Jaime Brasil

O ser-humano é o mesmo de antes, mas o mundo mudou.

Passados milênios e muitas civilizações depois, seguimos com a mesma brutalidade, crueldade e egoísmo de antes. Objetivamente, mantivemos intactas as subjetividades primitivas. Todos os modos de produção pelos quais passamos conservaram a mesma relação da humanidade com seu meio circundante, com a biosfera. Mas, no século XX, o modo de produção capitalista nos trouxe uma novidade.

Pela primeira vez o trabalho, a geração de riquezas e seu acúmulo, a transformação humana da natureza, estão prestes a produzir o colapso total da vida no planeta. O mundo, como o conhecemos, está próximo de desaparecer.

No passado, todas as vezes em que um modo de produção colapsou ou ocorreram grandes catátrofes ou grandes guerras, foi do meio-ambiente que a humanidade se valeu para se reerguer e se reinventar. Mas, agora, se não superarmos o modo de produção capitalista, essa possibilidade não mais existirá.

Marx já havia constatado a capacidade única que tem o capitalismo de mover recursos colossais para a mais extraordinária produção de riquezas jamais vista na história. Mas, Marx não viveu o suficiente para testemunhar a vertiginosa evolução das forças produtivas, isto é, dos instrumentos tecnológicos capazes de acelerar vertiginosamente todo o processo produtivo, bem como a imensa capacidade destrutiva inerentes a elas.

Sabemos que é da essência do capitalismo o crescimento infinito. Até mesmo o dono da mercearia da esquina sabe que se não crescer, acabará sendo destruído pelos concorrentes. Todos os países do mundo pensam o mesmo e usam o PIB como parâmetro de referência para medir a “saúde” econômica, ano a ano.

Na lógica capitalista, crescer significa usar cada vez mais energia para produzir cada vez mais bens (com obsolescência programada) e serviços, para, com isso, acumular cada vez mais riquezas, não importando o quanto de poluição e contaminação isso possa gerar, não importando tampouco se a energia para tudo isso virá da invasão a outros países, se será inevitável matar inocentes.

No nosso planeta Terra, finito em seus recursos e fontes de energia, sabemos e sentimos que as coisas já não são como antes. Terra, mar e ar estão envenenados e alterados em seu equilíbrio a ponto de ser uma unanimidade que a biosfera entrará em colapso nas próximas décadas, a se iniciar com o aumento irreversível das temperaturas globais.

Não existe racionalidade no capitalismo. Mesmo com todos os estudos, leis de proteção, acordos internacionais sobre o meio-ambiente etc., rumamos para o colapso da vida neste planeta.

Apelar para a consciência humanitária ou ambiental de um bilionário é o mesmo que tentar convencer um leão a ser vegetariano. O capitalismo é perversamente instintivo.

Desenvolvimento sustentável no capitalismo é uma mentira. O crescimento infinito é e sempre será insustentável.

Não há futuro no capitalismo, e somente a sua superação poderá nos dar a esperança de ainda termos vida no planeta, inclusive a nossa.

Infelizmente, as chamadas experiências socialistas agiram como verdadeiras capitalistas em relação ao meio-ambiente. Hoje, sabemos que se quisermos construir um mundo melhor, não serão os padrões de aferição de desenvolvimento do capitalismo de nos serão úteis.

O conhecimento acumulado pela humanidade já nos permite concretamente lutarmos por um mundo onde todos possam ter dignidade material e uma vida social includente e fraterna. Já podemos produzir bens de longa durabilidade, econômicos e eficientes, recipientes biodegradáveis, alimentos saudáveis e bem distribuídos, sem desperdício. Com a robotização e a inteligência artificial já somos capazes, inclusive, de ter mais tempo para o lazer, o prazer, o cuidar, o amor. Mas, no capitalismo isso é impossível, pois não há capitalismo sem escassez e exploração humana e ambiental. Para que haja um bilionário é preciso que haja milhões de miseráveis e recursos naturais desnecessariamente consumidos. 

Se não superarmos o modo de produção capitalista, não haverá nada depois. Será o fim.