LUIZ ROSSI comenta:

Rosana Pinheiro-Machado escreveu “Amanhã vai ser maior. O que aconteceu com o Brasil e suas possíveis rotas de fuga para a crise atual”. São Paulo, Planeta, 2019.

A divisão do livro e outras questões

Para fins de análise, o livro será dividido em cinco partes para publicação, respeitando as várias divisões que a autora propôs. Prelúdio (p. 15-63); Ato I – O avanço da direita (p. 65-94); Ato II – O recuo da esquerda (p. 95-131); Ato III – Bolsonarismo (p. 133-162); Réquiem da desesperança (p. 163-190). Cada uma das partes está subdividida.

Os destaques da autora serão expressos da forma como aparecerem no livro. As nossas citações aparecerão quando expressamente informadas no texto como Nosso negrito, Nosso itálico, etc.

PARTE III. Ato I. O recuo da esquerda.

Da esperança ao ódio (p. 97–103)

O poder de compra passou a ser um meio fundamental de reconhecimento, visibilidade e cidadania entre as camadas populares na era Lula”.  A pessoa que recebe um dinheiro e gasta em um tênis de marca  passa ser reconhecida, “se sente como gente” na sociedade.  Para a autora, “Não é possível avançar em uma reflexão sobre a atuação da esquerda brasileira nos últimos anos sem analisar os aspectos positivos e negativos dessa política lulista” (p. 98).

O Orçamento Participativo (OP) no tempo de Lula permitia, por exemplo, que uma mulher tomasse o microfone e colocasse suas reivindicações. Nesses anos, houve a ascensão social devido aos vários programas do PT, além do aumento do salário mínimo acima da inflação do período. As pessoas passaram a consumir e obter produtos que até então não conseguiam devido à pobreza. Foram anos de entusiasmo para as populações das periferias brasileira. A questão do consumo, contudo, sem um profundo e sistemático trabalho de consciência e organização política deixou a população sem um norte a fim de defender as conquistas no plano do consumo, por exemplo. Com a crise instalada, a partir de 2014, essa  população periférica é desempregada e perde recursos. Não tem mais a possibilidade de consumo como antes, mas também não está organizada politicamente para defender os avanços da era Lula (p. 98-99).

A autora afirma que o sociólogo alemão Wolfgand Streeck pontua que “o capitalismo superou a estagnação da década de 1970 empoderando os consumidores, o que causou uma espécie de invasão do mercado à vida social. O ´que ele chama de socialização do consumo` é mais individual do que coletivo e cria indivíduos que seriam menos integrados socialmente e menos comprometidos na esfera pública. Clientes são satisfeitos de imediato pelos bens que compram: clientes são mimados. Quando os cidadãos são transformados em clientes, eles ficam satisfeitos com os bens públicos e ´têm menos paciência` com a vontade geral, o que resultaria em apatia política” (p. 99).

Na mesmo direção, também citados pela autora, autores que analisam as ideias políticas no neoliberalismo, como Wendy Brown, Pierre Dardot e Christian Laval, Li Zhang e Aihwa Ong, entre outros, entendem “o consumo como parte de um processo de hiperindividualização e competição. Dessa forma, o mercado invade todas as esferas da sociedade e atinge a conduta humana, causando uma espécie de ´privatização do eu`, uma busca permanente por prazer, esvaziando o tecido político social” (p. 99-100).

A autora, citando autores brasileiros, como Chico de Oliveira, Ruy Braga e Lena Lavinas, afirma que “a adoção de políticas públicas neoliberais contribui para a despolitização do Estado, tornando-o um braço gestor do mercado financeira”. Para Lavinas, citada pela autora, melhorou a condição econômica  da população mais pobre, mas não deixou de continuar com políticas neoliberais que “levou à redução da provisão de bens públicos” (p. 100).

As medidas neoliberais como “a inclusão financeira e pelo consumo, levam à erosão da democracia, à retração dos bens públicos e ao esvaziamento da política na esfera social”. Com essa política de inclusão financeira houve o enfraquecimento democrático em muitos níveis. Para a autora, em contraposição, houve uma “transformação na autoestima e no orgulho dos indivíduos de baixa renda, o que chamo de autovalor” (p. 100).

As altas classes médias e os ricos reagiram a essa mudança para melhor vivida pelos pobres. Era uma experiência perigosa, pois os mais pobres poderiam utilizar esse autovalor para questionar o poder político. Isso aconteceu inclusive no caso dos rolezinhos.“Era insuportável uma meninada brincando, cantando, namorando, comprando. Era intolerável ver a autoestima dos filhos dos novos consumidores. Era a metáfora do novo Brasil: o autovalor do pobre e o recalque das elites” (p. 101-102). A autora chama de “esperança” quando fala da era Lula, mas para ela, era uma “esperança precária”. (p. 101-102).

A partir de 2014, a crise se instalou. Os novos consumidores perderam emprego, diminuíram os salários, os assaltos aumentaram. A esperança acabou. As rádios, Tvs e jornais conservadores não davam trégua ao PT, os evangélicos contribuíam com essa ira e um candidato da extrema direita afirmava que o futuro seria promissor (p. 102-103).

Para avaliar os recuos da esquerda nos últimos anos, é imprescindível colocar na balança os impactos positivos (insubordinação) e negativos (desdemocratização) da inclusão financeira e do consumo. Todavia, responsabilizar essa políticas pelo que ocorreu é um ato simplesmente leviano. A virada conservadora é, acima de tudo, resultado de uma articulação poderosa das elites políticas do país que vem correndo desde 2014”. Para a autora, não foi a inclusão pelo consumo que criou o problema para a população, mas sim “a soberba da confiança de que só ela bastaria, sem mexer de forma profunda na estrutura da desigualdade. O problema foi ter virado as costas para as periferias. Acreditando que somente a autoestima dos novos consumidores seria suficiente para produzir uma fidelidade partidária eterna” (p. 103).

Bandido bom é bandido morto (p. 105-110)

Há uma contradição na compreensão das pessoas da periferia no que se refere ao papel da polícia. Frequentemente são entusiastas da pena de morte e da ação da polícia ao mesmo tempo que são as principais vítimas dos policiais (p. 305). “Em todo o país, 5.144 pessoas morreram executadas por policiais em 2017 (…).  Este é o maior número já registrado (…) desde 2013. Se partimos do princípio que de que 71% dos homicídios ocorrem entre jovens negros e pobres, podemos supor a cor e a classe dessas vítimas da violência fardada”. A autora pergunta: “porque vítimas em potencial da violência do Estado muitas vezes se colocam em defesa da polícia, banalizando as execuções extrajudiciais?” (p. 106).

Nas periferias de São Paulo e Rio de Janeiro, onde ocorrem a maior parte das execuções policiais de jovens, já existe um ativismo ou ações hop hop da cidade o que não impede, mas questiona a matança de jovens negros. Mesmo em capitais de outros estados, a violência existe, embora mais matizada (p. 106-107).

Nossa herança colonial revela a construção de um imaginário partido em dois num país também dividido: um branco, civilizado e seguro e outro negro, bárbaro e perigoso. Com a teórica feminista bell hooks e a pesquisador Teresa Caldeira aprendemos que a ação de esperança faz parte das crenças dominantes, nas quais se entende que o perigo reside do lado de fora. Mas a teoria do pensamento policial brasileiro alerta para o fato de que a construção da ´marginalidade` também produz uma figura central em nosso imaginário: a do ´vagabundo`, desviante e desestabilizador da ordem, criminalizado e desumanizado” (p. 107).

A autora fala da “espetacularização do sangue, do sexo brutal, dos tiros e das facadas. Uma violência-ostentação, filmada e focada nas comunidades”. Assisti também, diz a autora, “a um vídeo de uma execução a sangue frio com 29 tiros de um homem pelo tráfico. Depois, recebi outro, de traficantes com fuzis atirando para o alto (…) essas imagens revelam como uma forma de indignação pela impunidade, mas também como um poder disciplinador e moralizador (…) enquanto as execuções policiais quase nunca são filmadas (por razões óbvias) e, portanto, são menos frequentes no imaginário popular” (p. 107-108).

Em um mundo das periferias em que a morte ronda cotidianamente, um jovem que estuda e trabalha precisa vencer barreiras de obstáculos em todo momento. De um lado, o tráfico, de outro, a polícia faz com que esse jovem viva sempre em tensão. A autora afirma: “Construir-se como ´honesto` é uma saga radical de sobrevivência. Existe aí uma comunhão de valores meritocráticos e punitivistas desde baixo”. (p. 109).

A arma nesse universo é “um símbolo de poder” e também, com a arma, o desejo de não ficar “de quatro” como imposição de bandidos. “Elas também representam virilidade: os fuzis levantados dos traficantes estão lá, fálicos, para reafirmar o poder masculino” (p. 109).

A maioria das vezes, o amparo a um jovem vem da família, da religião e de ações coletivas, mas quase nunca do Estado. “Se elegemos um fascista presidente, e se parte dessa votação veio das classes populares, a responsabilidade por isso é, sobretudo, do ódio de classe, do racismo e décadas de omissão do Estado. Os que apanham da polícia real, mas torcem pelo policial ideal estão apenas expressando a própria contradição do modelo de nação brasileira” (p. 109).

Bolsonaro atinge o âmago de uma parte da cultura popular e masculina. Ele atinge o punitivismo das pessoas. Quando o presidente, ainda em campanha, fala ao vivo no Jornal Nacional que, se um bandido tem um fuzil, o policial e o cidadão de bem precisam de um fuzil maior, ´e não uma flor, ele não choca, mas alcança o íntimo de uma grande parte da população que pede violência na mesma medida que é violentada” (p.110).

As malas do Geddel (p. 111-117)

As populações das periferias brasileiras vivem em sobressaltos. Falta saneamento básico, já que as águas dos banheiros escorrem para as ruas; o lixo não é tratado pelo poder público como uma questão de saúde; o atendimento em hospitais é precário e quando há necessidade operações urgentes, espera e, às vezes, a pessoa morre. A população, às vezes, tenta resolver os problemas da própria comunidade. “Nem as autoridades do Estado, nem políticos de direita ou de esquerda” aparecem para resolverem as pendências. Mas, “em época de eleição, os candidatos chegam em comitiva, dão aquela volta bacana na área, abraçam umas crianças descalças e desaparecem. De repente, a gente vê todas as pessoas, até moradores de becos mais pobres, carregando bandeiras de candidatos e distribuindo santinhos, em serviço que recebe de 30 a 70 reais por dia”. (p.111-112).

A questão da corrupção é uma parte da tremenda atenção das populações mais pobres. Veem pela televisão a existência de roubos milionários enquanto não aparece ou aparece pouco frente às necessidades da população. Por isso, os moradores dessas comunidades periféricas consideram os políticos profissionais cínicos. Nem a esquerda, com algumas exceções, escapa dessa acusação (p. 112-113).

As “malas do Geddel” carregadas de dinheiro foram vistas por milhões de pessoas das periferias. Eram malas de um político profissional da Bahia. “Eram malas e malas cheias de uma nota azul, uma imagem concreta e poderosa. Estava lá todo o sistema político reunido. Dilma Rousseff tinha sido tirada do cargo em 2016. Se uma parte da população comprou o lobby mediático lavajatista, acreditando, portanto, que o impeachment fora promovido por corrupção da presidenta e do PT, as malas do Geddel lembravam que Michel Temer e Aécio Neves estavam afundados em esquemas promíscuos de corrupção”. Foi nesse período que um político profissional e deputado federal começou a subir nas pesquisas presidenciais de 2018. Jair Bolsonaro aproveitou desse quadro que mostrava corrupção das grandes para rapidamente ganhar pontos nas pesquisas do opinião. Era parte importante da população, inclusive das  periferias, que embarcavam no candidato de extrema direita (p. 113).

A luta contra a corrupção é deturpada pela direita que a coloca “como de caráter de um povo, uma classe ou um partido”. E a esquerda não responde politicamente com uma narrativa que mostre que é o Estado controlado pelas corporações que provoca a corrupção como um método do sistema capitalista. A burguesia afirma, como faz o atual ministro da Economia, Guedes, de que o Estado é ineficiente, e, por isso, é necessário privatizar todas as empresas públicas para deixar ao mercado a resolução dos problemas econômicos e da vida. A esquerda não tem desenvolvido uma narrativa que mostre que o mercado com Estado mínimo realmente não resolve as questões econômicas em benefício da população, principalmente das mais pobres. Na atualidade, o neoliberalismo “sequestra” o Estado em benefício das corporações. “Nesse novo modelo, o poder político passa a atuar como um braço facilitador e protetor do mercado, corroendo a confiança na democracia representativa”                     (p. 114-115).

A dependência do Estado em relação ao grande capital é um fato da própria natureza do capitalismo (…) Desde a sua gênese, o Estado capitalista tem fracassado sistematicamente em assegurar o bem comum ou garantir o direito dos cidadãos contra os abusos do mercado, atuando para legitimar a violência sobre os mais frágeis”. Para a autora, “grandes escândalos de fraudes em licitações e fiscalizações que culminam em desastres ambientais, como o que ocorreu em Brumadinho e Mariana, constituem regra, e não exceção”. O promotor Carlos Pinto afirma em jornal britânico “sobre a Samarco e Vale do Rio Doce, pontuando que todos os efeitos estavam focados no retorno das atividades (para estancar o prejuízo), e não na recuperação ambiental”. (p. 115).

Para David Harvey, citado pela autora, a financeirização do mundo provoca: 1) “aumento do controle dos bancos sobre a economia e a vida social”; 2) “as privatizações são maximizadas”; 3) “os cortes de recursos públicos previstos em orçamentos governamentais aumentaram de forma crescente”; 4) “os bens coletivos se tornam cada mais deteriorados”            (p. 116).

Para a autora, “corrupção é o esvaziamento da razão pública em nome do ganho privado. É a vitória dos laços particularistas e assimétricos sobre a igualdade e o universalismo. A luta contra a corrupção e em defesa da democracia radical, portanto, representa inexoravelmente duas faces de uma mesma moeda. É preciso reinventar esse debate denunciando o poder econômico sobre o Estado, resgatando os sentidos do coletivo e lutando pela garantia universal dos bens públicos” (p. 117).

Bolsonaro sabe meu nome (p 119-123)

A forma como o PT encaminhou toda a campanha em 2018 foi catastrófica. De início, sempre a espera de Lula, Haddad não fez campanha. Foi feita pensando em Lula conseguir se candidatar com a improvável reversão de sua prisão, o que não aconteceu. Essa situação permaneceu indefinida, sendo que Haddad chegou a aparecer com uma máscara do resto de Lula. Foi chamado de poste por não se apresentar como o candidato Haddad. Essa forma de fazer campanha abriu espaço para Bolsonaro, um nome com pouca expressão política se transformar em um tsunami, na palavra da autora, na campanha final (p. 119-120).

É evidente que a razão fundamental para a crise do PT e do lulismo foi a campanha insidiosa e criminosa das rádios, jornais e Tvs que mandam no Brasil, mas principalmente a Tv Globo, a mando da classe dominante. Batendo em de lula e no do partido com acusações de corrupto e de comunista, desencadeou uma onda antipetista e anti-Lula que teve um papel importante na campanha eleitoral, principalmente após tirar Dilma Rousseff da presidência em julho de 2016, via golpe de Estado (p. 120).

A frustração da população era muito grande. “Depois de um limbo de cinco anos, desde julho de 2013, período marcado por uma crise multidimensional, diferentes frustrações motivaram o apoio a Bolsonaro: corrupção, emprego, ordem, família, segurança, tirar o PT do poder, ou seja, absolutamente tudo e, ao mesmo tempo, nada. Nesse contexto, a facada em que Bolsonaro levou no dia 3 de setembro de 2018 foi decisiva. Carregado pelo povo como um herói, ele foi atingido no estômago”. Após o acontecido, apareceram afirmações como “o homem deve ser bom mesmo” ou “os poderosos estão com medo dele” (p. 121).

No final do processo eleitoral, votar em Bolsonaro era uma questão de pertencimento em algo maior. Pela via autoritária, era parte de efervescência coletiva” (p. 119). Antes mesmo das fake news, segundo a autora, o crescimento eleitoral de Bolsonaro era efetivo. As pessoas participavam, sentiam que valia a pena fazer campanha para ele, sem cobrar nada. “Na época das eleições, muitos eleitores mencionaram que era a primeira vez que amavam a política, que se sentiam genuinamente parte de uma campanha” (p. 121). “Era uma sensação de fazer história contra tudo e contra todos não pela esquerda radical, mas pela extrema direita” (p. 122).

A campanha de jornais, rádios, mas principalmente da Tv Globo entre as emissoras de Tv, de acusar o PT e Lula de todos os males rendeu frutos. A enxurrada das fake news, incentivada e paga por empresários acrescentou pontos a favor de Bolsonaro. A prisão de Lula e a campanha anódina do PT com Haddad para a presidência da República, não tendo assumido a própria campanha a não ser em seu final, contribuiu para a avalanche de antipetismo. A onda antipetista, com o massacre mediático e as fake news disparadas aos milhares, chegou em grande escala às periferias brasileiras.

Votar em Bolsonaro foi, para muitos, a única forma de fazer política e se sentirem incluídos no coletivo. Uma forma de ser gente e ter um lugar no mundo. Isso, é claro, em meio ao vazio populista que se sustentavam apenas no personalismo. As pessoas se agarravam à figura do então candidato no meio de um deserto político. Não houve contrapartida, e já não havia antes mesmo do golpe. É esse deserto que a esquerda precisa rever urgentemente se quiser ser protagonista da derrota do autoritarismo no Brasil” (p. 123-124).

Mano Brown avisou (p. 125-131)

Uma grande parte da esquerda partidária e burocratizada brasileira comete um erro básico: acredita ser por geração espontânea ou empatia natural, a porta-voz dos interesses dos mais pobres, bem como julgar conhecer suas necessidade e estar preparada para representa-los”               (p. 126).

Embora Lula seja um líder que conhece a cultura popular de onde veio, embora tenha realizado uma revolução no cotidiano das pessoas mais pobres em lhes propiciar recursos do Estado para comprarem comida, educar os filhos, se vestirem melhor, as tarefas diárias do poder, com a necessidade de manter a governabilidade do país, afastaram o PT dos mais pobres, tornando o partido como outro qualquer. Esse fato foi fatal, ocasionando o recuo do partido, a partir de 2013, da defesa dos interesses da população mais pobre e a resistência ao avanço da extrema direita        (p. 126-127).

Chamar o trabalhador de fascista porque votou em Bolsonaro só mostra as dificuldades da esquerda em compreender a situação dessas pessoas. Podem ser mais de direita ou se achar liberal, isso mostra a ausência de trabalho político junto às periferias, perdendo, então, para a direita e para a extrema direita. No final o trabalhador, principalmente o jovem, não teve acesso às informações a não ser as passadas pelas Tvs, não lhe, permitindo, pois, compreender a batalha ideológica em que está envolvido: a disputa entre a esquerda e a extrema direita pelo poder político. A autora afirma: “Agindo assim, apenas afastamos essas pessoas de nós e as jogamos ainda mais para a direita, que, por sua vez, os recebe de braços abertos, sem nenhum pré-requisito” (p. 128). Em outro ponto a autora continua a acusação: “A cegueira, a negação e o autoengano têm sido alguns dos maiores entraves para a resistência ao projeto bolsonarista”.  (p. 129).

A população das periferias brasileiras conhece o Estado pela violência da polícia, pela ausência bens públicos, pelas promessas vãs de políticos. Como reagir se o Estado não aparece e nem o dinheiro do imposto recolhido é investido nas periferias. Mas, nem mesmo a esquerda aparece lá para apoiar suas reivindicações, discutir seus problemas. Por essas razões, parte importante dos pobres critica a esquerda (p. 129-130).

Bolsonaro preencheu lacunas deixadas pela profunda decepção com a política institucional. Em um país em crise, prometeu radicalismo e demostrou indignação com o cenário do Brasil – duas características que a esquerda institucionalizada foi perdendo aos poucos. Ele fez isso de maneira mais violenta e despolitizada possível, mas que funcionou, na medida em que o populismo autoritário é sempre uma alternativa fácil”  (p. 130).

Admitir que há muito a fazer e a repensar é muito mais trabalhoso. As saídas à esquerda não passam pela adoção de uma vã narrativa indignada, mas por uma profunda reconexão com as periferias que leve à indignação: com a falta de comida, a compra de votos, os assaltos sofridos na parada de ônibus, o emprego precário” (p. 131).

A saída não é evangelizar eleitor”. “Não é preciso politizar a periferia”. Para a autora explica que “a antropologia tem um princípio fundamental: as comunidades têm as soluções para os próprio problemas, bastaria perguntar quais são” (p. 131).

Não é preciso politizar a periferia. É a esquerda que precisa se periferizar” (p. 131).

Julho 2020