Tainá Brederode Sihler Rossi

É muito gostosa a sensação de felicidade pela primeira vez, né?

Eu me surpreendi várias vezes fazendo coisas pela primeira vez na minha estadia em Lima, Peru.

Depois de um mês super agitado e cheio de confusões depois da minha chegada, eu pude finalmente respirar sem o estresse de não saber onde dormiria, se teria dinheiro para comer as 3 refeições diárias ou se teria dinheiro para ir até o trabalho.

A primeira vez…

… que eu consegui ir sozinha ao centro para trocar dinheiro… foi uma sensação de empoderamento incrível. Tudo bem que passei 3 horas em 3 ônibus diferentes e ao mesmo tempo que tive uma discussão de relacionamento tensa, ouvindo uma gritaria e briga no último ônibus, MAS deu certo e consegui chegar sã e salva, encontrar meus amigos queridos e fazer programas bem legais de redescobrir a cidade;

… que eu fui sozinha de ônibus para o meu trabalho e ainda por cima cheguei no horário;

… que eu andei de bicicleta sozinha sem conhecer a cidade, com direito à deitada na grama, desenho no diário de viagem e descobrir acroyoga e mais de 10 slacklines no mesmo parque. Descobri uma pista de skate, uma de mountain bike e uma pista de para porto, uma loucura linda;

… que eu peguei um ônibus e fui sozinha passar o dia na praia, eu comigo mesma, mesmo estando numa fossa emocional, foi libertador ver aquela parte da cidade em Barranco. Era um dia antes do Ano Novo e eu estava me sentindo muito deprimida, mas acordei e decidi que sim, apesar de não ter dinheiro, eu poderia fazer aquilo por mim. Andei o máximo possível e peguei o ônibus, parei em uma parada errada e consegui achar o caminho, perguntando. Cada esquina que eu virava era uma explosão de sensações. As ruas todas coloridas de grafite, descendo e vendo aquela imensidão azul. Quando cheguei lá e me joguei pela primeira vez na água gelada do Pacífico, meu coração gritou de felicidade;

… que comi um lanche da tarde que ganhei de mim mesma, na beira do mar com um pôr do sol incrível, respirando ar limpo;

… que descobri a melhor raspadinha do mundo chamada – cremolada de lúcuma –, gente, socorro, que coisa deliciosa;

… que viajei com amigos para um oasis na madrugada, fomos para uma festa antes e da festa fomos para a estação de ônibus, viajamos 6 horas e chegamos lá em Ica bem cedinho, pegamos um taxi e chegamos em Huacachina e parecia uma cidade de zumbis, não tinha ninguém e estava só o deserto ao redor. Subimos correndo as dunas (minhas coxas morreram) e vimos o nascer do sol lá. Andamos de -tubulares- (carro que corre nas dunas), surfamos na areia, dormimos em cubículos em um hostel e fomos em uma das praias mais bonitas que eu já ví na minha vida;

… que viajei sozinha para a Bolívia em mil ônibus com uma mochilinha. Passei muitas e muitas horas em ônibus, ví inúmeras lhamas, tive momentos gostosos de silêncio comigo mesma, me descobri aos poucos, fui para uma ilha e dormi lá, participei de um festival local, descobri tintura natural com os indígenas locais. Andei mais de duas horas na madrugada em uma cidade desconhecida, conheci duas mulheres incríveis, entrei no milenar lago Titikaka, acordei ás 4h da manhã para cruzar uma ilha na chuva e ver o sol nascer logo naquela vista. Respirei fundo e me conectei com a -Isla del sol- de uma maneira que não consigo por em palavras. Fui realmente feliz em fazer essa viagem, apesar de ser para renovar o visto, foi incrível;

… que eu fui em uma festa peruana, aprendi salsa e cúmbia e me senti extremamente feliz por presenciar aquele momento;

… que senti um terremoto na rua, pode parecer estranho mas realmente eu me senti feliz por aquela experiência nova;

… que eu ví o show de águas no parque das águas, eu estava com duas amigas queridas e vimos um show lindo de águas pulando com iluminação. Pulamos na água, nos estabacamos, gritamos de animação e fomos gratas por estamos juntas nessa;

… que eu viajei com um amigo para cachoeiras em um frio desgraçado, mais de 7 horas  andando em uma trilha, escalando cachoeiras e encontrando o lago mais bonito que eu ví, senti e respirei, a – Laguna Churup – me tirou o fôlego e foi nela que eu pulei de calcinha e top e quase morri de frio na água gelada de -5 graus. Sou muito agradecida pela oportunidade de compartilhar o momento único que foi com o meu amigo;

… que eu não tinha dinheiro e nem bicicleta e andei de volta pra casa com um amigo por uma hora, depois de um bar de salsa. Conversamos tanto, rimos um monte e passamos frio juntos. Foi muito legal;

… que eu comi arepas ao estilo venezuelano com guacamole e banana da terra frita com amigos queridos;

… que eu fui em uma festa peruana de R&B dos anos 2000 sozinha e de bicicleta, as minhas amigas desistiram em cima da hora e eu decidi ir mesmo assim, foi a melhor decisão que eu tomei. Explorei a cidade a noite, dancei sozinha, fiz amizades e curti a música, na volta grafitei e cheguei bem em casa;

… que eu construí viviendas de emergência – sendo chefe de construção, construir um lar em conjunto com a família, por mais que seja temporário, é incrível. Não há palavras pra descrever o sentimento de gratidão e felicidade por dar uma oportunidade àquela família;

… que eu fui em um festival sozinha e depois encontrei amigos, o festival teve como atração muitos grupos musicais que eu conheci lá e que marcaram a minha vida. Eu pulei, gritei e bailei um monte até as pernocas ficarem cansadas;

… que eu saí para correr a noite sozinha e passei uma hora correndo. Comecei correndo 15 minutos e já não aguentava mais, quando consegui correr sem parar por uma hora, me senti muito orgulhosa por perseverar;

… que eu fui ao cinema, no parque e comer batata sozinha de bicicleta. Gente.. depois que eu consegui essa bicicleta, eu me senti a pessoa mais livre do mundo, só pegavas ônibus para ir para as comunidades longínquas trabalhar, mas se não.. eu ia para todo canto, andava mais de horas naquela bicicleta e me sentia uma rainha independente. Não gastava dinheiro, tinha a minha liberdade de sair dos lugares e festas na hora que eu queria e sem me preocupar com uber ou taxi.

Eu poderia passar páginas e páginas falando dos momentinhos de felicidade que eu passei naquele país, mas decidi que esses foram realmente os que me marcaram e me fizeram respirar fundo mais uma vez. Foram esses que me fizeram sentir livre, como se tivesse asas, mesmo aos 23 anos é incrível ter os primeiros momentos de felicidade extrema.

Julho de 2020