Jaime Brasil

As tentativas de adaptação da revolta às voltas que o mundo dá, têm-nos causado estupefação e paralisia diante do rolo compressor ideológico que caracteriza o modo de produção capitalista em sua fase, digamos, tecnológica.

Mais de 125 mil mortes por Covid, economia em frangalhos (mesmo antes da pandemia), desmonte dos serviços públicos, subtração dos direitos sociais e laborais e, no entanto, tristemente assistimos à consolidação de considerável apoio popular ao presidente mais abjeto e desprezível que o mundo já viu, eleito em uma democracia de moldes liberais.

Onde erramos e temos errado? Criamos consumidores, mas não criamos cidadãos nestes anos em que a esquerda esteve em ascensão na America Latina, como disse Mujica ? O que fazer?

Seria o objetivo da esquerda administrar o capitalismo de forma a torná-lo menos desumano? É esse o nosso papel histórico? O que fizeram as esquerdas que conseguiram chegar ao poder político em seus respectivos países? Que resultados perenes, estruturais, conseguiram as esquerdas no mundo quando venceram eleições?

A extrema direita tem aumentado sua influência em muitos países do mundo, muito mais por desorientação da esquerda do que por sua capacidade de convencimento. Claro que mentiras, manipulações políticas e o próprio interesse do grande capital têm contribuído para o avanço das forças do atraso, mas a autodenominada esquerda, em quase todo o mundo, padece de uma profunda perda de norte, de objetivos.

Atualmente, a chamada esquerda “viável”, isto é, aquela com chances de ganhar eleições, do ponto de vista progressista sequer chega aos pés dos antigos governos sociais-democratas de centro, quando comandaram vários países da Europa tendo como meta o Estado de Bem-Estar Social (Welfare State). O que podemos dizer de uma esquerda que não chega a arranhar as bases estruturantes de domínio do capital sobre o trabalho, do capitalista sobre o trabalhador? Que esquerda é essa que incrementa os lucros dos bancos e grandes corporações? Como é possível acabar ou diminuir a opressão se o opressor é alimentado por seus supostos inimigos?

No exemplo brasileiro, durante 13 anos, a esquerda deixou intocado o tripé neoliberal que tanto combateu em discursos antes de sentar na cadeira presidencial. Não realizou a Reforma Agrária, não democratizou os meios de difusão de radio e TV, não realizou a tão necessária revolução na educação. Fortaleceu as igrejas conservadoras fundamentalistas, proporcionou lucros exorbitantes aos banqueiros, dançou a valsa da destruição do meio-ambiente, comandada pelo grande agronegócio e derramou bilhões de dinheiro público no colo das faculdades privadas de qualidade duvidosa.

E, mesmo fora do poder, a nossa esquerda dá mostras de que não sabe pra onde ir.

Vi com estarrecimento a manifestação de companheiros, nas redes sociais, sobre a possibilidade de o atual Governo Federal encampar a idéia e efetivar o programa da dita “renda mínima”. A grande preocupação dos companheiros vinha do temor de que a extrema direita poderia vir a se “apropriar” da idéia e ser vista pelas massas como a “mãe” do “renda mínima”.

Ora, os programas de compensação de renda são basilares nos países que adotam o modelo neoliberal. Milton Friedman, o “papa” do neoliberalismo, já defendia a existência de programas de compensação financeira para aqueles atingidos pelo “desemprego estrutural”, que é também da essência do neoliberalismo, já que com a abertura de mercados e o incremento acelerado da robotização da produção, o desemprego passa a ser um elemento permanente na sociedade. Não por acaso o primeiro a sugerir propostas desse tipo por aqui foi Fernando Henrique Cardoso que, aproveitando-se da visão social de Betinho, criou o primeiro programa neoliberal de compensação à pobreza estrutural do neoliberalismo no Brasil.

Claro que essa compensação não é proposta por motivos nobres ou porque os valores humanistas fazem parte do cabedal de idéias neoliberais. Não, o que os neoliberais propõem é apenas uma forma de arrefecimento da revolta das massas excluídas do processo produtivo, é uma forma de evitar convulsões sociais e, portanto, um instrumento para não atrapalhar os seus lucrativos ganhos, a acumulação do capital.

A esquerda tem que, na verdade, defender programa de renda máxima, e nunca mínima. Temos que defender e lutar para que as riquezas socialmente produzidas e apropriadas individualmente, as grandes e pequenas fortunas, todas elas, sejam devolvidas ao povo em forma de saúde máxima, educação máxima, uma vida máxima. Esse sempre foi o papel de uma verdadeira esquerda: sonhar e agir ao máximo. Não que sejamos utópicos, mas tampouco não estamos presos na camisa de força de um modo de produção onde imaginar um mundo melhor se torna impossível. É pra isso que existimos: para sermos livres, criativos e ousados.

Tentar humanizar o capitalismo, além de impossível, não é papel da esquerda. Administrar o Estado capitalista para os capitalistas não é papel da esquerda. Ser instrumento do jogo político, e exercer um papel conservador, não é nossa missão.

Estamos perdendo tantas batalhas porque estamos lutando batalhas que não são nossas, não conseguimos mais convencer as massas porque nossas idéias não nos pertence.

A esquerda precisa olhar para a sua história, desde pelo menos a Revolução Francesa, com os jacobinos e buscar renovar-se dentro de sua própria essência. E não ser cooptada por forças conservadoras para fazer papel de palhaço diante dos povos ávidos por uma real e profunda transformação, que nos possibilite um mundo verdadeiramente melhor.

Setembro 2020