Tainá Brederode Sihler Rossi

Pois é… eu ultimamente ando pensando muito sobre como as pessoas que vieram antes da gente na família influenciam as nossas escolhas, mesmo se não estão mais nesse planeta. Eu já vinha me perguntando bastante porque temos padrões repetitivos tóxicos vindos das pessoas que cuidam da gente, mesmo sem querer. Foi quando eu ví a análise do álbum Lemonade da Beyoncé pelo Spartakus, em seu canal do youtube, que, eu parei para pensar que realmente… tendemos a reproduzir o que vivemos e vemos nessa vidona.

Ele fala que a Beyoncé, após passar por uma situação traumática no casamento dela por causa da traição do esposo, passou pelos estágios do luto que a psiquiatra suíça Elisabeth Kübler-Ros fala em sua obra “Sobre a morte e o morrer”. Ela identificou a reação psíquica de cada paciente em estado terminal e formulou as cinco fases do luto ou perspectiva da morte: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. Mas, em seu álbum a Beyoncé desenvolveu onze estágios que ela mesma passou nesse processo.

É nesse processo que ela desenvolve muito a direção de arte e a narrativa de ancestralidade em que ela reconhece e exalta o gênero feminino e a matriz africana. Apesar disso ser esteticamente muito bonito, a dor é representada muito bem através das cenas das mulheres tristes e se dando apoio para aguentar o fardo que é viver. Não só viver, mas ver repetidamente o casamento ser destruído pela sociedade tóxica em que elas viveram, nossas mães viveram, nós vivemos e que nossas filhas viverão.

Ela culpa a sociedade por tornarem-nas infelizes, pois, é essa sociedade que limita as mulheres negras a lutarem por seus direitos, sendo, ou mulheres, ou pessoas negras – a luta nas duas realidades não é possível. É nessa sociedade que os homens são ensinados a incorporarem a masculinidade tóxica que não os permitem chorar, demonstrar sentimentos, serem autossuficientes, fazerem as tarefas em casa em conjunto com as mulheres e não ajudá-las (pois o fato de ajudar alguém automaticamente quer dizer que essa pessoa é quem tem a responsabilidade daquelas tarefas).

Dessa maneira, a procura dos homens em se sentirem suficientes, másculos e de buscar o tipo ideal de mulher, baseado em estereótipos de padrões de mulheres que quase não existem, é quase uma obrigação. A sociedade os ensinou que é preciso fazer tudo isso para que sejam felizes, mas mesmo quando o fazem, se sentem incompletos. Esse é um dos motivos que eu insisto que todo mundo deveria ver o filme-documentário – A máscara em que você vive – produzido pela Netflix em 2015, que relata a crise das crianças norte-americanas de como educar uma geração de homens saudáveis, com direito à entrevistas com especialistas e acadêmicos.

Os homens ensinados a fazerem merda, em conjunto com a sociedade, destroem pessoas e tornam a vida das mulheres, principalmente as negras, infelizes. Essa infelicidade é repetida em looping pelas gerações femininas. A traição está presente na maior parte dos relacionamentos, minha mãe já passou por isso, eu já passei por isso algumas vezes e tenho medo que se algum dia eu tiver uma filha que ela passe por isso…., mas quando olho para o relacionamento dos meus avós maternos, vejo que há esperança.

A esperança é destruída quando os homens acham que nós mulheres, em relacionamentos, temos que fazer o papel de mãe e arcar com a falta de responsabilidade emocional e afetiva porque eles foram ensinados assim. Eles têm que entender que quando eu me relaciono com um homem, eu não estou o pegando para criá-lo, afinal eu não tenho obrigação e não vou criar um homem adulto que se relaciona amorosamente comigo. Esbarrar com um homem que não seja assim é bem raro e, por isso, que as minhas esperanças voltam a passear ao redor do zero.

Isso também é curioso! Fico pensando em como a educação é variada conforme o gênero da criança e como isso afeta as pessoas quando adultas. É realmente impressionante o quanto nos ensinam que devemos esperar por um homem a vida inteira e que se não o encontrarmos, não estaremos completas. Quantas de vocês já ouviram de alguém a frase – relaxa, você vai encontrar alguém melhor, quando terminam um relacionamento? Agora quantos de vocês já ouviram isso? Vocês mulheres já ouviram – seguramente que ele é pra casar – ou que cozinha tão bem e que já pode casar? E vocês homens, quantas vezes ouviram essas mesmas frases? Duvido que seja o mesmo número de mulheres e homens que ouviram isso.

Essa repetição massacrante nos enfia na cabeça que nunca somos boas o suficiente se não atendermos aos padrões pré-estabelecidos pela sociedade que, olhem só: é patriarcal machista. É uma luta para percebermos que não TEMOS que fazer tudo isso e que NÃO é normal pegar um homem adulto para criar, ser o porto seguro emocional, ter que aguentar todas as furadas que eles fazem, porque somos emocionais e que quando queremos resolver a crise, queremos brigar, ter DRs (discussões de relacionamentos) e que se começarmos a chorar, somos choronas e loucas. Isso cansa, nos faz mal, nos humilha e acaba com a gente.

Ainda por cima, depois dessa luta toda de ver além da cortina, quando saímos do tapa-olhos de cavalo, nos vemos em uma situação de sofrimento igual ou pior porque nós mudamos, mas não é a maioria que muda. Continuamos rodeadas de pessoas que continuam na caverna de Platão sem fazer questão de sair e se tentamos avisá-las somos taxadas de feminazis, como se esse termo fosse referência para alguma coisa, né? Nesse mundo tecnológico, as pessoas têm muito acesso à informação, não devemos ensinar o be-a-bá da igualdade de gênero e não somos dicionários.

Ai gente gostaria de escrever aqui em como devemos fazer a revolução e quebrar com os estereótipos e expectativa depositados em nossos ombros e etc., mas não tenho saco nem forças para isso.

Fica aqui a reflexão que acho que todo mundo deveria fazer em seu contexto de vida:

Até onde o que você faz é vindo de você?

Até onde é vindo dos seus ancestrais, tornando a sua vida um ciclo vicioso de atitudes, expectativas, sonhos e travas de outras pessoas?