Luiz Rossi comenta:

Rosana Pinheiro-Machado escreveu “Amanhã vai ser maior. O que aconteceu com o Brasil e suas possíveis rotas de fuga para a crise atual”. São Paulo, Planeta, 2019.

A divisão do livro e outras questões

Para fins de análise, o livro será dividido em cinco partes para publicação, respeitando as várias divisões que a autora propôs. Prelúdio (p. 15-63); Ato I – O avanço da direita (p. 65-94); Ato II – O recuo da esquerda (p. 95-131); Ato III – Bolsonarismo (p. 133-162); Réquiem da desesperança (p. 163-190). Cada uma das partes está subdividida.

Os destaques da autora serão expressos da forma como aparecerem no livro. As nossas citações aparecerão quando expressamente informadas no texto como Nosso negrito, Nosso itálico, etc.

Réquiem para a desesperança. Parte V

A Revolta das Vedetes (p. 165-168)

As Jornadas de Junho de 2013 deixaram marcas profundas no Brasil. Entre elas, o aumento do papel político da mulher na sociedade brasileira e mundial. Ao lado de seu “papel cultural tanto como chefes de famílias quanto como lideranças comunitárias”, as mulheres passaram, também, a ter um papel crucial na política (p. 165-166).

A autora e Lucia Scalco se referem a uma divisão de papéis durante a greve secundarista de 2016, em que as meninas assumiram um protagonismo político muito claro, desenvolvendo argumentos com desenvoltura e, também, com posições opostas às de Bolsonaro, enquanto os meninos geralmente permaneciam calados durante as conversas e, posteriormente, em ambiente de menor visibilidade, declaravam seu apoio e voto em Bolsonaro (p. 166).

Para a autora “a figura de Bolsonaro parecia ser um emblema de virilidade que representa uma arma de fogo – uma arma que se defende de bandidos, mas também de outras ameaças inomináveis” (p. 166).

Um casal é confrontado com a questão política na presença da autora: “Joana, 53 anos, desatou a criticar Bolsonaro, com uma admirável capacidade argumentativa, diante de um marido calado, que se dizia indiferente ao candidato. Horas depois, José Carlos, 64 anos foi para o Facebook postar a famosa corrente das ´42 razões para votar em Bolsonaro`. Joana relatou que, no outro dia, ele havia reclamado que ela ´tinha falado demais e sido muito saliente` ” (p. 167).

Quais as razões da vitória de Bolsonaro nas eleições de 2018?: 1. O colapso econômico que vinha desde 2014; 2. O vácuo político devido ao impeachment de Dilma Rousseff; 3. O preconceito contra a mulher; 4. As atitudes preconceituosas, racistas e machistas de Bolsonaro; e, 5. “A crise do macho” (p. 167).

Mesmo que Bolsonaro tenha tido uma significativa votação entre as mulheres, diversas pesquisas antes e depois das eleições mostram que a identificação com o presidente é fundamental e majoritariamente masculina.  Nesse contexto, as mulheres têm sido parte importante da renovação política e formam um bloco de resistência contra o autoritarismo” (p. 168).

A extrema-direita venceu, as feministas também (p. 169-176)

Rosana Pinheiro-Machado pergunta: “O que tinha acontecido com os ex-rolezeiros que haviam se tornado bolsonaristas? O que tinha acontecido com o Brasil, que os incentivava à virada conservadora?” (p. 169)

Um caso citado pela autora explica a sua preocupação em observar o que está acontecendo. Ela fala de Maria Rita, 17 anos, que discutia com o pai, soldado bolsonarista e com o irmão sobre política. Maria Rita já havia conseguido convencer a mãe, mas pai e irmão “não tinham argumentos, apenas raiva de tudo” (p. 169).

A antropóloga Claudia Fonseca, citada pela autora, já anotara, pelos anos 1980, chamando “as mulheres da periferia de ´mulheres valentes`: líderes comunitárias, mães e trabalhadoras, mas não necessariamente feministas. O que descobrimos em 2016 (…) foi que as filhas das valentes (…) agora queriam estudar e trabalhar, se denominavam feministas e enfrentavam o poder patriarcal com argumentos sólidos, dados e conhecimento aprofundado de política. E melhor, elas eram mais numerosas que os minions” (p. 169-170).

A autora é otimista. Acredita que houve, a partir de 2013, em que pese o aumento do autoritarismo, “grandes conquistas que mudaram uma geração inteira e que produzirão impactos sociais e institucionais profundos daqui a alguns anos” (p. 170).

Uma onda feminista varreu o mundo. Em todos os continentes as mulheres lutaram contra o assédio sexual, o machismo e pela vitória do aborto legal. Não foi diferente no Brasil. As partir das Jornadas de Junho de 2013, as mulheres se manifestaram, de formas variadas. As estudantes secundaristas foram um exemplo em 2016 (p. 170-171).

Impulsionada pelas novas mídias digitais, emergiu no mundo todo, mas em especial no sul global, a quarta onde feminista, que é orgânica, desenvolveu-se de baixo para cima e cada vez mais reinventa localmente os sentidos do movimento global #MeToo, que busca expor casos de assédio e abuso contra mulheres. O levante internacional perpassa todas as gerações, mas é entre as jovens adolescentes que desponta seu caráter mais profundo, no sentido de ruptura de estrutura social: há uma nova geração de mulheres que não tem nada a perder nem a temer” (p. 170-171).

Para a autora, há um ineditismo na participação das mulheres na política, através de uma miríades de atos e manifestações. Uma delas, a maior, foi a manifestação em todo o Brasil contra o candidato Bolsonaro nas eleições de 2018. O #EleNão galvanizou milhões de mulheres no Brasil através de um esforço hercúleo de conversar com outras mulheres para ganhá-las para a luta contra o candidato Bolsonaro, mas, não só isso, para abrir novas trincheiras da luta feminina e, também, iniciar a discussão do papel da mulher no poder. Ela afirma: “O desafio é entender a participação das mulheres no poder: como elas estão fazendo política no século XXI?” (p. 172).

A autora afirma que “O #EleNão foi um fato político permeado por uma série de ineditismos. A maioria dos homens não conseguiu entender o que aconteceu no período. (…) era sobre a politização de nós, mulheres, para além dos resultados das eleições” (p. 172).

 A autora conta um caso que aconteceu durante uma manifestação em Santa Maria, Rio Grande do Sul, ocasião em que “Minha aluna contou que elas (avó e neta) seguiam o voto do homem na família. (…) A avó com muita dificuldade para caminhar, estava maravilhada com o ato e me disse: ´Que beleza isso daqui. É a força das mulheres`” (p. 173).

Embora o candidato Bolsonaro tenha mudado a direção da campanha eleitoral, embora certos intelectuais da esquerda tenham afirmado que a campanha feminista ajudou o candidato autoritário, para a autora “O #EleNão não se converteu em ganho eleitoral. Essa luta – que conta com hashtags e memes, mas não só, pois estamos carregando nossos corpos – não é apenas sobre percentuais. É sobre nós, mulheres, estamos ocupando e reinventando a política” (p. 174).

Como antropólogas, atuando na periferia de Porto Alegre, Lucia Scalco e a autora, notaram que aumentou intensamente a participação das jovens como feministas militantes. Mesmo antes do #EleNão, elas já enfrentavam pais, irmãos, companheiros, muitas vezes, conseguindo mudar o voto das mulheres da família. Nessa onda, várias feministas do PSOL foram eleitas para os legislativos estadual e federal. Isso aconteceu também nos Estados Unidos. Elas citam o caso de Alexandria Osório Cortez que foi eleita a deputada mais jovem daquele país. Essa deputada tem abordado as questões políticas de uma forma mais universalista, considerando em sua ação a situação dos trabalhadores e das minorias, enfatizando a necessidade de tratar a política tendo como referência o amor                     (p.174-175).

A autora mostra que existe a divisão esquerda/direita no Brasil, mas também “aposta para a sua existência de uma dupla divisão de ideologia e posicionamento, ou seja, de um lado situa-se o tipo ideal do homem branco de direita e, de outro lado, a mulher negra/lésbica/trans/pobre de esquerda” (p. 176).

A onda feminista nos dará força para resistir. Tenho confiança de que muitas e renovadas versões do #EleNão serão levadas a cabo, e mirarão não apenas derrubar os projetos de Bolsonaro, mas sobretudo servir de espaço para a politização de mulheres. Mesmo derrotadas, somos vencedoras” (p. 176).

Amanhã vai ser maior (p. 177 – 181).

Para a autora, o que veremos a seguir, pode ser analisada em duas versões, de acordo com a reação de quem se encontrava no auditório em São Borja, Rio Grande do Sul.

Em fins de junho de 2019, a autora fez palestra na Unipampa, em são Borja. É uma região fronteiriça, com grande tradição de luta tanto entre grupos da própria região, bem como, com estrangeiros. O uso da arma nessa região, hoje empobrecida, é uma das características dos gaúchos da fronteira. A autora mostra que, segundo pesquisa do Ibope, realizada em julho de 2019, enquanto aumentava a reprovação do governo Bolsonaro em todo o Brasil (de 27% em abril para 32% em junho) “cresce sua aprovação na região Sul (de 44% para 52%)” (p. 179).

No dia seguinte à palestra, a internet estava recheada de ataques à palestrante. A autora afirma que as mentiras se sucederam. Foi acusada de que chamou Bolsonaro de vagabundo, de que utilizou dinheiro público “para difamar a imagem do presidente”. (…) Nos comentários de posts que viralizaram, chamavam-me de puta, baranga, corrupta, criminosa e teve até quem lamentasse que eu não tivesse estado no incêndio da boate Kiss” (p. 178).

As pessoas na faixa dos 50 anos eram as mais agressivas tanto dos homens como das mulheres, aliás, a autora afirma que as mulheres “eram as mais agressivas nos comentários” (p. 178). “O ex-capitão satisfaz esse gaúcho cuja cultura popular exalta um homem armado e orgulhoso de ser tosco, grosso e simples. Bolsonaro que é, ao mesmo tempo, melancolia e frustração” (p. 179).

A autora afirma, citando o filósofo Jason Stanley, que “o passado mítico, glorioso e puro como a primeira característica desse tipo de regime autoritário. Nesse passado reina a família patriarcal e os papéis de gênero tradicionais”, isto é, o homem cuida das atividades externas e a mulher cuida da casa, gesta crianças e cuida delas enquanto crescem e se desenvolvem. Para o autor citado, “na retórica nacionalista, persiste a fantasia de que existiram os tempos áureos, perdidos para o globalismo. (…) Essa nostalgia (…) é acionada pelos movimentos autoritários que lutam por hierarquia, pureza étnica e ordem”. (p. 179).

Na segunda versão, ela afirma que a palestra foi “inesquecível. Professores e estudantes (…) organizaram um evento impecável pelo profissionalismo. No cerimonial de abertura, um estudante tocou e cantou ´Tempo perdido`, da Legião Urbana. (…) auditório lotado”.  Estudantes sentados “no chão ou (…) de pé”. Muitos viajaram “até 200 km para estar lá. (…) As perguntas (…) eram instigantes, dignas de jovens com aguçado espírito acadêmico. Ao final, passei trinta minutos recebendo abraços apertados e palavras de apoio. Os longos aplausos não eram para mim, mas para o significado e a força daquele evento. Havia ali uma verdade tangível: nós poderíamos ver, tocar e sentir estudantes qualificados e mobilizados pela universidade pública. No velho oeste, ocorreu um evento cheio de esperança” (p. 180).

A Unipampa foi criada pelo ex-presidente Lula, em São Borja, para “trazer desenvolvimento a uma região empobrecida”. Durante a palestra, a autora anotou a presença de “estudantes negros, LGBTI+s e muitas meninas feministas”. Muitos estudantes de outros estados estavam presentes devido ao ENEM (p. 180).

A autora, citando o professor Fábio Malini, afirma que “o bolsonarismo é um teto no progressismo dos mais jovens, e por isso, tem data de validade. (…) pode-se entendê-lo como um movimento em vão que luta para barrar o futuro. As novas gerações são muito mais progressistas que as anteriores. Basta olhar a pesquisa da Data Folha publicada em julho de 2019 sobre a reprovação da conduta da Lavra Jato: 73% dos jovens entre 16 e 24 anos acham inadequado o comportamento dos procuradores e do ex-juiz. O abismo geracional é evidente” (p. 180).

A profunda transformação da sociedade brasileira pelas novas gerações é irreversível. Não há nada que possa impedir isso. Ninguém vai voltar ao armário” (´p. 180).

Para concluir, Rosana Pinheiro-Machado cita um caso de uma senhora “que trabalha na padaria perto de minha casa: ´Ih… Se tu achas a minha neta de 20 (anos) feminista, é porque tu não conheceu a de 12`”. (p. 180).

Esperança, substantivo feminino (p. 183-190).

(Nota nossa: não esquecer que a autora escreveu esse livro no início de 2019. Muitos fatos aconteceram nesses 19 meses do governo Bolsonaro. Com esse alerta não afirmo que necessariamente a situação política melhorou, mas apenas dizer que vivemos em outro momento histórico).

Rosana Pinheiro Machado fala que o convite deste livro “é transmutar a dor em luta, e fazer da esperança uma opção política (p. 183). Para ela, “A esperança é o único antídoto contra o que nos sufoca” (p. 184).

Ela cita Noam Chomsky que afirma que temos duas opções:  que “podemos ser pessimistas, desistir e esperar que o pior aconteça”. É a opção em que prevalece “a raiva e a agressão (que) são expressões da natureza humana”. Ou, a segunda opção “aproveitar as oportunidades que de fato existem e ajudar a fazer o mundo um lugar melhor para se viver”. Aqui prevalecem a “simpatia, solidariedade, gentileza e preocupação com os outros (…) Há muita resistência contra a brutalidade humana e contra o autoritarismo. Tal resistência, segundo ele (Chomsky) precisa crescer e se tornar uma fonte de esperança para a nossa espécie” (p. 183).

No Brasil de hoje, o derrotismo tende a tomar conta de todas as esferas da vida social. Lamentamos a vitória da extrema-direita, não enxergamos saídas e deixamos que essa angústia no imobilize” (p. 183). Continua: muita gente tem deixado o país; perdemos pessoas altamente capacitadas. Em muitas ocasiões setores do campo progressista sucumbem ao derrotismo. Afirma mais que a vitória da extrema-direita tem a ver com o fracasso em não ter eliminado todo o autoritarismo que vem da ditadura militar. São “estruturas que perpetuam a desigualdade” (p. 184).

Ela fala das mensagens deixadas pelo filósofo Ernst Bloch de que “a esperança é algo que precisa ser aprendido. Ao contrário do medo, ela é apaixonada pelo sucesso de uma causa, não pelo fracasso. É superior ao medo, pois, não é passiva. A emoção da esperança, ao invés de confinar, amplia os sujeitos” (p. 184).

Ela cita o livro de Paulo Freire Pedagogia da esperança, publicado em 1992. “Para ele, é preciso reconhecer a desesperança como algo concreto, bem como entender as razões históricas, econômicas e sociais que produzem:  os abusos de poder, as extorsões, os ganhos ilícitos, os tráficos de influência, o uso do cargo para satisfação de interesses pessoais. Mas Freire segue lembrando que a esperança é uma necessidade vital. A existência humana e a luta por uma sociedade melhor não podem ocorrer sem esperança e sem sonho. A desesperança é esperança que perdeu o rumo. Como programa, a desesperança imobiliza e faz sucumbir no fatalismo, impossibilitando de juntar as forças indispensáveis ao embate político. (…) Pedagogia da esperança é, sobretudo um poético chamado à prática, e também uma defesa da tolerância e da radicalidade” (p. 185). “Resistência desesperada, sem sonho, é meramente um corpo a corpo vingativo. Só a esperança não ganha a luta. Mas, sem ela, a luta fraqueja” (p. 185-186).

A autora mostra como é importante a resistência, a esperança. Fala de Cecília Dinerstein, em livro sobre a América Latina, no qual “desenvolve a ideia de uma ´utopia concreta` na arte de organizar a esperança, que é a capacidade que os movimentos possuem, ao lutar contra o ´barbarismo´ criar modos de vida alternativos, novos mundos todos os dias” (p. 187).

Pane de imaginação é uma expressão usada por Pierre Dardot e Christian Laval, no livro A nova razão do mundo, citado pelo autora, que precisa ser revertida para se criar um mundo novo. Imaginação é a busca da inspiração, a luta por uma sociedade democrática que são atributos que se colocam contra o neoliberalismo ultrarradical. Não se pode transferir um mundo melhor para o futuro. É necessário manter a luta no presente, não desistir, buscar o novo, organizar as pessoas. O que acontece hoje não pode nos imobilizar. O traço característico do governo Bolsonaro é a ação terrorista. Para ela, quando afirmam, que os movimentos deveriam estar nas ruas lutando contra a extrema-direita, pondera que existem outras formas de luta. Cita uma série de manifestações durante o ano (p. 187-188).

São muitas lutas que aconteceram e estão acontecendo. Mas é necessário “que a esquerda institucional precisa de um horizonte para sonhar e, consequentemente, construir. Talvez falte a ela investir na potencialidade das minas dos slams, nas novas lideranças eleitas, nos frutos de Marielle. Talvez falte ceder lugar a novas práticas políticas e figuras da política que estejam conectadas com as formas de luta emergentes do século XXI. Talvez falte simplesmente deixar que o novo assuma seu lugar” (p. 189-190).

Rosana Pinheiro Machado cita o exemplo da deputada federal Áurea Carolina (PSOL/MG) que escreveu numa coluna do Nexo em agosto de 2019, que foi as ruas para reverter eventuais votos para a extrema-direita e ganhar os eleitores em dúvida e o resultado foi positivo pois era necessário sair da “lamúria”. Ana Carolina fala, citada pela autora, “Com humildade, saímos às ruas para uma conversa desarmada com as pessoas. Rompemos com a lamentação e assumimos nossa responsabilidade de ação. Não foi suficiente para reverter a vitória de Jair Bolsonaro, mas algo se criou na própria disposição ao diálogo”. Essa vitória, mesmo mínima, “rompia com a ordem individualista e competitiva e restabelecia o princípio democrático de amor e de convivência na diversidade” (p. 190).

A autora conclui: “Do colapso, reconstroem-se mundos e modos de vida. Enquanto estivermos em pé, nossa utopia se chamará esperança, a esperança se transformará em luta, e a luta será o próprio amanhã melhor – e maior” (p. 190).