Luiz Basílio Rossi

Omar dos Santos

 Nonato Menezes

Palavras iniciais. Iniciaremos nesta edição a análise do livro de Jason Stanley – “Como funciona o fascismo”. A análise será realizada por capítulos, além da introdução e do epílogo, publicando um texto por semana. Cada texto publicado constará de uma primeira parte com os principais pontos levantados por Jason Stanley, sendo a mínima a participação dos 3 autores. A segunda parte é de exclusiva responsabilidade dos autores desta análise. Trata de compreender o governo Bolsonaro a partir dos conceitos e opiniões de Jason Stanley e responder até que ponto o presidente Bolsonaro está construindo, lentamente e com segurança, um governo fascista no Brasil.

A análise do livro de Jason Stanley – Como funciona o fascismo. A política do “Nós” e “Eles”. Porto Alegre, L&PM, 2020, 4ª edição, será feita por capítulo.

Não mudaremos os grifos em negrito ou itálico e outros pontos presentes no livro. Faremos a nossa citação quando precisarmos.

Quanto aos comentários, todos os negritos, aspas, itálicos e outros sinais são de responsabilidade dos analistas.

Separamos cada capitulo em duas partes. A análise de cada capítulo do livro de Jason Stanley tem o título em negrito. Os comentários feitos pelo analista vêm sempre depois de cada capítulo e os títulos estão grifados em itálico.

Introdução (p. 11-18)

É necessário chamar a atenção para o fato de que a política fascista não desemboca sempre em um regime fascista. É bom lembrar o que diz o autor: ela “não conduz necessariamente a um estado fascista, mas é perigosa de qualquer maneira” (p. 14).

O governo fascista separa a população, segundo Jason Stanley, entre Nós e Eles. Apela para distinções religiosas, raciais para poder materializar essa separação proposta pela política fascista (p.15).

 Jason Stanley afirma que “A política fascista pode desumanizar grupos minoritários mesmo quando não há o surgimento de um Estado explicitamente fascista. O sintoma mais marcante da política fascista é a divisão”. Política que se destina a dividir uma população em “Nós” e “Eles”, utilizando para isso “distinções religiosas, raciais”. Tal estratégia é utilizada para moldar a ideologia e, em última análise, para estabelecer o padrão de comportamento da população e para separá-la em duas partes. “Todo o mecanismo da política fascista trabalha para criar ou solidificar essa distinção” (p. 15)

A referida divisão torna “normal” e natural (naturaliza) a segmentação em dois grupos. De um lado, Nós, os virtuosose de outro, Eles, os que são parasitas, que não gostam de trabalhar.

Com o tempo, a população “virtuosa”, o Nós, vê a população “parasita” o Eles, como um atributo negativo inerente à sociedade como um todo. Isso é uma construção ideológica patrocinada por políticos fascistas. Quando o governo fascista alcança esse objetivo, passa a utilizar a repressão e o medo como políticas “normais”. Para “Eles”, o medo e a repressão, para “Nós”, a tranquilidade e a segurança. (grifos nossos)

O Nós sempre representa o que é virtuoso. Somos os trabalhadores, produzimos a riqueza, os que que têm a responsabilidade de conduzir o país. Somos as pessoas justas, que trabalham de sol a sol para ganhar o sustento diário para a família.

O Eles são parasitas; aqueles que exploram a generosidade dos sistemas de bem-estar e que se utilizam de instituições corruptas como sindicatos para separar cidadãos honestos e trabalhadores de seus salários.

Para o autor, “a ideologia fascista procura naturalizar a diferença de grupo, dando assim a aparência de respaldo científico e natural a uma hierarquia de valor humano. Quando classificações e divisões se solidificam, o medo substitui a compreensão entre os grupos. Política da lei e da ordem tem apelo de massa, lançando “nós” como cidadãos legítimos e “eles”, em contraste, criminosos sem lei, cujo comportamento representa uma ameaça existente à masculinidade da nação. A ansiedade sexual também é algo típico da política fascista, pois a hierarquia patriarcal é ameaçada pela crescente igualdade de gênero” (p. 16).

Bolsonaro se identifica com o “Nós” e ataca o “Eles

Os ataques do presidente Bolsonaro, desde as eleições de 2018 aos dias atuais, seja por meio da fala ou de medidas legais aos quilombolas e aos indígenas, encaixam-se perfeitamente na política do “Nós” e “Eles”.

Vamos identificar e caracterizar o que são o Eles na política do presidente Bolsonaro, com a qual ele busca separá-los do convívio da nação.

Segundo o Senado Notícias, de 8 de julho de 2020, Bolsonaro vetou medidas aprovadas pelo Congresso Nacional, a qual garantia aos indígenas: “acesso universal a água potável; distribuição gratuita de material de higiene; limpeza e desinfecção de superfícies; oferta emergencial de leitos hospitalares e de unidade de terapia intensiva (UTI); aquisição de ventiladores e máquinas de oxigenação sanguínea; distribuição de materiais informativos sobre o Covid 19; e, ponto de internet nas aldeias”. (Acesso em 23 de agosto de 2020)

Mais recentemente, o governo negou acesso à várias aldeias indígenas pelos Médicos sem Fronteira – MSF, cujo objetivo era “atuar em sete aldeias terenas de Mato Grosso do Sul, onde vivem cerca de 5 mil índios, no combate à pandemia de coronavírus. Autorizou a ação apenas em uma outra aldeia não listada pela entidade, onde vivem 400 índios. A proibição, segundo o jornalista Rubens Valente, do portal UOL, de 20 de agosto de 2020, foi decidida pela SESAI (Secretaria Especial de Saúde Indígena), presidida por um coronel da reserva do Exército.

A revista Veja reportou em 6 de abril de 2018, que já nos primeiros passos da campanha eleitoral para presidente, o candidato Bolsonaro assim se expressou sobre os quilombolas, no Clube Hebraica em São Paulo: Eu fui a um quilombo. O afrodescendente mais leve pesava sete arrobas (cerca de 105 kg). Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador eles servem mais. Mais de um bilhão (de reais) é gasto com eles. Risos das 300 pessoas da plateia, segundo a revista Veja. (Acesso em 23 de agosto de 2020)

Já no governo, o racismo se manifesta mais claramente em relação aos negros brasileiros. O presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, um negro, indicado por Bolsonaro, chamou o movimento negro de “escória maldita”, que abriga “vagabundos”e o movimento Zumbi dos Palmares de “filhos da puta que escravizavam negros. Chamou uma mãe de santo de “macumbeira”. Não houve nenhuma manifestação do presidente contra tais frases, o que pressupõe apoio.Informações divulgadas pelo Correio Braziliense, em 30 de abril de 2020. (Acesso em 23 de agosto de 2020)

Neste cenário, o recurso mais eficiente entre os que são utilizados pelos fascistas na luta pela conquista e preservação do poder é a exploração do sentimento de patriotismo do povo. Visando extremar as diferenças entre o “Nós” e o “Eles”, os fascistas usam e abusam de um discurso patriótico absolutamente ufanista e xenofóbico, para isso se utilizam da estratégia de dividir a sociedade em duas partes; de um lado, os que a amam a pátria e do outro, os que a menosprezam e a atraiçoam. Tal discurso é construindo   essencialmente com elementos de senso comum que povoam o imaginário das pessoas simples e desinformadas como: devoção ingênua à defesa da pátria, incitação ao sacrifício pelo país, possibilidade de invasão externa ao território, ameaça de ideologias políticas e econômicas alheias etc. Dessa maneira, o patriotismo passa a servir como instrumento de desmoralização do “Eles” e elemento de convencimento de que o “Nós” está preocupado com a salvação nacional.         

Brasília, Aracaju, 13 de setembro de 2020