João Victor Bezerra

Aluno do Curso de Letras em Licenciatura de Língua portuguesa e espanhola na Associação de Ensino e Cultura Pio Décimo, em Aracaju – SE .

Para a análise do romance de Graciliano Ramos – Vidas Secas – lançamento feito no Brasil em 1938 – foi consultada a edição da Editora Record, 1ª edição (15 de outubro de 2018).

Vidas Secas é um clássico da literatura brasileira. Escrito pelo escritor brasileiro Graciliano Ramos, foi publicado em 1938. É considerado por muitos de seus leitores a grande obra prima do autor, muito por conta da maneira realista e dura que ele conseguiu representar a realidade e as condições desumanas que vive o povo nordestino, com todas as adversidades que precisam enfrentar. O romance de Graciliano recebeu uma adaptação cinematográfica em 1963, produzida pelo diretor Nelson Pereira dos Santos.

O romance retrata a trajetória miserável e repleta de pobreza que leva uma família de retirantes do sertão nordestino, que quando a seca chega ao sertão foge em busca de condições reais de sobrevivência.

Resumo

Em Vidas Secas, a família que acompanhamos é composta por Fabiano, Sinhá Vitória, e os dois filhos da família, o Menino mais velho e o Menino mais novo. Tem também a cadela de estimação da família chamada Baleia que é também considerada como integrante da família.

A família de Fabiano sendo assolada pela seca no sertão nordestino foge em busca de condições melhores, até que um certo dia encontram uma fazenda abandonada. Com fome e sem condição alguma de continuar a viagem eles decidem continuar na fazenda por mais algum tempo.

Após alguns dias, finalmente chove no sertão. Logo depois, com o fim da seca, o verdadeiro dono da fazenda aparece e oferece a Fabiano um trabalho como vaqueiro, este aceita ser o vaqueiro da fazenda. Sendo assim, a família de Fabiano continua morando na fazenda.

Durante o livro, Fabiano vai a cidade para comprar mantimentos, e por uma infelicidade acaba sendo preso injustamente após uma jogatina de cartas com um soldado amarelo. Isso ocorre, principalmente, por conta de que Fabiano que não consegue se comunicar direito. Depois de algum tempo as coisas são esclarecidas e Fabiano finalmente é solto. 

Sua esposa, Sinhá Vitória sonha em ter uma cama de couro, o menino mais velho demonstra interesse em palavras, o menino mais novo fica tentando montar em um cabrito. Em diversos momentos do livro, o menino mais novo deixa nítida toda sua admiração e orgulho que sente de Fabiano. Espelhando-se em seu pai, sonha em ser vaqueiro.

A vida de vaqueiro de Fabiano e de sua família na fazenda continua até o fim do livro, até que com o regresso da seca a família de Fabiano tem que deixar a fazenda e partem para o sul em busca da sobrevivência.

Fabiano é um homem ignorante, bruto e de poucas palavras, fala somente quando necessário. Inclusive, se comunica mais através de grunhidos do que com palavras. Por conta de sua ignorância, Fabiano sente a todo tempo que é intelectualmente inferior as outras pessoas. Isso resulta em seu medo de criar opinião própria, preferindo ficar em silêncio apenas acatando ordens sem fazer oposições.

Fabiano é constantemente explorado durante o trabalho. É sempre enganado quando chega o dia de receber seu pagamento, recebendo sempre uma quantia menor do que foi acertado. Mesmo sabendo que está sendo roubado pelo fazendeiro, Fabiano não faz nenhuma oposição.

Sinhá Vitória é mãe, uma mulher forte, trabalhadora e dedicada à sua família, ela sonha sempre com um futuro melhor. Tem um pouco mais de conhecimento do que Fabiano, pois ela ainda consegue fazer contas, ainda que através de métodos antiquados. Sendo uma mulher humilde, seu maior sonho de consumo é ter uma cama de amarração de couro, igual a de Seu Tomás da Bolandeira (personagem secundário).

O Menino mais velho e o Menino mais novo são os filhos do casal, são chamados assim por não terem o nome citado pelo narrador momento algum do livro. O Menino mais velho sente vontade de aprender sobre as palavras e seus significados, este queria que os pais falassem mais, e que o pai fosse menos bruto. Já o Menino mais novo tem muita admiração e orgulho de seu pai, sonha apenas em ser vaqueiro assim como ele.

Baleia é a cadela da família, por mais estranho que possa parecer, é Baleia quem mais se assemelha a um ser humano nessa família. Ela consegue demonstrar suas angústias para os membros da família e, muitas vezes, mesmo sendo uma cachorra, consegue se comunicar melhor do que os demais integrantes da família.

Análise

Vidas Secas foi escrito em um período caótico do século passado para política do Brasil e no restante do planeta. Os Estados Unidos estavam passando uma grande crise econômica. A Europa se encontrava em estado de recuperação pós-Primeira Guerra e, no Brasil estava estabelecido o governo autoritário e anticomunista de Getúlio Vargas.

Graciliano Ramos consegue então trazer, através de Vidas Secas, uma forte crítica social direcionada para aqueles que retém grande poder aquisitivo e econômico. Seus maiores alvos são principalmente: o governo, militares, ricos fazendeiros que exploram seus trabalhadores e etc. Isso pode ser notado facilmente através dos acontecimentos presentes ao decorrer do livro.

Em Vidas Secas, Graciliano deixa nítida a maneira como Fabiano é explorado pelo fazendeiro, Fabiano sempre recebe menos do que foi acertado, o fazendeiro lhe cobra preços e juros abusivos para os mantimentos da sua família. Inclusive após mais de um ano trabalhando duro rendendo lucro para o fazendeiro, ele ainda continua sem ter obtido nenhuma posse.

Quando a família tem que se deslocar novamente, já no fim do livro, o patrão lucrou imensamente com aquela temporada, o seu número de gado aumentou, e o serviço foi muito bem. Contudo, Fabiano não só vai embora sem nada, como ainda sai devendo ao fazendeiro.

Fabiano, mesmo que sendo ignorante, sabe que está sendo explorado pelo fazendeiro e ele quer se revoltar contra a exploração e injustiças que sofre ao longo de sua vida, por parte do patrão e do soldado amarelo, sendo até preso injustamente. Infelizmente, como um animal quando domesticado, Fabiano aceita toda humilhação e injustiça que lhe são impostas. E seus filhos, sem nenhuma educação seguem pelo caminho da ignorância e submissão.

Aracaju, julho de 2020