Luiz Rossi comenta:

Rosana Pinheiro-Machado escreveu “Amanhã vai ser maior. O que aconteceu com o Brasil e suas possíveis rotas de fuga para a crise atual”. São Paulo, Planeta, 2019.

A divisão do livro e outras questões

Para fins de análise, o livro será dividido em cinco partes para publicação, respeitando as várias divisões que a autora propôs. Prelúdio (p. 15-63); Ato I – O avanço da direita (p. 65-94); Ato II – O recuo da esquerda (p. 95-131); Ato III – Bolsonarismo (p. 133-162); Réquiem da desesperança (p. 163-190). Cada uma das partes está subdividida.

Os destaques da autora serão expressos da forma como aparecerem no livro. As nossas citações aparecerão quando expressamente informadas no texto como Nosso negrito, Nosso itálico, etc.

Ato III. Bolsonarismo. Parte IV

O espetáculo para o tio do pavê (p. 135-140)

Padrinho de Bolsonaro, “Trump é um fenômenos de entretenimento” (p.136). Foi criação de muitos homens, em especial do “marqueteiro Roger Stone, do produtor (…) Mark Burnett e do estrategista Steve Bannon”. Trump é fruto da composição mediática desses três homens. Para Patrick Radden Keefe em artigo no The New Yorker, Burnett criou a imagem de Trump como “assertivo, um ´mito` e um ícone de sucesso por meio de um longo (e manipulador) processo de edição”.  Já Roger Stone “conhece a cultura popular como poucos (…). Entre as suas ´leis`, encontra-se uma que se aplica perfeitamente a Trump e Bolsonaro: “Melhor ser infame do que não ser famoso”. Quando do surgimento da ideia de lançamento de Trump como candidato, esses marqueteiros lançaram um tuíte com “uma frase que chocasse a muitos, mas que tocasse no âmago racista de tantos outros (nos Estados Unidos): ´Vamos construir um muro`. (…) Judith Butler entende que Trump é um fenômeno mediático em que a vulgaridade enche a tela e se passa por inteligência” (p. 136-137 – negrito nosso).

Para a autora, a cultura popular “vê a política como entretenimento e espetáculo”. Trump e Bolsonaro são produtos das redes de TV que produzem programas para “passar tempo e descolar do contexto” (expressão e aspas nossas).

 “Bolsonaro é um palhaço de palco”. Ele se utiliza dos programas de auditório, ele fala e polemiza com o que ele chama de “velha política”. Ele encarna a decepção do povo, principalmente das periferias com a contínua falta de melhorias na qualidade da educação e saúde, saneamento quase sempre inexistente, buracos na rua, policiamento violento. As pessoas das periferias sempre permanecem com o pires na mão, a não ser quando se organizam minimamente para alcançar alguma reivindicação dos governos. Bolsonaro se tornou um fenômeno mediático. “Entender sua eleição passa menos por teorias de escolha racional e mais pelas vísceras e pelos sentimentos” (p. 136).

Ele fala qualquer aberração na mídia, “aquilo que ninguém tem coragem de dizer” (p. 137). A imprensa volta-se para ele, a população guarda na memória a imagem daquela pessoa falando coisas diferentes, muitas vezes, violentas, outras de ataques de baixo nível contra pessoas, políticos, etc. Em vídeo, “aos berros manda todo mundo se foder diversas vezes. Funcionou. Ele encenava indignação contra o sistema” (p. 139). Os pesquisadores Piaia e Nunes, citados pela autora, afirmam que “Bolsonaro ocupou um lugar imenso na mídia de TV aberta entre 2010 e 2018, somando 33 participações, cujo centro eram suas opiniões polêmicas, em programas como Super Pop, Pânico e CQC”. Perguntavam: “Você já teve sonho erótico com macho?”. Para os autores, acima citados, o humor ácido e homofóbico de Bolsonaro ganhava “audiência se movimentando entre o cotidiano e o inusitado” (p. 138).

Deputado por 28 anos, militar de escalão médio, sem carisma, ele se tornou popular e ganhou as eleições para presidente da República. A partir 2013, Bolsonaro ganhou repercussão atacando Dilma Rousseff, Benedita da Silva, Maria do Rosário e Jean Willys. “Como falava coisas criminosas, a mídia toda se voltava para ele, que se colocou como herói antiesquerda” (p. 138). Em vídeos do Youtube se comporta “aos berros, mandando todo mundo se foder diversas vezes. Funcionou. Ele encarnava a indignação contra o sistema” (p. 139).

Lucia Scalco, participante da pesquisa com a autora, afirma que “Bolsonaro se tornou conhecido a princípio por meio de instituições que tinham acesso à internet, como escolas e igrejas”. Os jovens seguidores de Bolsonaro chamavam os participantes das ocupações secundaristas como “coisa de vagabundo” (p. 139).

Para Rosana Pinheiro-Machado, o nome Bolsonaro se fixou “na memória do povo sempre por meio de polêmicas que despertavam amor e ódio”. Pessoas afirmavam: “Ele é péssimo, mas vou votar nele porque é a única opção” ou “Acho ele muito radical, mas não tem outro candidato, não é?” “Bolsonaro reinou sozinho porque soube usar os espaços da cultura popular: primeiro indo a programas de auditório, depois virando memes `zueros´ na internet” (p. 139).

Para a autora, os políticos-celebridades “não conseguem sair do pessoal e entrar para a política de fato. Esvaziam o coletivo, promovem o caráter antidemocrático e reforçam modelos autoritários que cultuam a personalidade”. Estimulam as emoções e evitam os debates, reforçam o “nós” contra “eles”. Questões que expressam uma personalidade fascista (p. 140).

Vagabundo (p. 141-145)

O sentimento fascista que cresce no Brasil não mobiliza o medo de um inimigo externo, como é comum no Hemisfério Norte. Nosso inimigo é interno: o velho conhecido vagabundo” (p. 141).

Rosana Pinheiro-Machado considera que ninguém se acha vagabundo. É sempre o outro. Somos pessoas amáveis, gentis, realizadas, temos família, respeitamos o próximo. Somos cumpridores do deveres civis e cristãos. Os vagabundos não têm essas qualidades. Têm vida fácil, por isso, talvez,

sejam menos humanos. Os vagabundos “recebem privilégios e mamatas (…) são lesados, preguiçosos e pervertidos. Tudo o que eles possuem vêm da vida fácil”. Quando morrem, pode-se até comemorar (p. 141).

Para a autora, “vagabundo é um significante vazio que pode abarcar muita gente: ambulantes, desempregados, pessoas em situação de rua, pobres, nordestinos, putas, LGBTI+s, ativistas, bandidos” (p. 142).

A definição de vagabundo tem a ver com “relações de poder estruturadas no eixo raça, classe e ideologia” e não devido ao trabalho, à honestidade e o esforço. Assim, pode ser um trabalhador com carteira assinada, um pai de família honesto e ordeiro, um estudante esforçado e dedicado à escola e ao trabalho, mas por ser negro tem mais probabilidade de ser considerado “vagabundo” pela polícia, principalmente (p. 142).

A autora fala, nos critérios abordados acima, de que Lula é um vagabundo devido às sua origem popular e ser oriundo do Nordeste, mesmo que tenha sido um dos presidentes brasileiros mais prestigiados internamente e no exterior. Enquanto isso, Jair Bolsonaro não é considerado vagabundo, mesmo tendo, como político profissional, durante 28 anos, aprovado apenas dois projetos e “têm três filhos se alimentando da mesma fonte, não é vagabundo” (p. 142)

Rosana Pinheiro Machado fala que “a linha que separa um vagabundo de um humano é muito tênue”. Quando jovens de classe média, filhos de autoridades, tocaram fogo no índio Galdino, dormindo em um ponto de ônibus em 1997 em Brasília, se espantaram quando souberam que era um indígena. Disserem: “Achávamos que era apenas um mendigo”. Em 2019, dez adolescentes morreram em um incêndio em uma concentração do Flamengo. Houve comoção, mas se tivessem morrido na periferia seriam considerados vagabundos por uma parte importante da população, como acontece uma infinidade de vezes no Brasil com jovens negros oriundos das favelas (p. 142).

As raízes sociais do vagabundo se encontram na figura do vadio e do marginal do período colonial. Nossa história sempre foi dividida entre uma parte branca e ´desenvolvida` e outra parte que se quer varrer para debaixo do tapete: pobre e/ou negra considerada atrasa e fora do desenvolvimento econômico” (p. 142).

Quais as condições de surgimento dos “vagabundos?”. A autora fala que os libertos da escravidão rumavam para as cidades à procura de trabalho, ou mesmo com ocupação, foram sempre discriminados devido à cor negra de seus corpos, eram considerados marginais e “causavam medo e repulsa.  Nossa mentalidade colonizada não consideravam seus corpos não brancos adequados para circular ao redor dos prédios com arquitetura europeia” (p. 143).

 “A violência sempre foi um projeto do Estado em aliança com a elite”. Os negros que tinham já se alforriado ou aqueles que se tornaram livres com a Abolição em 1888 como eram considerados perigosos mas necessários para os trabalhos domésticos. Como também como ambulantes que, em muitos casos como não tendo trabalho, viviam nas ruas, sem fazer nada, o que os tornava passível de repressão do Estado. “O caminho que transformou o marginal em alguém socialmente autorizado a morrer é longo e resulta de um extenso processo de produção mediática hegemônica que sempre tratou a ´marginalidade` como nefasta”. Com as transformações do século XX, o marginal foi se transformando em um criminoso. No momento que chegaram ao poder no século XXI Bolsonaro e Moro, “o vagabundo é mais que um criminoso: agora ele é também um terrorista”. (p.143).

Os que são chamados de vagabundos não pensam que são vistos como vagabundos. A autora conta o caso de uma ambulante que não se percebia como ambulante, embora a elite a considerasse. Ela própria considerava que os ambulantes com menos mercadorias, menos cuidadosos e com o próprio ponto desmazelado, como vagabundos. Por isso, ela arrumava o próprio local de venda em um espaço vistoso para se distinguir de outros ambulantes. “O problema é que na perspectiva da elite, todo camelô, sem documentos, era vagabundo, e a polícia deveria ser rígida contra eles. A pancadaria, o cassetete e as humilhações das batidas da polícia sempre foram aplaudidos com certo sadismo” (p. 143-144).

Para a autora, “um dos problemas do Brasil é a sua identidade mal resolvida, que faz com que, muitas vezes, potenciais ´vagabundos´ não percebam que são vistos como tais”. (p. 143). “Intrigava o fato de que, muitas pessoas não viam pela lógica da ideologia hegemônica, elas mesmas poderiam ser os próximos vagabundos. Havia ali, uma necessidade de se diferenciar e de aliar ao padrão, fazendo com que a identidade social fosse negociada com tensão e ambivalência. (…) O mérito de Bolsonaro foi ter conseguido atiçar uma ira latente com os ´vadios´. A elite racista e classista apoia a remoção de toda articulação de ´vagabundos` – nordestinos, beneficiários do Bolsa Família, minorias, ativistas… Outra parte da população, aflita por muitos medos e perdas, também. Forjando o papel da justiça e da ordem militar, o ex-deputado conseguiu falar para um grande número de brasileiros que acham que a vida é injusta e que os vagabundos passam bem” (p. 143-144).

Pode ser encontrado nas páginas da extrema direita uma profusão da palavra vagabundo associada a assaltantes, marginais e petistas. Com relação aos petistas, a massificação do termo “vagabundo”, agora sob o comando de Bolsonaro na presidência da República, penetrou profundamente nas populações das periferias. Isso porque, o termo “vagabundo”, criado pela elite branca e pela mídia hegemônica, já estava associado à bandidagem. Em um contexto de crise econômica, não foi difícil colar essa pecha de vagabundo aos petistas, às pessoas de esquerda (p. 145).

Em 2013, quando Bolsonaro criou a sua página no Facebook, as acusações eram dirigidas “contra marginais e vagabundos, aos quais os petistas foram sendo cada vez mais associados” (p. 145).

Em vídeo, afirma a autora, Bolsonaro fala que as cadeias não podiam ser colônias de férias “ (…) associando o PT e o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) a tema como o falso ´kit gay`. No meio do vácuo deixado pela crise, em que a narrativa da crise se enche de significado, apontando culpados e inimigos internos, Bolsonaro atiçou a nossa tradição sádica mais profunda. E ganhou” (p. 145).

Uberminion (p. 147-151)

Rosana Pinheiro-Machado identifica “três perfis de eleitores, que operam como tipos ideais que ajudam a refletir e a agir”. Ela considera que essa forma de análise do comportamento dos eleitores é mais factível do que “partir do princípio de que metade dos eleitores é composta por fascistas ou ignorantes – ou ambos” (p. 147).

1 Os RICOS. Ostentam capital educacional, mas optam por um projeto autoritário “contra a ´corrupção`, mas que na verdade veem em Bolsonaro e no antipetismo uma oportunidade para legitimar antigos preconceitos contra a ´gentalha`”. (p. 147-148.

2. OS POBRES. “Com baixíssimo capital educacional e um antipetismo brando”. O voto em Bolsonaro se deveu ao trabalho de setores da igreja, da família, “ao desespero ou esperança, mas salientam que Lula fez muito pelo povo”. Atributos dessa população: a) “Há desilusão e desinteresse generalizado”; b) mas, “há flexibilidade para falar de diferentes candidatos”; c) “não projetam raiva ou jogam a culpa (…) nos imediatamente abaixo – porque não há ninguém abaixo”; d) “desacreditam da política devido ao clientelismo”; e) objetivo principal das esquerdas: “convencê-los a ir votar no dia da eleição” (p. 148).

3. OS PRECARIADOS. O restante da população. São os trabalhadores em condições precárias. Reside nessa categoria, “o grande imbróglio do eleitor bolsonarista”, como veremos a seguir:

A. “Todos indignados com o sistema político frouxo ou a moral   tradicional abalada, além de frustrados com a própria situação.” A autora define essas pessoas desse grupo como “o simpático motorista de UBER, a vendedora delicada, o porteiro prestativo, o microempresário trabalhador e a manicura festeira” (p. 148).

B. Para a autora, essas pessoas são: “o fanático, o agressor tomado pela fúria prestes a se ´vingar` e matar um esquerdista, uma pessoa negra, um LGBTI+, uma feminista, em suma os ´culpados` pela deterioração do mundo” (p. 148).

A situação de crise provoca a aproximação do A ao B. Assim, a pessoa com perfil A passa a ter comportamentos semelhante àquela de perfil B, com violência e agressões. Mas como a autora afirma: “É assim que a razão autoritária cresce, uma vez que não existe o fascista a priori: o que existe é subjetividade mobilizada pelo projeto autoritário”. Em outros termos, não é um fascista orgânico que compreende e age de acordo com sua filosofia e ideologia. A pessoa com perfil A se torna fascista em função de situações concretas que podem perdurar ou não (p. 148).

Nessa situação, os “eleitores são nutridos por um sistema horizontal de comunicação, sem qualquer responsabilidade com a verdade, as mensagens pró-Bolsonaro são lidas da forma como é conveniente para cada trajetória pessoal e familiar, cooptando e organizando diferentes frustrações, identificando crises e propondo soluções imediatas”. A extrema direita tem encontrado um terreno favorável para aproximar A de B, já que o primeiro não vê soluções para seus problemas, plenos de ressentimentos (149).

O ódio se propaga nesse contexto com pessoas geralmente calmas se transformam em perigosas e violentas agressoras, acusando os petistas e outros personagens pelos males que enfrentam. “Repetindo um velho script da história cristã, os ´cidadãos do bem` são também justiceiros e matam – ou deixa matar – em nome de uma justiça muito particular”           (p. 149-150).

A antropologia nos ensina que não existe uma identidade única e totalizante”. As pessoas são complexas, podendo ser democratas, conservadoras, patriotas, de acordo com o contexto e a personalidade dessas pessoas. “Em um país de pobre, a tradição democrática e laica, (…) nossa versão conservadora tende a ocupar mais espaço”. Ela afirma que a esquerda e os setores progressistas não podem “desistir de tantas pessoas que conviveram conosco que sabemos que possuem facetas generosas, solidárias e comunitárias” (p. 150).

É preciso concentrar a atenção da esquerda nesses trabalhadores “que são trabalhadores flexibilizados, sem vínculos coletivos. São vítimas do neoliberalismo predatório”. São pessoas que não recebem em suas comunidades os investimentos governamentais, que desejam ascender econômica e socialmente, trabalham horas a mais cada dia, mas não encontram nos governos a ajuda necessária e na esquerda “uma narrativa popular”, “com propostas claras de emprego e segurança pública”                (p. 150-151.

Abaixo da Ditadura da Baranga (p. 153-156)

Uma das definições para o termo “baranga” no Dicionário Houaiss é: mulher feia ou deselegante (nossa frase).

Rosana Pinheiro-Machado mostra que no início da campanha Bolsonaro tinha a adesão de 36% dos homens e 18% das mulheres (p. 154).

Ela pergunta: “Se Bolsonaro é considerado misógino, quais são as motivações da mulheres que votaram nele? Uma das coisas que mais me chamou a atenção em minha aventuras pelo Facebook foi uma mistura de medo do comunismo com medo do feminismo. ´Minha bandeira jamais será vermelha`, disse a apoiadora. Na verdade, parecia querer dizer: ´Minha vagina jamais será peluda`. Há um permanente terror de que a ditadura do proletariado se torne a ditadura da baranga”. Eduardo Bolsonaro disse em 2018, “que as mulheres da esquerda são feias, pouco higiênicas e têm cabelo no sovaco. Para um público fã de seu pai, declarações como essa são completamente normais” (p. 154).

Questões como a “sujeira e a higiene era uma constante em todas as postagens que misturavam o feminismo com o antipetismo (…) a antropóloga Mary Douglas, citada pela autora, (…) já apontava (…) a impureza é uma construção social que representa um perigo capaz de desorganizar um sistema cultural ordenado (…) essas mulheres ´sujas’ (mas assustadoramente livres) são, em última instância, uma ameaça à família, à propriedade e ao patriarcado” (p. 154).

As mulheres, citadas no Facebook, visitadas pela autora, se apresentam como pertencentes à famílias perfeitas, então por que tanto medo das mulheres feministas? A autora diz: “parece-me que essa compreensão do feminismo como antifeminino também se mistura com a velha ameaça à família e à propriedade” (p. 155).

Não adiantava, durante a campanha eleitoral, acusar Bolsonaro de propugnar palavras de ordem ofensivas às mulheres. Ao perceber que um importante segmento das mulheres não votavam nele, mudou a tática eleitoral frente ao feminino. Centrou a campanha na defesa da família e da violência contra a mulher. A partir desse momento, a acusação de machismo não tinha mais efeito em certos círculos femininos. “As acusações soam como uma palavra de ordem da esquerda, uma vez que a o campo da extrema direita já blindou sua narrativa a favor da mulher, ou melhor, da mulher depilada, sarada, protetora da família ´realizada` e que repudia a violência” (p. 155-156).

Apenas no Norte e Nordeste permaneceu alta a rejeição à Bolsonaro. Até aumentou um pouco essa rejeição. A autora considera que o fato dessas mulheres ou parte importante delas, nessas regiões, serem beneficiárias do Bolsa Família, significa um maior protagonismo e uma compreensão do perigo que corriam se Bolsonaro vencesse, “por serem mais vulneráveis à violência doméstica, urbana e policial, demonstravam verdadeiro terror em relação ao armamento da população e, por consequência, a Bolsonaro” (p. 156).

Para a autora, o “´Brasil acima de tudo` é o Brasil do condomínio fechado, branco e endinheirado, não o Brasil de verdade, que encara a sua desigualdade e abraça suas diferenças. É um Brasil que se odeia, na verdade, um Brasil de mulheres iguais, brancas, magras, casadas e viajadas. Não é de se estranhar que mulheres que apoiem Bolsonaro: isso se insere dentro de um modelo-padrão no qual a ameaça ao feminino e à mulher é um fato histórico que deriva, de um lado, de uma projeção distorcida e colonizada da beleza da mulher e, de outro, do conservadorismo patriarcal e religioso que controla os corpos e o desejo femininos. Como tudo que é dominante, muitas vezes são as próprias mulheres que exercem o biopoder regulador sobre si próprias” (p. 156).

Bolsominios arrependidos (p. 157-162)

Algumas frases demonstram que esse livro foi escrito em 2018, terminando já no início do governo Bolsonaro. Rosana Pinheiro-Machado faz uma análise da campanha do candidato Bolsonaro até os primeiros meses de seus governo em 2020. Estou (Luiz Rossi) analisando esse livro em fins de julho de 2020. Já se passou mais de um ano entre o período que ela escreveu e este momento em que estou escrevendo.  A autora faz uma análise dos primeiros meses do governo Bolsonaro. Ela afirma que parte da população já começava a dar sinais de que não satisfeita com o governo.

Essas considerações tem a ver com as projeções que ela faz do futuro do governo Bolsonaro. Projeções, a partir dos dados que a autora utiliza.

Rosana Pinheiro-Machado escreve: “A lua de mel não durou cem dias”. “Uma pesquisa do Datafolha do início de abril de 2019 mostrou que, após três meses de governo, Bolsonaro tinha a pior avaliação entre presidente no primeiro mandato, confirmando algo que estava na cara: o fenômeno do bolsonarismo arrependido chegaria rápido” (p. 157).

Acima de tudo, o trabalhador precarizado quer segurança e renda. E estamos muito longe de ver isso acontecer. Aqueles que votaram por falta de opção voltaram ao lugar-comum de que ´político é tudo uma bosta`. Mais adiante a autora afirma que parte dos votantes não bolsonaristas de carteirinha já se desiludiram do presidente. “O bolsonarista arrependido não é confesso. Ele tem vergonha e mantém o orgulho” (´p. 160).

A análise de Pinheiro-Machado, a partir dos danos existentes, mostrava um enfraquecimento do governo logo dos primeiros meses. O vai-não-vai para a indicação de Eduardo Bolsonaro para embaixador do Brasil nos Estados Unidos. As pressões foram muitas e o governo teve que ceder. Quando do anúncio de que o governo iria mudar a embaixada do Brasil para Jerusalém, houve reação imediata e pública dos países árabes compradores de alimentos brasileiros, o mesmo se aplicando para a reação dos grandes proprietários do agronegócio que vendem alimentos para os árabes. A crise que aconteceu com a China, quando importantes autoridades brasileiras utilizando apenas um discurso ideológico atacaram aquele país, grande importador de commodities brasileiras. Outras crises aconteceram, mas não cabe a esse espaço desenvolvê-las.

Considerando o fim de julho de 2020, as pesquisas demonstram que Bolsonaro não está fora do páreo para as eleições presidenciais de outubro de 2022, mesmo que o pleito esteja muito distante. Há várias razões explicativas para o otimismo dos componentes do governo. Rodrigo Maia, presidente da Câmara Federal, defendendo os desejos da burguesia brasileira e internacional, não coloca em pauta mais de duas dezenas de pedidos de impeachment. Os R$600,00 oferecidos à população mais pobre, desassistida em decorrência da pandemia, deu ao presidente um fôlego. As igrejas protestantes tradicionais (protestantes e presbiterianas) entraram de cabeça na ocupação de cargos estratégicos do governo, como é o caso do Ministério da Educação, Ministério da Justiça e da Segurança Pública, do Conselho Nacional de Educação, da CAPES. Além do apoio dos evangélicos em sua campanha eleitoral. Esses fatos tornaram Bolsonaro mais seguro.

É importante considerar que as eleições de 2022 estão muito longe, um pouco menos de dois anos e meio para o pleito. É muito tempo.

Se as esquerdas e os setores democráticos não forem mais ativos, buscando a unidade, há uma possibilidade concreta de que Bolsonaro seja reeleito. Com mais um mandato, ele pode construir, pedra com pedra, as condições para um regime fascista efetivo.

Agosto de 2020