Hélio Consolaro

Professor, jornalista e escritor

No ato sexual para gerar outro ser, ninguém faz sozinho. E é mais gostoso quando os dois estão em acordo, fazendo do orgasmo uma forma de chegar as Deus.

Recorro a um trecho do cronista Arnaldo Jabor para completar o meu pensamento:

A  pornografia é só para homens. A mulher quer ser possuída em sua abstração, em sua geografia mutante, a mulher quer ser descoberta pelo homem para ela se conhecer. Ela é uma paisagem que quer ser decifrada pelas mãos e bocas dos exploradores. Ela não sabe quem é. Mas elas também não querem ser opacas, obscuras. Querem descobrir a beleza que cabe a nós revelar-lhes.

Sou de uma época em que havia catecismo. Na igreja, o padre ficava ouvindo nossas sacanagens no confessionário; um tal de Carlos Zéfiro fazia a sacanagem em preto e branco nuns livrinhos parecidos com gibis. Eles eram chamados de catecismo.

Na minha adolescência, eu conheci duas publicações clandestinas: o catecismo de Carlos Zéfiro que passavam de mão e mão dos meninos. Com ele, alguns aprendiam a amar, outros eram ensinados a estuprar. Bem mais amenos que a pornografia atual.  A outra publicação clandestina que conheci, bem menos lida, apenas por um grupo seleto, os comunistas, que era Classe Operária. Ambos proibidos pela ditadura militar.

Quando um não quer, dois não brigam, mas o homem geralmente é o que força a mulher a fazer o coito com ele, na marra. Nunca ouvi ou li que uma mulher estuprou um homem.

Estou escrevendo isso porque até parece que a menina de 10 anos do estado do Espírito Santo engravidou-se sozinha. Os holofotes não focalizaram o pai do feto, o bandido da história.

O culpado se chama testosterona, hormônio que transforma o masculino humano em agressivo. Há muitos resquícios em nós, homens civilizados, dos tempos das cavernas. Recomendo o livro “Por que os homens fazem sexo e as mulheres fazem amor?“, de leitura bem acessível e com muito humor, escrito por dois biólogos norte-americanos. 

Sem querer justificar a violência dos estupradores, não podemos negar que entre masculino e feminino há diferenças. Veja o que diz um estudioso: 

(…) dezenas de relatos de biólogos e etólogos (que estudam o comportamento dos animais) mostram que a natureza não é tão bonita como se imagina. Algumas circunstâncias que cercam o sexo forçado entre animais são muito parecidas com o estupro humano.

Se somos selvagens, a civilização nos molda, nos educa, nos impõem modelos de comportamento para que o convívio social seja possível. Daí o argumento dicotômico: civilização ou barbárie. Ou temos um código civilizatório ou somos feras. Quem é contra os direitos humanos quer um mundo mais animalesco, sem perdão, “olho por olho, dente por dente“, descrente da conversão, da mudança de hábitos. A mulher é apenas uma fêmea, exceto a mãe.

Os machistas querem a permanência dos valores da caverna, a vigência dos instintos, por isso são chamados de retrógados. Desprezam a civilização que os tornaram bípedes.

Jogar toda a culpa do aborto no colo da mulher é machismo, porque quem violentou foi o homem, faltou ao criminoso educação, sensibilidade espiritual para sair da barbárie.   

Mas o que você estava fazendo na rua a essa hora e com essa roupa?” – dizem os machistas. Como se o estuprador fora vítima de sua provocação. A vítima é a mulher, pois não praticou violência. Se o cara achou-a bonita, gostosa, que chegue para conversar, que faça o cortejo da conquista.

Respeitar o outro, deixá-lo viver, sendo homem ou mulher. O outro não é meu inimigo, é meu irmão. Por isso criamos a figura do Criador, são marcos regulatórios de nossa civilização.

Araçatuba, setembro de 2020.