Entrevista especial com Roberto Romano

Francisco, o papa, parafraseia Francisco, o de Assis, no título de sua mais recente encíclica, Fratelli Tutti, em que recupera a fraternidade como valor central das relações não somente entre os humanos, mas entre os humanos, todas as demais espécies e o planeta. Nesse sentido, o documento é, ao mesmo tempo, o testemunho de um mundo ferido e uma lúcida proposição de caminhos para enfrentarmos os dilemas contemporâneos a partir de uma visão que tem o amor e o cuidado aos mais vulneráveis como pano de fundo.

Roberto Romano, em entrevista por e-mail, comenta as primeiras impressões sobre a nova encíclica do Papa Francisco. Para o filósofo, a posição tomada pelo Papa Francisco é pelo bem da coletividade e, em certo sentido, contrária à postura geopolítica das últimas décadas do século passado. “Ele tudo faz e tudo diz para que os interesses imperiais não se sobreponham ao Bem do gênero humano. Assim, Francisco retoma com brilho profético o papel desempenhado por João XXIII e Paulo VI no século XX, bem longe da postura assumida por João Paulo II, o alinhamento a uma geopolítica que favoreceu apenas a parte mais poderosa e rica do planeta”.

Roberto Romano é professor de Ética e Filosofia na Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. Cursou doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales – EHESS, França. Escreveu, entre outros livros, Igreja contra Estado. Crítica ao populismo católico (São Paulo: Kairós, 1979), Conservadorismo romântico (São Paulo: Ed. UNESP, 1997), Moral e Ciência. A monstruosidade no século XVIII (São Paulo: SENAC, 2002), O desafio do Islã e outros desafios (São Paulo: Perspectiva, 2004) e Os nomes do ódio (São Paulo: Perspectiva, 2009).

Confira a entrevista:

IHU On-Line – Qual é a mensagem central da Encíclica Fratelli Tutti e que reflexões ela propõe para cristãos e não cristãos? Quais são os três pontos que destacaria do texto?

Roberto Romano – Permitam que, para tentar responder, eu evoque o bispo Dupanloup. Em 1865, ao responder aos ataques dos que defendiam a plena abolição do fato religioso na vida pública, ele assim se pronunciou: “Vocês nos falam de progresso, de liberalismo e de civilização como se fôssemos bárbaros e não soubéssemos uma só palavra de tais coisas; mas aqueles vocábulos sublimes desnaturados por vocês, fomos nós que lhes ensinamos, lhes demos o verdadeiro sentido e, melhor ainda, a realidade sincera. Cada uma daquelas palavras teve, apesar de vocês, e ainda conserva e conservará para sempre um sentido perfeitamente cristão; no dia em que tal sentido perecer também perecerá todo progresso real, todo liberalismo sincero, toda civilização verdadeira”. Dupanloup defendia a encíclica Quanta cura, de Pio IX.

No século vinte ressoa no planeta inteiro a palavra de um papa, às vésperas do terror nuclear que poderia reduzir o planeta às cinzas. Em outro polo da tradição eclesiástica, mas sempre mantendo a linha central do ensino católico, João XXIII publica o monumento de civilização intitulado Mãe e Mestra, proclamando direitos humanos e abrindo a Igreja para um mundo alternativo ao lucro assassino e selvagem. Se o escândalo com Pio IX foi gerado pelos vários liberalismos capitalistas, agora o escândalo foi aberto nas veias das finanças que dominam o mundo. A encíclica de Paulo VI, Populorum progressio, foi debochada pelo The Wall Street Journal como “marxismo requentado”.

O Papa Francisco continua o embate de seus antecessores mais lúcidos. Na Laudato Si’ e na Fratelli Tutti ele clarifica pontos essenciais das doutrinas cristãs sobre o convívio humano. Não temos nenhum metro para aquilatar a situação do mundo desde Pio IX até os nossos dias. Está pior? Melhor? Sempre ruim? É tarefa de adivinhação que beira o embuste dizer que há uma lógica de ferro na História, rumo ao melhor e ao pior. A Guerra Fria que levou o mundo à beira do Nada foi sucedida pelo triunfo das forças “democráticas” do chamado Ocidente, com o fim da URSS. A partir daí, o capitalismo aumentou seu potencial letífero com as vestes do neoliberalismo, cujo maior feito é aumentar com desmesura a miséria humana, a destruição do planeta, o retorno do fascismo.

O primeiro ponto que chama a atenção na Fratelli Tutti é a inacreditável lucidez de Francisco. A seguinte frase marca uma fenomenologia rigorosa da situação planetária e resume toda uma filosofia cristã do tempo: “A história dá mostras de estar voltando para trás. São acesos conflitos anacrônicos que julgávamos superados, ressurgem nacionalismos fechados, exasperados, ressentidos e agressivos. Em vários países uma ideia da unidade do povo e da nação, penetrada por diversas ideologias, gera novas formas de egoísmo e perda de sentido social sob as máscaras de uma suposta defesa de interesses nacionais”. A História, retoma Francisco as lições da Patrística sobre o tempo, não é uma linha contínua em ascensão ou queda. Ela segue um roteiro ondulatório que pode jogar a Humanidade em situações novas que repetem pesadelos antigos. A descrição feita pelo Papa capta o vagido dos fascismos vários que ecoam em todo o mapa mundi.

O segundo ponto que traz um sinal de alerta é a caracterização de nossas vidas como tremenda prisão em solitárias. É como se o pontífice traduzisse em termos pastorais a lição de Kafka: somos entes solitários e presos à nossa solidão. “A sociedade cada vez mais globalizada nos faz mais próximos, mas não mais fraternos”. Assim, a política “se torna cada vez mais frágil face aos poderes econômicos transnacionais que aplicam o ‘divide e reinarás’”. Com o domínio do capitalismo transnacional e o fracasso da política perdem sentido vocábulos como “democracia, liberdade, justiça, unidade”. A profecia de Dupanloup se cumpre por inteiro. Solidão das mulheres, avanço das máfias que espalham o medo, solidão dos imigrantes. Solidão dos povos pobres sob o tacão dos ricos. Os primeiros têm sua autoestima rebaixada de propósito pelos segundos, tendo em vista sórdidos interesses econômicos e geopolíticos.

O terceiro ponto, o que vai mais fundo na diagnose de nosso tempo, encontra-se no uso magistral da Parábola do Bom Samaritano. O padre Vieira tem excelentes considerações sobre a narrativa. Ele vai direto ao conceito de propriedade e a interpretação polissêmica que tal princípio acarreta. O mesmo realiza Francisco, companheiro da Ordem que acolheu Vieira e que hoje cumpre um papel de sentinela avançada dos direitos humanos e dos valores cristãos. Os itens 118 e seguintes da encíclica são cruciais no rompimento com a ideologia privatista da propriedade: “O mundo existe para todos”.

Muitos católicos verão em tais passagens do Sumo Pontífice a pior heresia. Ele nega a sacralidade da apropriação privatista da natureza e dos bens culturais. Compreende-se o ódio votado a Francisco por hordas que se afirmam cristãs e católicas mas aceitam o comando de adversários do cristianismo como Bannon e asseclas. E tais católicos se instalam inclusive na mais alta hierarquia eclesiástica.

Com propósito firme, o santo Padre capta na parábola o seu caráter imperativo, nunca opcional. Francisco retroage aos primeiros versículos da Bíblia para recordar Caim e Abel. Ele cita a frase mais relevante das Escrituras quando vista pelo prisma humano, egoísta e assassino. “Acaso sou guardião de meu irmão?” Se não somos responsáveis pelos nossos irmãos, logo aparece um “guardião de todos” que se arroga o direito divino de vida e morte sobre indivíduos e coletivos.

Não por acaso o católico trânsfuga mais notável do século vinte jurídico, Carl Schmitt, dará à sua apologia da ditadura e do poder discricionário do presidente da Alemanha o título polêmico de “O Guardião da Constituição”. Com base em tal poder o Líder nazista e seus cúmplices planejaram e definiram o Holocausto.

Com a ruína da política segue o enfraquecimento do Estado nacional (item 172 da encíclica) devido à insaciável exploração econômica. Daí, pensa Francisco, o urgente reforço de instituições internacionais capazes de impor regras à selva planetária. O Papa, aqui, retoma um tema exaustivamente examinado desde Erasmo de Rotterdam, Grotius, Padre Saint-Pierre e Immanuel Kant: a instauração de um poder mundial capaz de atenuar os malefícios das guerras por interesses definidos na raison d’État. Ele se coloca nitidamente em polo oposto ao de Hobbes, Fichte e Hegel. Para aqueles pensadores “não existe juiz do mundo”, sendo a guerra de todos contra todos impossível de ser erradicada em plano universal.

A posição do Papa é clara: ele tudo faz e tudo diz para que os interesses imperiais não se sobreponham ao Bem do gênero humano. Assim, Francisco retoma com brilho profético o papel desempenhado por João XXIII e Paulo VI no século XX, bem longe da postura assumida por João Paulo II, o alinhamento a uma geopolítica que favoreceu apenas a parte mais poderosa e rica do planeta.

Termino com uma surpresa que certamente será compartilhada por vários analistas. Não é novidade a citação, em encíclicas, de autores leigos. Mas na atual é mais do que estratégica a lembrança do filósofo Gabriel Marcel: “só me comunico realmente comigo na medida em que me comunico com o outro” (Du refus à l’invocation). É notável a citação do autor de Les hommes contre l’Humain (Os homens contra o humano). Marcel integrou o número dos que advertiram contra a “agonia do homem” no desastre das culturas modernas e contemporâneas. Não se trata, pois, de um adereço erudito a mais no documento. A pequena frase de Marcel representa a espinha dorsal da encíclica. A fraternidade só existe na comunicação com o outro, numa troca na qual estou envolvido, empenhado. Comunicar sem que o próprio Ego se comprometa não é ser fraterno: é fazer obra de propaganda, proselitismo, terror contra os demais.

Surpresa maior encontramos na lembrança do Samba da Bênção, muito conhecido dos brasileiros. Eu diria que o ritmo e a melodia da encíclica seguem os versos de Vinicius de Moraes. O Papa cita uma frase do poeta “a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”. Todas as passagens que o Pontífice nos presenteia têm o sabor e o perfume daquela poesia: “é melhor ser alegre que ser triste, a alegria é a melhor coisa que existe, é assim como a luz no coração”. Tal é o alvo perseguido pelas mais elevadas mentes da Humanidade. Basta recordar o Hino à Alegria ideado por Schiller e musicado por Beethoven.

Mas o cristianismo de Francisco não é um código de Poliana, como aliás nenhum cristianismo autêntico: ele capta a tristeza que serve de contraponto à euforia da vida. “Mas para fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza”. Assim é a Fratelli Tutti: o Santo Padre nos mostra a esperança no ser humano, marca de todos os seus pronunciamentos e atos, sobretudo em seu discurso célebre e recente na ONU. Mas não se exime da missão dolorosa que consiste mostrar o quanto nos afogamos num oceano sombrio de indiferença, desprezo pelos nossos irmãos e, consequentemente, por nós mesmos e, como base de toda a desgraça, o desprezo por Deus e pela natureza.

Finalizando, eu diria que Francisco empunha o báculo do bom pastor e nos adverte para princípios antropológicos e naturais estratégicos, se queremos permanecer, como gênero, num planeta habitável e no qual a vida não seja Inferno absoluto. Nós, brasileiros, temos na encíclica muito consolo e incentivo para lutar pela fraternidade, sobretudo quando observamos a massa de ódio que se avoluma sempre mais entre os cidadãos e a sistemática e louca devastação da natureza, comandada por um poder de Estado sob controle dos filhos de Caim.

Outubro de 2020