enormes filas de pessoas ávidas por se manterem vivas. No entanto, quando chegavam finalmente ao atendimento, o funcionário da Peste que daria a autorização para respirar dizia que somente seria aprovado se antes a pessoa tivesse a autorização para viver, e o mesmo fazia o funcionário que dava a autorização para viver: dizia que para viver a pessoa deveria ter, primeiro, a autorização para respirar. A Peste, ao ser questionada sobre esse jogo de empurra-empurra respondeu que é para isso mesmo que existe esse mecanismo: para não funcionar. Tudo isso apenas aumentava o sentimento de medo nas pessoas, o número de mortes aumentava e todos obedeciam fielmente todas as vontades da Peste.

Assim tem funcionado o sistema capitalista, com muitos “guichês” a que somos obrigados a buscar para que tenhamos cumprida a promessa de vida plena, mas nada funciona. Tantos artifícios e facilidades de entretenimento, tantas exigências supérfluas ou inúteis que consomem nossos dias. O olhar fixo na tela do celular, do computador mais próximo, e nenhum na vida, no passarinho que canta, no céu azul.

Diego foi o personagem que descobriu, na peça de Camus, que todo poder que a Peste tinha nascia do medo das pessoas e assim a desafiou e a desnudou diante de todos, revelou o segredo de sua força, ou seja, a ilusão de que a Peste era invencível. Com o fim do medo veio a imunidade e a Peste foi embora.

A exemplo de Diego, precisamos perder o medo do capitalismo, ele não é invencível. Temos que desmascarar os seus artifícios enganosos, suas falsas promessas de liberdade, de vida, e eliminar os mecanismos de escravização dos seres humanos e de destruição da vida na Terra.

Para isso, precisamos nos reinventar, e, mais, temos que reinventar um modo de viver que seja o contrário daquilo que nos aniquila enquanto sociedade e nos adoece enquanto espécie humana.

Precisamos perder o medo de sonhar e de propor a construção do socialismo.

Julho 2020