LUIZ ROSSI comenta:

Rosana Pinheiro-Machado escreveu “Amanhã vai ser maior. O que aconteceu com o Brasil e suas possíveis rotas de fuga para a crise atual”. São Paulo, Planeta, 2019.

Sobre a autora

Rosana Pinheiro-Machado é antropóloga. Leciona no Rio Grande do Sul e numa Universidade da Inglaterra. A autora fala de dois lugares. Um “(…) é o de antropóloga, professora e pesquisadora”. O seu trabalho está centrado na “sociologia dos movimentos sociais”. Também se preocupa, desde 1999, “pela pesquisa de campo a respeito de questões de classes populares”. De  2009 a 2018, junto com a também pesquisadora Lucia Mury Scalco, fizeram pesquisas na periferia de Porto Alegre. Acompanharam a melhoria das condições sociais das pessoas mais pobres, via a “inclusão pelo consumo e (através da) subjetividade política” durante os governos do PT. Com a crise econômica que se manifestou a partir de 2014, a população pobre diminuiu de renda. Como a pesquisa atravessou vários anos, as pesquisadoras puderam constatar a mudança de comportamento político de parte dessa população de periferia, passando de um apoio mais efetivo ao PT para a insatisfação que desaguou, em muitos casos, para o candidato Bolsonaro, em 2018 (p. 13)

O segundo lugar da fala da autora, é sua condição de “intelectual pública e feminista”. Desde as Jornadas de junho de 2013 tem viajado pelo Brasil para realizar palestras e discussões. “Minha aproximação com a juventude periférica de Porto Alegre e São Paulo tem sido fonte importante de inspiração (…)”. Ela afirma mais adiante: “Se há um fio que costura minha atuação como acadêmica e intelectual pública é o gosto por gente de carne e osso, por suas histórias, contradições, agonias, seus afetos e sonhos” (p. 13).

A divisão do livro e outras questões

O livro está dividido em cinco capítulos: Prelúdio (p. 15-63); Ato I – O avanço da direita (p. 65-94); Ato II – O recuo da esquerda (p. 95-131); Ato III – Bolsonarismo (p. 133-162); Réquiem da desesperança (p. 163-190). Cada um dos capítulos dividido em subcapítulos.

Os destaques da autora serão expressos da forma como aparecerem no livro. As nossas citações aparecerão quando expressamente informadas no texto como Nosso negrito, itálico, etc.

Prelúdio (p. 15-63)

O neoliberalismo aumenta a desigualdade social

A crise que começa em 2007 nos Estados Unidos se espraia por todo mundo. Inicialmente econômica se transformou em crise política. Afetou a totalidade da população mundial, variando de país a país. Foi, contudo, uma crise que beneficiou poucos e afetou a maioria dos trabalhadores e dos pobres no mundo. O slogan “Nós somos os 99%” se referia ao impacto que o neoliberalismo via políticas de austeridade atingiam as pessoas.  Nos Estados Unidos “(…) fazia referência à crescente desigualdade de distribuição de renda no país a favor dos cidadãos mais ricos, o “1%” ”            (p. 19).

Rosana afirma que poucos estavam satisfeitos com a distribuição da riqueza; poucos estavam felizes “com a corrupta relação entre Estado e corporação”; a solução da crise via política de austeridade aumentava a desigualdade social; os protestos eram contra a globalização de vez que, além de aumentar a pobreza, tornava a democracia mais precária (p. 18).

Para ela, essa situação ensejou o aparecimento das primaveras políticas em vários países do mundo cujos manifestantes exigiam melhores condições de vida e mais respeito à ordem democrática. Havia um entusiasmo dos manifestantes contra a ordem vigente. Explodiram movimentos em muitos países reivindicando melhores condições de vida e mais democracia. Inicialmente eram movimentos progressistas, de esquerda. “Das primaveras de ocupações à ascensão da extrema direita, as respostas políticas e econômicas para essa insatisfação generalizada foram extremas, e não houve um vencedor único; ainda há muito em disputa no mundo hoje” (p. 18) A extrema direita não é consequência dos movimentos das primaveras. Ela vinha se organizando desde 2.000. Aproveitou a efervescência existente para se inserir nos movimentos (p. 24).

Os trabalhadores consideram que a globalização do capital, isto é, da posse da riqueza pelas elites econômica, política, mediática, não foi realizada para beneficiá-los. Essa globalização beneficia uma parte ínfima da população, no Brasil em torno de 1%, isto é, de aproximadamente 21% num total de mais de 200 milhões de habitantes. Ao se manifestarem, esses trabalhadores querem mais políticas nacionais, isto é, que os governos do país se preocupem mais com eles e que desenvolvam políticas para a saúde, a educação, a segurança e a melhoria dos salários. Significa para muitos desses manifestantes que os discursos do início do século de que a globalização melhoraria a vida de todos não aconteceu. Ao contrário, uma minoria no Brasil detém a maior parte da riqueza produzida cada ano (p. 62).

As ocupações dão sentido à vida dos participantes

A crise econômica possibilitou “a explosão de ocupações e protestos em massa no mundo todo. (…) Nessa primavera global de protestos foi forjada na rua uma nova geração que busca na atuação microscópica e na ação direta, o afeto radical, a criatividade política e a horizontalidade”. (p.18) As ocupações tinham um sentido de estar junto, de superar o individualismo das cidades. Para superar essa situação, era necessário criar um acampamento em que as relações fossem horizontais e não verticais. (…) “buscava-se sempre que todos os participantes tivessem o mesmo direito de falar e de se manifestar” (p. 22).

A autora chama “lógica das lutas prerrogativas”, quando o objetivo dos manifestantes era de não reproduzirem a sociedade que desejavam superar. Era necessário que ali, no acampamento, acontecessem relações políticas, econômicas e sociais de acordo com a sociedade que tinham em mente. “Os movimentos, assim, precisam ser um retrato da sociedade que querem construir. Isso significa não postergar nossos sonhos de uma sociedade melhor, mas colocá-los em prática no cotidiano da luta, reinventando os sentidos do bem comum e do coletivo” (p. 21).

Os protestos não são um meio, mas um fim em si mesmo. (…) mais importante era o fato de as pessoas estarem juntas e experimentarem um mundo novo. A natureza radicalmente democrática dos protestos seria uma antítese da natureza desagregadora do trabalho no neoliberalismo, em que o trabalhador muitas vezes tem uma rotina repetitiva, exaustiva e solitária. (p. 21) (…) As ocupações urbanas procuravam virar do avesso o individualismo e a chamada racionalidade neoliberal que imperam em nosso cotidiano:  eram um basta à indiferença das multidões anônimas das cidades” (p. 22).

Para Rosana, “o aprendizado político que se tem nas ocupações é corporal, visceral. O corpo mergulha em uma nova possibilidade de existir coletivamente, O efeito não é imediato. (…) esses grandes momentos de efervescência coletiva não se dissipam nas ocupações: eles movem mundos, abalam estruturas e transformam gerações inteiras” (p. 23).

Marx (…) entendia que, que no capitalismo, o indivíduo é despossuído de seu ser, estranho a si mesmo, e vai contra seus próprios desejos: a personalidade é desmembrada, a consciência é desumanizada, a condição de classe é dessacralizada e a vida torna-se entretida pelos apelos mágicos das mercadorias”. Em uma famosa passagem da A ideologia alemã, Marx diz que a cooperação e liberdade andariam juntas em uma sociedade utópica na qual seria possível caçar pela manhã, pescar à tarde e ser crítico literário à noite, sem se tornar nem um caçador, nem um pescador nem um crítico” (p. 23).

Se as manifestações na virada do milênio se concentravam na luta contra a globalização e por justiça no mundo elas possuíam um caráter transnacional; já aquelas que ocorreram no século XXI manifestam (…) “um forte componente de indignação nacional: são a democracia e o bem-estar dos habitantes de cada país que estão sendo reivindicados contra o capital financeiro global, que apenas atua para a sua própria reprodução”.                 (p. 20-21). A autora continua, colocando a frase seguinte entre parênteses: “(A propósito, é a extrema direita que saberá ler e aproveitar, de forma oportunista, essa dimensão nacional, bem como a insatisfação generalizada contra a globalização)” (p. 21).

O papel da internet e das mídias sociais

A internet e as mídias sociais tiveram um papel fundamental na divulgação das posições de cada movimento. Mas, foi a nova direita com recursos fartos e conhecimento técnico que “surfou na insatisfação latente, direcionando-a e organizando-a para o lado do autoritarismo e do conservadorismo”. Utilizou-se de fake news disparadas por robôs, utilizando-se de meios inescrupulosos para difundir suas mensagens mentirosas. (p. 24) A esquerda não compreendeu imediatamente o papel da internet e das mídias sociais nessa nova conjuntura, permanecendo na defensiva.

Atualmente para a autora, os movimentos nesse século XXI são ambíguos. Não têm o sindicato por trás que possa orientar e definir palavras de ordem. Nesses movimentos ambíguos as reuniões se fazem via whatsapp e pelas mídias sociais. As pessoas, como não têm comando, reagem contraditoriamente. Para a autora, a esquerda não compreendeu ainda o papel do whatsapp e das mídias sociais na politização da população. “Podem indicar coisas múltiplas” (p. 57).

As Jornadas de Junho de 2013 

As Jornadas de Junho de 2013 propiciaram “a sensação de euforia, de estar vivo, de ter acordado junto com o gigante adormecido. (…) é um sentimento de estar vivo no coletivo, uma espécie de auge da possibilidade da existência social, de transformação, e a esperança, a sensação de que ´é real, está acontecendo`. (…) uma espécie de ´energia vital`. (…) Experimentar a sensação de que nosso ´eu` se funde com a multidão é um caminho sem volta” (p. 28). As Jornadas de Junho geraram “ao mesmo tempo, cisão e coesão da ordem social e política” (p. 29).

As Jornadas de Junho é inclusiva. Muitas questões ainda aparecerão. A autora destaca cinco processos fundamentais para entender o boom das manifestações no Brasil.

Processo 1. O surgimento de cidadãos que querem mais. Para a autora, não existe contradição entre o protesto e estar em boas condições econômicas. Geralmente os protestos ocorrem em sociedades mais ricas e não naquelas em que a repressão está presente. Nos governos do PT houve inclusão pelo consumo e pela via financeira e, mesmo assim, os protestos aconteceram, reivindicando mais benefícios que, para a autora, não é contraditório quando a população está com melhores condições econômicas e sociais (p. 29-30).

Processo 2. A criação de filhos rebeldes. Jovens negros, pobres e indígenas entraram na universidade devido às cotas. Era uma área elitizada pelas classes médias e pelos ricos. Os novos contingentes de alunos tiveram que resistir para ter um lugar ao sol. Essa política do PT foi exitosa. Mas, no momento em que esses novos estudantes e outras pessoas beneficiadas pelas medidas sociais foram às ruas continuar reivindicando, o PT as considerou ingratas, chamando-as de coxinhas. “Ao invés de abraçar e acolher seu filho rebelde, a escolha política do PT foi a negação: os manifestantes eram coxinhas; a nova classe C, ingrata” (p. 30).

Processo 3. A esperança precária. O lulismo cuidou da inclusão financeira e do consumo, mas desleixou os bens públicos. O transporte continuou precário e com preços altos em relação à renda da população mais pobre. “Não foram os 20 centavos: foi também um grito pela melhoria dos bens públicos que são o termômetro de uma sociedade democrática”. (p. 31). A Copa do Mundo tornou o Brasil mais conhecido, mas, ao mesmo tempo, mostrou com clareza as relações promíscuas entre o Estado e as corporações (grandes empresas), além desse mesmo Estado, utilizar seu aparelho repressivo para desalojar as populações mais vulneráveis (p. 31).

Processo 4. Os órfãos da governabilidade. Com os escândalos do Mensalão e a guinada do PT para um governo de coalizão, muitos apoiadores deixaram o partido, outros mudaram de partido, além daqueles que passaram a ter uma posição ideológica diferente da do PT. Consideraram-se traídos. A geração que viveu no período da ascensão econômica dos mais pobres devido à política do lulismo não conhecia as lutas e os embates do partido para melhorar a condição social e econômica da população (p. 31-32). “Os estudantes não fizeram uma defesa aguerrida do governo do PT, e não por falta de capacitação política, mas porque a identidade política formada em torno do petismo é peculiar a uma geração mais velha. O jogo da governabilidade e o fato de ser parte do sistema eram frustrantes para os jovens”(p. 32).

Processo 5. O recalque das elites. Para a autora, o ano de 2013 é diferente do de 2014. Em 2013 havia a insatisfação popular, mas, ao mesmo tempo, os recalcados começaram a sair do armário. Em 2014, por outro lado, a Lava Jato desempenhou um papel fundamental no processo de incriminação política de Lula e do PT. Essa foi uma das razões que permitiram que as elites políticas, econômicas e da mídia hegemônica puderam tirar o PT das disputas. “O Brasil estava iniciando uma profunda transformação em termos de mobilidade, de distribuição de renda e inclusão social e financeira. Lentamente, iniciava-se um processo de insubordinação das camadas populares, que, cada vez mais, tinham acesso a aspectos e ambientes de vida econômica e social que lhes eram negados antes. Num país de cultura servil como a do Brasil, isso se tornou uma afronta. Os lucros dos bancos continuavam exorbitantes e a economia crescia para todos, mas as elites e as camadas médias se viam perdendo privilégios. O poder sobre o qual o Brasil se estruturara por cinco séculos estava sendo minimamente ameaçado, e isso já era demais” (p. 32).

 O caráter das Jornadas de Junho de 2013

As Jornadas expressam um conjunto de manifestações Brasil afora. As manifestações populares eram para que os bens públicos fossem de melhor qualidade. Eram também contra a violência do Estado e o abuso das corporações praticadas durante a preparação da Copa do Mundo que aconteceria em 2014. Os protestos eram, em última instância, por mais democracia e contra o neoliberalismo. A autora vê as Jornadas como um processo que não começou e terminou em um só dia. É importante, também, olhar não apenas para São Paulo, palco de grandes manifestações, mas para outras capitais brasileiras (p. 33). “Por toda essa extensão do evento é importante usar o termo Jornadas de Junho, uma vez ela abarca um ciclo de manifestações radicais que não terminam em 2013” (p. 35).

As Jornadas de Junho encarnavam pautas claramente antiautoritárias, o oposto das propostas da extrema direita que hoje está no poder. “As Jornadas não foram a causa da tragédia nacional. Ao contrário, elas traziam reivindicações essencialmente antiautoritárias” (p. 36). O MPL – Movimento pelo Passe Livre – foi um dos protagonista da luta contra o aumento de 20 centavos no transporte público de São Paulo. Foi um período de intensas manifestações claramente democráticas. Nesse período, a mídia hegemônica sofria também devido à violência policial, “passou a denunciar a brutalidade do controle e a apoiar as manifestações, o que chamou ainda mais gente para as ruas. A repressão policial gerou comoção e foi mais uma fagulha em um país já em chamas. (…) As explosões de passeatas no âmbito nacional aconteciam por uma inspiração e ia se metamorfoseando conforme os diferentes contextos locais” (p. 36-37).

O dia 20 de junho foi único em nossa história. O apoio da Globo, a mensagem de apartidarismo (que foi mal interpretada como antipartidarismo) e a possibilidade de ler aquelas manifestações como uma crítica pura e simples à corrupção do governo do PT constituíram uma janela de oportunidades para as elites se apropriarem das ruas (inclusive do slogan “Vem pra rua”, em princípio usado por grupos de esquerda). O dia 20 foi, talvez, o último dia do resto de nossas vidas em que os polos antagônicos marcharam juntos(p.37 – negrito nosso).

Depois da efervescência coletiva, as peças do sistema ficaram soltas. A esquerda recuou. A direita avançou, abocanhou e ganhou de lavada. O MPL decidiu não chamar mais atos depois da apropriação dos protestos do dia 20. Seja no nível municipal de São Paulo, então governada por Fernando Haddad, seja no nível federal, o PT leu o diagnóstico que lhe estava sendo dado, optando majoritariamente pela tese negacionista: marchas coxinhas, marchas golpistas” (p. 38-39).

A autora considera que o PT não teria tido condições de fazer frente às articulações da direita e da extrema direita que se uniram para impedir a candidatura de Lula à presidência da República, realizar o impeachment de Dilma e massificar a acusação de que o PT era o partido mais corrupto da história. Nesse acordo entre a direita e a extrema direita quem vai prevalecer é a primeira, inclusive com a eleição de Bolsonaro para presidente da República (p. 40).

A autora também considera que a existência de uma extrema direita no poder, com suas brutalidades, desmanche do país, pode ser benéfico visto que abre as possibilidade da população perceber que nunca houve democracia no Brasil que beneficia a maioria da população. Ela afirma: “(…) talvez seja também uma oportunidade de romper de forma definitiva a falsa imagem de um país cortês no qual imperam a democracia racial e a harmonia popular. Nunca imperaram(p. 40 – negrito nosso).

A segregação na sociedade brasileira. A revolta dos rolezinhos

Na virada de dezembro de 2013 para 2014 surgiram os rolês. Eram jovens da periferia que seguiam para os shoppings, palácios do consumo das classes médias e ricas. Queriam passear, se divertir, mostrar o tênis, a calça de marca, objetos comprados no período lulista, de ascensão econômica e social dos mais pobres. Não queriam assustar. A reação dos shoppings, contudo, como o do Leblon, no Rio de Janeiro, foi fechá-los. Não admitiam, mesmo que fossem comprar, gastar dinheiro, passear pelo shopping. Essa era uma área exclusiva das classes médias urbana e dos ricos (p. 43-45).

A autora mostra os resultados de uma pesquisa realizada na época que apontava que 82% da população era contra os rolezinhos e 73% apoiavam os policiais contra os jovens (p. 44).

Os rolês dos jovens periféricos em templos do capitalismo são um fenômeno político que nos revela o óbvio: a segregação de classes brasileiras que grita e sangra. O ato de ir ao shopping é um ato político, uma vez que esses jovens estão se apropriando de coisas e espaços que a sociedade lhes nega no cotidiano. (…) Estou acompanhando os rolezinhos e me sinto contente por essa apropriação. Mas entre apropriação e resistência política há um abismo significativo. Adorar os símbolos do poder – no caso, as marcas – dificilmente remete à ideia de resistência que tanta gente procura encontrar neste ato. O tema é complexo, não apenas porque revela a segregação de classe brasileira, mas porque aponta a tensão da desigualdade entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, entre Norte e Sul globais. E enquanto esses ícones mundiais foram venerados entre os mais fracos, a liberdade nunca será plena e a pior dominação, a simbólica, será sempre mantida” (p. 46).

A autora afirma que os rolês (…) “eram manifestações jovens ambíguas que misturavam impulso de contestação política e o desejo capitalista hedonista” (p. 48).

Há uma dimensão política nos rolezinhos na medida em que ao entrar no shopping estão entrando em um espaço privilegiado da classe média e dos ricos, brancos.  Querem entrar num espaço porque consideram que têm direitos legítimos de entrar e de ostentar as suas roupas, seus sapatos, seus óculos de marca. No fundo pretendem desfrutar desse mundo de consumo proporcionado pelo lulismo para as populações mais pobres. Não percebem, contudo, com clareza, que são impedidos de entrar num shopping devido à segregação de classe e de cor (p. 48).

As revoltas ambíguas

Para a autora, as revoltas do século XXI são revoltas ambíguas e tem a ver com o desenvolvimento do neoliberalismo que atua “(…) como uma máquina de moer coletividades, desdemocratizar, desagregar e individualizar. Como resultado, os protestos das camadas mais vulneráveis – mesmo de sua juventude – tendem a ser desorganizadas, uma vez que a esfera de politização deixou de ser o trabalho, ressurgindo de forma descentralizada nas redes sociais. A ação coletiva nasce, muitas vezes, de maneira espontânea e contagiosa, sem tanto planejamento centralizado, expressando um sentimento de revolta contra algo concreto vivenciado em um cotidiano marcado por dificuldades” (p. 49).

Guy Standing, citado pela autora, denomina as camadas mais pobres de precariado, como sendo “classes perigosas”. Suas revoltas como “rebeliões primitivas”. Para o autor, o precariado se manifesta com ansiedade, frustração, caos. São pessoas que não detém mais a carteira profissional, vivem em estado de insegurança permanente, com muitas dívidas e vivem em situação de pobreza (p. 49).

As revoltas ambíguas, para a autora, não têm forma acabada e, por isso, não se ajustam ao binarismo esquerda/direita. Mas existe o antagonismo ideológico nas revoltas ambíguas. “Mas não contempla a explosão de movimentos contraditórios. Direita e esquerda são os polos para onde as rebeliões ambíguas podem pender. São, portanto, um devir, uma disputa, um fim” (p. 50). 

E a lição foi precisamente entender que, nesses movimentos marcados pela descentralização não teremos com certeza a radicalização do movimento ´como um todo` (porque não existe um movimento como um todo, mas sujeitos e redes em particular)” (p. 50).

Para a autora, a população tem opiniões contraditórias. Elas não se prestam a serem divididas em campos opostos. A diversidade encontrada em uma população não é possível colocá-la em caixas estanques como tem acontecido com a esquerda, principalmente após 2013. Os movimentos de que a população participa são ambíguos, fruto da nova organização da produção e do trabalho (p. 56).

A “revolta é mais acentuada entre as classes precarizadas bastante ambíguas como foi o caso dos rolezinhos e dos caminhoneiros. Sempre há o risco de que setores mais radicais (de direita) se apropriem das manifestações desses grupos” (p. 59).

A dispersão dos jovens

Quando em 2016, Rosana Pinheiro-Machado e Lucia Mury Scalco visitaram de novo os rolezinhos para ver a direção política que tinham tomado. A autora considera ter aprendido uma importante lição política dessa situação. Ela fala que uma parte dos rolezinhos pendeu para o lado de Bolsonaro, outra manteve a luta pela esquerda, mas também, outros se tornaram indiferentes a essa luta política (p. 50).

A Revolta da caçamba. A greve dos caminhoneiros.

A greve dos caminhoneiros escancarou as dificuldades que a esquerda tinha. Não soube aproveitar o movimento para realizar o trabalho de base. O PT, o mais importante partido da esquerda brasileira não compreendeu o caráter do movimento, considerando-o a expressão da direita, a manifestação dos coxinhas. Permaneceu na defensiva. “O apoio do PSOL, de movimentos menores e de autonomistas foi importante, sem dúvida, mas o PT é a maior força da esquerda brasileira, e isso ficou bastante claro” (p. 50-51) .

 “E aqui penso que seja importante enfatizar um ponto: nos últimos tempos, a esquerda caiu em lugar comum de acreditar que tal população é fascista. (…) O que percebemos nas manifestações dos caminhoneiros é que as pessoas sentem que, do jeito que estava, não dava mais. Vimos uma descrença total na democracia representativa e uma percepção de que o sistema serve aos que estão no topo” (p. 57).

Nem o PT e nem Lula foram citados na greve dos caminhoneiros para surpresa das pesquisadoras, a autora e Lúcia Mury Scalco. A insatisfação deles era com a “classe política que a gente odeia”. “Em suma, a greve era antipolítica”. A raiva estendia “a todos os políticos, à imprensa e “a tudo mais que fosse hegemônico”. (…) insatisfação antissistema permanece. Todos os movimentos sociais dos últimos anos fazem parte do processo como mundo vem reagindo pós-crise de 2008” (p. 59).

Para a autora, são pessoas que trabalham 15 horas por dia, permanecem tensos, usam drogas para resistirem. É uma classe precarizada. O PT não compreendeu e, por isso, não aprovou a greve dos caminhoneiros. “É uma das classes que sofrem com a precarização do trabalho, uma pauta muito cara à esquerda. (…) a esquerda deveria ter aprovado a greve por completo, independente das opções eleitorais dos manifestantes, entendendo que as contradições do sistema em que vivemos também existem no plano individual. Se não trabalharmos com os setores precarizados, com essas pessoas que se revoltam contra o sistema e as desigualdades, não entendemos as ambiguidades, não temos ninguém. Não se escolhe trabalhador bom ou trabalhador ruim. Se esperamos um trabalhador puro, que vem com todo discurso da polarização pronto (…) corremos o risco de perder a disputa. Enquanto esperamos o trabalhador ideal, a direita vai lá e o abocanha os trabalhadores reais” (p. 60).

Os trabalhadores consideram que a globalização do capital, isto é da posse da riqueza pelas elites econômica, política, mediática, não foi realizada para beneficiá-los. Essa globalização beneficia uma parte ínfima da população, no Brasil em torno de 1%, isto é, de aproximadamente de 21% num total de mais de 200 milhões de habitantes. Ao se manifestarem, esses trabalhadores querem mais políticas nacionais, isto é, que os governos do país se preocupem mais com eles e desenvolvam políticas para a saúde, a educação, a segurança e a melhoria dos salários. Significa para muitos desses manifestações que os discursos do início do século de que a globalização melhoria a vida de todos não aconteceu. Ao contrário, um minoria no Brasil detém a maior parte da riqueza produzida cada ano (p. 62).

Os trabalhadores precarizados ao se reunirem em acampamentos geram uma “profunda coesão entre os participantes ao longo dos atos. É, por isso, que os acampamentos são tão importantes: eles se opõem ao abandono e à opacidade individualista da rotina de trabalho precarizada. As revoltas ambíguas são manifestações que politizam os sujeitos durante o processo” (p. 62).

A direita tem sido mais sagaz do que a esquerda. Ela se aproxima do trabalhador e oferece uma direção e uma organização que lhe permite mais segurança. Eles tendem à direita devido “à própria natureza individualista de seu trabalho: eles estão desagregados. Entretanto, isso não elimina a injustiça que está lá de forma latente” (p .63).

Para a autora, assim podem ser classificadas as condições para que a esquerda tenha sucesso na conquista dos trabalhadores precarizados.       1. Não rechaçar o trabalhador. É necessário conquistá-lo para as posições progressistas e de esquerda; 2.Disputar os trabalhadores por meio do uso renovado das redes sociais”; 3. A necessidade “do emprego da micropolítica da conversa face a face (como no trabalho feito no movimento #ViraVoto); 4. “(…) é necessário o retorno à radicalização de discurso que dialoga com a profunda e latente frustração popular” (p. 63).

Para a autora, “Quando os motoristas de aplicativos pararem – porque isso um dia vai acontecer – e o Brasil entrar num novo surto de ´o que está acontecendo`, será mais inteligente não exigir carteirinha de ´trabalhador ideal` nem fazer checklist de entrada no clube ideológico” (p. 62-63).

Ato I. O avanço da direita (p. 65-94)

Antropóloga alucinada

A esquerda está mais fraca no início do século XXI em relação à extrema- direita do que há 100 anos. Nesse último período, a esquerda foi “fragmentada, golpeada e imersa em seus próprios conflitos. (…) No desiquilíbrio entre uma esquerda debilitada e uma direita que detém o monopólio do capital financeiro e informacional, sem sombra de dúvidas, a balança pende para um único lado” (p. 67).

2014 foi o ano para a direita no Brasil. Deputados da extrema direita foram eleitos em primeiro lugar em estados importantes do Brasil. Ela vem se reorganizando desde o início dos anos 2.000. Vários institutos e órgãos foram criados nesse período como o Instituto Mises, o Instituto Millenium e o Fórum da Liberdade, financiados pelo empresariado, acontecendo todo ano em Porto Alegre. Reúne Olavo de Carvalho, Jair Bolsonaro, Sérgio Moro, José Roberto Marinho, Alexandre Garcia, Luciano Huck, Rodrigo Constantino, Demétrio Magnoli (p. 68).

O Fórum da Liberdade “desempenhou um papel fundamental na consolidação de uma rede de empresários, políticos e intelectuais de direita e extrema-direita” (p. 68).

Vários jornalistas – indivíduos liberais na economia e conservadores nos costumes – se manifestaram de forma mais sistemática, principalmente na revista Veja. Reinaldo de Azevedo atacou Débora Diniz, professora da UnB, com textos violentos e misóginos que a levaram a se exilar em 2018 para proteger a vida. Rodrigo Constantino, também da Veja, atacou Rosana Pinheiro-Machado, quando era professora em Oxford. Sempre utilizando “provocações e deboches que caracterizam um debate de baixo nível intelectual” (p. 69). Reinaldo de Azevedo e Rodrigo Constantino, além do MBL, atacaram a autora. “Em todos os casos, houve o mesmo grau de violência, difamação e ataque à minha honra” (p. 70).

O problema para o qual quero chamar atenção aqui não são exatamente os (então) colunistas da Veja, mas o papel que eles desempenharam no início dos anos 2010, quando foram catalizadores de uma horda de violência e linchamento virtual misógino. Não estou falando de comentários residuais, mas uma verdadeira onda de ódio e ressentimento antipetista e anticomunista. Já havia por todos os lados uma multidão raivosa, de comportamento fascista, que indicava uma tendência à violência física e moral contra a diferença política e a diversidade” (p. 70).

Há uma sequência de eventos de 2014 que mostra esse ressentimento latente outrora reprimido. Logo após a Jornada (de 2013), o ódio e o racismo eram destilados contra os integrantes do rolezinhos. (…) Os comentários nas redes sociais diziam que os rolezinhos deveriam ´voltar para senzala`” (p. 70). “Marginalzinho, vagabundo, bandido, comunista: inimigo interno de nosso fascismo tropical” (p. 71).

O ano de 2014 foi muito importante para entender a extrema-direita que saia do armário. Até aquele momento, diversas pessoas tinham vergonha de se dizer de direita. Desde então elas têm orgulho. (…) A lógica fascista brasileira é difusa. Ela não é facilmente identificável, pois propaga um ódio mais pulverizado direcionando a uma massa diversa”. Essa extrema direita conta com uma mídia que “busca seus próprios interesses”. Conta também “com uma polícia violenta, um movimento religioso fanático”. O fascismo idiossincrático à brasileira não idolatra a si própria, mas sim aqueles países que nos barram na imigração” (p. 71).

A semente do fascismo tropical está presente em todas as classes sociais, em todas as regiões. Três hipóteses: 1. Piorou desde as Jornadas de Junho de 2013; 2. Outros dizem que sempre foi assim e a polarização fez com que mostrassem as caras; 3. acreditam também que é uma retaliação, “resultado das incipientes mudanças nas estruturas de profunda desigualdade brasileira”(p. 72).

Em qualquer das hipóteses, o germe do ódio ficou às soltas no Brasil, pronto para linchar física e moralmente todo aquele que não se enquadra no establishment masculino, branco, heterossexual, rico, bem sucedido e cheio de bens de consumo. A ameaça comunista é uma mentira. A ameaça fascista é uma verdade” (p. 72).

Protesto e panela gourmet

Em 2015 e 2016 as “elites brancas brasileiras” foram às ruas com camisa da seleção brasileira se manifestarem contra a corrupção, o PT e a política em geral. Essas manifestações eram verdadeiros convescotes da fina flor conservadora do Brasil.

As manifestações eram puxadas pelo MBL e pelo Vem pra Rua. Foram muito importantes contra o impeachment, “convocando manifestações e atraindo a nova geração para seu bloco ideológico. Eles se apresentavam como liberais, tinham forte presença na internet e atuavam por meio de uma poderosa estética juvenil, em especial via a produção de memes” (p.73).

Esses dois movimentos conseguiram atrair milhares de pessoas para as ruas. Nas manifestações se portavam como jovens modernos, cheios de vida e entusiasmo. Criticavam as políticas e as esquerdas, além do Judiciário. Se apresentavam como anticomunistas e anticorrupção. “Mas, pouco a pouco, a roupagem liberal e apartidária desses grupos foi se esfarrapando. Em 2017, o MBL se assumia como ´liberal na economia e conservador nos costumes´. Eles apoiaram Bolsonaro nas eleições de 2018 e, hoje, não conseguem mais mobilizar manifestações” (p. 74).  Elegeram via outros partidos quatro deputados federais e dois senadores (p. 74).

Os anos de 2015 e 2016 foram os anos de manifestação de famílias brancas. Carregavam o nenê e a babá para cuidar. Usavam camisa da seleção brasileira verde-amarela. “Inaugurou-se a era da indignação com glamour. Somam-se a isso cartazes ufanistas, homofóbicos, misóginos e pobrefóbicos, que davam o tom de um evento de política do mal”(p. 75).

Muitas pessoas se tornaram críticas do PT. “Lula foi o maior ladrão da história” e o PT queria transformar o Brasil em uma outra Venezuela. Com a eleição de Bolsonaro e sua política rampeira, parte surfou no bolsonarismo, mas outra percebeu onde tinha se metido (p. 76).

De 2014 a 2018, o Brasil viveu quatro anos de limbo histórico; um período de confusão, convulsão, jogo com regras frouxas e ascensão do extremismo de direita”. Até o impeachment de Dilma Rousseff, a direita e a extrema- direita atuaram em bloco para a retirada do PT do governo. A partir daí, a extrema-direita com Bolsonaro à frente venceu as eleições, colocou a direita em plano secundário, o que provocou um vexame para as elites conservadoras (p. 76-77).

No entanto, é importante da mesma forma reconhecer que não vamos sair sozinhos desse buraco em que nos encontramos e que precisamos de uma ampla frente democrática e do máximo apoio popular para derrubar o projeto autoritário de cunho fascista que hoje está no poder” (p. 77).

Apocalipse sobre a terra plana

Em 2017 acontece no Brasil manifestações autoritárias como, por exemplo, a exposição Queer Museum em que o patrocínio teve que suspendê-la visto que manifestantes afirmaram que a arte exposta carregava pedofilia.  Outra manifestação da extrema-direita aconteceu em São Paulo quando a cientista social, especialista em gênero, Judith Butler fez uma exposição no SESC Pompeia. Os manifestantes levaram um boneco de pano que representava a pesquisadora para ser queimado. Para a autora, “era a imagem das trevas” (p. 79).

Esse populismo de extrema-direita ao se apresentar no mundo todo, propunha solução simples para “problemas complexos”. A nova direita para a autora, não é necessariamente anti-intelectual, mas quer disputar as narrativas no plano global contra “o establishment  liberal e progressista” que é considerado “comunista”. “Para além do que aparece na superfície, os neoconservadores possuem um projeto de conhecimento que procura definir uma nova direção para a sociedade global. “O que está em jogo é a produção e a disputas de novos regimes de verdade sobre a humanidade e sobre o planeta” (p. 80).

Atingindo o coração do conhecimento humanista ataca-se o legado da ciência e o cerne dos princípios da modernidade, os quais, apesar de seus problemas, conseguiram criar um senso de direitos humanos universais, civilização global e humanidade una. O que os neoconservadores estão alegando é que esse projeto de sociedade moderna não apenas ruiu, mas é o próprio produtor da desigualdade” (p. 80).

Para a autora, o impeachment não era apenas um impeachment. Ele trazia junto manifestações conservadoras que desembocaram em 2018, na eleição de um presidente de extrema-direita. Paulo Freire que em 2014 já aparece como “perigoso” para a extrema-direita foi, naquele momento, a ponta do iceberg que iria se manifestar nos anos seguintes, incluindo o que está ocorrendo atualmente. Aparece o projeto “escola sem partido” para combater a suposta doutrinação de professores em sala de aula. O professor fica receoso de colocar todos os conteúdos e surge nessas aulas o aluno-censor ou aluno dedo-duro. Face a essa onda de protestos, professores com medo, não abordavam certos assuntos por temer as reações de alunos e de pais de extrema-direita. A própria autora foi vítima desse tipo de manifestação e com todo tipo de xingamentos. Segundo ela, o MBL foi o promotor de manifestações nesse sentido, denegrindo pessoas (p. 80-81).

A autora, na condição de professora que é, foi alvo de manifestações de todo tipo quando de um curso na USP sobre movimentos sociais. “Mas, o que era apenas um começo do semestre tornou-se um verdadeiro pesadelo: um gosto amargo dos tempos da perseguição política, uma dose cavalar de bullying digital (…). Alguns sujeitos – cuja foto de perfil era uma metralhadora, por exemplo – tentaram invadir o grupo da disciplina no Facebook. Houve ataques em massa ao meu perfil e, claro, muitos  comentários sexistas e violentos que diziam coisas como ´Essa terrorista precisava morrer`. (…) Não foi a primeira vez que fui atacada, nem a última, mas foi a primeira vez que o problema não era ´eu`, e sim a produção de conhecimento em si”. (p. 82).

Afirmar que “a direita é burra e sem projeto de conhecimento me parece uma aposta equivocada. Os novos movimentos conservadores, com formação liberal, sabem muito bem que não havia nada de pedofilia na exposição, da mesma maneira que muito dessas lideranças jovens estavam cientes de que minha disciplina não servia para ensinar protestos” (p. 82).

A nova direita tem projeto. Ela contesta a sociedade globalizada, que é fruto, segundo ela, de uma concepção de humanidade amarrada à pautas econômicas. Critica o establishment nascido em 1968. A crítica então se orienta para toda geração de 1968 que atualmente desempenha papéis fundamentais ao redor do globo.

A extrema-direita se considera vítima. “Os neoconservadores constroem sua identidade a partir da posição de vítima de um establishment intelectual, das universidades e da grande mídia, o qual, ao priorizar determinados grupos, teria virado as costas para as “pessoas comuns”       (p. 82).

A própria democracia seria um projeto sustentado por uma elite intelectual, privilegiando somente alguns. (…) a crise do neoliberalismo do século XXI, acirrada pela exposição das relações promíscuas entre política e mercado no mundo todo, serviu como uma luva para fortalecer esse tipo de narrativa acerca da ameaça vermelha. De maneira embaraçosa, o primeiro ponto a levantar quando falamos em políticas de conhecimento é que a nova direita se coloca como protetora dos interesses do povo no momento em que associa conhecimento humanista com establishment, elite intelectual e poder. Esse suposto establishment é a geração de 1968, que teria vencido no campo intelectual e ajudado a formar certo consenso liberal-democrático que conciliava o avanço das pautas identitárias”            (p. 82-83).

A guerra hoje é fundamentalmente discursiva. Ela se baseia em palavras, estátuas, símbolos. A narrativa da extrema-direita ao atacar o projeto moderno “vem com uma agenda econômica embutida” (p.83).

Para a autora, “Na Europa e nos Estados, há uma tendência a rever os preceitos da globalização, da livre circulação, do cosmopolitismo e da igualdade dos direitos humanos, tudo isso misturado com uma agenda neoliberal em que a mundialização só serve para determinados interesses. Em todo o mundo, os grupos religiosos querem barrar os avanços por direitos reprodutivos” (p. 83). Esses são os objetivos da extrema-direita.

Entender a mente dos neoconservadores é fundamental para reorganizar a resistência”. O Manifesto da nova direita francesa, escrito por Alain de Benoit e Charles Champetiere, “publicado em 2000, se coloca como base de uma nova escola de pensamento que procura desenvolver uma ´metapolítica`, disputando espaços em revistas acadêmicas, colóquios e conferências para discutir temas morais e culturais”(p. 83-84).

A definição de história para os dois autores franceses, anotada pela autora: “é o resultado de ações e intenções humanas, dentro de enquadramentos de convicções, crenças e representações que providenciam significado e direção” (p. 84 – negrito nosso).

Para a autora, são três a gerações de pensadores da extrema direita.

A primeira, presente na primeira metade do século XX. A maioria de vinculação fascista e nazista. Oswald Spengler, Ernest Yünger, Carl Schimitt e Julius Evola.

A segunda, os pensadores escrevem na segunda metade do século XX. Esses pensadores surgem como reação à esquerda de 1968. Alain de Benoist, Guilhaume Faye, Paul Gottfried, Patrick Buchanan, Jared Taylor, Alexander Duguin e Bat Ye´or.

A terceira, pensadores que escrevem no século XXI, com “grande influência na chamada virada conservadora global”. Pensadores mais radicais que os anteriores. Mencius Moldbug, Greg Johnson, Richard Spencer, Daniel Friberg e Jack Donovan (p. 84).

São pensadores de várias tendências: nacionalistas, supremacistas brancos, libertários, neoreacionários, masculinistas, etc. “Atuam em rede e compartilham alguns pontos comuns que são fundamentais para entender a nova direita global e, em última instância, como ela chega ao Brasil. Os autores possuem uma visão apocalíptica: acreditam que a civilização, europeia e branca está sendo atacada. A responsável por isso seria uma elite global cosmopolita e liberal (também chamada de globalista). A solução, portanto, é criar a política da amizade e da inimizade, que separa o nós (branco e europeu) do eles (todo resto que deve ser segregado). Por fim, eles reivindicam o que chamam de “metapolítica”, que é a necessidade de disputar a hegemonia política e ocupar espaços do conhecimento para discutir todos esses temas”(p. 84-85).

A nova direita não é contra a ciência. Mas é contra o dinheiro público investido na ciência visto que, segundo ela, atende apenas uma elite intelectual. Ela considera que é necessário disputar os espaços legitimados, o que significa as revistas renomadas, os jornais conhecidos, etc (p. 85).

É um erro estratégico considerar que a extrema-direita não está equipada com uma narrativa. São antiglobalistas, isto é, afirmam que atualmente os recursos são destinados a uma elite intelectual globalista; são antiaquecimento global, pois afirmam que não existe aquecimento global. (p. 85).

A extrema-direita conta com “redes transnacionais religiosas, militares e conservadoras que espalham o pânico moral anticomunista e financiam projetos e instituições e grupos nesse âmbito desde os anos 1960”.  A crise global do século XXI “abriu uma fissura no sistema mundial, permitindo que diferentes grupos, de origens diversas e distintos interesses econômicos, políticos e religiosos, se articulassem em um pacto de governo de extrema- direita” (p. 86).

Quando Michel Foucault afirmou que conhecimento é poder, ele estava se referindo à consolidação dos discursos de dominação. O colonialismo e o imperialismo europeu não dominaram o mundo sem uma parcela significativa de intelectuais e experts a seu dispor”. (p. 87).

Como estamos no Brasil? Qual é o engajamento militante dos intelectuais brasileiros na luta por uma sociedade democrática e justa e contra as narrativas da extrema-direita que objetivam tomar o poder e construir um outro tipo de sociedade.

A autora finaliza: “Se há algo positivo nisso tudo é não nos deixar esquecer que conhecimento é poder, mas também é resistência: precisamos conhecer o outro lado e, sobretudo, lembrar que o senso de humanidade, a justiça, os direitos humanos e a equidade é uma verdade que nunca foi totalmente construída, e, portanto, ainda precisamos lutar por ela de forma crítica” (p. 87).

 “Com o corpo halterofilista tatuado, vestindo calças e camisetas justíssimas e com a cabeça raspada, o escritor norte-americano Jack Donovan incorpora a hipermasculinidade em suas aparências públicas. Sua vestimenta remete a guerra, caça, vikings. (…) é listado como um dos 15 mais influentes pensadores da extrema direita de todos os tempos e um dos 5 mais relevantes e inovadores da nova geração de intelectuais direitistas. Longe de ser um fenômeno isolado, o autor da moda move corações e mentes, inclusive no Brasil” (p. 89).

Donovan tem um papel importante no mundo, inclusive já no Brasil. Responde “pela radicalização da misoginia na extrema direita”; (p. 90). Ele “sequer eleva o sexo feminino ao status de humanidade”; “sua teoria de supremacia masculina – ou ´anarcofascista` – glorifica o corpo do homem e exclui o das mulheres”; “O globalismo e a civilização feminizam a raça humana, enfraquecendo a natureza viril do homem que encontra sua essência na hostilidade”; “naturaliza a escravidão e os genocídios e recomenda libertar as mentes tribais”; “o ´tribalismo bárbaro`, para ele, significa atuar em gangues e seguir a natureza predadora e violenta dos homens, criando comunidades de esportes, artes marciais e caça” (p. 90).

Donovan é homossexual, não apoia os heteros e repudia a cultura gay. Para ele, a volta ao passado retornaria à condição da mulher apenas como ente reprodutivo. Considera que a família nuclear degenera visto que está associada às mulheres. “Mulheres seriam meros troféus da bravura desses guerreiros”. Em livros e em palestras “que arrancam aplausos emocionados da plateia” faz um alerta: “as mulheres estão tendo um papel dominante no mundo em todas as esferas da vida social. Elas estão atacando os homens, que são vítimas”. Donovan “faz um chamado revolucionário: os homens estão confusos e perdidos em sua essência. Eles precisam se unir para resgatar a própria honra e reencontrar o propósito de sua existência” (p. 90).

Nos últimos tempos dispomos, segundo a autora, de vários exemplos que mostram esse comportamento misógino (que tem aversão às mulheres). Durante “o impeachment da primeira mulher presidente no Brasil veio com a mensagem Tchau, querida, evocada inclusive na Câmara dos Deputados. O exemplo de outro ataque à mulher. Cidadãos comuns colavam em seus carros um adesivo representando Dilma Rousseff de pernas abertas, de modo que, quando abastecessem o veículo, a bomba de gasolina fosse enfiada em sua vagina. E por falar em vaginas, houve também quem dedicasse o voto a favor do impeachment ao coronel Brilhante Ustra – não por coincidência um torturador que enfiava ratos nas partes íntimas da mulheres. E também não por coincidência, esse homem se tornou presidente da República apoiando-se bastante em uma promessa específica: liberar as armas” (p. 91).

Para a autora, esses episódios não são aleatórios, mas sim muito comuns no Brasil tendo em vista o personagem que venceu as eleições presidenciais em 2018. O ato de dizer que “fraquejou” quando teve uma filha, que tem o desejo insano de armar a população quando o seu papel era propiciar melhor treinamento, melhores salários e desenvolver uma atitude de respeito da polícia em relação à população em geral, mormente a de origem negra, dá uma dimensão de sua visão de extrema-direita de um país assentado sobre o patriarcado, comandado por homens brancos. No caso do assassino de mulheres no Brasil (o feminicídio), geralmente realizado por homens próximos das vítimas, de qualquer raça, continua sendo um dos maiores do mundo (p. 92).

Rosana Pinheiro Machado ressalta as consequências do patriarcado de homens brancos entre nós associado à ação da extrema-direita que tem influenciado deveras o comportamento de homens comuns no Brasil. Ela afirma: “ (…) como antropóloga que estuda grupos populares, ou seja ´pessoas comuns`, mais do que movimentos organizados, intriga-me como tais ideias extremas podem fazer sentido para o pai de família, o motorista do UBER, o vigilante e o jovem que se alia ao tráfico. Mas muitos desses perfis podem não ler os livros de Donovan, mas vivem em um país que, cada vez mais, autoriza a eliminação de fraquejadas no plano simbólico e concreto e mantém uma relação de idolatria com as armas” (p. 92).

Pessoas comuns, como diz a autora, são capazes de realizar atos que no dia-a-dia da família é um pai amoroso e dedicados aos filhos. Como a hierarquia patriarcal “obriga” o homem a ser macho, sua atitude não consegue suportar a ascensão sócio-econômica da mulher no mundo, mas principalmente no Brasil, quando muitas vezes, ele perdeu para ela a condição de provedor da família. Não é mais o pai que tudo dá e que exige comportamento adequado em casa e na sociedade por parte dos seus. O uso da arma de fogo surge nesse momento de crise pessoal e da sociedade uma oportunidade de se firmar de novo como macho. Se não alcança esse objetivo, permanece em crise permanentemente, culpando as mulheres e o mundo de suas desditas. Quando perde essa condição, se desestabiliza, entra em crise e é, nesse momento, presa fácil do movimento fascista que cresce quando o homem perdeu seu rumo. O fascismo oferece a ele a segurança e a direção a ser assumida, sempre em grupos organizados que tendem a violência. Aí ele passar ser rei em seu canto (p. 82-83).

No patriarcado, em tempos de recessão, um homem em crise de identidade é um ser reativo que vê a ascensão das mulheres como uma ameaça. A ideia de que existe um plano de dominação feminista pode fazer todo sentido para um sujeito desempregado, frustrado e destituído de essência. Formar o Clube do Bolinha (o que o fascismo faz com competência), culpar e até matar as Luluzinhas pode ser um caminho fácil para a satisfação imediata do ego. Os autores como Donovan fazem, por meio de uma narrativa simplista, mas perfeitamente encaixada, é atingir o âmago íntimo da constituição desses sujeitos, oferecendo-lhes um propósito de vida e o paraíso perdido” (p. 83-84).

A autora considera, citando vários autores, que os “tempos de recessão são um terreno fértil para o retorno de narrativas supremacistas que vão e voltam desde o século XIX. Entretanto, nesse vai e vem discursivo, há algo incontestável e que não pode ser esquecido: o ataque é uma retaliação a uma trajetória consistente e ascendente de conquistas femininas. (…) Alguns podem reivindicar a volta ao tribalismo bárbaro, mas a única verdade nisso tudo é que a história da conquista das mulheres é um caminho sem volta” (p. 94).

Ato I. O recuo da esquerda (p.95-131)

Da esperança ao ódio

O poder de compra passou a ser um meio fundamental de reconhecimento, visibilidade e cidadania entre as camadas populares na era Lula”.  A pessoa que recebe um dinheiro e gasta em um tênis de marca  passa ser reconhecida, “se sente como gente” na sociedade.  Para a autora, “Não é possível avançar em uma reflexão sobre a atuação da esquerda brasileira nos últimos anos sem analisar os aspectos positivos e negativos dessa política lulista” (p. 98).

O Orçamento Participativo (OP) no tempo de Lula permitia, por exemplo, que uma mulher tomasse o microfone e colocasse suas reivindicações. Nesses anos houve a ascensão social devido aos vários programas do PT, além do aumento do salário mínimo acima da inflação do período. As pessoas passaram a consumir e obter produtos que até então não conseguiam devido à pobreza. Foram anos de entusiasmo para as populações das periferias brasileira. A questão do consumo, contudo, sem um profundo e sistemático trabalho de consciência e organização política deixou a população sem um norte a fim de defender as conquistas no plano do consumo, por exemplo. Com a crise instalada, a partir de 2014, essa  população periférica é desempregada e perde recursos. Não tem mais a possibilidade de consumo como antes, mas também não está organizada politicamente para defender os avanços da era Lula (p. 98-99).

A autora afirma que o sociólogo alemão Wolfgand Streeck  “pontua que o capitalismo superou a estagnação da década de 1970 empoderando os consumidores, o que causou uma espécie de invasão do mercado à vida social. O ´que ele chama de socialização do consumo` é mais individual do que coletivo e cria indivíduos que seriam menos integrados socialmente e menos comprometidos na esfera pública. Clientes são satisfeitos de imediato pelos bens que compram: clientes são mimados. Quando os cidadãos são transformados em clientes, eles ficam satisfeitos com os bens públicos e ´têm menos paciência` com a vontade geral, o que resultaria em apatia política” (p. 99).

Na mesmo direção, também citados pela autora, autores que analisam as ideias políticas no neoliberalismo, como Wendy Brown, Pierre Dardot e Christian Laval, Li Zhang e Aihwa Ong, entre outros, entendem o consumo como parte de um processo de hiperindividualização e competição. Dessa forma, o mercado invade todas as esferas da sociedade e atinge a conduta humana, causando uma espécie de ´privatização do eu`, uma busca permanente por prazer, esvaziando o tecido político social” (p. 99-100).

A autora, citando autores brasileiros, como Chico de Oliveira, Ruy Braga e Lena Lavinas, afirma que “a adoção de políticas públicas neoliberais contribui para a despolitização do Estado, tornando-o um braço gestor do mercado financeira”. Para Lavinas, citada pela autora, melhorou a condição econômica da população mais pobre, mas não deixou de continuar com políticas neoliberais que “levou à redução da provisão de bens públicos” (p. 100).

As medidas neoliberais como “a inclusão financeira e pelo consumo, levam à erosão da democracia, à retração dos bens públicos e ao esvaziamento da política na esfera social”. Com essa política de inclusão financeira houve o enfraquecimento democrático em muitos níveis. Para a autora, em contraposição, houve uma “transformação na autoestima e no orgulho dos indivíduos de baixa renda, o que chamo de autovalor” (p. 100).

As altas classes médias e os ricos reagiram a essa mudança para melhor vivida pelos pobres. Era uma experiência perigosa, pois os mais pobres poderiam utilizar esse autovalor para questionar o poder político. Isso aconteceu inclusive no caso dos rolezinhos. “Era insuportável uma meninada brincando, cantando, namorando, comprando. Era intolerável ver a autoestima dos filhos dos novos consumidores. Era a metáfora do novo Brasil: o autovalor do pobre e o recalque das elites”. (p. 101-102). A autora chama de “esperança” quando fala da era Lula, mas para ela, era uma “esperança precária” (p. 101-102).

A partir de 2014, a crise se instalou. Os novos consumidores perderam emprego, diminuíram os salários, os assaltos aumentaram. A esperança acabou. As rádios, tvs e jornais conservadores não davam trégua ao PT, os evangélicos contribuíam com essa ira e um candidato da extrema direita afirmava que o futuro seria promissor (p. 102-103).

Para avaliar os recuos da esquerda nos últimos anos, é imprescindível colocar na balança os impactos positivos (insubordinação) e negativos (desdemocratização) da inclusão financeira e do consumo. Todavia, responsabilizar essa políticas pelo que ocorreu é um ato simplesmente leviano. A virada conservadora é, acima de tudo, resultado de uma articulação poderosa das elites políticas do país que vem correndo desde 2014”. Para a autora, não foi a inclusão pelo consumo que criou o problema para a população, mas sim “a soberba da confiança de que só ela bastaria, sem mexer de forma profunda na estrutura da desigualdade. O problema foi ter virado as costas para as periferias. Acreditando que somente a autoestima dos novos consumidores seria suficiente para produzir uma fidelidade partidária eterna” (p. 103).

Bandido bom é bandido morto

Há uma contradição na compreensão das pessoas da periferia no que se refere ao papel da polícia. Frequentemente são entusiastas da pena de morte e da ação da polícia ao mesmo tempo que são as principais vítimas dos policiais. (p. 305). “Em todo o país, 5.144 pessoas morreram executadas por policiais em 2017 (…).  Este é o maior número já registrado (…) desde 2013. Se partimos do princípio que de que 71% dos homicídios ocorrem entre jovens negros e pobres, podemos supor a cor e a classe dessas vítimas da violência fardada”. A autora pergunta: “porque vítimas em potencial da violência do Estado muitas vezes se colocam em defesa da polícia, banalizando as execuções extrajudiciais?” (p. 106).

Nas periferias de São Paulo e Rio de Janeiro, onde ocorrem a maior parte das execuções policiais de jovens, já existe um ativismo ou ações hop hop da cidade o que não impede, mas questiona a matança de jovens negros. Mesmo em capitais de outros estados, a violência existe, embora mais matizada (p. 106-107).

Nossa herança colonial revela a construção de um imaginário partido em dois num país também dividido: um branco, civilizado e seguro e outro negro, bárbaro e perigoso. Com a teórica feminista bell hooks e a pesquisador Teresa Caldeira aprendemos que a ação de esperança faz parte das crenças dominantes, nas quais se entende que o perigo reside do lado de fora. Mas a teoria do pensamento policial brasileiro alerta para o fato de que a construção da ´marginalidade` também produz uma figura central em nosso imaginário: a do ´vagabundo`, desviante e desestabilizador da ordem, criminalizado e desumanizado” (p. 107).

A autora fala da “espetacularização do sangue, do sexo brutal, dos tiros e das facadas. Uma violência-ostentação, filmada e focada nas comunidades”. Assisti também, diz a autora, “a um vídeo de uma execução a sangue frio com 29 tiros de um homem pelo tráfico. Depois, recebi outro, de traficantes com fuzis atirando para o alto (…) essas imagens revelam como uma forma de indignação pela impunidade, mas também como um poder disciplinador e moralizador (…) enquanto as execuções policiais quase nunca são filmadas (por razões óbvias) e, portanto, são menos frequentes no imaginário popular”(p. 107-108).

Em um mundo das periferias em que a morte ronda cotidianamente, um jovem que estuda e trabalha precisa vencer barreiras de obstáculos em todo momento. De um lado, o tráfico, de outro, a polícia faz com que esse jovem viva sempre em tensão. A autora afirma: “Construir-se como ´honesto` é uma saga radical de sobrevivência. Existe aí uma comunhão de valores meritocráticos e punitivistas desde baixo”(p. 109).

A arma nesse universo é “um símbolo de poder” e também, com a arma, o desejo de não ficar ´de quatro` como imposição de bandidos.

Elas também representam virilidade: “os fuzis levantados dos traficantes estão lá, fálicos, para reafirmar o poder masculino” (p. 109).

A maioria das vezes, o amparo a um jovem vem da família, da religião e de ações coletivas, mas quase nunca do Estado. “Se elegemos um fascista presidente, e se parte dessa votação veio das classes populares, a responsabilidade por isso é, sobretudo, do ódio de classe, do racismo e décadas de omissão do Estado. Os que apanham da polícia real, mas torcem pelo policial ideal estão apenas expressando a própria contradição do modelo de nação brasileira” (p. 109).

Bolsonaro atinge o âmago de uma parte da cultura popular e masculina. Ele atinge o punitivismo das pessoas. Quando o presidente, ainda em campanha, fala ao vivo no Jornal Nacional que, se um bandido tem um fuzil, o policial e o cidadão de bem precisam de um fuzil maior, ´e não uma flor, ele não choca, mas alcança o íntimo de uma grande parte da população que pede violência na mesma medida que é violentada”(p.110).

As malas do Geddel

As populações das periferias brasileiras vivem em sobressaltos. Falta saneamento básico, já que as águas dos banheiros escorrem para as ruas; o lixo não é tratado pelo poder público como uma questão de saúde; o atendimento em hospitais é precário e quando há necessidade operações urgentes, espera e, às vezes, a pessoa morre. A população, às vezes, tenta resolver os problemas da própria comunidade. “Nem as autoridades do Estado, nem políticos de direita ou de esquerda” aparecem para resolverem as pendências. Mas, “em época de eleição, os candidatos chegam em comitiva, dão aquela volta bacana na área, abraçam umas crianças descalças e desaparecem. De repente, a gente vê todas as pessoas, até moradores de becos mais pobres, carregando bandeiras de candidatos e distribuindo santinhos, em serviço que recebe de 30 a 70 reais por dia” (p.111-112).

A questão da corrupção é uma parte da tremenda atenção das populações mais pobres. Veem pela televisão a existência de roubos milionários enquanto não aparece ou aparece pouco frente às necessidades da população. Por isso, os moradores dessas comunidades periféricas consideram os políticos profissionais cínicos. Nem a esquerda, com algumas exceções, escapa dessa acusação (p. 112-113).

As “malas do Geddel” carregadas de dinheiro foram vistas por milhões de pessoas das periferias. Eram malas de um político profissional da Bahia. “Eram malas e malas cheias de uma nota azul, uma imagem concreta e poderosa. Estava lá todo o sistema político reunido. Dilma Rousseff tinha sido tirada do cargo em 2016. Se uma parte da população comprou o lobby mediático lavajatista, acreditando, portanto, que o impeachment fora promovido por corrupção da presidenta e do PT, as malas do Geddel lembravam que Michel Temer e Aécio Neves estavam afundados em esquemas promíscuos de corrupção”. Foi nesse período que um político profissional e deputado federal começou a subir nas pesquisas presidenciais de 2018. Jair Bolsonaro aproveitou desse quadro que mostrava corrupção das grandes para rapidamente ganhar pontos nas pesquisas do opinião. Era parte importante da população, inclusive das  periferias, que embarcavam no candidato de extrema direita (p. 113).

A luta contra a corrupção é deturpada pela direita que a coloca “como de caráter de um povo, uma classe ou um partido”. E a esquerda não responde politicamente com uma narrativa que mostre que é o Estado controlado pelas corporações que provoca a corrupção como um método do sistema capitalista. A burguesia afirma, como faz o atual ministro da Economia, Guedes, de que o Estado é ineficiente, e, por isso, é necessário privatizar todas as empresas públicas para deixar ao mercado a resolução dos problemas econômicos e da vida. A esquerda não tem desenvolvido uma narrativa que mostre que o mercado com Estado mínimo realmente não resolve as questões econômicas em benefício da população, principalmente das mais pobres. Na atualidade, o neoliberalismo “sequestra” o Estado em benefício das corporações. “Nesse novo modelo, o poder político passa a atuar como um braço facilitador e protetor do mercado, corroendo a confiança na democracia representativa”                     (p. 114-115).

A dependência do Estado em relação ao grande capital é um fato da própria natureza do capitalismo (…) Desde a sua gênese, o Estado capitalista tem fracassado sistematicamente em assegurar o bem comum ou garantir o direito dos cidadãos contra os abusos do mercado, atuando para legitimar a violência sobre os mais frágeis”. Para a autora, “grandes escândalos de fraudes em licitações e fiscalizações que culminam em desastres ambientais, como o que ocorreu em Brumadinho e Mariana, constituem regra, e não exceção”. O promotor Carlos Pinto afirma em jornal britânico “sobre a Samarco e Vale do Rio Doce, pontuando que todos os efeitos estavam focados no retorno das atividades (para estancar o prejuízo), e não na recuperação ambiental” (p. 115).

Para David Harvey, citado pela autora, a financeirização do mundo provoca: 1)aumento do controle dos bancos sobre a economia e a vida social”; 2)as privatizações são maximizadas”; 3)os cortes de recursos públicos previstos em orçamentos governamentais aumentaram de forma crescente”; 4)os bens coletivos se tornam cada mais deteriorados”            (p. 116).

Para a autora, “corrupção é o esvaziamento da razão pública em nome do ganho privado. É a vitória dos laços particularistas e assimétricos sobre a igualdade e o universalismo. A luta contra a corrupção e em defesa da democracia radical, portanto, representa inexoravelmente duas faces de uma mesma moeda. É preciso reinventar esse debate denunciando o poder econômico sobre o Estado, resgatando os sentidos do coletivo e lutando pela garantia universal dos bens públicos”. (p. 117).

Bolsonaro sabe meu nome

A forma como o PT encaminhou toda a campanha em 2018 foi catastrófica. De início, sempre a espera de Lula, Haddad não fez campanha. Foi feita pensando em Lula conseguir se candidatar com a improvável reversão de sua prisão, o que não aconteceu. Essa situação permaneceu indefinida, sendo que Haddad chegou a aparecer com uma máscara do resto de Lula. Foi chamado de poste por não se apresentar como o candidato Haddad. Essa forma de fazer campanha abriu espaço para Bolsonaro, um nome com pouca expressão política se transformar em um tsunami, na palavra da autora, na campanha final (p. 119-120).

É evidente que a razão fundamental para a crise do PT e do lulismo foi a campanha insidiosa e criminosa das rádios, jornais e tvs que mandam no Brasil, mas principalmente a tv Globo, a mando da classe dominante. Batendo em Lula e no do partido, com acusações de corrupto e de comunista, desencadeou uma onda antipetista e anti-Lula que teve um papel importante na campanha eleitoral, principalmente após tirar Dilma Rousseff da presidência em julho de 2016, via golpe de Estado (p. 120).

A frustração da população era muito grande. “Depois de um limbo de cinco anos, desde julho de 2013, período marcado por uma crise multidimensional, diferentes frustrações motivaram o apoio a Bolsonaro: corrupção, emprego, ordem, família, segurança, tirar o PT do poder, ou seja, absolutamente tudo e, ao mesmo tempo, nada. Nesse contexto, a facada em que Bolsonaro levou no dia 3 de setembro de 2018 foi decisiva. Carregado pelo povo como um herói, ele foi atingido no estômago”. Após o acontecido, apareceram afirmações como “o homem deve ser bom mesmo” ou “os poderosos estão com medo dele” (p. 121).

No final do processo eleitoral, votar em Bolsonaro era uma questão de pertencimento em algo maior. Pela via autoritária, era parte de efervescência coletiva” (p. 119). Antes mesmo das fake news, segundo a autora, o crescimento eleitoral de Bolsonaro era efetivo. As pessoas participavam, sentiam que valia a pena fazer campanha para ele, sem cobrar nada. “Na época das eleições, muitos eleitores mencionaram que era a primeira vez que amavam a política, que se sentiam genuinamente parte de uma campanha” (p. 121). “Era uma sensação de fazer história contra tudo e contra todos não pela esquerda radical, mas pela extrema direita” (p. 122).

A campanha de jornais, rádios, mas principalmente da tv Globo entre as emissoras de tv, de acusar o PT e Lula de todos os males rendeu frutos. A enxurrada das fake news, incentivada e paga por empresários, acrescentou pontos a favor de Bolsonaro. A prisão de Lula e a campanha anódina do PT com Haddad para a presidência da República, não tendo assumido a própria campanha a não ser em seu final, contribuiu para a avalanche de antipetismo. A onda antipetista, com o massacre mediático e as fake news disparadas aos militares, chegou em grande escala às periferias brasileiras.

Votar em Bolsonaro foi, para muitos, a única forma de fazer política e se sentirem incluídos no coletivo. Uma forma de ser gente e ter um lugar no mundo. Isso, é claro, em meio ao vazio populista que se sustentavam apenas no personalismo. As pessoas se agarravam à figura do então candidato no meio de um deserto político. Não houve contrapartida, e já não havia antes mesmo do golpe. É esse deserto que a esquerda precisa rever urgentemente se quiser ser protagonista da derrota do autoritarismo no Brasil” (p. 123-124).

Mano Brown avisou

Uma grande parte da esquerda partidária e burocratizada brasileira comete um erro básico: acredita ser por geração espontânea ou empatia natural, a porta-voz dos interesses dos mais pobres, bem como julgar conhecer suas necessidade e estar preparada para representa-los”               (p. 126).

Embora Lula seja um líder que conhece a cultura popular de onde veio, embora tenha realizado uma revolução no cotidiano das pessoas mais pobres em lhes propiciar recursos do Estado para comprarem comida, educar os filhos, se vestirem melhor, as tarefas diárias do poder, com a necessidade de manter a governabilidade do país, afastaram o PT dos mais pobres, tornando o partido como outro qualquer. Esse fato foi fatal, ocasionando o recuo do partido, a partir de 2013, da defesa dos interesses da população mais pobre e a resistência ao avanço da extrema direita        (p. 126-127).

Chamar o trabalhador de fascista porque votou em Bolsonaro só mostra as dificuldades da esquerda em compreender a situação dessas pessoas. Pode ser mais de direita ou se achar liberal, isso mostra a ausência de trabalho político junto às periferias, perdendo, então, para a direita e para a extrema direita. No final, o trabalhador, principalmente o jovem, não teve acesso às informações a não ser as passadas pelas tvs, não lhe, permitindo, pois, compreender a batalha ideológica em que está envolvido: a disputa entre a esquerda e a extrema direita pelo poder político. A autora afirma: “Agindo assim, apenas afastamos essas pessoas de nós e as jogamos ainda mais para a direita, que, por sua vez, os recebe de braços abertos, sem nenhum pré-requisito” (p. 128). Em outro ponto, a autora continua a acusação: “A cegueira, a negação e o autoengano têm sido alguns dos maiores entraves para a resistência ao projeto bolsonarista” (p. 129).

A população das periferias brasileiras conhece o Estado pela violência da polícia, pela ausência bens públicos, pelas promessas vãs de políticos. Como reagir se o Estado não aparece e nem o dinheiro do imposto recolhido é investido nas periferias. Mas, nem mesmo a esquerda aparece lá para apoiar suas reivindicações, discutir seus problemas. Por essas razões, parte importante dos pobres critica a esquerda (p. 129-130).

Bolsonaro preencheu lacunas deixadas pela profunda decepção com a política institucional. Em um país em crise, prometeu radicalismo e demostrou indignação com o cenário do Brasil – duas características que a esquerda institucionalizada foi perdendo aos poucos. Ele fez isso de maneira mais violenta e despolitizada possível, mas que funcionou, na medida em que o populismo autoritário é sempre uma alternativa fácil”  (p. 130).

Admitir que há muito a fazer e a repensar é muito mais trabalhoso. As saídas à esquerda não passam pela adoção de uma vã narrativa indignada, mas por uma profunda reconexão com as periferias que leve à indignação: com a falta de comida, a compra de votos, os assaltos sofridos na parada de ônibus, o emprego precário” (p. 131).

A saída não é evangelizar eleitor”. “Não é preciso politizar a periferia”. Para a autora explica que “a antropologia tem um princípio fundamental: as comunidades têm as soluções para os próprio problemas, bastaria perguntar quais são” (p. 131).

Não é preciso politizar a periferia. É a esquerda que precisa se periferizar”(p. 131).

Ato III. Bolsonarismo. (p. 133-162)

O espetáculo para o tio do pavê

Padrinho de Bolsonaro, “Trump é um fenômenos de entretenimento” (p.136). Foi criação de muitos homens, em especial do “marqueteiro Roger Stone, do produtor (…) Mark Burnett e do estrategista Steve Bannon”. Trump é fruto da composição mediática desses três homens. Para Patrick Radden Keefe, em artigo no The New Yorker, Burnett criou a imagem de Trump como “assertivo, um ´mito` e um ícone de sucesso por meio de um longo (e manipulador) processo de edição”. Já Roger Stone “conhece a cultura popular como poucos (…). Entre as suas ´leis`, encontra-se uma que se aplica perfeitamente a Trump e Bolsonaro: “Melhor ser infame do que não ser famoso”. Quando do surgimento da ideia de lançamento de Trump como candidato, esses marqueteiros lançaram um tuíte com “uma frase que chocasse a muitos, mas que tocasse no âmago racista de tantos outros (nos Estados Unidos): ´Vamos construir um muro`. (…) Judith Butler entende que Trump é um fenômeno mediático em que a vulgaridade enche a tela e se passa por inteligência” (p. 136-137).

Para a autora, a cultura popular “vê a política como entretenimento e espetáculo”. Trump e Bolsonaro são produtos das redes de TV que produzem programas para “passar tempo e descolar do contexto”. (expressão e aspas nossas).

 “Bolsonaro é um palhaço de placo”. Ele se utiliza dos programas de auditório, ele fala e polemiza com o que ele chama de “velha política”. Ele encarna a decepção do povo, principalmente das periferias com a contínua falta de melhorias na qualidade da educação e saúde, saneamento quase sempre inexistente, buracos na rua, policiamento violento. As pessoas das periferias sempre permanecem com o pires na mão, a não ser quando se organizam minimamente para alcançar alguma reivindicação dos governos. Bolsonaro se tornou um fenômeno mediático. “Entender sua eleição passa menos por teorias de escolha racional e mais pelas vísceras e pelos sentimentos” (p. 136)

Ele fala qualquer aberração na mídia, “aquilo que ninguém tem coragem de dizer” (p. 137). A imprensa volta-se para ele, a população guarda na memória a imagem daquela pessoa falando coisas diferentes, muitas vezes, violentas, outras de ataques de baixo nível contra pessoas, políticos, etc. “Em vídeo, “aos berros manda todo mundo se foder diversas vezes. Funcionou. Ele encenava indignação contra o sistema” (p. 139). Os pesquisadores Piaia e Nunes, citados pela autora, afirmam que “Bolsonaro ocupou um lugar imenso na mídia de TV aberta entre 2010 e 2018, somando 33 participações, cujo centro eram suas opiniões polêmicas, em programas como Super Pop, Pânico e CQC”. Perguntavam: “Você já teve sonho erótico com macho?”. Para os autores, acima citados, o humor ácido e homofóbico de Bolsonaro ganhava “audiência se movimentando entre o cotidiano e o inusitado” (p. 138).

Deputado por 28 anos, militar de escalão médio, sem carisma, ele se tornou popular e ganhou as eleições para presidente da República. A partir 2013, Bolsonaro ganhou repercussão atacando Dilma Rousseff, Benedita da Silva, Maria do Rosário e Jean Willys. “Como falava coisas criminosas, a mídia toda se voltava para ele, que se colocou como herói antiesquerda” (p. 138). Em vídeos do You Tube se comporta “aos berros, mandando todo mundo se foder diversas vezes. Funcionou. Ele encarnava a indignação contra o sistema” (p. 139).

Lucia Scalco, participante da pesquisa com a autora, afirma que “Bolsonaro se tornou conhecido a princípio por meio de instituições que tinham acesso à internet, como escolas e igrejas”. Os jovens seguidores de Bolsonaro chamavam os participantes das ocupações secundaristas como “coisa de vagabundo” (p. 139).

Para Rosana Pinheiro-Machado, o nome Bolsonaro se fixou “na memória do povo sempre por meio de polêmicas que despertavam amor e ódio”. Pessoas afirmavam: “Ele é péssimo, mas vou votar nele porque é a única opção” ou “Acho ele muito radical, mas não tem outro candidato, não é?” “Bolsonaro reinou sozinho porque soube usar os espaços da cultura popular: primeiro indo a programas de auditório, depois virando memes “zueros” na internet” (p. 139).

Para a autora, os políticos-celebridades “não conseguem sair do pessoal e entrar para a política de fato. Esvaziam o coletivo, promovem o caráter antidemocrático e reforçam modelos autoritários que cultuam a personalidade”. Estimulam as emoções e evitam os debates, reforçam o “nós” contra “eles”. Questões que expressam uma personalidade fascista (p. 140).

Vagabundo

O sentimento fascista que cresce no Brasil não mobiliza o medo de um inimigo externo, como é comum no Hemisfério Norte. Nosso inimigo é interno: o velho conhecido vagabundo” (p. 141).

Rosana Pinheiro-Machado considera que ninguém se acha vagabundo. É sempre o outro. Somos pessoas amáveis, gentis, realizadas, temos família, respeitamos o próximo. Somos cumpridores do deveres civis e cristãos. Os vagabundos não têm essas qualidades. Têm vida fácil, por isso, talvez, sejam menos humanos. Os vagabundos “recebem privilégios e mamatas (…) são lesados, preguiçosos e pervertidos. Tudo o que eles possuem vêm da vida fácil”. Quando morrem, pode-se até comemorar (p. 141).

Para a autora, “vagabundo é um significante vazio que pode abarcar muita gente: ambulantes, desempregados, pessoas em situação de rua, pobres, nordestinos, putas, LGBTI+s, ativistas, bandidos” (p. 142).

A definição de vagabundo tem a ver com “relações de poder estruturadas no eixo raça, classe e ideologia” e não devido ao trabalho, à honestidade e o esforço. Assim, pode ser um trabalhador com carteira assinada, um pai de família honesto e ordeiro, um estudante esforçado e dedicado à escola e ao trabalho, mas por ser negro tem mais probabilidade de ser considerado “vagabundo” pela polícia, principalmente. (p. 142).

A autora fala, nos critérios abordados acima, de que Lula é um vagabundo devido às sua origem popular e ser oriundo do Nordeste, mesmo que tenha sido um dos presidentes brasileiros mais prestigiados internamente e no exterior. Enquanto isso, Jair Bolsonaro não é considerado vagabundo, mesmo tendo, como político profissional, durante 28 anos, aprovado apenas dois projetos e “têm três filhos se alimentando da mesma fonte, não é vagabundo” (p. 142)

Rosana Pinheiro Machado fala que “a linha que separa um vagabundo de um humano é muito tênue”. Quando jovens de classe média, filhos de autoridades, tocaram fogo no índio Galdino, dormindo, em um ponto de ônibus, em 1997, em Brasília, se espantaram quando souberam que era um indígena. Disserem: “Achávamos que era apenas um mendigo”. Em 2019, dez adolescentes morreram em um incêndio em uma concentração do Flamengo. Houve comoção, mas se tivessem morrido na periferia seriam considerados vagabundos por uma parte importante da população, como acontece uma infinidade de vezes no Brasil com jovens negros oriundos das favelas (p. 142).

As raízes sociais do vagabundo se encontram na figura do vadio e do marginal do período colonial. Nossa história sempre foi dividida entre uma parte branca e ´desenvolvida` e outra parte que se quer varrer para debaixo do tapete: pobre e/ou negra considerada atrasada e fora do desenvolvimento econômico”(p. 142).

Quais as condições para o surgimento dos “vagabundos?”. A autora fala que os libertos da escravidão rumavam para as cidades à procura de trabalho, ou mesmo com ocupação, foram sempre discriminados devido à cor negra de seus corpos, eram considerados marginais e “causavam medo e repulsa.  Nossa mentalidade colonizada não consideravam seus corpos não brancos adequados para circular ao redor dos prédios com arquitetura europeia” (p. 143).

 “A violência sempre foi um projeto do Estado em aliança com a elite”. Os negros que tinham já se alforriado ou aqueles que se tornaram livres com a Abolição em 1888, como eram considerados perigosos, mas necessários para os trabalhos domésticos, como também como ambulantes e, em muitos casos, não tendo trabalho, viviam nas ruas, sem fazer nada, o que os tornava passível de repressão do Estado. “O caminho que transformou o marginal em alguém socialmente autorizado a morrer é longo e resulta de um extenso processo de produção mediática hegemônica que sempre tratou a ´marginalidade` como nefasta”. Com as transformações do século XX, o marginal foi se transformando em um criminoso. No momento que chegaram ao poder no século XXI, Bolsonaro e Moro, “o vagabundo é mais que um criminoso: agora ele é também um terrorista” (p.143).

Os que são chamados de vagabundos não pensam que são vistos como vagabundos. A autora conta o caso de uma ambulante que não se percebia como ambulante, embora a elite a considerasse. Ela própria considerava que os ambulantes com menos mercadorias, menos cuidadosos e com o próprio ponto desmazelado, como vagabundos. Por isso, ela arrumava o próprio local de venda em um espaço vistoso para se distinguir de outros ambulantes. “O problema é que na perspectiva da elite, todo camelô, sem documentos, era vagabundo, e a polícia deveria ser rígida contra eles. A pancadaria, o cassetete e as humilhações das batidas da polícia sempre foram aplaudidos com certo sadismo” (p. 143-144).

Para a autora, “um dos problemas do Brasil é a sua identidade mal resolvida, que faz com que, muitas vezes, potenciais ´vagabundos´ não percebam que são vistos como tais” (p. 143). “Intrigava o fato de que, muitas pessoas não viam pela lógica da ideologia hegemônica, elas mesmas poderiam ser os próximos vagabundos. Havia ali, uma necessidade de se diferenciar e de aliar ao padrão, fazendo com que a identidade social fosse negociada com tensão e ambivalência. (…) O mérito de Bolsonaro foi ter conseguido atiçar uma ira latente com os “vadios”. A elite racista e classista apoia a remoção de toda articulação de ´vagabundos` – nordestinos, beneficiários do Bolsa Família, minorias, ativistas. Outra parte da população, aflita por muitos medos e perdas, também. Forjando o papel da justiça e da ordem militar, o ex-deputado conseguiu falar para um grande número de brasileiros que acham que a vida é injusta e que os vagabundos passam bem” (p. 143-144).

Pode ser encontrado nas páginas da extrema direita uma profusão da palavra vagabundo associada a assaltantes, marginais e petistas. Com relação aos petistas, a massificação do termo “vagabundo”, agora sob o comando de Bolsonaro na presidência da República, penetrou profundamente nas populações das periferias. Isso porque, o termo “vagabundo”, criado pela elite branca e pela mídia hegemônica, já estava associado à bandidagem. Em um contexto de crise econômica, não foi difícil colar essa pecha de vagabundo aos petistas, às pessoas de esquerda (p. 145).

Em 2013, quando Bolsonaro criou a sua página no Facebook, as acusações eram dirigidas “contra marginais e vagabundos, aos quais os petistas foram sendo cada vez mais associados” (p. 145).

Em vídeo, afirma a autora, Bolsonaro fala que “as cadeias não podiam ser colônias de férias (…) associando o PT e o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) a tema como o falso ´kit gay`. No meio do vácuo deixado pela crise, em que a narrativa da crise se enche de significado, apontando culpados e inimigos internos, Bolsonaro atiçou a nossa tradição sádica mais profunda. E ganhou” (p. 145).

Uberminion

Rosana Pinheiro-Machado identifica “três perfis de eleitores, que operam como tipos ideais que ajudam a refletir e a agir”. Ela considera que essa forma de análise do comportamento dos eleitores é mais factível do que “partir do princípio de que metade dos eleitores é composta por fascistas ou ignorantes – ou ambos” (p. 147).

1. Os RICOS.Ostentam capital educacional, mas optam por um projeto autoritário “contra a ´corrupção`, mas que na verdade veem em Bolsonaro e no antipetismo uma oportunidade para legitimar antigos preconceitos contra a ´gentalha`” (p. 147-148).

2. OS POBRES.Com baixíssimo capital educacional e um antipetismo brando”. O voto em Bolsonaro se deveu ao trabalho de setores da igreja, da família, “ao desespero ou esperança, mas salientam que Lula fez muito pelo povo”. Atributos dessa população: a) “Há desilusão e desinteresse generalizado”; b) mas, “há flexibilidade para falar de diferentes candidatos”; c) “não projetam raiva ou jogam a culpa (…) nos imediatamente abaixo – porque não há ninguém abaixo”; d) “desacreditam da política devido ao clientelismo”; e) objetivo principal das esquerdas: “convencê-los a ir votar no dia da eleição” (p. 148).

3. OS PRECARIADOS. O restante da população. São os trabalhadores em condições precárias. Reside nessa categoria, “o grande imbróglio do eleitor bolsonarista”, como veremos a seguir:

A.Todos indignados com o sistema político frouxo ou a moral   tradicional abalada, além de frustrados com a própria situação.” A autora define essas pessoas desse grupo como “o simpático motorista de UBER, a vendedora delicada, o porteiro prestativo, o microempresário trabalhador e a manicura festeira” (p. 148).

B. Para a autora, essas pessoas são: “o fanático, o agressor tomado pela fúria prestes a se ´vingar` e matar um esquerdista, uma pessoa negra, um LGBTI +, uma feminista, em suma os ´culpados` pela deterioração do mundo” (p. 148).

A situação de crise provoca a aproximação do A ao B. Assim, a pessoa com perfil A passa a ter comportamentos semelhante àquela de perfil B, com violência e agressões. Mas como a autora afirma: “É assim que a razão autoritária cresce, uma vez que não existe o fascista a priori: o que existe é subjetividade mobilizada pelo projeto autoritário”. Em outros termos, não é um fascista orgânico que compreende e age de acordo com sua filosofia e ideologia. A pessoa com perfil A se torna fascista em função de situações concretas que podem perdurar ou não (p. 148).

Nessa situação, os “eleitores são nutridos por um sistema horizontal de comunicação, sem qualquer responsabilidade com a verdade, as mensagens pró-Bolsonaro são lidas da forma como é conveniente para cada trajetória pessoal e familiar, cooptando e organizando diferentes frustrações, identificando crises e propondo soluções imediatas”. A extrema direita tem encontrado um terreno favorável para aproximar A de B, já que o primeiro não vê soluções para seus problemas, plenos de ressentimentos (149).

O ódio se propaga nesse contexto com pessoas geralmente calmas se transformam em perigosas e violentas agressoras, acusando os petistas e outros personagens pelos males que enfrentam. “Repetindo um velho script da história cristã, os ´cidadãos do bem` são também justiceiros e matam – ou deixam matar – em nome de uma justiça muito particular”           (p. 149-150).

A antropologia nos ensina que não existe uma identidade única e totalizante”. As pessoas são complexas, podendo ser democratas, conservadoras, patriotas, de acordo com o contexto e a personalidade dessas pessoas. “Em um país de pobre, a tradição democrática e laica, (…) nossa versão conservadora tende a ocupar mais espaço”. Ela afirma que a esquerda e os setores progressistas não podem “desistir de tantas pessoas que conviveram conosco que sabemos que possuem facetas generosas, solidárias e comunitárias” (p. 150).

É preciso concentrar a atenção da esquerda nesses trabalhadores “que são trabalhadores flexibilizados, sem vínculos coletivos. São vítimas do neoliberalismo predatório”. São pessoas que não recebem em suas comunidades os investimentos governamentais, que desejam ascender econômica e socialmente, trabalham horas a mais cada dia, mas não encontram nos governos a ajuda necessária e na esquerda “uma narrativa popular”, “com propostas claras de emprego e segurança pública”                (p. 150-151).

Abaixo a ditadura da baranga

Uma das definições para o termo “baranga” no Dicionário Houaiss é: mulher feia ou deselegante. (nossa frase).

Rosana Pinheiro-Machado mostra que no início da campanha Bolsonaro tinha a adesão de 36% dos homens e 18% das mulheres (p. 154).

Ela pergunta: “Se Bolsonaro é considerado misógino, quais são as motivações da mulheres que votaram nele? Uma das coisas que mais me chamou a atenção em minha aventuras pelo Facebook foi uma mistura de medo do comunismo com medo do feminismo. ´Minha bandeira jamais será vermelha`, disse a apoiadora. Na verdade, parecia querer dizer: ´Minha vagina jamais será peluda`. Há um permanente terror de que a ditadura do proletariado se torne a ditadura da baranga”. Eduardo Bolsonaro disse em 2018, “que as mulheres da esquerda são feias, pouco higiênicas e têm cabelo no sovaco. Para um público fã de seu pai, declarações como essa são completamente normais”. (p. 154).

Questões como a “sujeira e a higiene era uma constante em todas as postagens que misturavam o feminismo com o antipetismo (…) a antropóloga Mary Douglas, citada pela autora, (…) já apontava (…) a impureza é uma construção social que representa um perigo capaz de desorganizar um sistema cultural ordenado (…) essas mulheres ´sujas’ (mas assustadoramente livres) são, em última instância, uma ameaça à família, à propriedade e ao patriarcado” (p. 154).

As mulheres, citadas no Facebook, visitadas pela autora, se apresentam como pertencentes à famílias perfeitas, então, por que tanto medo das mulheres feministas? A autora diz: “parece-me que essa compreensão do feminismo como antifeminino também se mistura com a velha ameaça à família e à propriedade” (p. 155).

Não adiantava, durante a campanha eleitoral, acusar Bolsonaro de propugnar palavras de ordem ofensivas às mulheres. Ao perceber que um importante segmento das mulheres não votavam nele, mudou a tática eleitoral frente ao feminino. Centrou a campanha na defesa da família e da violência contra a mulher. A partir desse momento, a acusação de machismo não tinha mais efeito em certos círculos femininos. “As acusações soam como uma palavra de ordem da esquerda, uma vez que a o campo da extrema direita já blindou sua narrativa a favor da mulher, ou melhor, da mulher depilada, sarada, protetora da família ´realizada` e que repudia a violência” (p. 155-156).

Apenas no Norte e Nordeste permaneceu alta a rejeição à Bolsonaro. Até aumentou um pouco essa rejeição. A autora considera que o fato dessas mulheres ou parte importante delas, nessas regiões, serem beneficiárias do Bolsa Família, significa um maior protagonismo e uma compreensão do perigo que corriam se Bolsonaro vencesse, “por serem mais vulneráveis à violência doméstica, urbana e policial, demonstravam verdadeiro terror em relação ao armamento da população e, por consequência, a Bolsonaro” (p. 156).

Para a autora, o “´Brasil acima de tudo` é o Brasil do condomínio fechado, branco e endinheirado, não o Brasil de verdade, que encara a sua desigualdade e abraça suas diferenças. É um Brasil que se odeia, na verdade, um Brasil de mulheres iguais, brancas, magras, casadas e viajadas. Não é de se estranhar que mulheres que apoiem Bolsonaro: isso se insere dentro de um modelo-padrão no qual a ameaça ao feminino e à mulher é um fato histórico que deriva, de um lado, de uma projeção distorcida e colonizada da beleza da mulher e, de outro, do conservadorismo patriarcal e religioso que controla os corpos e o desejo femininos. Como tudo que é dominante, muitas vezes são as próprias mulheres que exercem o biopoder regulador sobre si próprias” (p. 156).

Bolsominions arrependidos

Um comentário nosso e não da autora. Algumas frases demonstram que esse livro foi escrito em 2018, terminando já no início do governo Bolsonaro.  Rosana Pinheiro-Machado faz uma análise da campanha do candidato Bolsonaro até os primeiros meses de seus governo em 2020. Estou analisando esse livro em fins de julho de 2020. Já se passou mais de um ano entre o período que ela escreveu e este momento em que estou escrevendo.  A autora faz uma análise dos primeiros meses do governo Bolsonaro. Ela afirma que parte da população já começava a dar sinais de que não satisfeita com o governo.

Essas considerações tem a ver com as projeções que ela faz do futuro do governo Bolsonaro. Projeções, a partir dos dados que a autora utiliza.

Rosana Pinheiro-Machado escreve: “A lua de mel não durou cem dias”. “Uma pesquisa do Datafolha do início de abril de 2019 mostrou que, após três meses de governo, Bolsonaro tinha a pior avaliação entre presidente no primeiro mandato, confirmando algo que estava na cara: o fenômeno do bolsonarismo arrependido chegaria rápido” (p. 157).

Acima de tudo, o trabalhador precarizado quer segurança e renda. E estamos muito longe de ver isso acontecer. Aqueles que votaram por falta de opção voltaram ao lugar-comum de que ´político é tudo uma bosta`. Mais adiante a autora afirma que parte dos votantes não bolsonaristas de carteirinha já se desiludiram do presidente. O bolsonarista arrependido não é confesso. Ele tem vergonha e mantém o orgulho”(p. 160).

Retomo. A análise de Pinheiro-Machado, a partir dos dados existentes, mostrava um enfraquecimento do governo logo dos primeiros meses. O vai-não-vai para a indicação de Eduardo Bolsonaro para embaixador do Brasil nos Estados Unidos. As pressões foram muitas e o governo teve que ceder. Quando do anúncio de que o governo iria mudar a embaixada do Brasil para Jerusalém, houve reação imediata e pública dos países árabes compradores de alimentos brasileiros, o mesmo se aplicando, para a reação dos grandes proprietários do agronegócio, que vendem alimentos para os árabes. A crise que aconteceu com a China, quando importantes autoridades brasileiras, utilizando apenas um discurso ideológico atacaram aquele país, grande importador de commodities brasileiras. Outras crises aconteceram, mas não cabe a esse espaço desenvolvê-las.

Considerando o fim de julho de 2020, as pesquisas demonstram que Bolsonaro não está fora do páreo para as eleições presidenciais de outubro de 2022, mesmo que o pleito esteja muito distante. Há várias razões explicativas para o otimismo dos componentes do governo. Rodrigo Maia, presidente da Câmara Federal, defendendo os desejos da burguesia brasileira e internacional, não coloca em pauta mais de duas dezenas de pedidos de impeachment. Com os 600,00 oferecidos à população mais pobre, desassistida, decorrente da pandemia, deu ao presidente um fôlego. As igrejas protestantes tradicionais (protestante e batistas) entraram de cabeça na ocupação de cargos estratégicos do governo como é o caso do Ministério da Educação e do Ministério da Justiça e Segurança Pública, do Conselho Nacional de educação, CAPES – Campanha Nacional de Aperfeiçoamento do Ensino Superior -, além do apoio dos evangélicos, ainda em sua campanha eleitoral. Essas iniciativas tornaram o presidente Bolsonaro mais seguro.

É importante considerar que as eleições de 2022 estão muito longe, com um pouco menos de dois anos e meio para o pleito. É muito tempo.

Se as esquerdas e os setores democráticos não forem mais ativos, buscando a unidade, há uma possibilidade concreta de que Bolsonaro seja reeleito em 2022. Com mais um mandato poderá ir construindo, pedra por pedra, as condições para um regime fascista.

Réquiem para a desesperança. (p. 163-190)

A Revolta das Vedetes

As Jornadas de Junho de 2013 deixaram marcas profundas no Brasil. Entre elas, o aumento do papel político da mulher na sociedade brasileira e mundial. Ao lado de seu “papel cultural tanto como chefes de famílias quanto como lideranças comunitárias”, as mulheres passaram, também, a ter um papel crucial na política (p. 165-166).

A autora e Lucia Scalco se referem a uma divisão de papéis durante a greve secundarista de 2016, em que as meninas assumiram um protagonismo político muito claro, desenvolvendo argumentos com desenvoltura e, também, com posições opostas às de Bolsonaro, enquanto os meninos geralmente permaneciam calados durante as conversas e, posteriormente, em ambiente de menor visibilidade, declaravam seu apoio e voto em Bolsonaro (p. 166).

Para a autora “a figura de Bolsonaro parecia ser um emblema de virilidade que representa uma arma de fogo – uma arma que se defende de bandidos, mas também de outras ameaças inomináveis” (p. 166).

Um casal é confrontado com a questão política na presença da autora: “Joana, 53 anos, desatou a criticar Bolsonaro, com uma admirável capacidade argumentativa, diante de um marido calado, que se dizia indiferente ao candidato. Horas depois, José Carlos, 64 anos foi para o Facebook postar a famosa corrente das ´42 razões para votar em Bolsonaro`. Joana relatou que, no outro dia, ele havia reclamado que ela ´tinha falado demais e sido muito saliente`” (p. 167).

Quais as razões da vitória de Bolsonaro nas eleições de 2018?: 1. O colapso econômico que vinha desde 2014; 2. O vácuo político devido ao impeachment de Dilma Rousseff; 3. O preconceito contra a mulher; 4. As atitudes preconceituosas, racistas e machistas de Bolsonaro; e, 5. “A crise do macho”. Não esquecer também das dificuldades políticas dos partidos de oposição, principalmente as do PT, em fazer frente aos avanços da extrema direita (p. 167).

Mesmo que Bolsonaro tenha tido uma significativa votação entre as mulheres, diversas pesquisas antes e depois das eleições mostram que a identificação com o presidente é fundamental e majoritariamente masculina.  Nesse contexto, as mulheres têm sido parte importante da renovação política e formam um bloco de resistência contra o autoritarismo” (p. 168).

A extrema-direita venceu, as feministas também

Rosana Pinheiro-Machado pergunta: “O que tinha acontecido com os ex-rolezeiros que haviam se tornado bolsonaristas? O que tinha acontecido com o Brasil, que os incentivava à virada conservadora?” (p. 169)

Um caso citado pela autora explica a sua preocupação em observar o que está acontecendo. Ela fala de Maria Rita, 17 anos, que discutia com o pai, soldado bolsonarista e com o irmão sobre política. Maria Rita já havia conseguido convencer a mãe, mas pai e irmão “não tinham argumentos, apenas raiva de tudo”(p. 169).

A antropóloga Claudia Fonseca, citada pela autora, já anotara, pelos anos 1980, chamando “as mulheres da periferia de ´mulheres valentes`: líderes comunitárias, mães e trabalhadoras, mas não necessariamente feministas. O que descobrimos em 2016 (…) foi que as filhas das valentes (…) agora queriam estudar e trabalhar, se denominavam feministas e enfrentavam o poder patriarcal com argumentos sólidos, dados e conhecimento aprofundado de política. E melhor, elas eram mais numerosas que os minions” (p. 169-170).

A autora é otimista. Acredita que houve “a partir de 2013, em que pese o aumento do autoritarismo, “grandes conquistas que mudaram uma geração inteira e que produzirão impactos sociais e institucionais profundos daqui a alguns anos”(p. 170).

Uma onda feminista varreu o mundo. Em todos os continentes as mulheres lutaram contra o assédio sexual, o machismo e pela vitória do aborto legal. Não foi diferente no Brasil. As partir das Jornadas de Junho de 2013, as mulheres se manifestaram, de formas variadas. As estudantes secundaristas foram um exemplo em 2016 (p. 170-171).

Impulsionada pelas novas mídias digitais, emergiu no mundo todo, mas em especial no sul global, a quarta onda feminista, que é orgânica, desenvolveu-se de baixo para cima e cada vez mais reinventa localmente os sentidos do movimento global #MeToo, que busca expor casos de assédio e abuso contra mulheres. O levante internacional perpassa todas as gerações, mas é entre as jovens adolescentes que desponta seu caráter mais profundo, no sentido de ruptura de estrutura social: há uma nova geração de mulheres que não tem nada a perder nem a temer” (p. 170-171).

Para a autora, há um ineditismo na participação das mulheres na política, através de uma miríades de atos e manifestações. Uma delas, a maior, foi a manifestação em todo o Brasil contra o candidato Bolsonaro nas eleições de 2018. O #EleNão galvanizou milhões de mulheres no Brasil através de um esforço hercúleo de conversar com outras mulheres para ganhá-las para a luta contra o candidato Bolsonaro, mas, não só isso, para abrir novas trincheiras da luta feminina e, também, iniciar a discussão do papel da mulher no poder. Ela afirma: “O desafio é entender a participação das mulheres no poder: como elas estão fazendo política no século XXI?” (p. 172).

A autora afirma que “O #EleNão foi um fato político permeado por uma série de ineditismos. A maioria dos homens não conseguiu entender o que aconteceu no período. (…) era sobre a politização de nós, mulheres, para além dos resultados das eleições” (p. 172).

 A autora conta um caso que aconteceu durante uma manifestação em Santa Maria, Rio Grande do Sul, ocasião em que “Minha aluna contou que elas (avó e neta) seguiam o voto do homem na família”. Numa manifestação, “A avó com muita dificuldade para caminhar, estava maravilhada com o ato e me disse: ´Que beleza isso daqui. É a força das mulheres`” (p. 173).

Embora o candidato Bolsonaro tenha mudado a direção da campanha eleitoral, embora certos intelectuais da esquerda tenham afirmado que a campanha feminista ajudou o candidato autoritário, para a autora “O #EleNão não se converteu em ganho eleitoral. Essa luta – que conta com hashtags e memes, mas não só, pois estamos carregando nossos corpos – não é apenas sobre percentuais. É sobre nós, mulheres, estamos ocupando e reinventando a política” (p. 174).

Como antropólogas, atuando na periferia de Porto Alegre, Lucia Scalco e a autora, notaram que aumentou intensamente a participação das jovens como feministas militantes. Mesmo antes do #EleNão, elas já enfrentavam pais, irmãos, companheiros, muitas vezes, conseguindo mudar o voto das mulheres da família. Nessa onda, várias feministas do PSOL foram eleitas para os legislativos estadual e federal. Isso aconteceu também nos Estados Unidos. Elas citam o caso de Alexandria Osório Cortez que foi eleita a deputada mais jovem daquele país. Essa deputada tem abordado as questões políticas de uma forma mais universalista, considerando em sua ação a situação dos trabalhadores e das minorias, enfatizando a necessidade de tratar a política tendo como referência, também, o amor                    (p.174-175).

A autora mostra que existe a divisão esquerda/direita no Brasil, mas também “aposta para a sua existência de uma dupla divisão de ideologia e posicionamento, ou seja, de um lado situa-se o tipo ideal do homem branco de direita e, de outro lado, a mulher negra/lésbica/trans/pobre de esquerda” (p. 176).

A onda feminista nos dará força para resistir. Tenho confiança de que muitas e renovadas versões do #EleNão serão levadas a cabo, e mirarão não apenas derrubar os projetos de Bolsonaro, mas sobretudo servir de espaço para a politização de mulheres. Mesmo derrotadas, somos vencedoras” (p. 176).

Amanhã vai ser maior

Para a autora, o que veremos a seguir, pode ser analisada em duas versões, de acordo com a reação de quem se encontrava no auditório em São Borja, Rio Grande do Sul.

Em fins de junho de 2019, a autora fez palestra na Unipampa, em são Borja. É uma região fronteiriça, com grande tradição de luta tanto entre grupos da própria região, bem como, com estrangeiros. O uso da arma nessa região, hoje empobrecida, é uma das características dos gaúchos da fronteira. A autora mostra que, segundo pesquisa do Ibope, realizada em julho de 2019, enquanto aumentava a reprovação do governo Bolsonaro em todo o Brasil (de 27% em abril para 32% em junho) “cresce sua aprovação na região Sul (de 44% para 52%)” (p. 179).

No dia seguinte à palestra, a internet estava recheada de ataques à palestrante. A autora afirma que as mentiras se sucederam. Foi acusada de que chamou Bolsonaro de vagabundo, de que utilizou dinheiro público “para difamar a imagem do presidente. (…) Nos comentários de posts que viralizaram, chamavam-me de puta, baranga, corrupta, criminosa e teve até quem lamentasse que eu não tivesse estado no incêndio da boate Kiss” (p. 178).

As pessoas na faixa dos 50 anos eram as mais agressivas, tanto os homens como das mulheres, aliás, a autora afirma que as mulheres “eram as mais agressivas nos comentários”. (p. 178). “O ex-capitão satisfaz esse gaúcho cuja cultura popular exalta um homem armado e orgulhoso de ser tosco, grosso e simples. Bolsonaro que é, ao mesmo tempo, melancolia e frustração”. (p. 179).

A autora afirma, citando o filósofo Jason Stanley, que “o passado mítico, glorioso e puro como a primeira característica desse tipo de regime autoritário. Nesse passado reina a família patriarcal e os papéis de gênero tradicionais”, isto é, o homem cuida das atividades externas e a mulher cuida da casa, gesta crianças e cuida delas enquanto crescem e se desenvolvem. Para o autor citado, “na retórica nacionalista, persiste a fantasia de que existiram os tempos áureos, perdidos para o globalismo. (…) Essa nostalgia (…) é acionada pelos movimentos autoritários que lutam por hierarquia, pureza étnica e ordem”(p. 179).

Na segunda versão, ela afirma que a palestra foi “inesquecível. Professores e estudantes (…) organizaram um evento impecável pelo profissionalismo. No cerimonial de abertura, um estudante tocou e cantou ´Tempo perdido`, da Legião Urbana. (…) auditório lotado”.  Estudantes sentados “no chão ou (…) de pé”. Muitos viajaram “até 200 km para estar lá. (…) As perguntas (…) eram instigantes, dignas de jovens com aguçado espírito acadêmico. Ao final, passei trinta minutos recebendo abraços apertados e palavras de apoio. Os longos aplausos não eram para mim, mas para o significado e a força daquele evento. Havia ali uma verdade tangível: nós poderíamos ver, tocar e sentir estudantes qualificados e mobilizados pela universidade pública. No velho oeste, ocorreu um evento cheio de esperança” (p. 180).

A Unipampa foi criada pelo ex-presidente Lula, em São Borja, para “trazer desenvolvimento a uma região empobrecida”. Durante a palestra, a autora anotou a presença de “estudantes negros, LGBTI+s e muitas meninas feministas”. Muitos estudantes de outros estados estavam presentes devido ao ENEM (p. 180).

A autora, citando o professor Fábio Malini, afirma que “o bolsonarismo é um teto no progressismo dos mais jovens, e por isso, tem data de validade. (…) pode-se entendê-lo como um movimento em vão que luta para barrar o futuro. As novas gerações são muito mais progressistas que as anteriores. Basta olhar a pesquisa da Data Folha publicada em julho de 2019 sobre a reprovação da conduta da Lavra Jato: 73% dos jovens entre 16 e 24 anos acham inadequado o comportamento dos procuradores e do ex-juiz. O abismo geracional é evidente” (p. 180).

A profunda transformação da sociedade brasileira pelas novas gerações é irreversível. Não há nada que possa impedir isso. Ninguém vai voltar ao armário” (p. 180).

Para concluir, Rosana Pinheiro-Machado cita um caso de uma senhora “que trabalha na padaria perto de minha casa: ´Ih… Se tu achas a minha neta de 20 (anos) feminista, é porque tu não conheceu a de 12`” (p. 180).

Esperança, substantivo feminino

(Nota nossa: não esquecer que a autora escreveu esse livro no início de 2019. Muitos fatos aconteceram nesses 19 meses do governo Bolsonaro. Com esse alerta não afirmo que necessariamente a situação política melhorou, mas apenas dizer que vivemos em outro momento histórico).

Rosana Pinheiro Machado fala que o convite deste livro “é transmutar a dor em luta, e fazer da esperança uma opção política”. (p. 183). Para ela, “A esperança é o único antídoto contra o que nos sufoca” (p. 184).

Ela cita Noam Chomsky que afirma que temos duas opções: que “podemos ser pessimistas, desistir e esperar que o pior aconteça”. É a opção em que prevalece “a raiva e a agressão (que) são expressões da natureza humana”. Ou, a segunda opção “aproveitar as oportunidades que de fato existem e ajudar a fazer o mundo um lugar melhor para se viver”. Aqui prevalecem a “simpatia, solidariedade, gentileza e preocupação com os outros (…) Há muita resistência contra a brutalidade humana e contra o autoritarismo. Tal resistência, segundo ele (Chomsky) precisa crescer e se tornar uma fonte de esperança para a nossa espécie” (p. 183).

No Brasil de hoje, o derrotismo tende a tomar conta de todas as esferas da vida social. Lamentamos a vitória da extrema-direita, não enxergamos saídas e deixamos que essa angústia no imobilize. (p. 183). Continua: muita gente tem deixado o país; perdemos pessoas altamente capacitadas. Em muitas ocasiões setores do campo progressista sucumbem ao derrotismo. Afirma mais que a vitória da extrema-direita tem a ver com o fracasso em não ter eliminado todo o autoritarismo que vem da ditadura militar. São “estruturas que perpetuam a desigualdade” (p. 184).

Ele fala das mensagens deixadas pelo filósofo Ernst Bloch de que “a esperança é algo que precisa ser aprendido. Ao contrário do medo, ela é apaixonada pelo sucesso de uma causa, não pelo fracasso. É superior ao medo, pois, não é passiva. A emoção da esperança, ao invés de confinar, amplia os sujeitos” (p. 184).

Ela cita o livro de Paulo Freire Pedagogia da esperança, publicado em 1992. “Para ele, é preciso reconhecer a desesperança como algo concreto, bem como entender as razões históricas, econômicas e sociais que produzem:  os abusos de poder, as extorsões, os ganhos ilícitos, os tráficos de influência, o uso do cargo para satisfação de interesses pessoais. Mas Freire segue lembrando que a esperança é uma necessidade vital. A existência humana e a luta por uma sociedade melhor não podem ocorrer sem esperança e sem sonho. A desesperança é esperança que perdeu o rumo. Como programa, a desesperança imobiliza e faz sucumbir no fatalismo, impossibilitando de juntar as forças indispensáveis ao embate político. (…) Pedagogia da esperança é, sobretudo um poético chamado à prática, e também uma defesa da tolerância e da radicalidade”. (p. 185). “Resistência desesperada, sem sonho, é meramente um corpo a corpo vingativo. Só a esperança não ganha a luta. Mas, sem ela, a luta fraqueja” (p. 185-186).

A autora mostra como é importante a resistência, a esperança. Fala de Cecília Dinerstein, em livro sobre a América Latina, no qual “desenvolve a ideia de uma ´utopia concreta` na arte de organizar a esperança, que é a capacidade que os movimentos possuem, ao lutar contra o ´barbarismo´ criar modos de vida alternativos, novos mundos todos os dias” (p. 187).

Pane de imaginação é uma expressão usada por Pierre Dardot e Christian Laval, no livro A nova razão do mundo, citado pelo autora, que precisa ser revertida para se criar um mundo novo. Imaginação é a busca da inspiração, a luta por uma sociedade democrática que são atributos que se colocam contra o neoliberalismo ultrarradical. Não se pode transferir um mundo mulhor para o futuro. É necessário manter a luta no presente, não desistir, buscar o novo, organizar as pessoas. O que acontece hoje não pode nos imobilizar. O traço característico do governo Bolsonaro é a ação terrorista. Para ela, quando afirmam, que os movimentos deveriam estar nas ruas lutando contra a extrema-direita, pondera que existem outras formas de luta. Cita uma série de manifestações durante o ano (p. 187-188).

São muitas lutas que aconteceram e estão acontecendo. Mas é necessário “que a esquerda institucional precisa de um horizonte para sonhar e, consequentemente, construir. Talvez falte a ela investir na potencialidade das minas dos slams, nas novas lideranças eleitas, nos frutos de Marielle. Talvez falte ceder lugar a novas práticas políticas e figuras da política que estejam conectadas com as formas de luta emergentes do século XXI. Talvez falte simplesmente deixar que o novo assuma seu lugar” (p. 189-190).

Rosana Pinheiro Machado cita o exemplo da deputada federal Áurea Carolina (PSOL/MG) que escreveu numa coluna do Nexo em agosto de 2019, que foi as ruas para reverter eventuais votos para a extrema-direita e ganhar os eleitores em dúvida e o resultado foi positivo pois era necessário sair da “lamúria”. Ana Carolina fala, citada pela autora, “Com humildade, saímos às ruas para uma conversa desarmada com as pessoas. Rompemos com a lamentação e assumimos nossa responsabilidade de ação. Não foi suficiente para reverter a vitória de Jair Bolsonaro, mas algo se criou na própria disposição ao diálogo”. Essa vitória, mesmo mínima, “rompia com a ordem individualista e competitiva e restabelecia o princípio democrático de amor e de convivência na diversidade” (p. 190).

A autora conclui: “Do colapso, reconstroem-se mundos e modos de vida. Enquanto estivermos em pé, nossa utopia se chamará esperança, a esperança se transformará em luta, e a luta será o próprio amanhã melhor – e maior” (p. 190).

Aracaju, agosto de 2020