Antônio Sérgio Borba Cangiano

Sempre penso que a filosofia é a melhor disciplina para nos aproximar das verdades do mundo sensível, e que ela ultrapassa a ciência no seu principal objeto, ou seja, a função, ou as relações funcionais. A filosofia como a arte é o palco do inusitado. Iniciamos o século atual com muitas esperanças, particularmente no Brasil e apenas vinte anos depois, temos o mundo conturbado, confuso, líquido, segundo Zygmunt Bauman.[1] Para ele a justiça, que seria o caminho para a paz, está ausente portanto é importante recorrer à sabedoria pois ela não envelhece, ao contrário do conhecimento que se torna obsoleto com o tempo. Todo o planeta está aberto à circulação de mercadorias, tudo está mercantilizado, e não existe mais o “lado de fora” material. A vida pungente de uns poucos, é consequência da miséria de muitos.  Segundo Milan Kundera (citação de Bauman): Essa “unidade da espécie humana”, fruto da globalização, significa que não existe nenhum espaço de escape.  Chegamos a um grau onde essa contemporaneidade nos tornou impotentes para decidirmos os rumos com alguns níveis de certezas. Estamos presos na gaiola neoliberal, ela conduz a nossa modernidade.

A ciência é o instrumento privilegiado que o ocidente desenvolveu para uma abordagem objetiva e, por que não dizer funcional, chega nesse século repudiada por negacionistas, que beiram o absurdo, como exemplo negar que a terra é redonda, negar vacinas, mesmo em plena pandemia, negar o aquecimento global, negar a vida dos miseráveis. Assim, constituem-se em uma força política da extrema direita com referência popular de ressentidos que, em última instância, colocam os problemas individuais causados pelo neoliberalismo, em um excesso populacional por competirem pelos recursos escassos. O planeta não consegue mais realizar e encarar a morte dos diferentes, miseráveis, como saída para se manterem em suas bolhas de bem estar, no qual o “inferno de muitos faz o paraíso de poucos”, como disse o ex presidente Lula, em seu discurso de 7 de setembro. A moeda se torna “O Deus dinheiro” e só ela pode proporcionar o céu na terra.

Não é à toa que os milhões de mortos na pandemia do Covid-19, são simplesmente ignorados e considerados como um problema que vai passar, pelos responsáveis do poder, constituindo uma dinâmica escapista do problema ao minimizar a gravidade da situação (Latour, Bruno, 2020). Pregam o conformismo, sem levar em conta a dor humana dos que ficam e a perda de talentos e capacidades. Estamos na época em que não valemos mais para o capitalismo que nos compra, explora e acumula sem limites. As crises mundiais realimentam a acumulação, sem que a mercadoria humana não tenha o valor apropriado para a sua realização enquanto espécie, com sua potência de sonhar, criar e de se renovar.

Estamos nessa pandemia em um momento excepcional de nossa existência, no fio da navalha entre o negacionismo e os direitos comuns. Por um lado, os negacionistas pregam o individualismo, uma terra exclusiva, onde bolhas de bem estar persistem em um mar miserável. Onde o Deus mercado deveria proporcionar o equilíbrio das riquezas e do bem estar segundo os dispositivos[2] preconizados por Foucault e Deleuze em sua filosofia dos acontecimentos. Essa situação gera a governamentalidade[3] moderna, um desastre na saúde e na economia.  Para a extrema direita, os recursos, agora escassos do planeta, são de sua propriedade, segundo Bruno Latour. Eles sabem disso e, portanto, negam a ciência, aproveitam a pandemia para celebrar as mortes, dos idosos em risco, dos vulneráveis de tal forma que possam continuar em suas bolhas.  Negam o aquecimento global, as queimadas, as mortes, para preservar os seus privilégios. Negam tudo isso,  afirmando que a terra é plana, negam a ciência e obviamente negam o passado dos direitos sociais conquistados. Lançam mão de lawfairs, se apropriando do direito privado contra a soberania popular, negam o poder baseado no direito comum que deveria emanar do povo. Isso coloca em risco a democracia, dado que pesquisas de desconfiança nas democracias chega ao patamar de 80% na Espanha, como nos mostra Manuel Castells (Castells, 2017). Na política, os negacionistas para fugir ao passado de conquistas dos trabalhadores, escapam dos problemas agravados pela pandemia, como se não vivessem na Terra (Latour, 2020).

Por outro lado, a pandemia abre rachaduras profundas na gaiola neoliberal, o outro passa a importar. Constata-se que todos estão ligados, que o vírus não escolhe um ou outro, sendo que ele contamina a todos. Assim, os outros passam a ter importância, mesmo os miseráveis, idosos e vulneráveis. A solidariedade é manifesta, a iniquidade com a concentração monumental de renda salta aos olhos, a renda mínima global toma corpo, os impactos ambientais mitigados com a retração econômica mostram que a terra clama por respirar, o descaso com o meio ambiente passa a sensibilizar uma consciência global. A solidariedade, então, ultrapassa o humano e abrange os animais queimados, sendo que onças quando não morrem, padecem com suas patas queimadas.  A saída da crise requer repensar todos os hábitos, o planeta não aguenta, mas tem que ser compartilhado por todos, fauna, flora, recursos naturais e humanos. É necessário dar um passo atrás, questionar se esses negacionistas habitam a Terra, ou outro planeta qualquer (Latour, 2020), é necessário aterrar.

A esquerda desenvolvimentista, ou progressista, que baseia suas lutas no desenvolvimento da economia, para gerar emprego e renda e assim diminuir a iniquidade deve rever esses pressupostos. Trata-se hoje de sair da gaiola, romper com o sistema capitalista que não deixa saída, colocar o humano no centro das lutas, a liberdade, a justa distribuição de renda, atender a todas as necessidade básicas, preservando a liberdade e a Terra em que vivemos.  A ciência tem suportado o lado sustentável, com tecnologias de energias renováveis, como a eólica, a solar, a elétrica, livres de carbono, porém ela precisa ser humanizada, ter seu objetivo de resultados refletido previamente com a sensibilidade do outro. Vejam o documentário do Netflix “O Dilema das Redes”, cujos jovens ex-executivos das megatechs[4] fazem uma análise rasa dos impactos sociais e psicológicos das redes digitais, e não sabem o que fazer. As democracias nesse século XXI precisam ser renovadas, com base na liberdade e no direito dos outros. A diversidade está no centro dos direitos comuns, a diferença pura precisa entrar em campo, com toda a sua subversão (Deleuze, 1988).  É preciso mudar radicalmente a mentalidade identitária, para outra da diferença, que respeite a diversidade, que cada um possa colocar-se no lugar do outro e respeitá-lo, compreender que a mais admirável capacidade humana é a potência do pensamento. Para isso, é preciso que a liberdade esteja no centro das políticas, superando o medo, a insegurança, a necessidade de polícias e de toda a violência legal e ilegal. 

Paulo de Tarso, São Paulo, pregou o evangelho e conseguiu disseminá-lo para todo o ocidente, desde o ano 30 depois de Cristo. Ele fez isso colocando todos como filhos de Deus, escravos, mulheres, judeus, ou seja, todos os diferentes. O cristianismo prega o amor a Deus sobre todas as coisas, e amar o próximo como a ti mesmo. Mesmo após praticamente 2000 anos, a modernidade ainda não realizou a prática cristã. Para a Terra sustentável é preciso do “Amor Mundi[5] com o “Amor Fati[6], relacionados na prática, quando o amor e a liberdade estão juntos a revolução sem guerras e sangue se mostra no fim do túnel. Um novo mundo comum, compartilhado é possível fora da gaiola, senão estaremos em uma nau à deriva rumo a borda da Terra Plana, despencando em universo que não será azul.


[1] Tempos Líquidos, Bauman nos fala que:”se você quer paz, cuide da justiça”, uma advertência da sabedoria antiga.  Atualmente, a justiça está ausente e bloqueia o caminho para a paz. Em um mundo circulado por fibras óticas, não existe mais um lugar sequer sem que tomamos conhecimento, quer por imagens quer por fatos reportados. Não há terra Nulla. A miséria humana de todos os espaços mundiais aparecem nas telas em uma conexão global.

[2] Michael Foucault  e Gilles Deleuze – O que é um dispositivo? Vídeo : https://youtu.be/QKNMzgeK-cU

[3] Michael Foucault – Conceito de Governamentalidade – governos que agem segundo uma mentalidade intencional que nos conduzem sem deixar saídas políticas, excluindo a soberania popular da política.

[4] Megatechs – empresas globais como Google, Facebook, youtube, Whatsapp, Instagram, Tweeter,,etc

[5] Hannah Arendt.  A condição humana (2014). Esse conceito criado pela autora é uma contraposição aos tempos sombrios, e constitui uma radical resposta política a um mundo que não prioriza o humano. (Nota do autor)

[6] No estoicismo e na filosofia de Friedrich Nietzsche, Expressão usada por Nietzsche como “fórmula para a grandeza do homem” e que significa: “Não querer nada de diferente do que é, nem no futuro, nem no passado, nem por toda a eternidade. Não só suportar o que é necessário, mas amá-lo”. Essa fórmula exprime a atitude própria do super-homem e a natureza do “espírito dionisíaco”, enquanto aceitação. integral e entusiástica da vida em todos os seus aspectos, mesmo nos mais desconcertantes, tristes e cruéis ( obra Ecce Homo)

BIBLIOGRAFIA

Shöpke,  Regina  Por uma filosofia da diferença: Gilles Deleuze, o pensador nômade, 2004 Edusp.

Bauman, Zigmund, Tempos Líquidos 2007  ed. Zahar

Castells, Manuel, Ruptura A crise da democracia liberal 2017 – ed Zahar

Dardot, Pierre e Laval, Christian – Comum – Ensaio sobre a revolução no século XXI, 2017ed. Boitempo.

Deleuze, Gilles – Diferença e Repetição – 1988 editora Graal.

Latour, Bruno – Onde aterrar?  – Como se orientar politicamente no antropoceno – 2020 ed. Bazar do Tempo. 

Negri, Antonio – Hardt, Michel Bem Estar Comum – 2016 Ed. Record

Streeck, Wolfgang- Tempo Comprado – A crise tardia do capitalismo democrático 2013 ed. Actual

Zourabichvili, François – Deleuze: uma filosofia do acontecimento 2016 Editora 34.