Antonio Sérgio Borba Cangiano

Foi publicado o “Post-Scriptum” de Gilles Deleuze no L‘ Autre Journal, n.1, maio de 1990, sobre as Sociedades de controle (DELEUZE GILLES, 1992), onde o filósofo avança na análise de Foucault sobre as sociedades disciplinares. Deleuze nos mostra a passagem de uma sociedade a outra, sempre tendo como produção dos acontecimentos o capitalismo. Ele nos diz: 

Uma mutação do capitalismo. O capitalismo do século XIX é de concentração para produção, e de propriedade. Erige a fábrica como meio de confinamento, [Sociedade disciplinar], o capitalista sendo o proprietário dos meios de produção, mas também eventualmente proprietário de outros espaços concebidos por analogia (a casa familiar do operário, a escola).  Quanto ao mercado, é conquistado ora por especialização, ora por colonização, ora por redução dos custos de produção. Mas atualmente o capitalismo não é mais dirigido para a produção, relegada com frequência à periferia do terceiro mundo, mesmo sob as formas complexas do têxtil, da metalurgia ou do petróleo. Não compra mais matéria prima e já não vende produtos acabados: compra produtos acabados, ou monta peças destacadas. O que ele quer vender são serviços e o que quer comprar são ações. Não é dirigido mais pela produção, mas pelo produto, isto é, para a venda ou para o mercado.  Por isso ele é dispersivo e a fábrica cedeu lugar para a empresa.  Informam-nos que a empresa tem agora uma alma”. 

A disciplina da fábrica é substituída pela alma da empresa, assim como “a educação continuada substitui a escola, o controle contínuo substitui o exame. Este é o meio mais seguro de entregar a escola à empresa” (DELEUZE GILLES, 1992). Nessa sociedade de controle, os indivíduos segundo ele tornaram-se “dividuais”, divisíveis, e as massas tornaram-se amostras estatísticas, dados, mercados ou bancos.

Deleuze morreu em 1995, não conheceu o fantástico desenvolvimento das novas tecnologias das redes sociais do século XXI, do uso do  GPS em larga escala e do controle espacial da movimentação de pessoas, do Big Data, e seu uso com inteligência artificial, do fenômeno de dataficação da vida das pessoas em gigantescos repositórios de dados de todas as fontes da vida captados pelas redes: preferências de consumo, afetivas e políticas, e o uso desses dados por máquinas que aprendem (machine learning– Inteligencia artificial), para com princípios de psicometria conseguir ações de emissão de mensagens do tipo uma para um (one to one) individualizando o próprio indivíduo, os modernos divíduos endividados, assim ele os denomina, segmentados em grupos de indivíduos, que recebem mensagens que persuadem guiando sua conduta pelo marketing, pelo o consumo, forjando preferências, dirigindo a decisão política e os afetos. 

As antigas sociedades disciplinares manejavam máquinas simples: alavancas roldanas, relógios, linhas de produção, máquinas têxteis, veículos, ou seja, mecânicas e eletromecânicas, máquinas com controles numéricos digitais. As sociedades de controle manejam as máquinas virtuais, operam por máquinas de uma terceira espécie, máquinas minúsculas como telefones inteligentes [smartphones], ou máquinas de informática, câmeras digitais, máquinas de comunicação e computadores.

Denominamos, no início da profusão da internet, o surgimento da sociedade da informação, baseado no fato do acesso fácil à informação, à capacidade de interação ativa do usuário com elas, e a obtenção de respostas do gigantesco acervo de informações que o “guru Google” fornece com os algoritmos de busca, hoje algoritmos desenvolvidos com inteligência artificial IA. O marketing passou a ser o instrumento de controle social, impulsiona os desejos, efetua as vendas do consumismo e segundo Deleuze “forma a raça impudente de nossos senhores”. As empresas Big Techs: Google, Facebook, Amazon, Microsoft, Instagram, Tweeter, dentre outras e suas subsidiárias ditam as novas formas de produção, das ofertas e do trabalho com aplicativos. Dispositivos de vídeo conferência estão disponíveis, de reprodução de filmes, séries, fornecem a facilidade de “lives” no Youtube, encontros temáticos e afetivos no Zoom, Jitsi, Google meet, etc., povoam o nosso dia a dia.

Parece que a nova sociedade, que passa da sociedade de informação para a sociedade de manipulação e controle, é o mundo de facilidades transversal à vida dos “dividuos”, proporcionando a sensação de liberdade e livres escolhas ao alcance de um “click” de dedos ou de comandos de voz. 

Bem vindos todos ao admirável mundo virtual, onde o espaço – tempo são ações e respostas tempestivas e confinadas em bolhas identitárias manipuladas pelo mercado capitalista que se apropria e usa dessas tecnologias no ápice do neoliberalismo. Sem regulação e com a expropriação do trabalho, a exploração ilimitada dos “divíduos” endividados, quando não excluídos pela miséria produzida pelo DNA capitalista, segue com a exploração ilimitada dos recursos globais, humanos e ambientais. 

Estamos na sociedade onde, segundo Deleuze, “o controle é de curto prazo e de rotação rápida, mas também contínuo e ilimitado, ao passo que a antiga disciplina era de longa duração, infinita e descontínua”. Se ele ainda vivesse, sem dúvida, acrescentaria que os controles nesse novo nível, além de colocar o estado como sedes das empresas capitalistas, diria que as democracias não mais existem nesse novo registo. Que os desejos fomentados pelo marketing e o acesso virtual são indiscutivelmente a forma que o capitalismo desenvolveu para moldar a sociedade a nível global. 

Nessa primeira transição da disciplina para o controle, o Homem não é mais o homem confinado, mas o homem endividado. O sujeito é o limite de um movimento contínuo entre um dentro e um fora, controlado virtualmente nas suas ações no mundo real. Tendo sua subjetivação interna e externa formada pela fragmentação das informações nas redes, cuidadosamente distribuídas conforme os algoritmos inteligentes que usam a infinidade de seus dados nos BIG Datas, segundo estatísticas e tendências, resultados da psicometria aplicada.

Nesse contexto em 2020, o mundo foi impactado pela pandemia do COVID-19 e ampliou exponencialmente a inovação tecnológica e o controle social para a prevenção de contágio e, com isso, promove uma nova, segundo Foucault, governamentalidade dando uma nova forma, aceitável de controle sobre o espaço tempo na vida de todos. E com isso também, como efeito colateral, expôs alguns acontecimentos que contrapõem a tudo que constatamos nas sociedades de controle neoliberais que vivemos em nosso dias.

Deleuze nos diz que : “É verdade que o capitalismo manteve como constante a extrema miséria de três quartos da humanidade, pobres demais para a dívida, numerosos demais para o confinamento: o controle não só terá que enfrentar a dissipação de fronteiras, mas também a explosão dos guetos e favelas”. Os refugiados, os vulneráveis sem moradia digna, sem teto, sem água para lavar as mãos, sem hospitais, sem leitos, sem salvação, expõem as feridas abertas do capitalismo global.

A pandemia abre espaço para mudanças rápidas movidas pelas crises expostas do capital, do dinheiro que falta pela imobilização da economia, pela falta de trabalho e renda, e com o aprofundamento de acontecimentos que provocam mortes em alta escala, e produzem afetos generalizados que colocam na ordem do dia o fracasso da face neoliberal do capitalismo global. Segundo ele, poderemos aferir que provoca linhas de fugas, que fomentam resistências, forçam a busca de conhecimentos científicos, não só sobre o COVID-19, mas busca de saberes de suas estruturas, para vacinas, tratamentos, prevenção e superação.

A ciência volta a estar no centro das pós verdades, supera a terra plana. Não só está focada nos conhecimentos patológicos da pandemia, mas conhecimentos da situação econômica dos trabalhadores, incluídos e dos excluídos e vulneráveis, da situação a que o estado mínimo neoliberal deixou, ao deus dará, a vida de todos.

O Estado incapaz de fornecer hospitais, leitos, ventiladores, expõe a irracionalidade desse estado mínimo. A situação exige um estado atuante, com recursos e instrumentos para evitar as mortes, tanto pela doença como pela fome, a renda mínima universal toma força em uma nova pauta, miséria generalizada a que o mundo está sujeito se mostra aterrorizante na pandemia. Milionários estão dispostos a serem taxados em sua fortuna para ajudar no caos.

Portanto, outros valores se mostram nascentes, necessários. A solidariedade surge como imprescindível, a colaboração, o uso das tecnologias, apesar do uso para controle, parecem adequadas para o combate a pandemia e para a continuidade das atividades em home office, os serviços passam a ser mais virtuais que nunca, compras no e-commerce, os aplicativos de delivery salvam quem pode usufruir dessa facilidades para receber em casa produtos, não só para se alimentar mas para necessidades básicas. As grandes empresas de tecnologia têm sua capacidade ocupada e são as que mais acumulam capital na crise. Suas ações explodem nas bolsas, elas e os bancos, que não deixam nunca de ganhar.

Essa crise global faz com que a busca de conhecimentos, inclusive sobre os controles a que estamos sujeitos, tenha prioridade sobre todos e tudo, Preservar a vida, sair do isolamento social, o que esperar do futuro? São questões que nos motivam a buscar conhecimento. O isolamento social imposto aumenta o controle. Nesse caso, temos que aceitar, não obstante termos clareza dele, porque o controle tem que estar exposto para ser efetivo, temos que aceitá-lo sob a pena de ficar doente ou enfrentar a morte.

A pandemia motiva nossa capacidade para sentir os acontecimentos que levam a todos à vulnerabilidade vital e econômica a que o mundo chegou.  Nesse ponto de inflexão de uma sociedade de controle, tem como resistência o uso disseminado de “lives”, que apresentam novos conhecimentos em todos os níveis, políticos, econômicos, da pandemia, conhecimentos econômicos sentidos na pele, sentimentos de direitos comuns pela vida, conhecimentos sociológicos e afetivos. Uma nova subjetivação está em curso, a busca central do conhecimento científico, do conhecimento de  fontes que têm credibilidade.

O combate às fake news é imperioso. Ninguém quer ser enganado. A resistência aglutina forças para a regulação das redes e para o  combate aos controles excessivos. A lei denominada LGPD – Lei Geral de Proteção aos Dados, está definida e entrará em vigor para minimizar a datificação e a manipulação dos “divíduos”, hoje sujeitos às bolhas do marketing capitalista. Os grupos que se organizam em larga escala na busca de conhecimento, não pararão de buscá-lo no pós pandemia.

Um novo normal paulatinamente está se formando baseado na solidariedade, na consciência de que dependemos de cada um e de todos para prevenir a pandemia. Que, sem dúvida alguma, estamos todos no mesmo barco, precisamos nos preservar e também o planeta, não deixar afundar.

É preciso um Estado de direito democrático com ampla participação da multidão. Usar as tecnologias em redes para aprofundar a democracia, invertendo as sociedades do controle para a sociedade do conhecimento. Desenvolver nosso direito comum aos recursos do planeta, desenvolver o novo direito comum na pós pandemia. Está claro na pandemia que é necessário um estado presente, eficiente e adequado para desenvolver ciência, o conhecimento e compartilhá-lo para a sobrevivência de cada ser humano no planeta e na sobrevivência ambiental.

Para Deleuze, muito mais importante que as linhas de fuga ou os acontecimentos que produzem devires da história, são os grupos de resistência, os grupos de usuários, as máquinas de guerra (DELEUZE GILLES, 1972). Ele dá o exemplo das células tronco, por mais que se negue seu uso pela bioética ou por meio das religiões, os pequenos grupos de usuários que necessitam desses avanços científicos para a cura, podem conseguir colocar o direito na política e a mudança experimental na história. Diz ele: “A história não é a experimentação, ela é apenas o conjunto das condições quase negativas que possibilitam a experimentação de algo que escapa à história”. Grupos de usuários, ou seja, a sociedade mobilizada em seus interesses é que criam acontecimentos possíveis, como no caso da biologia, o uso terapêutico das células troncos, por exemplo. É um grupo de usuários, e não magistrados que podem fazer com que o direito passe para a política.

Deleuze nos mostra como a sociedade muda em três eixos:

1- Uma sociedade nos parece definir-se menos por suas contradições que por suas linhas de fuga, ela foge por todos os lados, e é muito interessante tentar acompanhar em tal ou qual momento as linhas de fuga que se delineiam e possam seguir os devires dos acontecimentos.

2- As mudanças não consistem apenas em considerar as linhas de fuga mais do que as contradições, porém as minorias de preferência as classes, por exemplo o devir mulher ou o devir lgbt.

3 – Buscar um estatuto para as “máquinas de guerra”, que não seriam definidas de modo algum pela guerra, mas por uma certa maneira de ocupar, de preencher o espaço-tempo, ou de inventar novos espaços-tempos: os movimentos revolucionários (não se leva  em conta o suficiente, por exemplo, como a OLP teve que inventar um espaço-tempo no mundo Árabe) mas também os movimentos artísticos são máquinas de guerra.

Na sociedade do conhecimento, nascedoura, os humanos pelo seu conhecimento e experimentação com as novas tecnologias, poderão criar os rumos da sociedade, criar acontecimentos de resistência e transformação, do direito em política, de política em leis, e mudar as leis conforme a experimentação e o conhecimento comum possível, não dado pela história, mas produzido pelo conhecimento da história e a produção de devires transformadores.

Afetos que, com base no conhecimento e participação efetiva fundamentada nos grupos de Whatsapp, Zoom, Jitsi, Telegram, possam ampliar os conhecimentos adquiridos. E ampliá-los em toda a potência criativa inerente à multidão na busca incessante do conhecimento, não guiado pelo marketing, mas pela potência de criação e da vida, e que possa indicar o rumo das democracias do século XXI.

O sujeito é o limite de um movimento contínuo entre um dentro e um fora. Será como pensar uma comunidade sem fundamento, mas potente, sem totalidade mas, como em Espinosa, absoluta ditada pelos afetos alegres da evolução humana.

Referências Bibliográficas

DELEUZE GILLES, G. F. O anti-édipo CAPITALISMO E ESQUIZOFRENIA. Éditions d ed. Paris, França: ELO-Mafra, 1972.

DELEUZE GILLES, G. F. Conversações. 3a. Edição ed. [s.l: s.n.]

Julho de 2020