João Victor Bezerra 

Estudante do Curso de Letras, em Aracaju (SE)

Para analisarmos a obra “O Cortiço” (1991) do escritor brasileiro Aluísio Azevedo, precisamos compreender de maneira breve o que foi o “movimento Naturalista” no Brasil, assim como é válido conhecer a biografia do autor.

Naturalismo” no Brasil

O marco inicial do movimento naturalista no Brasil foi em 1881, com o romance O Mulato de Aluísio Azevedo. O naturalismo busca analisar de forma crítica os elementos constituintes nos instintos animalescos do ser humano. Usando como base métodos científicos, o naturalismo almeja causar reflexão sobre determinado período com objetividade e impessoalidade, retratando características da realidade social, descrevendo aspectos da formação brasileira que, jamais, seriam revelados historicamente. Lembre-se: o Naturalismo é um realismo exagerado e trabalha os sentidos mais brutais do ser humano, trabalha isso de maneira exacerbada.

Principais características do Naturalismo

  • Observação da realidade;
  • Retrato objetivo da realidade;
  • Linguagem coloquial;
  • Evolucionismo, cientificismo e positivismo;
  • Descrição de ambiente e personagens;
  • Problemas humanos e sociais: patologias psíquicas e físicas.

Contexto histórico

  • Período de grandes transformações no Brasil, cuja capital, na época, era o Rio de Janeiro;
  • Crescimento do capitalismo e ascensão da questão financeira;
  • Aumento de mão de obra, devido ao crescimento do capitalismo, carecia-se de mais máquinas e mais mão de obra, ou seja, mais pessoas trabalhando;
  • Segundo reinado de D. Pedro II, já no fim do império (esse evento causa impacto direto na literatura brasileira);
  • Em 1888, é efetivada a abolição da escravatura no Brasil – marco importante para a história. Evidentemente o homem naturalista exporá isso em suas obras;
  • Sociedade dando sinais de liberdade: o povo ganha voz e se faz entender, assim, refletindo nas obras da época;
  • Configura-se, então, um novo momento: pessoas querendo se libertar do passado e trazendo o exagero no rompante de liberdade..

Principal autor: Aluísio Azevedo.

Principais obras Naturalistas:O Mulato” (1881), “O Cortiço” (1890), ambas escritas por Aluísio de Azevedo; e “O Atheneu” (1888), de Raul Pompéia.

Biografia de Aluísio Azevedo

Aluísio Azevedo (Aluísio Tancredo Gonçalves de Azevedo) nasceu em 14 de abril de 1857, em São Luís, Maranhão e faleceu no dia 21 de janeiro de 1913, em Buenos Aires, Argentina. Era jornalista, romancista, caricaturista e diplomata.

Filho do vice-cônsul português Davi Gonçalves de Azevedo e de D. Emília Amália Pinto de Magalhães, além de irmão caçula do famoso dramaturgo Artur de Azevedo, juntos foram membros fundadores da Academia Brasileira de Letras.

Antes de conhecer o vice-cônsul, Emília casou-se aos 17 anos com um comerciante português chamado Antônio Joaquim Branco. Este matrimonio ocorreu por imposição familiar e interesses financeiros de ambas famílias. No entanto, Emília logo notou o temperamento brutal de seu cônjuge e logo soube que aquele matrimonio não vingaria. Apesar disso, teve com o comerciante uma filha.

Passado o tempo, Emília descobriu que Antônio tinha a traído com uma escrava. Indignada, decidiu abandonar o comerciante, levando consigo sua filha. Refugiou-se, então, em casas de amigos, até conhecer o vice-cônsul de Portugal em São Luís, MA. O jovem viúvo era David Gonçalves de Azevedo. Pode-se imaginar com facilidade o falatório que essa união repercutiu no centro da capital maranhense, a “mulher separada” e o homem viúvo.

Os dois viveram juntos, sem se casar novamente, o que no século XIX, era considerado um tremendo escândalo na sociedade maranhense. A partir dessa união tiveram cinco filhos, dentre eles o famoso dramaturgo Artur de Azevedo e Aluísio de Azevedo, que fora um grande romancista, iniciador do “movimento Naturalista” no Brasil, com o romance “O mulato” (1881), além de ser autor do clássico romance brasileiro “O Cortiço” (1990).

Desde sua infância, Aluísio demonstrava aptidão para a arte, gostava de desenhar e pintar. Em 1871, matriculou-se no Liceu Maranhense, em São Luís, MA, para dedicar-se a pintura.

Aos 19 anos, em 1876, rumou ao Rio de Janeiro, onde encontrou-se com seu irmão mais velho, Artur. Matriculou-se na aclamada Academia Imperial de Belas Artes (hoje, Escola Nacional de Belas Artes). Logo depois, para manter-se, associou-se à jornais da época, Aluísio fazia caricaturas para esses jornais, como “O Fígaro”, “O Mequetrefe”, “A Semana lustrada” e o “Zig-Zag”.

Com o falecimento de seu pai, em 1879, Aluísio retorna para sua cidade natal e é dado início à carreira como escritor. Em 1879, publicou seu primeiro romance “Uma Lagrima de Mulher”, onde expressou de maneira exagerada o drama romântico, escreveu dessa forma para saciar o público que, à época, era ávido pelo romantismo. Ao publicá-lo, Aluísio ganha apoio do jornal “O Pensador”. O jornal era a favor da abolição da escravatura, enquanto isso, despertava o ódio da Igreja Católica, sendo que essa mostrava-se ser a favor da escravidão.

Em 1881, publicou o romance “O Mulato”, obra que deu início ao “Movimento Naturalista no Brasil”. Isso ocorreu, principalmente, devido a sua linguagem naturalista e pelo tema tratado, a obra tornou-se um exemplo de naturalismo.

O romance gerou grande repercussão e revolta na sociedade maranhense, pois, fora escrito com o objetivo de retratar o preconceito racial. Apesar disso, o livro teve um grande sucesso de vendas.

No dia 7 de setembro de 1881, Aluísio retorna ao Rio de Janeiro com o objetivo de dedicar-se a ganhar a vida como escritor. E lá publicou em forma de folhetins diversos escritos, como: “Mistério da Tijuca” (1882), “Memórias de um Infeliz” (1882).

Ao longo de sua produção literária, Aluísio buscou escrever romances com mais seriedade, assim, podendo criticar fortemente os amontoamentos nas casas de pensão e como isso era explorado principalmente pelos imigrantes portugueses. Em consequência dessa angústia surgiram suas obras mais importantes, obras pertencentes a fase “Naturalista” de Aluísio, entre elas “Casa de Pensão” (1984), e “O Cortiço” (1990).

No ano de 1895, o escritor passa num concurso público para cônsul. É iniciada sua carreira como diplomata. É nessa época que Aluísio começa a encerrar sua carreira como escritor.

Serviu na Espanha, Japão, Inglaterra, Itália, Uruguai, Paraguai e, por fim, na Argentina, onde uniu-se com a argentina Pastora Luquez, adotando seus dois filhos, Pastor e Zulema.

Aluísio Azevedo faleceu aos 56 anos, no dia 21 de janeiro de 1913, em Buenos Aires, Argentina, onde fora enterrado. Seis anos mais tarde, a urna funerária de Aluísio foi transferida para São Luís, MA, sua cidade natal.

Suas principais obras são: “O Mulato” (1881), “Casa de Pensão” (1884) e “O Cortiço” (1890).

Obras do autor

  • Uma Lágrima de Mulher, romance, (1879);
  • Os Doidos, teatro, (1879);
  • O Mulato, romance, (1881);
  • Memórias de um Condenado, romance, (1882);
  • Mistérios da Tijuca, romance, (1882);
  • A Flor de Lis, teatro, (1882);
  • A Casa de Orates, teatro, (1882);
  • Casa de Pensão, romance, (1884);
  • Filomena Borges, romance, (1884);
  • O Coruja, romance, (1885);
  • Venenos Que Curam, teatro, (1886);
  • O Caboclo, teatro, (1886);
  • O Homem, romance, (1887);
  • O Cortiço, romance, (1890);
  • A República, teatro, (1890);
  • Um Caso de Adultério, teatro, (1891);
  • Em Flagrante, teatro, (1891);
  • Demônios, contos, (1893);
  • A Mortalha de Alzira, romance, (1894);
  • O Livro de uma Sogra, romance, (1895);
  • Pegadas, contos, (1897);
  • O Touro Negro, teatro, (1898).

“O Cortiço” (1890)Resumo da obra de Aluísio Azevedo

A obra nos introduz a João Romão, um imigrante português que está obstinado a se tornar rico de qualquer forma. No princípio, era funcionário de uma venda e trabalhava para um outro português. Esse português para qual João Romão trabalhava resolve retornar a Portugal, deixando a venda e mais uma quantia de dinheiro como forma de pagamento pelo tempo de serviço prestado. Assim, João Romão torna-se o proprietário da venda, porém sua ambição vai muito além do que ser apenas dono de uma pequena venda, afinal de contas, sua meta de vida era tornar-se rico.

Logo depois, João Romão conhece Bertoleza. Esta é uma escrava fugida e trabalha numa quitanda próxima da venda de João. Pouco mais tarde, o velho cego, dono da escrava falece e João busca aproximar-se mais da escrava. Seu interesse em Bertoleza, contudo, é movido pelo oportunismo. Mais tarde, Bertoleza torna-se “sócia” de Romão, e vira também sua amante.

Bertoleza, após passar muito tempo guardando dinheiro para comprar sua carta de alforria, conta a João sobre a quantia, este compromete-se a comprar a carta para sua amante, no entanto, ao invés disso, ele compra uma carta de alforria falsa, ficando com a maior parte do dinheiro para si, usando esse dinheiro para comprar pequenos terrenos e construir os primeiros casebres que, mais tarde, se tornariam “O Cortiço”.

Ao lado de Bertoleza, João Romão começa a expandir seu patrimônio, compram um grande terreno e, assim, aumentam paulatinamente a quantidade de casebres. O objetivo é alugá-los às pessoas pobres da região. De pouco em pouco, João Romão tornava-se dono de um imenso cortiço.

O português muito sagaz, consegue monopolizar o comércio da região, pois, as pessoas que moram nas proximidades do cortiço gastam boa parte ou quase toda sua renda miserável em seus “negócios”, como na venda ou na quitanda, além de morarem nos casebres de Romão.

Após juntar bastante dinheiro de forma desonesta, isto é, com preços exagerados em sua venda, roubando no troco e em algumas outras atitudes deploráveis, João consegue comprar uma pedreira ao lado do cortiço, para assim, extrair de lá todo o material para expandir progressivamente o cortiço.

Depois, somos apresentados a Miranda, este português é o antagonista de João Romão, Miranda mora num sobrado requintado ao lado do cortiço de João Romão. Como sendo rival de João Romão, Miranda vive enraivecido devido a construção do cortiço.

Tempos depois, Miranda recebe o título de Barão, evento esse que entristece em demasia João Romão, pois ele percebe que ser rico não é suficiente para ser membro da elite, apenas ter dinheiro não basta. É necessário gozar de uma boa reputação social, ter hábitos considerados chiques pela classe burguesa, como ler, vestir roupas finas, etc., bem como contar com ambiente de qualidade no qual se está inserido.

Paralelo a isso, os outros moradores do cortiço não têm grande ambição financeira. Estão em evidência: Jerônimo e Piedade, Rita Baiana e Firmo Capoeira.

Jerônimo é um exemplo claro de como o autor busca mostrar como o meio em que se está inserido interfere sobre o homem.  Jerônimo era um homem de boas intenções, trabalhador, morador do cortiço, era homem dedicado à sua família.  Isso muda, porém, quando conhece e se apaixona por Rita Baiana. Conforme o tempo passa, Jerônimo torna-se o oposto do que fora anteriormente, de homem trabalhador e homem dedicado à sua família para preguiçoso, indo além, torna-se assassino.

No fim do livro, João Romão promove mudanças no cortiço, deixando de ser um ambiente de promiscuidade e degradação humana e metamorfoseando-se num local com características aristocráticas. Deixa de ser “O Cortiço” e torna-se a “Vila João Romão”.

No fim da obra, a fim de fazer parte da classe burguesa, João Romão decide pedir a mão da filha de Miranda em casamento. No entanto, o português ainda é amante de Bertoleza, esta, já desconfiada sobre os reais interesses de Romão, cobra-lhe sua parte na fortuna do taverneiro. João Romão, para livrar-se da escrava que ameaça-lhe atrapalhar seu objetivo de ascender socialmente, resolve entregá-la aos seus antigos donos. A pobre Bertoleza, ao descobrir que fora ludibriada por tanto tempo por aquele que confiava cegamente, comete suicídio, pois para Bertoleza, era preferível morrer à retornar a vida dura de escrava.  

Principais personagens

Os personagens da obra são lineares, cada personagem é uma alegoria.

João Romão: português ambicioso, proprietário do cortiço e da pedreira. É o símbolo do capitalismo.

Bertoleza: escrava fugida, trabalha incansavelmente para João Romão, além de ser amante do taverneiro. Representando a figura do proletário que é explorado pelo patrão, retratando a “falsa liberdade” pois, onde acreditava ser livre, na verdade, trabalhava todos os dias sem descanso para o amante, continuando, pois, na condição de escrava.

Miranda: antagonista de João Romão, é um comerciante português que reside num sobrado luxuoso, ao lado do cortiço. Miranda representa a ascensão burguesa no Brasil no século XIX.

Jerônimo: homem trabalhador e com boas intenções, contudo, seu caráter muda conforme vai morar no cortiço. Crítica sociológica de como o homem é um produto do meio onde vive.

Piedade: portuguesa que é esposa de Jerônimo, segue à risca os costumes europeus. Após ser largada por Jerônimo, rende-se ao alcoolismo e a melancolia. Piedade representa o imigrante europeu no Brasil.  

Rita Baiana: lavandeira e moradora do cortiço, figura que organiza as festas dançantes que aconteciam no cortiço. Sendo sensual e alegre, Rita representa a “mulata” brasileira.

Firmo Capoeira: mulato brasileiro, capoeirista e apaixonado por Rita Baiana, com quem chega a se envolver. Símbolo da malandragem carioca.

“O Cortiço” (1890) – Análise da obra de Aluísio Azevedo

Tendo como panorama uma habitação coletiva (cortiço),o romance transmite as teses naturalistas que expõem o comportamento dos personagens com base na realidade, determinado pelo ambiente e pela hereditariedade.

Publicado em 1890, “O Cortiço” obra de Aluísio Azevedo, foi bem recebido pela crítica da época, isso deve-se ao fato de Aluísio Azevedo estar em total sintonia com o movimento naturalista que, na Europa do século XIX, tinha de muito prestígio. A obra é composta por 23 capítulos que buscam retratar a vivência de pessoas pobres num amontoamento habitacional coletivo que, na época, era denominado de “cortiço”, localizado em Botafogo, bairro da capital carioca.

Para produzir a obra, Aluísio Azevedo observa e representa dois ambientes: o cortiço e o sobrado. Em forma de romance é retratado e revelado como eram os brasileiros do século XIX. Demonstrando de forma exagerada as reações animalescas do homem, “O Cortiço” demonstra a labuta dos humildes e as condições de miséria em que vivem. Do outro lado, no sobrado, revela a hipocrisia dos ricos, que enriqueciam cada vez mais às custas da classe operária que permanece na pobreza.

Assim, é exposto os mecanismos ideológicos que legitimava-se de pessoas e do trabalho árduo, buscando questionar a falsa liberdade e destacando o abuso do sistema da época que tinha como objetivo continuar enriquecendo a burguesia e continuar mantendo a classe operária na miséria.

Paralelamente a isso, Aluísio Azevedo propõe mostrar como um agrupamento habitacional de diversas classes sociais transforma-se num ambiente de promiscuidade sexual, caráter moral e princípios éticos duvidosos.

Através de “O Cortiço”, é retratado o aumento da população do Rio de Janeiro e como os núcleos habitacionais chamados na época de “cortiços” apodreciam devido a degradação humana. Ali, amontoavam-se principalmente a classe operária e pessoas de índole duvidosa.

Nota-se, em “O Cortiço”, que Aluísio Azevedo expõe de maneira exagerada como no fim do século XIX, como o homem branco era enaltecido, sendo considerado inclusive em “estudos científicos” como um ser superior ao homem negro. Ao mesmo tempo que temos o endeusamento do homem branco, temos negros sendo animalizados ao extremo.

Práticas do povo eram repudiadas com veemência pela classe elitista da época, como a capoeira e rodas de chorinho (pagode), por exemplo. Atividades como essas eram rotuladas como “coisa de vagabundo”. O termo vagabundo era empregado para denegrir aqueles que socialmente eram inferiores à burguesia.

Eram considerados “pessoas direitas”, aqueles que tinham hábitos opostos ao pobre, como ler romances, frequentar teatros, usar roupas finas e caras. Essas pessoas tinham poder aquisitivo e econômico, sempre morando em casas e sobrados luxuosos, sendo essas, consideradas como “pessoas de bem”.

Como sendo obra literária, o romance não é considerado documento histórico da época, no entanto, é perceptível as concepções ideológicas e sociais representadas em “O Cortiço”, retratando os brasileiros do século XIX, e expondo fatos históricos que, jamais, seriam revelados historicamente.

Tempo: “O Cortiço” é uma obra linear (início, meio e fim). A trama se passa no final do século XIX.

Narrador: a obra é narrada em 3°pessoa, ou seja, narrador onisciente (aquele que tem conhecimento de tudo) como era de praxe em obras do movimento naturalista. Este, ao longo da obra faz julgamentos com base no pensamento dos personagens. Isso, é para comprovar as influências do meio sobre o homem.

Espaço: Em “O Cortiço” são trabalhados dois espaços. O primeiro é o próprio cortiço, propriedade de João Romão, ali se encontra principalmente a classe operária e os pobres, é um verdadeiro amontoamento social que expõe a promiscuidade e a miscigenação do Brasil. O segundo espaço, é o sobrado de Miranda, representando o oposto do cortiço. O sobrado de Miranda é uma clara representação da burguesia ascendente no século XIX.

Fontes:

AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. 30. Ed. São Paulo: Ática, 1997.

FERREIRA, Luiz. Roteiro de leitura: “O cortiço” de Aluísio Azevedo. Coleção Universitária; 3. Ed. ÁTICA, 1997.                                   

Setembro de 2020