Luiz Rossi

Omar dos Santo

Nonato Menezes

Palavras iniciais. Publicaremos nesta edição, a análise do capítulo 1 do livro de Jason Stanley – “Como funciona o fascismo” (Porto Alegre, L&PM, 2020,4ª edição). A análise será realizada por capítulos, além da introdução e do epilogo. Publicaremos um texto por semana. Cada texto publicado constará de uma primeira parte com os principais conceitos e pontos levantados por Jason Stanley. Nessa parte, a participação dos analistas será mínima. A segunda parte é de exclusiva responsabilidade dos autores desta análise. Trata-se de compreender o governo do presidente Bolsonaro a partir dos conceitos e opiniões de Jason Stanley: responder até que ponto o presidente Bolsonaro, lentamente e com segurança, está construindo um governo fascista no Brasil.

Palavras de organização. Não mudaremos os grifos em negrito ou itálico e outros pontos presentes no livro. Faremos a nossa citação quando necessário.

Quanto à segunda parte, todos os negritos, aspas, itálicos e outros sinais são de responsabilidade dos três analistas, como não poderia deixar de ser.

A Introdução do livro de Jason Stanley foi publicada na edição do Todo Dia  É Dia do dia 4 de outubro.

O Passado mítico (p. 19-36)

O regime fascista encontra sua origem no passado. Geralmente é um “passado mítico puro (…) pode ser religiosamente puro, racialmente puro,    culturalmente puro ou todos os itens acima. Mas há uma estrutura comum a todas as mitificações fascistas. Em todos os passados míticos fascistas, uma versão extrema da família patriarcal reina soberana (…) o passado mítico era um tempo de glória da nação, com guerras de conquista lideradas por generais patriotas, com exército repleto de guerreiros leais, seus compatriotas, fisicamente aptos e cujas esposas ficavam em casa cuidado da próxima geração. No presente, esses mitos se tornam a base da identidade da nação submetida à política fascista” (p. 19-20, grifo nosso).

O discurso de Benedito Mussolini, 1922, no Congresso Fascista em Nápoles, citado por Jason Stanley, demonstra como os fascistas italianos concebiam o passado:

Nós criamos o nosso mito. O mito é uma fé, uma paixão. Não é necessário que seja uma realidade… Nosso mito é a nação, nosso mito é a grandeza da nação! E esse mito, essa grandeza, que queremos transformar numa realidade total, subordinamos tudo” (p. 21)

 A família patriarcal é central na política fascista. O pai tem autoridade sobre filhos e esposa. O pai provê a família, isto é, é responsável pelo bem-estar econômico, pela educação, saúde e segurança dos seus. O líder da nação é a fonte do poder legal. Provê a nação. Cuida de todos os aspectos para o bem-estar da mesma. É uma estrutura centralizada tanto no que se refere à família como à nação (p. 22, grifo nosso)

As definições abaixo podem esclarecer as variantes do conceito de patriarcado.

Definições do Míni Houaiss. Patriarcado: forma de organização social em que predomina a autoridade paterna. Patriarca: Homem que governa família, tribo, clã, etc. Definição de Patriarcado no Dicionário Houaiss de língua portuguesa na conceituação antropológica: Forma de organização social em que a descendência reconhecida é patrilinear (grifos nossos).

Para Jason Stanley, “O líder provê a nação, assim como na família tradicional o pai é o provedor. A autoridade do pai patriarcal deriva de sua força, e a força é o principal valor autoritário. Ao apresentar o passado da nação como um passado com uma estrutura familiar patriarcal, a política fascista conecta a nostalgia a uma estrutura autoritária organizadora central, que encontra sua mais pura representação nessas normas” (p. 22, negrito nosso).

A política fascista separa claramente os papéis de gênero. O papel da mulher é o de gestar e cuidar dos filhos, dar atenção a seu esposo e ficar atenta às tarefas domésticas. O do homem é o de se ocupar das questões externas como o trabalho para o provimento do alimento para a família e, também, em casos especiais, atuar em atividades políticas ligadas ao regime fascista. À mulher não cabe uma atuação externa, a não ser quando convocada pelo regime para a realização de tarefas especiais (p. 22).

Paula Síber (Associação de Mulheres Alemãs), citada pelo autor, em documento de 1933, diz:

ser mulher significa ser mãe, significa afirmar com toda força consciente da alma o valor de ser mãe e torná-lo uma lei vital…a mais alta vocação da mulher nacional-socialista não é somente ter filhos, mas conscientemente e com total devoção a seu papel e dever como mãe de criar filho para seu povo” (p. 22).

Greg Strasser (Chefe da propaganda nacional-socialista na década de 1920), afirma:

para um homem, o serviço militar é a forma mais profunda e valiosa de participação, para a mulher é a maternidade” (p. 22).

A historiadora Charu Gupta, em artigo de 1991, afirma:

 “a opressão das mulheres na Alemanha nazista, na verdade, representa o caso mais extremo de antifeminismo do século XX” (p. 23).

A política fascista inventa um passado glorioso, no qual não existem pecados. São os regimes políticos ocidentais que conspurcaram a beleza do passado da nação. O globalismo, o cosmopolitismo liberal e os valores universais como a igualdade, a solidariedade e a fraternidade, erigidos pela Revolução Francesa, segundo os fascistas, tornaram a nação mais fraca.

Em todo mundo, grassam ideias fascistas como a que anotamos acima, as quais estão em voga. São movimentos que, via eleições, conseguiram transformar o regime democrático liberal de uma nação em regime fascista. Seus líderes sempre defendem um passado glorioso, real ou fantasioso, baseado na religião, em valores superiores de certas etnias, além de valores culturais.

Temos alguns exemplos. Na Polônia e na Hungria, existem governos, eleitos pela população, que defendem os valores baseados na história passada e em outras tradições. Em outros países, no passado ou mais recentemente, também existem movimentos políticos de caráter fascista. Além dos citados acima, temos a França, a Itália, a Índia, a Turquia, etc (p. 23-32).

Em Ruanda, em 1990, o movimento da etnia hutu, na África, baseado na supremacia étnica fascista, foi o responsável pelo assassinato de milhares de tutsis, um verdadeiro genocídio de uma população. “Na ideologia do poder hutu, as mulheres hutus existem somente como esposas e mães, encarregadas da sagrada responsabilidade de garantir a pureza étnica hutu”. Um hutu que se casasse com uma mulher tutsi era considerado traidor, “manchando, assim, a pura linhagem hutu” (p. 25)

Mais recentemente, já neste século, o regime vigente em Mianmar, Ásia, empreendeu a limpeza étnica da população rohingya, de tradição muçulmana, do país. “O que era, antes de 2012, uma próspera comunidade multiétnica e multirreligiosa em certas áreas (…), em Mianmar, foi totalmente alterada para apagar qualquer traço de uma população muçulmana”. (P. 30)

Nos Estados Unidos, segundo Jason Stanley, existem narrativas históricas sobre um passado mítico dos Estados Confederados. Como se sabe, a Guerra Civil terminou em 1865, tendo o Norte vencido o Sul. A partir disso, os negros, baseando-se na lei de libertação dos escravos aprovada pelo presidente Lincoln, conseguiram dirigir a Carolina do Sul, visto serem maioria da população em relação aos brancos, permanecendo no governo durante 12 anos. Período denominado Reconstrução.

Os representantes dos negros “tiveram voz poderosa em muitas legislaturas estaduais, chegando a ocupar posições no Congressos dos EUA. A Reconstrução terminou quando os brancos do Sul promulgaram leis que tinham o efeito prático de proibir os cidadãos negros de votar. Os sulistas brancos propagaram o mito de que isso era necessário porque os cidadãos negros eram incapazes de se autogovernar”. A Reconstrução foi contada como “uma época de corrupção política sem paralelos. Sendo a estabilidade restaurada apenas quando os brancos tiveram novamente o poder total” (p. 35)

O historiador W.E.B. Du Bois, na obra Black Reconstruction (Reconstrução negra), mostra, nas palavras De Jason Stanley, como “os brancos do Sul, com o conluio das elites do Norte, puseram fim à era da Reconstrução devido ao medo disseminado entre as classes abastadas de que cidadãos negros recém-emancipados se unissem aos brancos pobres para desenvolverem um movimento trabalhista poderoso a fim de desafiar os interesses do capital. Du Bois mostra como a era da Reconstrução foi um tempo de governança justa, quando os legisladores negros não apenas não governavam por interesse próprio, mas se esforçavam para acomodar os medos de seus concidadãos brancos” (p. 35)

Historiadores brancos “reorganizaram” a história da Reconstrução para beneficiar os brancos. “Eles usavam sua disciplina, não para buscar a verdade, mas para tratar das feridas psíquicas dos americanos brancos, decorrentes da Guerra Civil. (…) Historiadores que apresentam uma falsa narrativa para obter ganhos políticos sob os preciosos ideais da verdade e da objetividade, segundo Du Bois, são culpados pela transformação da história em propaganda(p. 36, negrito nosso).

Bolsonaro, ataca as mulheres como um típico fascista

Durante a campanha eleitoral Bolsonaro era chamado mito por seus apoiadores.

Acredito que a conotação da palavra mito como uma qualidade inerente ao candidato Jair Bolsonaro se deve à ideia desenvolvida por Jason Stanley de que Bolsonaro apresenta as condições, para seus apoiadores, de líder da população brasileira, pelo menos para aqueles que gritavam a palavra mito.

Como Bolsonaro poderia encarnar a ideia de mito se somos um povo multiétnico, o que dificultaria estabelecer claramente o Nós? Branco minoria, mestiço maioria. O Nós fica prejudicado nessa equação. O mesmo raciocínio se verifica também em relação à religião. Assumir como? Como cristão? Existem algumas dificuldades. Não há uma unidade mínima entre as várias igrejas brasileiras. Consideramos muito difícil estabelecer a conotação de mito para Bolsonaro ao analisar a história brasileira.

Outro ponto da política fascista é de que o homem provê a sobrevivência da família e cabe à mulher gestar crianças, criá-las, cuidar da cozinha e da casa e satisfazer os desejos sexuais do macho. Bem… É só voltar um pouco e reler o que Paula Silber falou sobre o papel da mulher em uma sociedade fascista, como o nazismo.

Milhões de mulheres pobres provêm a sobrevivência da família porque o homem abandonou o lar, o que é o mais comum, mas às vezes porque esse morreu. Outros milhões de mulheres são feministas, estando as meninas, atualmente, aumentando esse time. Assim elas, as mulheres, têm clareza de que quem cuida do seu corpo são elas e não os homens. Além do mais, o que é importantíssimo assinalar é o fato de que elas dividem com o homem o sustento da família.

Abaixo tomamos algumas declarações do candidato e agora presidente Jair Bolsonaro, que mostram a sua condição de homem do mundo patriarcal, pensamento ainda presente no Brasil.

Mesmo em nações fascistas, embora o homem seja seu líder, necessariamente ele não xinga e agride as mulheres como fez o candidato e faz o presidente Bolsonaro, que via de regra se manifesta denegrindo e ofendendo moralmente as mulheres brasileiras.

Vejamos alguns exemplos:

Em ataque da tribuna da Câmara Federal, o presidente atingiu a deputada Maria do Rosário, proferindo essas palavras: “Ela não merece (ser estuprada) porque ela é muito feia. Não faz meu gênero. Eu não sou estuprador, mas, se fosse, não iria estuprar porque não merece. Jornal O Globo, em 21 de junho de 2016. (Acesso em 23 de agosto de 2020)

Outra afirmação do caráter machista e de desprezo pelas mulheres do presidente foi, segundo a revista Veja, de 6 de abril de 2018, então no início da campanha eleitoral: “Foram quatro homens, na quinta, dei uma fraquejada e veio uma mulher”. (Negrito nosso, acesso em 25 de agosto de 2020)

Em 18 de fevereiro de 2020, segundo a RBA – Rede Brasil Atual, Bolsonaro ofendeu a jornalista Patrícia Campos Mello, do jornal Folha de São Paulo, nos seguintes termos: “ela (a repórter) queria um furo. Ela queria dar o furo a qualquer preço para mim”.Na mesma mídia, a deputada federal Taliria Petrone (PSOL-RJ) assim se manifestou sobre as ofensas à jornalista Patrícia Campos Mello: “Temos um presidente machista. Quer desqualificar uma profissional com insinuações sexuais, é uma forma clássica de misoginia”. (Acesso em 23 de agosto de 2020)

Em muitos casos, no Brasil, a mulher se manifesta de forma tão machista como o homem. É o que reporta a jornalista Adriana Vasconcelos, em artigo publicado no blog Poder 36, em 23 de agosto de 2020, em que ela aborda a forma como duas mulheres falaram sobre o caso da menina de 10 anos estuprada pelo tio.

A primeira, a jornalista identifica como professora da rede de ensino estadual de São Paulo, que afirma: uma criança de 10 anos que “já tinha vida sexual há 4 anos com esse homem, deve ter sido bem paga. Essa “educadora”, como a jornalista se refere a ela, continua: “crianças se defendem chorando para a mãe, esta menina nunca chorou por que?(6)  [A mãe tinha morrido]. A professora foi demitida.

A segunda mulher anotada pela jornalista foi Sara Geromini (ou Sara Winter) que resolveu colocar nas mídias sociais a identidade e o endereço da menina, o que é terminantemente proibido pela lei em caso de menores. A jornalista conclui que a violência “pode vir justamente de quem menos esperamos que venha, de outras mulheres”.

Esses exemplos demonstram a existência de milhões de casos de homens, que como Bolsonaro, têm uma atitude patriarcal e entendem que a mulher só tem serventia para servir ao homem, às crianças e aos jovens e para cuidar da casa.

                                               Aracaju e Brasília, 15 de setembro de 2020